TERRA DEVASTADA
por Heitor Jorge Lau
Há algo
profundamente contraditório na maneira como algumas pessoas (os pseudo
agricultores) utilizam a terra. Enquanto diversos pequenos agricultores
conseguem produzir uma grande diversidade de alimentos em áreas reduzidas,
utilizando cada espaço com inteligência e aproveitando diferentes cultivos,
ainda existem pessoas (muitas) que devastam hectares para plantar, pasmem,
culturas que sequer chegam diretamente à mesa humana.
A
contradição fica ainda maior quando percebemos que, depois de destruir sua
própria terra, essas mesmas pessoas precisam comprar verduras e hortaliças de
pequenos produtores oriundos de outras regiões, carne no açougue e outros
alimentos que poderiam ser produzidos de maneira muito mais racional e
diversificada. E quando uma grande enchente acontece, levando solo, árvores,
estradas e construções, a resposta deveria ser preservar o que restou,
recuperar as áreas degradadas e respeitar as encostas (aliás, as encostas estão
cada vez mais devastadas). Em vez disso, ainda vemos a continuidade da
devastação, como se a natureza fosse um estoque inesgotável de recursos à
disposição do ser humano.
Não se
trata de produzir menos. Trata-se de produzir melhor. De compreender que terra
fértil não é simplesmente espaço vazio esperando uma máquina passar. É um
patrimônio vivo, construído durante milhares de anos. Destruir hectares para
produzir aquilo que pode ser produzido em áreas muito menores, enquanto compram
de outros aquilo que deixam de produzir, não é progresso. É desperdício. E
continuar fazendo isso depois de tantas tragédias ambientais não é apenas
irracional: é inadmissível.
Que lógica
é essa?
Não é
preciso, necessariamente, produzir menos. É preciso aprender a produzir sem
transformar a terra em matéria descartável. Solo fértil não é simplesmente um
pedaço de chão disponível para ser explorado até perder sua capacidade de
sustentar a vida. Quando se destrói hectares para produzir aquilo que poderia
ser cultivado em uma fração dessa área, dependendo de terceiros para comprar
aquilo que realmente se come, não se trata de eficiência. Estamos diante de
desperdício. E insistir nisso depois de tantas tragédias ambientais já não é
apenas falta de consciência. É uma escolha.

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