quinta-feira, 30 de abril de 2026

SOBRE A PEDAGOGIA DA INDIFERENÇA, A NORMALIZAÇÃO DO INTOLERÁVEL E O CONFORTO DOS OBEDIENTES

A CUMPLICIDADE DO SILÊNCIO

Por Heitor Jorge Lau

            Existe uma modalidade de crueldade que não sangra, não grita e não deixa marcas visíveis nas mãos de quem a pratica. É uma crueldade discreta, quase elegante na sua passividade, que se instala no espaço entre o que se vê e o que se decide ignorar. Chama-se indiferença — e, ao contrário do que o senso comum costuma sugerir, ela não é ausência de caráter. É, em si mesma, um caráter. Uma posição moral. Uma escolha. A história da humanidade não é feita apenas de tiranos e heróis. É feita, sobretudo, de uma vasta maioria silenciosa que assistiu. Que olhou para o lado. Que preferiu a paz da própria casa à inconveniência de reconhecer o sofrimento alheio como problema seu. As grandes atrocidades raramente teriam acontecido se não fosse pela cumplicidade passiva de multidões que, tecnicamente, não fizeram nada. E é exatamente aí que reside o nó: não fazer nada, diante do que exige ação, é em si uma forma de fazer.

 

"Olhar para o lado não é neutralidade. É escolha. É a decisão consciente ou covarde de não pertencer ao problema — como se pertencer ao mundo não implicasse, inevitavelmente, corresponsabilidade por ele."

 

            A pedagogia da indiferença

            Aprende-se a ser indiferente. Não há ninguém que nasça dominando a arte de passar por um ser humano em desespero sem sentir nada. Esse é um aprendizado lento, gradual, cuidadosamente cultivado por estruturas sociais que recompensam o foco no particular e punem — ou ao menos ignoram — qualquer transbordamento de empatia além das fronteiras do próprio círculo afetivo. A indiferença é ensinada em casa, quando se diz à criança que "problema dos outros não é problema nosso". É ensinada na escola, quando o currículo trata de datas e fórmulas, mas não de consciência coletiva. É ensinada nas ruas, quando o cotidiano normaliza a miséria como cenário e não como escândalo. Há uma pedagogia ativa na construção do indiferente. Ela opera através da fragmentação da realidade em compartimentos estanques, onde cada indivíduo é responsável apenas pelo que toca diretamente a sua sobrevivência imediata. Essa fragmentação não é acidental: é funcional a determinadas ordens econômicas e políticas que dependem da não-solidariedade para se sustentar. Uma sociedade que se reconhece como tal — que compreende o sofrimento do outro como extensão do próprio sofrimento — é uma sociedade potencialmente ingovernável para quem se beneficia da desigualdade. Daí a conveniência histórica de educar para o não-ver. Mas há algo ainda mais perturbador do que a indiferença ensinada: a indiferença orgulhosa. Aquela que se apresenta como virtude. Que se chama de "pragmatismo", "objetividade", "foco no que é possível controlar". Que se veste com a linguagem da saúde mental — "preciso preservar minha energia", "não posso carregar o peso do mundo" — para transformar a recusa à solidariedade em cuidado consigo mesmo. É legítimo cuidar de si. É ilegítimo usar o cuidado de si como eufemismo para a recusa de encarar a realidade alheia.

 

            A normalização do intolerável

            Existe um fenômeno perturbador na psicologia coletiva das sociedades: a capacidade de se acostumar. O que ontem causava horror, hoje causa incômodo. O que hoje causa incômodo, amanhã causa enfado. E o que depois de amanhã deixa de causar qualquer coisa passa a integrar o fundo de tela da realidade — presente, mas invisível, como a umidade do ar. É assim que o intolerável se torna tolerável, e o tolerável se torna norma, e a norma se torna invisível, e a invisibilidade se torna impunidade. A fome que mata crianças em regiões específicas do planeta existe há décadas, séculos. A violência contra corpos considerados descartáveis pela ordem vigente tem história longa. A destruição sistemática de ecossistemas inteiros é narrada em tempo real, com dados, imagens, testemunhos — e, ainda assim, a resposta coletiva oscila entre a comoção momentânea e o retorno acelerado à rotina. Não porque as pessoas sejam monstros. Mas porque o sistema de processamento emocional e moral das sociedades foi calibrado para absorver o choque e seguir em frente. "A normalização não acontece de uma vez. Ela é um processo lento, feito de pequenas concessões diárias ao absurdo, até que o absurdo passe a parecer razoável e questionar o absurdo passe a parecer ingênuo." Há um mecanismo psíquico que os pesquisadores chamam de "fadiga de compaixão" — a exaustão emocional diante de sofrimento repetido e contínuo, que leva à dessensibilização gradual. É um fenômeno real, documentado, compreensível. Mas o diagnóstico não pode ser confundido com absolvição. Porque entre a fadiga genuína de quem está na linha de frente do cuidado e a fadiga performática de quem nunca chegou a se engajar existe uma diferença moral enorme. A maioria dos que alegam estar sobrecarregados pelas notícias do mundo nunca saiu do sofá por causa delas. A normalização do intolerável não é uma falha individual: é uma construção social que exige manutenção ativa. Exige que as instituições minimizem, que os meios de comunicação saturem e dispersem, que a linguagem domestique o horror — transformando "genocídio" em "conflito", "tortura" em "interrogatório avançado", "desaparecimento forçado" em "situação não esclarecida". Quando a linguagem abdica da precisão moral, o pensamento a segue. E quando o pensamento perde a capacidade de nomear o mal com clareza, perde também a capacidade de o combater.

 

            O conforto dos obedientes

            Há um tipo de pessoa que prospera nas ordens injustas: aquela que encontrou seu lugar dentro delas e não tem interesse em perguntar a que custo. Não é necessariamente má — frequentemente é gentil, generosa com os seus, trabalhadora, dedicada à família. Cumpre as regras, respeita a hierarquia, não causa problemas. E é exatamente esse perfil que torna os sistemas de opressão funcionais: não são os sádicos que os sustentam no dia a dia, mas os obedientes confortáveis. A obediência confortável não questiona de onde vem o bem-estar que usufrui. Não pergunta quais corpos foram necessários para que determinada estrutura de privilégio se mantivesse intacta. Não investiga a cadeia de causas e consequências que conecta o próprio conforto ao desconforto de outros. Prefere a narrativa da meritocracia — que individualiza o sucesso e individualiza o fracasso — porque essa narrativa dispensa qualquer responsabilidade estrutural. Se cada um está onde merece estar, não há nada a questionar no sistema. Hannah Arendt, ao analisar o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém, cunhou a expressão que ainda hoje constrange os bem-intencionados: a "banalidade do mal". A ideia de que as maiores atrocidades da história não foram cometidas por demônios, mas por burocratas, por funcionários, por pessoas que simplesmente faziam o que lhes era solicitado dentro de um sistema que haviam decidido não examinar. Eichmann não odiava os judeus com ferocidade particular. Era, nas palavras de Arendt, incapaz de pensar — de exercer o julgamento moral independente que permitiria reconhecer a dimensão do que estava fazendo. A lição continua válida e continua ignorada. A incapacidade de pensar — de interromper a execução automática do papel que foi designado para desempenhar e perguntar se esse papel faz sentido dentro de um quadro moral mais amplo — é um risco permanente. E não se trata de uma incapacidade intelectual: é uma incapacidade que se escolhe, conscientemente ou não, porque pensar tem custo. Questionar tem custo. Reconhecer a própria cumplicidade tem um custo que o conforto não está disposto a pagar.

 

"O malfeitor passivo não precisa de intenção para fazer o mal. Basta que decida, dia após dia, que a manutenção da própria tranquilidade vale mais do que o exercício do próprio julgamento."

 

            Existe uma distinção que o discurso moral contemporâneo frequentemente obscurece: a diferença entre ser responsável por algo e ter causado algo. É possível ser responsável por uma situação sem tê-la causado diretamente. A responsabilidade moral não exige autoria do dano — exige apenas que se esteja em posição de agir diante dele e que se escolha não agir. A terceirização da responsabilidade — "não fui eu que fiz isso", "não posso resolver todos os problemas do mundo", "existem instituições para isso" — é uma das retóricas mais eficientes para manter a consciência tranquila sem exigir nenhuma mudança real de comportamento.

 

            O malfeitor sem máscara de maldade

            O conceito de "malfeitor passivo" merece ser desenvolvido com cuidado, porque ele provoca uma resistência compreensível: ninguém gosta de ser chamado de malfeitor. A palavra carrega a imagem do antagonista, do intencionalmente cruel, do que age para prejudicar. E a maioria dos indiferentes não age para prejudicar ninguém — simplesmente não age. É justamente esse o ponto. Quando um sistema injusto existe e se perpetua, ele não precisa de apoiadores ativos para sobreviver. Precisa apenas de não-resistência. De um número suficiente de pessoas que, por omissão, por comodidade, por medo ou por cálculo, decidem não interferir. Cada vez que alguém silencia diante de uma injustiça que poderia nomear, cada vez que alguém desvia o olhar de um sofrimento que poderia testemunhar, cada vez que alguém opta pela paz doméstica em detrimento da inconveniência da denúncia, esse alguém está contribuindo — ativamente, ainda que passivamente — para a continuidade do que existe. Isso não é uma acusação abstrata. É uma descrição de mecânica social. Os sistemas que produzem sofrimento em escala não se sustentam apenas pela força bruta dos que os impõem — sustentam-se pela inércia dos que não os questionam. E a inércia, ao contrário do que parece, não é neutra. É funcional ao que existe. Quem não pertence à solução pertence, inevitavelmente, ao problema — não por mal, mas por ausência. Reconhecer isso é doloroso porque implica abandonar a narrativa confortável de que a inação é inocente. Que não fazer nada não é fazer nada. Que o silêncio não fala. Mas o silêncio fala — e o que diz é: aceito. O que diz é: não me opõe. O que diz é: pode continuar.

 

            O que resta quando a indiferença se vai

            Não se trata de exigir heroísmo cotidiano de cada ser humano. Não se trata de condenar quem tem medo, quem está exausto, quem vive em contextos que tornam o engajamento genuinamente perigoso. Há situações em que o simples fato de sobreviver já representa uma forma de resistência. Mas entre a sobrevivência numa condição de vulnerabilidade real e a indiferença confortável de quem dispõe de recursos, voz, mobilidade e segurança — existe um abismo moral que não pode ser ignorado. A questão não é o que cada um pode fazer em abstrato, num mundo idealizado. A questão é o que cada um se recusa a fazer no mundo concreto em que vive, com os recursos de que dispõe e as possibilidades que tem. E quando a resposta honesta a essa pergunta é "nada, porque nada me custa suficientemente para que eu me importe", então algo essencial foi perdido — não apenas em termos de coesão social ou eficácia política, mas em termos de humanidade no sentido mais literal da palavra.

            A indiferença não é um estado neutro da alma. É uma decisão que se toma e se renova todos os dias. É possível tomá-la de outra forma. Não exige perfeição, não exige onipotência, não exige o sacrifício de tudo. Exige apenas a disposição de reconhecer que o sofrimento do outro tem peso real, que esse peso é também responsabilidade de quem poderia aliviar e decide não o fazer, e que nenhuma prosperidade pessoal construída sobre a inação diante da injustiça merece ser chamada de conquista. O que assola a humanidade não são apenas os seus algozes. São, talvez em medida ainda maior, os seus espectadores. Aqueles que viram, souberam, tiveram condições de agir — e escolheram o silêncio. Esse silêncio tem um nome. Tem uma história. E tem consequências que se acumulam com a mesma implacabilidade das catástrofes que não foram impedidas porque ninguém achou que as impedir era, afinal, assunto seu. A indiferença não é o vazio. É a escolha de deixar o vazio onde poderia haver presença.


 

PODER, INTENÇÃO E ILUSÃO NO BRASIL CONTEMPORÂNEO

A GRAÇA DOS ILUMINADOS

PODER, INTENÇÃO E ILUSÃO NO BRASIL CONTEMPORÂNEO

Por Heitor Jorge Lau

            Existe um tipo de certeza que dispensa verificação. Ela não nasce do acúmulo paciente de evidências, não se submete ao escrutínio do tempo nem ao teste das consequências. Nasce, ao contrário, de uma convicção interior profunda — quase sagrada — de que se enxerga o que os outros não conseguem enxergar, de que se sente o que os outros não conseguem sentir, de que se pertence ao grupo seleto dos que compreenderam o que está errado com o mundo e sabem, com precisão quase cirúrgica, como corrigi-lo. No Brasil, essa certeza tem endereço, tem diploma, tem microfone e, frequentemente, tem cargo público. Não se trata de uma patologia individual. É um fenômeno coletivo, cultural, alimentado por décadas de tradição intelectual que confundiu erudição com sabedoria, retórica com competência e boa intenção com resultado. O país construiu, ao longo de sua história republicana, uma classe de iluminados — pensadores, acadêmicos, jornalistas, ativistas e políticos — que partilham uma visão de mundo caracterizada por duas convicções centrais: a de que os problemas sociais têm solução definitiva caso as políticas certas sejam aplicadas, e a de que quem se opõe a essas políticas o faz por ignorância, egoísmo ou má-fé. Dessas duas premissas derivam consequências enormes — não apenas para o debate público, mas para a vida concreta de milhões de brasileiros que habitam a ponta mais frágil das políticas imaginadas por quem jamais precisou suportar suas consequências.

            Para compreender o Brasil de hoje, é necessário compreender essa classe e o modo como opera. Não com o intuito de demonizá-la — a demonização é exatamente o vício que se pretende examinar —, mas com o intuito de entender por que um país de recursos imensos, população criativa e resiliente, biodiversidade única e de potencial agrícola incomparável, insiste em produzir os mesmos ciclos de promessa, intervenção, fracasso e nova promessa, sem que nenhum fracasso anterior pareça ensinar nada definitivo a quem propõe a próxima grande solução. A história econômica brasileira é, sob certa perspectiva, uma história de planos. O país que inventou o Plano Cruzado, o Plano Bresser, o Plano Verão, o Plano Collor, o Plano Real — e que antes desses havia ensaiado décadas de industrialização por substituição de importações, nacionalismo econômico, e estatização de setores estratégicos — é um país que nunca teve escassez de arquitetos do futuro. O que sempre escasseou foi a disposição de perguntar, depois de cada plano, o que realmente funcionou, para quem funcionou, a que custo e em comparação com qual alternativa. Essa pergunta — simples, técnica, desapaixonada — é exatamente a que a cultura dos iluminados mais resiste a fazer, porque ela desloca o foco das intenções para os resultados, e é nas intenções que a grandeza moral do projeto reside.

            O Plano Cruzado é um caso paradigmático. Em 1986, com inflação galopante e uma população exausta de ver o poder de compra corroído a cada mês, o governo Sarney lançou um pacote de estabilização que congelou preços e salários e trocou a moeda. A população abraçou o plano com entusiasmo genuíno. Fiscais voluntários — os chamados "fiscais do Sarney" — saíam às ruas para denunciar comerciantes que tentassem reajustar preços. A adesão popular era a prova viva de que a nação havia entendido a lógica da solução. Mas a lógica econômica não negociou com o entusiasmo popular: o congelamento reprimiu os preços artificialmente, gerou escassez, distorceu a produção e, quando o plano foi afrouxado depois das eleições de novembro, a inflação voltou com força redobrada. A hiperinflação dos anos seguintes foi, em parte, consequência dos desequilíbrios acumulados durante o congelamento. Mas os arquitetos do plano não foram responsabilizados pela inflação de 1987, 1988 e 1989. A narrativa disponível era outra: o plano havia sido sabotado por especuladores, por forças conservadoras, por quem não queria que o povo vivesse melhor. A boa intenção estava intacta. E com ela, a autoridade moral para propor o próximo plano.

            Esse padrão — boa intenção, intervenção, fracasso, culpabilização de terceiros, nova intervenção — não é exclusivo da política econômica. Atravessa a educação, a saúde, a segurança pública, a habitação, o desenvolvimento regional. Em cada área, há uma elite técnica ou intelectual que detém o diagnóstico correto, propõe a solução adequada e interpreta qualquer resistência como prova de que os resistentes não entendem a urgência do problema ou estão comprometidos com os interesses que o perpetuam.

            Na educação brasileira, a história das últimas décadas é a história de um sistema que, a despeito dos recursos crescentes alocados, planos nacionais elaborados, das reformas curriculares sucessivas, continuaram produzindo gerações de estudantes sem proficiência básica em leitura e matemática. O Brasil investiu e continua investindo proporções significativas do PIB em educação — valores comparáveis aos de países com desempenho muito superior. O que difere não é o volume de recursos, mas o modelo intelectual que orienta sua alocação. Durante décadas, o debate pedagógico brasileiro foi dominado por uma visão que entendia o problema educacional como fundamentalmente político e social — e que via com desconfiança, quando não com hostilidade declarada, as evidências que apontavam para a eficácia de métodos estruturados de ensino, avaliações padronizadas, e foco em resultados mensuráveis. Pedagogias que privilegiavam a "consciência crítica" em detrimento da alfabetização funcional foram implementadas com a convicção dos iluminados, e os resultados — visíveis nos rankings internacionais, nas avaliações nacionais, na trajetória truncada de milhões de jovens pobres que chegam ao ensino médio sem saber ler adequadamente — foram sistematicamente atribuídos a outros fatores: à desigualdade social, ao preconceito, ao subfinanciamento, à herança colonial. Nunca ao modelo pedagógico em si.

            O caso da segurança pública é ainda mais revelador da tensão entre intenção e resultado. O Brasil acumula, há décadas, taxas de homicídio que seriam consideradas emergência nacional em qualquer outro país de renda média. As vítimas preferenciais desse massacre são jovens negros e pobres das periferias urbanas — exatamente a população que o discurso dos iluminados pretende proteger. Mas a resposta intelectual e política dominante ao problema da violência nunca foi primariamente sobre punição efetiva, sobre investigação policial competente, sobre aprisionamento dos culpados. Foi, preferencialmente, sobre as "causas profundas" — a desigualdade, a exclusão, a falta de oportunidades. Não que essas causas sejam irrelevantes; são reais e importantes. Mas enquanto as políticas se concentravam nas causas profundas — que levam décadas para produzir efeitos —, os jovens continuavam morrendo nas periferias, hoje, esta semana, neste bairro. E os Estados que ensaiaram políticas mais diretamente focadas em punição e repressão qualificada — como Minas Gerais em certos períodos, como São Paulo a partir dos anos 2000 — produziram quedas expressivas nas taxas de homicídio, contradizendo a narrativa de que punição não funciona. A evidência foi recebida com desconforto pelo establishment intelectual, que encontrou sempre uma explicação alternativa para o sucesso: mudança demográfica, fatores econômicos, coincidência estatística. Nunca a política de segurança em si.

            Há nesse comportamento algo que vai além da má-fé ou da ignorância simples. Trata-se de um mecanismo de proteção da visão. Quando uma visão de mundo está suficientemente entrelaçada com a identidade de quem a carrega — com a percepção que tem de si mesmo como pessoa de bem, comprometida com a justiça, do lado certo da história —, qualquer evidência contrária não é processada como informação, mas como ameaça. O cérebro não pergunta "será que estou errado?". Pergunta "o que está errado com essa evidência?". E as respostas disponíveis são sempre abundantes: a pesquisa foi financiada por interesses escusos, o pesquisador é de direita, a metodologia tem vieses, o contexto brasileiro é diferente. O escudo intelectual é praticamente impenetrável, não por falta de inteligência dos que o erguem, mas por excesso de investimento identitário na visão que ele protege.

            O Brasil tem uma relação particularmente intensa com essa dinâmica por razões históricas específicas. A herança do coronelismo e da exclusão política das maiorias criou, de forma legítima, uma tradição de intelectuais engajados na transformação social. Figuras como Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Paulo Freire representaram, cada um à sua maneira, o compromisso da inteligência com a superação das desigualdades brutais que marcam a formação do país. Esse legado é real e não deve ser descartado. Mas legados também produzem rigidez. A tradição que nasceu do engajamento genuíno com a injustiça se institucionalizou — nas universidades, nos sindicatos de professores, nos movimentos sociais, em setores da imprensa, em partidos políticos — e, ao se institucionalizar, desenvolveu os vícios próprios de toda instituição: a resistência à autocrítica, a tendência a tratar o questionamento interno como traição, a confusão entre defender a causa e defender a organização que diz representá-la.

            O resultado é que o debate público brasileiro raramente consegue fazer a pergunta mais importante: isso funciona? Não "isso tem boa intenção?" — que é a pergunta que os iluminados preferem, porque a resposta é sempre favorável a eles. Não "isso está do lado certo da história?" — que é ainda mais imune à verificação, porque a história é longa e sempre haverá um futuro no qual reivindicar a validação. Mas "isso, concretamente, melhora a vida das pessoas que diz querer ajudar?". Essa pergunta exige dados, exige comparações, exige a disposição de ouvir evidências desconfortáveis, exige — acima de tudo — a coragem de considerar que uma política bem-intencionada pode ser mal-concebida.

            O assistencialismo brasileiro oferece um exemplo particularmente rico dessa tensão. O Bolsa Família — depois renomeado Auxílio Brasil e depois novamente Bolsa Família — é um programa de transferência de renda com condicionalidades que produziu resultados mensuráveis na redução da pobreza extrema e foi amplamente reconhecido internacionalmente como política pública eficaz. Mas ao redor desse núcleo efetivo construiu-se, ao longo dos anos, toda uma cultura política que confundiu o programa com o partido que o criou, que transformou a dependência do Estado em virtude cívica, que resistiu a qualquer discussão sobre mecanismos de saída da dependência como se a discussão em si fosse uma agressão aos pobres. A distinção entre "apoiar uma rede de proteção social" e "apoiar a perpetuação de uma classe dependente do Estado" — distinção que qualquer política social honesta precisa enfrentar — foi sistematicamente evitada, porque enfrentá-la implicaria questionar não apenas a política, mas a identidade dos que a defendem.

            O mesmo ocorre com o debate sobre as cotas raciais. Há um debate legítimo e necessário sobre como corrigir as desigualdades que a história de escravidão e exclusão produziu na sociedade brasileira. Esse debate pode e deve incluir políticas de ação afirmativa. Mas quando qualquer questionamento sobre os mecanismos específicos, sobre os critérios de classificação racial, sobre os efeitos de longo prazo, sobre alternativas baseadas em renda — quando qualquer um desses questionamentos é automaticamente interpretado como racismo disfarçado, o debate deixa de ser um exercício coletivo de busca pela melhor política e se torna um ritual de afirmação identitária. E rituais não produzem conhecimento. Produzem pertencimento.

            O pertencimento é, no fundo, o que a visão dos iluminados oferece com mais eficiência. Em um país marcado por profundas fraturas sociais, por incerteza econômica crônica, por instituições frágeis, pertencer a um grupo que tem as respostas certas, que está do lado certo, que luta pelo bem — isso tem um valor psicológico imenso. É uma oferta poderosa. E é exatamente por isso que a lógica dos resultados empiricamente verificados tem tanta dificuldade de competir com ela. Porque verificar resultados é trabalhoso, técnico, muitas vezes decepcionante e solitário. Pertencer ao grupo dos que sabem o que precisa ser feito é imediato, gratificante e coletivo.

            A vaidade intelectual é o combustível dessa máquina — mas vaidade no sentido mais profundo, não no sentido superficial de quem se olha no espelho. É a vaidade de quem precisa acreditar que sua vida tem um sentido mais alto, de que o sofrimento que observa ao redor não é apenas resultado de escolhas ruins, de limitações estruturais sem culpado definido, de trade-offs inevitáveis entre valores que todos compartilham, mas que não podem ser todos maximizados simultaneamente. A visão dos iluminados oferece a narrativa de que há culpados identificáveis, de que a remoção desses culpados ou a implementação das políticas certas produziria um mundo radicalmente melhor, e de que quem se opõe a isso é, de alguma forma, cúmplice do sofrimento alheio. Essa narrativa é moralmente confortável para quem a adota. E o conforto moral, uma vez experimentado, é difícil de abandonar voluntariamente.

            O Brasil paga um preço alto por esse conforto. O preço é a impossibilidade de aprender com os próprios erros — porque os erros nunca são dos que tiveram as boas intenções, mas sempre dos sabotadores externos. O preço é a impossibilidade de debater políticas públicas com a seriedade técnica que os problemas exigem — porque qualquer discordância é rapidamente transformada em questão moral e, portanto, em acusação. O preço é a impossibilidade de construir o tipo de consenso pragmático, baseado em evidências, que produziu as transformações mais duradouras nas democracias que funcionam — porque o consenso exige que ninguém detenha o monopólio da sabedoria, e isso é exatamente o que a visão dos iluminados não consegue conceder.

            O caminho alternativo não é simples, e seria ingênuo apresentá-lo como tal. Não se trata de substituir uma ideologia por outra, de trocar os iluminados de esquerda por iluminados de direita — que existem igualmente, com seus próprios dogmas, suas próprias certezas, sua própria resistência à evidência contrária. Trata-se, fundamentalmente, de cultivar uma disposição diferente diante do desconhecido — a disposição de admitir que problemas sociais complexos raramente têm soluções simples, que políticas bem-intencionadas podem produzir danos reais, que a verificação empírica honesta é mais valiosa do que a coerência ideológica, e que o respeito genuíno pelas pessoas que se pretende ajudar começa por tratá-las como agentes de suas próprias vidas, não como objetos passivos à espera da intervenção iluminada.

            O Brasil tem todos os recursos para ser um país muito diferente do que é. Tem terra, tem água, tem sol, tem uma população jovem e criativa, tem diversidade cultural que é fonte de inovação, tem uma democracia que, apesar de todos os seus defeitos, sobreviveu a tentações autoritárias repetidas. O que falta não é recurso. O que falta é a humildade coletiva de perguntar, diante de cada grande ideia salvadora: mas funciona? E de suportar a resposta, qualquer que seja ela, sem transformá-la em questão de fé.

            Enquanto essa humildade não for cultivada — nas universidades, nas redações, nos partidos, nas organizações da sociedade civil, e em cada cidadão que prefere o conforto da certeza ao desconforto da dúvida produtiva —, o Brasil continuará sendo um país de planos magníficos e resultados modestos, governado por gerações sucessivas de iluminados convencidos de que desta vez, com as intenções certas e as políticas certas, o mundo novo finalmente chegará. E a conta, como sempre, será paga pelos que nunca foram consultados sobre se queriam participar desse experimento.