quarta-feira, 21 de outubro de 2026

CETICISMO E ATEÍSMO: DÚVIDA NÃO É DESCRENÇA

CETICISMO E ATEÍSMO: DÚVIDA NÃO É DESCRENÇA

por Heitor Jorge Lau

            No texto que redigi anteriormente, expliquei o significado de “pessimismo” e “realismo”. Lembrei-me, então, de outros dois termos de que comumente ouço falar: ceticismo e ateísmo. Já me perguntaram, inclusive, se eu era ateu. Vamos, pois, às devidas explicações.

            Ceticismo e ateísmo se confundem porque ambos costumam aparecer juntos na mesma pessoa e porque o senso comum associa "duvidar" a "não acreditar em Deus". Mas as duas palavras respondem a perguntas diferentes. O ceticismo diz respeito a como alguém forma suas convicções, enquanto o ateísmo diz respeito a uma convicção específica, a de que não há deuses.

            A palavra "cético" vem do grego skeptikós, que significa "aquele que examina". Na Antiguidade, filósofos como Pirro e, mais tarde, Sexto Empírico propunham suspender o juízo (a epoché) diante de afirmações que não podem ser sustentadas por razões suficientes. Em sua forma mais radical, isso valia para quase tudo. Na versão moderna, mais comum, o ceticismo virou uma atitude de exigir evidências proporcionais à força da afirmação, aplicada a qualquer assunto: medicina alternativa, horóscopo, notícias, promessas de investimento, teorias da conspiração. Nesse sentido, o cético é alguém que pergunta "como você sabe disso?" antes de concordar.

            "Epoché" é uma palavra grega que significa "suspensão" ou "contenção". Na filosofia cética, ela designa o ato de não aceitar nem rejeitar uma afirmação, deixando o juízo em aberto. Quem pratica a epoché não diz "isso é verdade" nem "isso é falso", mas "por enquanto não tenho razões suficientes para decidir".

            A ideia aparece em Pirro de Élis, filósofo do século IV a.C., e foi sistematizada séculos depois por Sexto Empírico, em obras como os Esboços Pirrônicos. O raciocínio deles partia de uma observação: para quase toda afirmação sobre como as coisas realmente são, é possível encontrar um argumento contrário de força semelhante. Os céticos chamavam isso de equipolência, ou seja, razões que se equilibram como pesos numa balança. Quando as razões a favor e contra se equivalem, qualquer decisão parece arbitrária, e o caminho mais honesto é suspender o juízo.

            Um exemplo cotidiano ajuda: imagine duas testemunhas igualmente confiáveis que contam versões opostas de um acidente. Enquanto não surgir um fato novo, como uma gravação ou uma perícia, a atitude racional é não bater o martelo. Isso é a epoché em pequena escala: não é ignorância nem preguiça, mas uma recusa consciente de concluir além do que as evidências permitem.

            Convém notar que essa suspensão não leva à paralisia nem à afirmação de que nada pode ser conhecido. Os céticos pirrônicos faziam questão de distinguir sua posição da de outros filósofos, os da chamada Academia Cética, que declaravam ser impossível o conhecimento. Para Sexto Empírico, isso já seria uma tese dogmática, só que negativa. O cético de verdade continua investigando, e é por isso que o nome vem de "aquele que examina". Na vida prática, ele segue as aparências, os costumes e as necessidades do dia a dia: o mel lhe parece doce, ele come quando tem fome e respeita as leis da cidade. O que ele evita é afirmar, com certeza metafísica, como as coisas são em si mesmas.

            Havia também um objetivo de fundo. Os pirrônicos observaram que a ansiedade de quem briga para ter certezas, e sofre quando elas são contestadas, costuma desaparecer em quem suspende o juízo. Eles chamavam esse estado de Ataraxia, a tranquilidade do espírito. A suspensão, portanto, era vista não só como uma conclusão intelectual, mas como um caminho para viver com mais serenidade.

            No uso moderno, a ideia sobrevive de forma mais branda. O cético atual não suspende o juízo sobre tudo, mas o faz de modo provisório diante de afirmações que carecem de evidência suficiente, e está disposto a revisá-lo quando surgirem dados novos. A epoché, nesse sentido, é uma pausa antes da conclusão, não uma recusa permanente de concluir.

            O ateísmo, por sua vez, trata de um único tema. Em sentido amplo, é a ausência de crença em divindades, e em sentido mais estrito é a afirmação de que elas não existem. Perceba que o ateu pode chegar a essa posição por vários caminhos, alguns bastante rigorosos. Existem ateus que examinaram argumentos com muito cuidado, e há ateus que simplesmente herdaram a descrença da família ou do meio social, sem jamais terem questionado outras crenças que sustentam, como superstições, teorias da conspiração ou fé cega em alguma ideologia. Ser ateu não torna ninguém automaticamente cético.

            O inverso também vale. Existem pessoas religiosas e céticas ao mesmo tempo, porque aplicam a dúvida metódica à política, à ciência e à imprensa e, ainda assim, mantêm uma crença religiosa que consideram fora do alcance da prova, como aquelas que a tratam como questão de fé e não de evidência. Pensadores como Pascal e Montaigne, cada um à sua maneira, combinaram um olhar muito crítico sobre a capacidade da razão com uma postura religiosa. Além disso, o próprio cético rigoroso costuma desconfiar também do ateísmo dogmático, quando este se apresenta como certeza absoluta, porque a ausência de evidência não é, por si só, prova de ausência.

            Há ainda um terceiro termo que costuma entrar na confusão, o agnosticismo. Foi cunhado por Thomas Huxley no século XIX e se refere ao conhecimento, não à crença: agnóstico é quem entende que não é possível saber se há ou não um deus. Ele é mais próximo do ceticismo do que o ateísmo, mas ainda assim é uma posição específica sobre um tema específico, ao passo que o ceticismo é uma postura bem mais ampla. Aliás, é possível ser ao mesmo tempo ateu e agnóstico, quando se vive sem crer em deuses, mas se admite que não há como provar a inexistência deles.

            Em resumo, o ceticismo é um método, uma disposição de examinar antes de aceitar, e o ateísmo é uma conclusão a respeito de um assunto determinado. Chamar o cético de ateu é parecido com o equívoco do texto anterior, quando se chama o realista de pessimista: toma-se a atitude que examina pelo resultado que alguns, e só alguns, tiram dela.

 

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