terça-feira, 6 de outubro de 2026

UM MUNDO EM DESTRUIÇÃO

TERRA DEVASTADA

por Heitor Jorge Lau

            Há algo profundamente contraditório na maneira como algumas pessoas (os pseudo agricultores) utilizam a terra. Enquanto diversos pequenos agricultores conseguem produzir uma grande diversidade de alimentos em áreas reduzidas, utilizando cada espaço com inteligência e aproveitando diferentes cultivos, ainda existem pessoas (muitas) que devastam hectares para plantar, pasmem, culturas que sequer chegam diretamente à mesa humana.

            A contradição fica ainda maior quando percebemos que, depois de destruir sua própria terra, essas mesmas pessoas precisam comprar verduras e hortaliças de pequenos produtores oriundos de outras regiões, carne no açougue e outros alimentos que poderiam ser produzidos de maneira muito mais racional e diversificada. E quando uma grande enchente acontece, levando solo, árvores, estradas e construções, a resposta deveria ser preservar o que restou, recuperar as áreas degradadas e respeitar as encostas (aliás, as encostas estão cada vez mais devastadas). Em vez disso, ainda vemos a continuidade da devastação, como se a natureza fosse um estoque inesgotável de recursos à disposição do ser humano.

            Não se trata de produzir menos. Trata-se de produzir melhor. De compreender que terra fértil não é simplesmente espaço vazio esperando uma máquina passar. É um patrimônio vivo, construído durante milhares de anos. Destruir hectares para produzir aquilo que pode ser produzido em áreas muito menores, enquanto compram de outros aquilo que deixam de produzir, não é progresso. É desperdício. E continuar fazendo isso depois de tantas tragédias ambientais não é apenas irracional: é inadmissível.

            Que lógica é essa?

            Não é preciso, necessariamente, produzir menos. É preciso aprender a produzir sem transformar a terra em matéria descartável. Solo fértil não é simplesmente um pedaço de chão disponível para ser explorado até perder sua capacidade de sustentar a vida. Quando se destrói hectares para produzir aquilo que poderia ser cultivado em uma fração dessa área, dependendo de terceiros para comprar aquilo que realmente se come, não se trata de eficiência. Estamos diante de desperdício. E insistir nisso depois de tantas tragédias ambientais já não é apenas falta de consciência. É uma escolha.

 

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