sábado, 10 de outubro de 2026

POR QUE ACREDITAMOS EM COISAS ESTRANHAS?

POR QUE ACREDITAMOS EM COISAS ESTRANHAS?

por Heitor Jorge Lau

            Conheço quem deixe o registro da água meio aberto "para poupar água". Conheço quem coloque garrafas PET no medidor de energia elétrica "para economizar luz". Já vi garrafas com água espalhadas pelo pátio, e nem perguntei por quê. E conheço quem lave o cabelo o mínimo possível porque "estraga os fios". Todas essas pessoas têm algo em comum: acreditam de verdade no que fazem.

            A lista é longa. Tem gente que desliga a geladeira à noite para gastar menos, enquanto o motor trabalha mais para esfriar tudo de novo. Tem quem passe pasta de dente na queimadura, pó de café na ferida ou coloque uma faca embaixo do travesseiro. Tem quem jure que manga com leite faz mal e que deixar o celular carregando a noite toda estraga a bateria (o que valia para aparelhos antigos, não para os de hoje).

            Por que isso pega? Quase nunca é falta de inteligência. É uma lógica intuitiva incompleta. Se passa menos água pelo registro, gasta-se menos, parece óbvio. Só que o hidrômetro mede volume: para encher o mesmo balde, a conta será a mesma, mais devagar ou mais depressa. A garrafa no medidor também ilude, porque ele apenas mede a corrente que passa pelos fios, e nenhuma garrafa muda isso.

            Há ainda a prova que parece prova. A pessoa pôs a garrafa, a conta veio mais baixa e pronto, funcionou. Ela não considera o clima, a viagem da família, o chuveiro desligado. E se a conta sobe, a culpa é de outra coisa. Quando dá certo, o mérito é da crença; quando dá errado, nunca é dela. Muitas dessas ideias também carregam um grão de verdade. Xampu em excesso pode ressecar o cabelo, e daí a crença exagera até "lavar estraga". É esse pedaço de verdade que a torna tão difícil de derrubar.

            E o mais curioso: se alguém que entende do assunto explica o contrário, a pessoa muitas vezes nem ouve. A crença deixou de ser opinião e virou identidade. Ela é "aquela que economiza", "aquele que entende de cabelo". Admitir o erro é admitir que passou anos enganada, e ninguém gosta disso. Além do mais, o "eu vi com meus olhos" pesa mais do que qualquer estudo. E o especialista, às vezes, fala de cima para baixo, com arrogância e jargão, o que faz a pessoa defender o território em vez de pensar no argumento. Acreditar na bobagem não custa nada. Rever a crença custa reconhecer o erro e recomeçar.

            Mas antes que alguém ria dos outros, vale a pergunta: e as minhas crenças? Quem nunca colocou garrafa em medidor também carrega as suas, do seu jeito. Aquela certeza que nunca testou, aquela verdade herdada de alguém confiável, aquela convicção da qual não abre mão nem diante de bons argumentos... e isso vale para crenças de todo tipo, das domésticas às ideológicas. As nossas sempre nos parecem razoáveis, por definição.

            No fim, o que separa quem muda de ideia de quem não muda não é a inteligência. É a disposição de testar e de aceitar ser corrigido sem se sentir humilhado ou desmerecido.

 

A CURIOSIDADE DA CRIANÇA DE HOJE, É O PENSAMENTO CRÍTICO DO ADULTO DE AMANHÃ.

A CURIOSIDADE DA CRIANÇA DE HOJE,

É O PENSAMENTO CRÍTICO DO ADULTO DE AMANHÃ.

por Heitor Jorge Lau

            Há iniciativas educacionais que merecem ser observadas para além dos resultados imediatos que apresentam, pois seus maiores efeitos não aparecem necessariamente nas avaliações escolares, nos certificados recebidos ou nos números divulgados pelas instituições. Seus frutos se manifestam silenciosamente, ao longo dos anos, na maneira como uma criança aprende a observar o mundo, formular perguntas, lidar com as próprias dúvidas e construir explicações para aquilo que ainda não compreende. A Feira de Ciências — Inovação e Sustentabilidade da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), ao selecionar 120 trabalhos desenvolvidos por estudantes de diferentes etapas da educação, representa uma oportunidade de refletir sobre a importância dessas experiências para a formação intelectual e humana das novas gerações.

            Quando uma criança começa a investigar um fenômeno, seja ele relacionado à natureza, à tecnologia ou aos desafios da vida cotidiana, alguma coisa importante acontece em sua maneira de pensar. O mundo deixa de ser apenas um conjunto de coisas prontas, cujos significados são apresentados pelos adultos, e passa a se transformar em um território de descobertas. Uma planta que cresce em determinadas condições, a água que se modifica conforme a temperatura, o comportamento de pequenos animais ou o funcionamento de um objeto comum podem despertar perguntas que conduzem a novas observações. Nesse movimento, a criança começa a compreender que conhecer não significa apenas receber informações, mas também investigar, comparar, experimentar e procurar explicações consistentes para aquilo que desperta sua curiosidade.

            Esse processo guarda uma analogia interessante com o próprio desenvolvimento infantil. Assim como o corpo cresce por meio de transformações sucessivas, a mente também amplia suas capacidades à medida que encontra experiências que a desafiam. Uma criança que recebe respostas prontas para todas as perguntas pode acumular informações sem necessariamente aprender a examiná-las. Em contrapartida, aquela que é estimulada a investigar desenvolve uma relação mais ativa com o conhecimento. Aprende que uma dúvida não representa uma deficiência, mas o ponto de partida de uma descoberta... que uma hipótese pode ser modificada diante de novas evidências... e que reconhecer um erro constitui uma oportunidade de aprendizagem, não um motivo para constrangimento.

            É exatamente nessa passagem entre a curiosidade espontânea e a investigação organizada que iniciativas como as feiras de ciências adquirem um valor extraordinário. Ao transformar uma pergunta em um projeto, o estudante precisa organizar ideias, estabelecer objetivos, selecionar materiais, observar resultados e encontrar uma maneira de comunicar aquilo que descobriu. Mesmo quando o trabalho é simples, essas etapas mobilizam capacidades que ultrapassam os limites de uma disciplina escolar. A criança exercita a atenção, a memória, o raciocínio lógico, a criatividade e a persistência, enquanto aprende a estabelecer relações entre diferentes informações. Mais do que reproduzir um conteúdo apresentado em sala de aula, ela começa a experimentar o significado de produzir conhecimento.

            Existe ainda uma dimensão particularmente relevante nessa experiência: a necessidade de explicar o próprio trabalho a outras pessoas. Quando um estudante apresenta sua pesquisa diante de colegas, professores, avaliadores ou visitantes, precisa organizar o pensamento para torná-lo compreensível. É nesse momento que a aprendizagem individual encontra a dimensão social do conhecimento. Ao ouvir perguntas, receber observações e confrontar interpretações diferentes, a criança descobre que suas ideias podem ser examinadas, aperfeiçoadas e enriquecidas pelo diálogo. Desenvolve, assim, não apenas a capacidade de argumentar, mas também a disposição para escutar, reconhecer limites e considerar perspectivas que não havia percebido anteriormente.

            Essas experiências são especialmente importantes durante a pré-adolescência, período em que o jovem amplia progressivamente sua capacidade de abstração, começa a questionar explicações antes aceitas sem resistência e procura compreender melhor o próprio lugar no mundo. O pensamento crítico não surge automaticamente com a idade, assim como a maturidade intelectual não decorre exclusivamente da quantidade de informações acumuladas. Ambos dependem, em boa medida, das oportunidades de exercitar o raciocínio, enfrentar problemas, sustentar argumentos e rever conclusões. Uma escola que abre espaço para a investigação oferece ao estudante condições para experimentar essas capacidades em desenvolvimento, respeitando seu ritmo e incentivando sua autonomia.

            Há também uma contribuição importante para a formação emocional. Desenvolver um projeto exige lidar com dificuldades, resultados inesperados, limitações de materiais e momentos em que as coisas não funcionam como foram planejadas. A criança aprende, na prática, que nem todo esforço produz imediatamente o resultado esperado e que a persistência precisa caminhar junto com a capacidade de modificar estratégias. Essa aprendizagem fortalece a confiança baseada na experiência, diferente daquela sustentada apenas por elogios. O estudante passa a reconhecer que é capaz de enfrentar desafios, procurar alternativas e continuar aprendendo mesmo quando o caminho se mostra mais difícil do que imaginava.

            No atual modelo de sociedade, marcada pela circulação acelerada de informações, essa formação assume uma importância ainda maior. Crianças e adolescentes entram em contato diariamente com afirmações, imagens, vídeos e explicações que disputam sua atenção, nem sempre acompanhados de evidências confiáveis. Aprender a pensar criticamente significa desenvolver a capacidade de perguntar de onde vem uma informação, quais elementos sustentam determinada afirmação, se existem explicações alternativas e quais interesses podem estar envolvidos em sua divulgação. Uma feira de ciências, evidentemente, não resolve sozinha os desafios da desinformação, mas contribui para construir uma disposição intelectual indispensável: a de não confundir uma afirmação convincente com uma afirmação comprovada.

            A sustentabilidade, presente no nome da iniciativa da Unisc, acrescenta outra dimensão a essa reflexão. Investigar questões ambientais pode ajudar o estudante a compreender que os fenômenos naturais não existem isoladamente e que as ações humanas produzem consequências que ultrapassam o momento e o lugar em que ocorrem. Ao estudar o solo, a água, a vegetação, os resíduos ou as relações entre os seres vivos, a criança encontra oportunidades de relacionar conhecimento científico e responsabilidade coletiva. A natureza deixa de ser apenas um cenário observado à distância e passa a ser compreendida como um sistema do qual fazemos parte, cuja preservação depende de escolhas fundamentadas e de uma percepção mais ampla das relações entre sociedade e ambiente.

            Naturalmente, não se deve esperar que toda criança participante de uma feira científica se transforme em pesquisadora ou cientista. O valor dessas experiências não está em antecipar uma profissão, mas em ampliar as possibilidades de desenvolvimento de cada estudante. Mesmo aquele que seguirá caminhos inteiramente diferentes poderá levar consigo a capacidade de investigar problemas, avaliar argumentos, reconhecer informações frágeis e tomar decisões com maior consciência. São habilidades que encontram aplicação na vida profissional, nas relações sociais, no exercício da cidadania e na maneira como cada pessoa interpreta a realidade.

            Portanto, os 120 trabalhos selecionados pela Feira de Ciências — Inovação e Sustentabilidade não representam meramente uma coleção de pesquisas escolares. Representam também 120 oportunidades de exercitar a curiosidade, estimular a autonomia intelectual e mostrar às novas gerações que o conhecimento é uma construção permanente. Naturalmente, os resultados mais profundos desse processo não podem ser medidos apenas pelo número de projetos apresentados ou pelas classificações obtidas. Eles dependem da continuidade dessas experiências, da qualidade da orientação oferecida e da disposição das instituições educacionais para preservar espaços nos quais perguntar, experimentar e pensar sejam atividades tão valorizadas quanto memorizar conteúdos.

            Uma sociedade que deseja cidadãos mais conscientes, críticos e reflexivos deveria estimular mentes pensantes muito antes da idade adulta. Precisa oferecer às crianças oportunidades para descobrir que a realidade pode ser examinada, que as ideias podem ser questionadas e que compreender um problema exige mais do que aceitar a primeira resposta disponível. A mente crítica não nasce pronta: desenvolve-se por meio de estímulos, experiências, diálogos e desafios que ensinam o indivíduo a pensar por conta própria sem desprezar o conhecimento construído pelos outros.

            O maior mérito de uma iniciativa como essa está naquilo que não aparece nas fotografias, nos painéis ou nas apresentações: a transformação silenciosa que ocorre quando uma criança percebe que é capaz de formular uma pergunta relevante e procurar, com os próprios recursos e a orientação necessária, uma resposta fundamentada. Nesse instante, não está apenas aprendendo ciências. Está descobrindo uma maneira de se relacionar com o mundo, com as outras pessoas e consigo mesma.

            Investir na curiosidade infantil é investir na qualidade do pensamento que acompanhará essa criança durante toda a vida. E uma educação que ensina a perguntar, investigar e refletir oferece algo que ultrapassa qualquer resultado escolar imediato: as condições para que o conhecimento deixe de ser uma coleção de respostas decoradas e se transforme em instrumento de compreensão, autonomia e liberdade intelectual.

 

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

QUANTA INFORMAÇÃO A MENTE CONSEGUE ARMAZENAR?

"O SENHOR ACHA QUE SABE TUDO?"

A RESPOSTA HONESTA É: QUASE NADA

por Heitor Jorge Lau

            Numa certa noite, durante uma palestra que eu ministrava para acadêmicos de um curso superior, uma aluna me interrompeu com uma pergunta em tom provocativo. Ela claramente não estava gostando da minha fala. Perguntou: "O senhor acha que sabe tudo?" Respondi: "Eu praticamente sei quase nada."

            Pode parecer modéstia, ou até uma resposta para encerrar a discussão. Não era! Era uma constatação, e hoje a ciência ajuda a mostrar o quanto ela é verdadeira, para mim, para você e para qualquer ser humano que já passou por este planeta.

            Para entender o tamanho dessa conta, precisamos de uma régua. Os computadores medem informação em bytes, e dá para imaginar essas medidas como uma grande biblioteca. Um byte é uma única letra de um texto. Mil letras, mais ou menos uma página, formam um kilobyte. Mil páginas, o equivalente a um livro inteiro, formam um megabyte. Mil livros, o acervo de uma boa biblioteca de escola, formam um gigabyte. Mil gigabytes, ou um milhão de livros, formam um terabyte, o tamanho de uma grande biblioteca pública. E mil dessas grandes bibliotecas formam um petabyte.

            Agora vem o salto. Mil petabytes formam um exabyte, e mil exabytes formam um zettabyte. Ou seja, um zettabyte equivale a um milhão de petabytes, algo como um bilhão de grandes bibliotecas. É uma quantidade tão grande que o nosso cérebro, acostumado a contar o que cabe numa mesa ou numa estante, simplesmente não consegue imaginar.

            Agora, os números. Os pesquisadores ainda discutem quanto o cérebro humano consegue armazenar. Algumas estimativas falam em capacidade teórica de 1 a 2,5 petabytes: seria como carregar dentro da cabeça mil ou duas mil e quinhentas dessas bibliotecas gigantes. Já estudos de psicologia que medem o que uma pessoa realmente retém ao longo da vida chegam a valores muito menores, algo como a informação de algumas centenas de livros. A diferença está entre o que o cérebro poderia guardar e o que ele de fato guarda.

            Agora olhe para o outro lado da balança. A humanidade já produziu algumas centenas de zettabytes de dados, e a conta cresce a cada dia. Em bibliotecas, seriam centenas de bilhões. Mesmo na hipótese mais generosa, aquela em que o cérebro estivesse completamente cheio, tudo o que um ser humano consegue saber representa cerca de 0,0000005% de tudo o que existe, ou menos. É como levar algumas gotas d'água até uma piscina enorme e dizer que conhece a piscina.

            E tem mais um detalhe: nem tudo o que guardamos está guardado direito. A memória não funciona como um arquivo de computador. Ela é reconstruída a cada vez que a acessamos, e por isso muda, se mistura e, às vezes, falha. Guardamos o que tem emoção, repetição ou utilidade, e o resto se perde pelo caminho. Esquecer, afinal, faz parte do funcionamento normal do cérebro.

            Isso me faz lembrar de uma frase atribuída a Sócrates: "Só sei que nada sei." Ele não estava dizendo que era ignorante. Estava dizendo que quem enxerga o tamanho do que não sabe fica livre para continuar aprendendo. Quem acha que já sabe tudo para de perguntar, e quem para de perguntar para de crescer (para não dizer outra coisa).

            Talvez seja por isso que o conhecimento de verdade não se mede em quantidade. O que faz diferença é a qualidade das conexões que fazemos entre as poucas coisas que sabemos: a capacidade de comparar, duvidar, ligar um assunto a outro e mudar de ideia quando aparecem bons argumentos. É daí que nascem a compreensão, o bom senso e a criatividade. Saber muito importa menos do que saber o que fazer com o que se sabe.

            Aquela aluna me fez uma pergunta provocativa, e eu agradeço a ela até hoje, porque me obrigou a dizer em voz alta algo que todos nós deveríamos lembrar com mais frequência: diante do tamanho do mundo, somos eternos aprendizes, e não há vergonha nenhuma nisso.

            E você, quanto acha que sabe?

 

HIPERTIMESIA - O DRAMA DE QUEM NÃO CONSEGUE ESQUECER

LEMBRAR DE TUDO: DOM OU MALDIÇÃO?

O DRAMA DE QUEM NÃO CONSEGUE ESQUECER

Por Heitor Jorge Lau

            Imagine acordar e saber, sem esforço, o que você almoçou em 14 de março de 2009, como estava o clima naquele dia, qual música tocava no rádio e o que você sentiu durante a tarde. Para a maioria de nós, isso soa como superpoder. Para quem vive com HIPERTIMESIA, é só o funcionamento normal da própria cabeça.

            O termo surgiu em 2006, quando pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Irvine, estudaram o caso de uma mulher que se tornou conhecida como Jill Price. Ela procurou os cientistas porque se lembrava de praticamente todos os dias da vida adulta, e essa lembrança vinha em forma de cena, como um filme que nunca para de rodar ao fundo. Daí o nome, que une o prefixo grego que indica excesso à palavra que significa "lembrar". Anos depois, a ciência passou a chamar o fenômeno também de Memória Autobiográfica Altamente Superior. É uma condição rara, com poucas dezenas de casos confirmados no mundo, entre eles o da atriz norte-americana Marilu Henner.

            Aqui vale desfazer um mal-entendido comum. Hipertimesia não é memória fotográfica. Essas pessoas não decoram uma lista de compras, um número de telefone ou um capítulo de livro com mais facilidade que ninguém. Em testes de laboratório com listas de palavras, por exemplo, costumam ir tão bem quanto qualquer pessoa. O que elas têm de extraordinário é a memória da própria vida: datas, lugares, conversas, acontecimentos e, principalmente, a sensação de ter estado ali. Se você perguntar o que aconteceu em uma data qualquer de anos atrás, a resposta vem quase instantânea e com uma riqueza de detalhes que parece inventada.

            Os estudos de imagem cerebral mostram diferenças em regiões ligadas à memória e à organização das lembranças, além de uma comunicação mais intensa entre elas. Mas ninguém sabe ao certo por que isso acontece. Alguns pesquisadores observam que muitas dessas pessoas têm o hábito de revisitar o próprio passado o tempo todo, e isso levanta uma pergunta curiosa: elas lembram mais porque o cérebro é diferente, ou o cérebro é diferente porque elas lembram o tempo todo? A resposta ainda está em aberto.

            Então, o que há de bom nisso? Muita coisa, para começar pelo lado humano. Quem tem Hipertimesia carrega uma biografia viva. Os momentos felizes, como um aniversário, uma viagem, o rosto de alguém querido, podem ser revividos com uma nitidez que a maioria de nós só encontra em fotografias desbotadas. Nomes, datas e conversas importantes dificilmente se perdem, e isso cria uma sensação rara de continuidade: a vida inteira ao alcance, sem lacunas. Para a ciência, esses casos são um tesouro. Entender como alguns cérebros guardam o passado com tanta precisão pode ajudar a compreender melhor a memória humana e, quem sabe, abrir caminhos para pesquisas sobre doenças como o Alzheimer, em que justamente a memória se desfaz.

            Só que a mesma moeda tem outro lado, e é ele que costuma pesar mais. Quem lembra de tudo lembra de tudo, inclusive do que gostaria de esquecer. Os vexames, as perdas, as despedidas, as palavras duras ditas ou ouvidas ficam guardados com a mesma clareza das alegrias. Os relatos dessas pessoas apontam uma dificuldade real de virar a página, porque o passado não esmaece com o tempo: ele volta como se fosse hoje. As lembranças surgem sozinhas, sem convite, e o cansaço mental pode ser grande. Pessoas com essa condição contam que a memória é, ao mesmo tempo, o maior tesouro e o maior fardo que carregam.

            E há um detalhe que desmonta a ideia de infalibilidade: a memória delas também pode errar. Pesquisas indicam que pessoas com Hipertimesia continuam suscetíveis a falsas memórias, assim como todos nós. Lembrar com muita convicção e muita riqueza de detalhes não significa lembrar de forma correta. A lembrança continua sendo uma reconstrução do cérebro, e não um arquivo de vídeo guardado intacto.

            Essa história lembra um conto famoso do escritor argentino Jorge Luis Borges, “Funes, o Memorioso”, sobre um homem que, depois de um acidente, passa a lembrar absolutamente tudo. Funes recorda cada folha de cada árvore, cada nuvem em cada instante, e justamente por isso não consegue pensar. Pensar, dizia Borges, é esquecer diferenças, generalizar, abstrair... Sem esquecer, não há ideias, só lembranças soltas, infinitas e esmagadoras. A ficção exagera, claro, mas a intuição é poderosa.

            No fundo, a Hipertimesia nos obriga a rever o que pensamos sobre o esquecimento. Costumamos tratá-lo como falha, como o defeito do cérebro que nos faz perder a chave ou o nome daquela pessoa. Mas o esquecimento também é uma função. É ele que suaviza a dor, que nos permite perdoar, que dá espaço ao novo e que transforma o que vivemos em aprendizado, em vez de arquivo morto. Esquecer é, em muitos sentidos, uma forma de cuidar de si. Enfim... a pergunta mais importante na vida pode não ser: "como lembrar mais?", mas "o que vale a pena guardar?".

            E você? Se pudesse escolher, trocaria a sua memória pela de quem não esquece nada, ou agradeceria por poder esquecer?

 

 

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

ATINGIR A META NÃO É PRODUZIR RESULTADO

ATINGIR A META NÃO É PRODUZIR RESULTADO

por Heitor Jorge Lau

            Há uma ideia bastante difundida no mundo corporativo de que toda organização precisa estabelecer metas para que seus profissionais saibam exatamente o que se espera deles. A afirmação parece tão lógica que raramente alguém se dispõe a questioná-la. Afinal, como administrar uma empresa sem objetivos, sem indicadores e sem saber onde se pretende chegar? O problema começa quando confundimos a necessidade de uma organização possuir uma direção com a necessidade de transformar cada trabalhador em responsável por atingir números individualizados. Uma empresa precisa saber para onde está indo. Outra coisa, completamente diferente, é fazer com que cada pessoa passe a enxergar o próprio trabalho como uma corrida permanente contra um indicador.

            Durante minha experiência profissional, presenciei situações que demonstram como esse mecanismo pode produzir resultados completamente diferentes daqueles imaginados por quem criou a meta. Trabalhadores inventando vendas para alcançar determinado número, gerentes de conta solicitando a contratação de seguros que seriam cancelados poucos dias depois, vendedores combinando com clientes a aquisição de quantidades de produtos no último dia do período de apuração, sabendo que os pedidos seriam cancelados no dia seguinte. Na aparência, os indicadores apresentavam um excelente resultado. No mundo real, porém, parte daquele resultado simplesmente não existia.

            É importante perceber que o problema não está necessariamente no trabalhador. Quando uma organização estabelece que determinada remuneração, reconhecimento ou permanência está condicionada ao atingimento de um número, ela cria um poderoso incentivo para que o profissional concentre sua inteligência na obtenção daquele número. Se o sistema permite que uma venda fictícia, uma contratação temporária ou um pedido que será posteriormente cancelado produza o mesmo efeito, para fins de avaliação, que uma venda verdadeira, sustentável e economicamente saudável, o próprio sistema está ensinando as pessoas a procurarem o caminho mais conveniente para alcançar a recompensa.

            Nesse momento acontece uma inversão silenciosa. A empresa imaginava que estava utilizando a meta para estimular resultados, mas a meta começa a determinar o comportamento. O trabalhador deixa de perguntar qual é a melhor maneira de atender o cliente, ampliar o mercado ou contribuir para o crescimento da organização. A pergunta passa a ser outra: o que preciso fazer para chegar ao número antes do fechamento do período? E quando essa segunda pergunta se torna mais importante do que a primeira, a criatividade deixa de trabalhar a favor da organização e passa a trabalhar a favor do indicador.

            Existe uma diferença enorme entre perseguir um objetivo empresarial e perseguir uma meta individual. O primeiro pressupõe um projeto coletivo. A empresa estabelece onde deseja chegar e reúne pessoas, competências, conhecimentos e esforços diferentes para alcançar esse destino. O segundo pode transformar colegas em concorrentes, estimular a retenção de informações, provocar ansiedade e fazer com que profissionais passem a administrar a própria imagem de desempenho em vez de administrar o resultado real do trabalho. A organização pretende obter cooperação, mas cria mecanismos que incentivam competição permanente.

            O problema se torna ainda mais grave quando o indicador escolhido é considerado uma representação perfeita da realidade. Uma venda registrada no sistema é tratada como resultado, mesmo quando o produto retorna. Um contrato assinado é contabilizado como negócio, mesmo quando será cancelado. Uma determinada quantidade comercializada aparece como crescimento, mesmo quando foi adquirida apenas para permitir que alguém alcance uma bonificação. O sistema registra o acontecimento, o relatório apresenta o número e todos podem comemorar. Só depois aparece a realidade que o indicador não conseguiu enxergar.

            Há ainda uma ilusão gerencial particularmente perigosa: acreditar que o atingimento de uma meta permite determinar quem é um profissional “bom” e quem é um profissional “ruim”. O número passa a funcionar como uma espécie de termômetro da competência humana. Quem supera a meta é considerado competente, comprometido e produtivo; quem não alcança o número é rapidamente classificado como alguém que precisa melhorar (ou ser demitido). O problema é que esse raciocínio confunde desempenho mensurado com competência real. Uma pessoa pode atingir sistematicamente suas metas porque trabalha em uma carteira de clientes favorável, dispõe de melhores condições, recebe oportunidades que outros não recebem ou simplesmente aprendeu a explorar as regras do sistema. Da mesma forma, um profissional altamente competente pode apresentar resultados inferiores em determinado período por atuar em condições mais difíceis, desenvolver atividades cujo valor não aparece imediatamente nos indicadores ou dedicar seu tempo a problemas que não cabem na planilha de avaliação.

            Transformar a meta em instrumento de medição da competência revela, em muitos casos, mais sobre a pobreza dos mecanismos de avaliação da empresa do que sobre a capacidade do trabalhador. Quando uma organização precisa de um único número para decidir quem é bom ou ruim, produtivo ou improdutivo, competente ou incompetente, ela pode estar apenas confessando que não desenvolveu instrumentos suficientemente inteligentes para compreender o trabalho humano. É mais fácil medir uma venda do que compreender a qualidade da relação construída com o cliente; mais fácil contar contratos do que avaliar a capacidade de resolver problemas; mais fácil comparar números do que compreender contextos. A simplicidade do indicador cria a ilusão de precisão.

            No fundo, transformar metas individuais em termômetro de competência pode representar uma forma de ineficácia gerencial. Em vez de compreender as diferentes circunstâncias nas quais as pessoas trabalham, a organização escolhe um número, coloca todos diante dele e chama isso de avaliação de desempenho. Depois se surpreende quando os profissionais aprendem a trabalhar para o número.

            Há situações ainda mais perversas nessa lógica. Em determinada empresa, o profissional realizava a venda, atingia a meta e, mesmo assim, não recebia imediatamente a comissão correspondente. O pagamento somente era liberado depois que a empresa tivesse certeza de que o cliente havia quitado a dívida, o que poderia ocorrer 30, 60 ou 90 dias após. Na prática, o trabalhador realizava a venda, cumpria aquilo que a organização havia estabelecido como objetivo e ainda permanecia responsável pelo risco financeiro da operação. A empresa transferia para o funcionário uma parcela de um risco que pertencia à própria atividade empresarial. A meta era individual, a cobrança era individual, a responsabilidade era individual, mas o risco era da empresa — até o momento em que a empresa decidiu dividi-lo com o trabalhador. E pior: a empresa ainda ovacionou o “cara” que criou essa barbaridade.

            É justamente aí que precisamos discutir uma das maiores ilusões da administração contemporânea: acreditar que aquilo que pode ser medido necessariamente representa aquilo que possui valor. Nem sempre representa. Existem resultados que podem ser expressos em números com enorme facilidade e outros que são fundamentais para uma organização, mas resistem à simplificação matemática. Confiança do cliente, conhecimento acumulado, qualidade do relacionamento, capacidade de solucionar problemas, cooperação entre profissionais, criatividade, reputação e aprendizado organizacional dificilmente cabem em uma planilha com a mesma precisão de uma quantidade vendida.

            Quando a remuneração passa a depender excessivamente de indicadores individuais, o profissional também aprende uma lição bastante objetiva sobre o funcionamento da empresa: aquilo que não entra na avaliação possui menor importância. E as pessoas são extremamente capazes de compreender rapidamente quais comportamentos são realmente recompensados, independentemente daquilo que aparece nos discursos institucionais. A empresa pode falar em qualidade, ética, relacionamento e sustentabilidade, mas, se o reconhecimento financeiro depende exclusivamente de determinado número, será esse número que ocupará o centro da atenção.

            Isso explica por que algumas metas aparentemente bem-intencionadas produzem comportamentos que seus próprios gestores considerariam inadequados. Não é necessário imaginar trabalhadores desonestos ou descomprometidos. Basta compreender que pessoas respondem aos incentivos existentes no ambiente em que trabalham. Se o sistema recompensa o número e não verifica adequadamente a qualidade do resultado que produziu esse número, algumas pessoas encontrarão maneiras de alcançar o indicador. E, quanto mais rígida for a cobrança, maior será a pressão para encontrar essas maneiras.

            Existe, portanto, uma pergunta que todo gestor deveria fazer antes de estabelecer uma meta individual: “Que comportamento estou incentivando ao criar esta regra?”. A pergunta é muito mais importante do que simplesmente perguntar quanto cada profissional deverá vender, produzir ou entregar. Porque uma meta não determina apenas um resultado esperado. Ela também pode determinar comportamentos. E, quando esses comportamentos são inadequados, a empresa acaba pagando duas vezes: primeiro para incentivar o resultado artificial e depois para corrigir os problemas provocados por ele.

            Isso não significa abandonar indicadores, planejamento ou objetivos. Uma organização sem direção também produz desperdício. O ponto está em compreender que metas devem servir à estratégia, e não substituir a estratégia. A empresa precisa saber onde quer chegar, quais resultados pretende construir e como avaliar sua evolução. Mas isso não exige necessariamente transformar cada trabalhador em uma unidade isolada de produção, permanentemente comparada com os demais.

            Talvez a melhor pergunta não seja “quanto cada funcionário precisa entregar?”, mas “como podemos fazer com que diferentes pessoas contribuam para que a organização alcance aquilo que realmente importa?”. A diferença parece pequena, mas muda completamente a lógica da gestão. Na primeira pergunta, o indivíduo está diante de um número. Na segunda, está diante de um propósito coletivo. Quando o indicador se torna o objetivo, o sistema começa a produzir pessoas especialistas em atingir indicadores. Quando o objetivo permanece maior que o indicador, o número volta a ocupar o lugar que deveria ter: o de instrumento de acompanhamento.

            Uma organização inteligente não deveria comemorar apenas porque uma meta foi atingida. Deveria perguntar o que aquele número representa quando retiramos dele os pedidos cancelados, as vendas artificiais, os contratos que não permaneceram, os comportamentos estimulados apenas pela bonificação e tudo aquilo que existiu no relatório, mas não existiu verdadeiramente no resultado. Porque existe uma diferença fundamental entre alcançar uma meta e produzir um resultado. E uma empresa que não consegue distinguir as duas coisas corre o risco de transformar seus melhores profissionais em excelentes fabricantes de números.

 

terça-feira, 6 de outubro de 2026

QUANDO O VOTO DEIXA DE SER UMA ESCOLHA

QUANDO O VOTO DEIXA DE SER UMA ESCOLHA

Estamos elegendo um presidente

ou apenas elegendo quem queremos que o outro lado não seja?

por Heitor Jorge Lau

            A atual conjuntura política brasileira produz uma situação que merece mais reflexão do que paixão. De um lado, temos dois candidatos que concentram enorme parcela das atenções e carregam, cada um à sua maneira, problemas, controvérsias e questionamentos que deveriam ser considerados seriamente por qualquer eleitor. De outro, existem candidatos que, embora disponham de menor força eleitoral, poderiam merecer uma análise mais cuidadosa, inclusive como alternativas capazes de romper a lógica de uma disputa transformada em confronto permanente entre dois grupos. Há ainda outros nomes, mas com limitações evidentes quando se considera a capacidade de governança de um país das dimensões e da complexidade do Brasil.

            O mais curioso é que uma parcela enorme da população declara não gostar de nenhum dos dois candidatos principais e, ainda assim, acaba escolhendo um deles. E aqui aparece uma pergunta incômoda: essa pessoa está realmente votando naquele candidato ou está simplesmente votando contra o outro? Existe uma diferença enorme entre escolher alguém por acreditar que seja a melhor alternativa e escolhê-lo porque sua principal virtude, aos olhos do eleitor, é impedir que o adversário chegue ao poder. No primeiro caso, existe uma escolha. No segundo, existe uma rejeição transformada em voto.

            Esse fenômeno produz uma das situações mais estranhas da política contemporânea brasileira: pessoas que não defendem propriamente o candidato em quem votam, mas que estão dispostas a fazer qualquer coisa para impedir a vitória daquele que consideram intolerável. O voto deixa de representar uma aprovação e passa a representar uma barreira. Não se vota necessariamente em alguém... vota-se contra alguém. E, quando isso acontece em grande escala, a eleição deixa de ser uma comparação entre projetos e passa a funcionar como um mecanismo de sobrevivência política de dois grupos que precisam manter o outro permanentemente sob ameaça.

            Há ainda uma questão mais delicada. Quando existem questionamentos sérios, fatos controversos ou episódios que colocam em dúvida a conduta de um candidato, por que isso deixa de ser suficiente para que seu eleitor reavalie a escolha? Não estou afirmando aqui que toda acusação corresponde a culpa, nem que qualquer candidato submetido a controvérsia deva ser automaticamente considerado inapto. A questão é outra: por que determinados eleitores abandonam completamente a disposição de examinar criticamente aquilo que existe contra o candidato que escolheram?

            E surge então a pergunta que considero mais perturbadora: se existem outras opções, inclusive algumas que não carregam o mesmo conjunto de controvérsias, por que elas são frequentemente descartadas antes mesmo de serem examinadas? Por que o eleitor aceita a ideia de que precisa escolher obrigatoriamente entre dois nomes, como se qualquer terceira possibilidade fosse uma espécie de desperdício de voto? Será que o voto útil se transformou em uma prisão mental na qual o eleitor passa a considerar impossível qualquer alternativa que não pertença aos dois polos dominantes?

            É nesse ponto que a palavra fundamentalismo começa a fazer sentido. Não necessariamente fundamentalismo religioso, mas fundamentalismo político. O fundamentalista não precisa conhecer profundamente aquilo que defende, precisa apenas acreditar que aquilo que defende não pode ser questionado. Os fatos deixam de funcionar como elementos para reflexão e passam a ser classificados conforme favoreçam ou prejudiquem o lado escolhido. O mesmo acontecimento pode ser considerado gravíssimo quando envolve o adversário e irrelevante quando envolve o próprio candidato.

            Nesse ambiente, o eleitor não pergunta mais “isso é verdadeiro?”. Pergunta “isso prejudica o meu lado?”. Não pergunta “esse candidato está preparado para governar?”. Pergunta “quem ele vai derrotar?”. Não pergunta “eu realmente confio nessa pessoa?”. Pergunta “quem seria pior?”. E essa última pergunta, quando se transforma no único critério de escolha, produz uma consequência perigosa: o eleitor passa a aceitar quase qualquer coisa do seu candidato desde que o adversário seja considerado pior.

            É assim que a política pode se transformar em uma disputa de torcidas. O candidato deixa de ser avaliado pelo que faz e passa a ser protegido pelo que representa. Seus erros são relativizados, suas contradições são justificadas e suas controvérsias são imediatamente comparadas às do adversário. A pergunta deixa de ser “ele merece meu voto?” e passa a ser “o outro merece menos?”. Parece uma diferença pequena, mas não é. Uma pergunta procura escolher um governante, a outra procura derrotar um inimigo.

            O problema é que um país não é governado pela simples derrota do adversário. O Brasil precisa de alguém capaz de administrar uma máquina pública gigantesca, respeitar instituições, tomar decisões difíceis, enfrentar problemas econômicos e sociais, negociar com o Congresso, preservar direitos, lidar com conflitos e, sobretudo, compreender que o cargo de presidente não pertence a uma torcida. Pertence ao país.

            Por isso, considero saudável recuperar uma pergunta que parece ter desaparecido do debate eleitoral: se nenhum dos dois candidatos principais merece nossa confiança integral, por que somos obrigados a escolher entre eles como se fossem as únicas possibilidades existentes? E, se existem outras alternativas que apresentam condições razoáveis de governabilidade, por que não as examinar com a mesma seriedade?

            Uma democracia madura não deveria produzir eleitores que defendem cegamente seus candidatos. Deveria produzir cidadãos capazes de abandonar uma preferência quando os fatos demonstram que ela deixou de ser justificável. O voto não deveria ser um ato de fidelidade. Deveria ser um ato de julgamento. Assim, o maior problema da política brasileira não esteja apenas nos candidatos. Ele também está na incapacidade de uma parte do eleitorado de admitir que o próprio candidato pode estar errado. Quando isso acontece, a política deixa de ser uma escolha racional entre possibilidades e começa a adquirir características de fundamentalismo: nada que venha do outro lado merece consideração e nada que venha do próprio lado merece condenação.

            Um país governado por esse tipo de lógica corre o risco de passar anos escolhendo não o melhor, mas simplesmente aquele que consegue derrotar o pior (e já faz algum tempo que é assim). Essa é uma escolha? Ou é apenas uma forma sofisticada de fundamentalismo político?

 

UM MUNDO EM DESTRUIÇÃO

TERRA DEVASTADA

por Heitor Jorge Lau

            Há algo profundamente contraditório na maneira como algumas pessoas (os pseudo agricultores) utilizam a terra. Enquanto diversos pequenos agricultores conseguem produzir uma grande diversidade de alimentos em áreas reduzidas, utilizando cada espaço com inteligência e aproveitando diferentes cultivos, ainda existem pessoas (muitas) que devastam hectares para plantar, pasmem, culturas que sequer chegam diretamente à mesa humana.

            A contradição fica ainda maior quando percebemos que, depois de destruir sua própria terra, essas mesmas pessoas precisam comprar verduras e hortaliças de pequenos produtores oriundos de outras regiões, carne no açougue e outros alimentos que poderiam ser produzidos de maneira muito mais racional e diversificada. E quando uma grande enchente acontece, levando solo, árvores, estradas e construções, a resposta deveria ser preservar o que restou, recuperar as áreas degradadas e respeitar as encostas (aliás, as encostas estão cada vez mais devastadas). Em vez disso, ainda vemos a continuidade da devastação, como se a natureza fosse um estoque inesgotável de recursos à disposição do ser humano.

            Não se trata de produzir menos. Trata-se de produzir melhor. De compreender que terra fértil não é simplesmente espaço vazio esperando uma máquina passar. É um patrimônio vivo, construído durante milhares de anos. Destruir hectares para produzir aquilo que pode ser produzido em áreas muito menores, enquanto compram de outros aquilo que deixam de produzir, não é progresso. É desperdício. E continuar fazendo isso depois de tantas tragédias ambientais não é apenas irracional: é inadmissível.

            Que lógica é essa?

            Não é preciso, necessariamente, produzir menos. É preciso aprender a produzir sem transformar a terra em matéria descartável. Solo fértil não é simplesmente um pedaço de chão disponível para ser explorado até perder sua capacidade de sustentar a vida. Quando se destrói hectares para produzir aquilo que poderia ser cultivado em uma fração dessa área, dependendo de terceiros para comprar aquilo que realmente se come, não se trata de eficiência. Estamos diante de desperdício. E insistir nisso depois de tantas tragédias ambientais já não é apenas falta de consciência. É uma escolha.

 

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

A NATUREZA APRENDE? QUEM ENSINOU A NATUREZA A APRENDER?

A NATUREZA APRENDE?

QUEM ENSINOU A NATUREZA A APRENDER?

 por Heitor Jorge Lau

            Há histórias científicas que se tornam tão populares que acabam adquirindo uma vida própria, afastando-se lentamente dos fatos que lhes deram origem. Uma das mais curiosas envolve macacos, bananas, batatas e uma suposta transmissão misteriosa de conhecimento entre animais que nunca tiveram contato. A história ficou conhecida como o “centésimo macaco” e passou a ser utilizada como argumento para defender a existência de uma espécie de consciência coletiva capaz de transportar informações à distância. A ciência, entretanto, não encontrou evidências que sustentem essa conclusão. O curioso é que, quando retiramos a parte fantasiosa da história, sobra algo ainda mais interessante: animais realmente aprendem uns com os outros, determinados comportamentos podem se espalhar por uma população, algumas práticas atravessam gerações e diferentes grupos da mesma espécie podem desenvolver costumes próprios. A questão, portanto, não desaparece quando abandonamos o mito. Ela se torna muito mais interessante: quando um comportamento aprendido por um indivíduo passa para outros e permanece através das gerações, estamos diante de alguma forma de cultura?

            Tudo começou, nesse caso, com algo aparentemente banal. Em uma ilha japonesa, uma jovem macaca descobriu uma maneira diferente de preparar seu alimento. Em vez de simplesmente comer batatas-doces cobertas de areia, passou a lavá-las antes de consumi-las. Outros animais observaram o comportamento e começaram a fazer o mesmo. Com o passar do tempo, a prática se espalhou pelo grupo. Não houve transmissão telepática, nenhum misterioso salto de consciência e nenhum acontecimento sobrenatural. Houve observação, repetição, convivência e aprendizagem social. O episódio é importante justamente porque demonstra que determinados comportamentos não precisam surgir novamente do zero em cada indivíduo. Um animal pode observar outro, incorporar uma determinada estratégia e transmiti-la posteriormente a outro membro do grupo. A informação, nesse caso, deixa de estar confinada ao indivíduo que a descobriu e passa a circular socialmente.

            É nesse ponto que a história começa a ficar desconfortável para aquela velha ideia de que a cultura seria uma propriedade exclusivamente humana. Durante muito tempo, cultura foi associada à linguagem, à escrita, à religião, às instituições, às artes e à capacidade humana de acumular conhecimentos durante gerações. Quando observamos outros animais com mais atenção, porém, encontramos comportamentos que não parecem ser explicados apenas por instinto. Diferentes populações podem desenvolver maneiras distintas de obter alimento, utilizar objetos, emitir sons ou enfrentar determinados problemas. Baleias, por exemplo, podem desenvolver técnicas específicas de alimentação que se espalham entre indivíduos. Aves aprendem vocalizações observando outras aves. Primatas utilizam ferramentas e diferentes grupos podem apresentar técnicas próprias para resolver problemas semelhantes. Não estamos diante de uma cultura equivalente à humana, evidentemente, mas estamos diante de algo que merece ser levado a sério: informação adquirida durante a vida de um indivíduo pode tornar-se parte do repertório de outros.

            Isso muda profundamente a pergunta. Em vez de perguntar se um animal possui inteligência suficiente para ser comparado ao ser humano, deveríamos perguntar como a informação circula dentro de uma comunidade de seres vivos. A pergunta deixa de ser “eles pensam como nós?” e passa a ser “o que eles conseguem aprender uns com os outros?”. Essa mudança é importante porque evita um erro bastante comum: medir todas as formas de inteligência usando exclusivamente a inteligência humana como régua. Uma baleia não precisa escrever um livro para demonstrar que consegue adquirir e transmitir informação. Uma ave não precisa construir uma biblioteca para conservar um comportamento aprendido. Um macaco não precisa compreender filosofia para descobrir uma solução que outros integrantes de seu grupo poderão posteriormente reproduzir. A natureza não precisa repetir nossa maneira de pensar para demonstrar que possui outras maneiras de resolver problemas.

            E então surge uma questão ainda mais surpreendente: se um comportamento pode ser aprendido por um indivíduo, observado por outro e transmitido sucessivamente dentro de uma população, onde exatamente termina o indivíduo e começa o grupo? A informação pertence ao primeiro animal que descobriu determinada estratégia ou passa a pertencer, de alguma maneira, à comunidade que a conserva? Uma tradição não precisa de palavras para existir. Ela pode estar contida em um gesto, em uma rota, em uma vocalização, em uma técnica de alimentação ou em uma maneira específica de utilizar um objeto. O que chamamos de conhecimento pode assumir formas muito diferentes daquela que encontramos nos livros. Em algumas espécies, uma geração recebe da anterior algo que não estava inscrito diretamente em seus genes, mas que foi adquirido através da convivência.

            Isso nos aproxima de uma ideia fascinante: a existência de uma espécie de memória social. Não se trata de uma memória armazenada em um único cérebro e consultada conscientemente quando necessário. É uma memória distribuída entre indivíduos, comportamentos e relações. Um animal aprende algo, outro observa, um terceiro reproduz, e o comportamento permanece enquanto houver indivíduos capazes de transmiti-lo. Quando uma determinada geração desaparece, parte do repertório pode desaparecer com ela. Quando o comportamento permanece, uma espécie de continuidade é estabelecida. A natureza, nesse sentido, não guarda apenas informações em moléculas e genes. Ela também pode conservá-las em comportamentos.

            Mas é justamente aqui que precisamos abandonar uma tentação: a de transformar qualquer fenômeno curioso em prova de uma consciência universal. A história do “centésimo macaco” é um bom exemplo de como uma observação legítima pode ganhar uma interpretação que a ciência nunca demonstrou. Não existe evidência de que um número específico de macacos tenha atingido uma espécie de massa crítica e, a partir daí, transmitido mentalmente uma informação para animais separados por grandes distâncias. A verdadeira história é menos fantástica e, ao mesmo tempo, muito mais importante. Animais observam, imitam, experimentam, modificam comportamentos e transmitem determinadas soluções. Não precisamos acrescentar telepatia à natureza para torná-la extraordinária.

            E quando pensamos que já chegamos ao limite dessa discussão, aparecem as plantas. Durante muito tempo, a planta ocupou um lugar quase decorativo em nossa visão do mundo. Ela crescia, florescia, produzia sementes e permanecia imóvel enquanto os animais faziam aquilo que costumamos chamar de vida. Essa imagem começou a perder força à medida que a biologia passou a revelar uma complexidade extraordinária nos sistemas vegetais. Plantas percebem alterações no ambiente, respondem à presença de determinados organismos, modificam seu metabolismo diante de ameaças, utilizam sinais químicos e podem alterar respostas futuras de acordo com experiências anteriores. Algumas dessas respostas são descritas pela ciência utilizando conceitos como memória e aprendizagem, embora esses termos precisem ser utilizados com cuidado para não projetarmos sobre as plantas uma psicologia humana que elas evidentemente não possuem.

            Uma planta não precisa ter cérebro para registrar uma diferença entre o que aconteceu antes e o que está acontecendo agora. Ela precisa apenas possuir mecanismos capazes de alterar seu comportamento biológico diante das condições encontradas. Essa constatação parece simples, mas possui uma consequência filosófica enorme. Durante séculos, associamos memória à existência de um cérebro. A biologia mostra que a capacidade de conservar efeitos de experiências anteriores pode existir de maneiras muito mais antigas e diversificadas. A memória, entendida em sentido amplo como a capacidade de uma experiência passada modificar uma resposta futura, não começou com o ser humano. Ela está profundamente inserida na própria história da vida.

            Isso nos leva a outro território ainda mais curioso. Se uma planta consegue modificar sua resposta futura em função de uma experiência anterior, se uma ave aprende vocalizações observando outras aves, se baleias transmitem técnicas de alimentação, se primatas aprendem comportamentos uns com os outros e se determinados conhecimentos permanecem dentro de populações durante gerações, o que exatamente estamos chamando de aprendizagem? Estamos falando de uma capacidade exclusivamente mental ou de algo muito mais antigo, que adquiriu formas cada vez mais sofisticadas ao longo da evolução?

            Uma das maiores dificuldades está em nossa tendência de confundir a forma como aprendemos com a própria essência da aprendizagem. O ser humano aprende através da linguagem, observação, experiência, escola, dos livros, das relações sociais e de uma extraordinária capacidade de acumular informações. Construímos conhecimentos sobre conhecimentos anteriores e transmitimos tudo isso através das gerações. Nossa capacidade de acumulação cultural atingiu uma dimensão incomparável entre os organismos conhecidos. Mas isso não significa que o princípio fundamental da aprendizagem tenha surgido conosco. Significa que uma capacidade muito mais antiga encontrou em nossa espécie uma forma extraordinariamente sofisticada de expressão.

 

            A própria evolução pode ser observada como uma gigantesca história de informação. O DNA conserva registros da história biológica de cada organismo. As estruturas celulares carregam mecanismos desenvolvidos ao longo de bilhões de anos. Os organismos respondem às condições ambientais. Populações mudam. Comportamentos são selecionados, modificados e transmitidos. Em determinado momento dessa história surgiu um animal capaz não apenas de aprender com o ambiente, mas de transformar aquilo que aprendeu em linguagem, memória coletiva, tecnologia, arte, ciência e instituições. A partir daí, a informação deixou de circular apenas através dos mecanismos biológicos e passou a circular também por símbolos.

            Foi nesse momento que a aprendizagem adquiriu uma dimensão completamente nova. Um ser humano pode aprender algo e ensinar a outro. O segundo pode modificar aquilo que recebeu e ensinar a um terceiro. O terceiro pode registrar a informação em um livro, outra pessoa pode lê-la séculos depois, corrigir seu conteúdo, acrescentar uma nova descoberta e transmitir novamente aquele conhecimento. Assim, uma informação pode sobreviver à morte de todos aqueles que participaram de sua descoberta. Nenhum indivíduo precisa carregar sozinho a totalidade do conhecimento de uma espécie. A sociedade passa a funcionar como uma gigantesca memória externa, e esta é uma das maiores singularidades humanas.

            Não somos os únicos seres capazes de aprender. Não somos os únicos capazes de observar. Não somos os únicos capazes de modificar comportamentos a partir da experiência. Também não somos os únicos capazes de transmitir informações. O que nos diferencia é a dimensão cumulativa que conseguimos dar a tudo isso. Uma descoberta humana pode ser incorporada por outra pessoa, aperfeiçoada, registrada, ensinada, contestada e novamente transformada. Cada geração pode receber uma quantidade extraordinária de conhecimento produzida pelas anteriores e acrescentar algo ao que recebeu.

            Isso não diminui a distância entre nós e os demais animais. Pelo contrário. Torna essa diferença ainda mais interessante, porque nos obriga a reconhecer que ela não surgiu do nada. A capacidade humana de produzir cultura parece ter raízes em capacidades muito mais antigas de aprendizagem social, comunicação, memória e adaptação. A natureza não precisou esperar pelo aparecimento do ser humano para descobrir que informações podem ser conservadas e transmitidas. Nós apenas levamos esse processo a uma dimensão que transformou completamente a relação entre uma geração e a seguinte.

            Então voltamos à pergunta inicial: a natureza aprende? A resposta depende do significado que damos à palavra aprender. Se aprender significa refletir conscientemente sobre uma experiência, elaborar conceitos abstratos e compreender aquilo que estamos fazendo, não podemos atribuir essa capacidade indiscriminadamente aos demais seres vivos. Se aprender significa modificar respostas futuras a partir de experiências anteriores e, em alguns casos, transmitir comportamentos adquiridos para outros indivíduos, então a história da aprendizagem é muito mais antiga do que a história humana.

            A pergunta seguinte é ainda mais interessante: quem ensinou a natureza a aprender? Ninguém. A própria evolução produziu, ao longo de bilhões de anos, mecanismos capazes de conservar informações, responder a experiências, reconhecer padrões, modificar comportamentos e transmitir soluções. O aprendizado não apareceu de repente quando o primeiro ser humano abriu um livro. Muito antes de existirem livros, escolas ou professores, a vida já encontrava maneiras de conservar aquilo que funcionava e abandonar aquilo que deixava de funcionar.

            O macaco que observa outro macaco, a baleia que aprende uma técnica de alimentação, a ave que modifica seu canto, a planta que altera sua resposta diante de uma experiência anterior e o ser humano que escreve uma descoberta em uma página pertencem a capítulos muito diferentes da mesma história: a história da informação atravessando o tempo. Enfim, eu creio que a pergunta mais extraordinária não seja, portanto, se a natureza aprende. É perceber que a natureza vem aprendendo há bilhões de anos — e nós somos uma de suas formas mais recentes de memória.

 

domingo, 4 de outubro de 2026

TODA VEZ QUE APRENDEMOS ALGUMA COISA, ALGUMA COISA EM NÓS PRECISA DEIXAR DE SER EXATAMENTE COMO ERA.

TODA VEZ QUE APRENDEMOS ALGUMA COISA,

ALGUMA COISA EM NÓS PRECISA DEIXAR DE SER EXATAMENTE COMO ERA.

por Heitor Jorge Lau

            Há uma ideia fascinante na neurociência contemporânea que nos obriga a repensar uma das imagens mais comuns que imaginamos do cérebro. Durante muito tempo, foi conveniente imaginar a mente como uma espécie de computador biológico: recebemos informações, armazenamos dados, recuperamos aquilo que precisamos e seguimos funcionando como antes. A comparação é sedutora, mas o cérebro humano é muito mais estranho, complexo e dinâmico do que qualquer máquina que tenhamos construído. Quando aprendemos, não estamos simplesmente colocando uma informação nova dentro de uma estrutura que permanece intacta. O próprio sistema que aprende é modificado pela experiência. Redes neurais alteram seus padrões de atividade, conexões são fortalecidas ou enfraquecidas, caminhos anteriormente pouco utilizados passam a participar de novas associações. O cérebro não apenas guarda aquilo que descobrimos, ele se reorganiza a partir daquilo que descobrimos. E é justamente nesse ponto que uma constatação científica começa a adquirir uma dimensão profundamente humana: depois que alguma coisa realmente nos transforma, já não existe um caminho perfeitamente intacto de volta ao que éramos antes.

            Toda vez que realmente aprendemos alguma coisa, alguma coisa em nós precisa deixar de ser exatamente como era. A frase parece simples, mas contém uma consequência que ultrapassa muito a ideia convencional de aprendizagem. Saber não significa apenas possuir mais uma informação. Saber pode significar perceber de outra maneira, estabelecer novas relações, desconfiar de antigas certezas e enxergar aquilo que antes permanecia invisível. Uma pessoa que descobre determinado aspecto da realidade não consegue mais olhar para essa realidade exatamente com os mesmos olhos. Mesmo quando tenta esquecer, negar ou ignorar o que descobriu, a experiência já aconteceu. O conhecimento atravessou sua história e passou a fazer parte daquilo que ela é. Não se trata de afirmar que toda informação produz uma transformação profunda, porque acumulamos diariamente uma quantidade imensa de dados que desaparecem sem deixar marcas significativas. A transformação acontece quando o conhecimento encontra alguma estrutura interior capaz de acolhê-lo, confrontá-lo e integrá-lo. Nesse momento, aprender deixa de ser acumulação e passa a ser metamorfose.

            Por isso que algumas leituras permanecem conosco durante décadas, enquanto centenas de outras desaparecem pouco depois de fecharmos um livro. Não lembramos necessariamente de todas as páginas que lemos, dos nomes dos personagens, das datas ou das informações que encontramos ao longo do caminho. Entretanto, determinadas ideias permanecem trabalhando silenciosamente dentro de nós. Uma frase que lemos aos vinte anos pode adquirir um significado completamente diferente aos quarenta. Um conceito que parecia insignificante na juventude pode tornar-se essencial depois de uma perda, de uma mudança profissional ou de uma experiência amorosa. Um livro esquecido na estante pode continuar existindo dentro de nós mesmo quando já não conseguimos reproduzir uma única página dele. A leitura profunda possui essa característica quase misteriosa: ela não termina necessariamente quando chegamos à última página. Algumas leituras continuam acontecendo durante anos, porque aquilo que encontramos nelas passa a dialogar com acontecimentos que sequer nem haviam acontecido quando lemos o livro.

            Isso também explica por que envelhecer não significa apenas acumular anos. Envelhecer é acumular versões de nós mesmos que foram sendo modificadas pelas experiências. Há dentro de cada pessoa uma espécie de arqueologia particular, formada por tudo aquilo que ela viveu, perdeu, descobriu, compreendeu e deixou de compreender. Não somos apenas a pessoa que acordou nesta manhã... somos também, em alguma medida, todas as pessoas que fomos obrigados a deixar para trás. O adolescente que acreditava conhecer o mundo continua existindo em algum lugar da memória, mas não possui mais o mesmo território dentro de nós. O jovem que defendia determinadas certezas foi confrontado pela experiência. O adulto que acreditava ter compreendido certas coisas descobriu posteriormente que ainda havia muito a aprender. E assim seguimos, não como uma identidade perfeitamente contínua, mas como uma espécie de construção permanente na qual cada experiência importante acrescenta algo e, ao mesmo tempo, retira alguma coisa que já não consegue permanecer intacta.

            Há nisso uma beleza que nem sempre percebemos quando somos jovens. Costumamos imaginar que amadurecer significa finalmente chegar a uma versão definitiva de nós mesmos. Como se em algum momento da vida pudéssemos dizer: agora sei quem sou, agora compreendo como o mundo funciona, agora não preciso mais mudar. A experiência costuma demonstrar justamente o contrário. Quanto mais conhecemos, mais percebemos a dimensão daquilo que desconhecemos. Quanto mais lemos, mais percebemos quantos livros ainda não lemos. Quanto mais observamos a natureza, mais percebemos que nossa compreensão dela é pequena. Quanto mais convivemos com outras pessoas, mais percebemos que nenhum ser humano cabe completamente nas categorias que criamos para compreendê-lo. O conhecimento verdadeiro não produz apenas respostas, ele modifica a qualidade das nossas perguntas. E uma das marcas da maturidade intelectual é justamente essa capacidade de continuar mudando sem sentir que cada mudança representa uma derrota daquilo que fomos anteriormente.

            A experiência também possui esse poder. Há coisas que nenhum livro consegue ensinar porque precisam atravessar o corpo, o tempo e a própria existência. Uma pessoa pode estudar durante anos o significado da perda e ainda assim não compreender o que significa perder alguém que ama. Pode ler sobre envelhecimento e continuar imaginando que envelhecer é simplesmente possuir mais idade. Pode estudar sobre solidão e descobrir posteriormente que a solidão possui dimensões que nenhuma definição acadêmica consegue abarcar. A vida introduz conhecimentos que não pedimos e para os quais muitas vezes não estamos preparados. E, quando esses conhecimentos chegam, modificam a maneira como interpretamos tudo aquilo que já sabíamos. Uma experiência posterior pode reorganizar uma lembrança antiga, assim como uma nova compreensão pode alterar o significado de algo que aconteceu muitos anos antes. O passado permanece cronologicamente imóvel, mas sua interpretação continua se transformando dentro de nós.

            Por isso que algumas pessoas envelhecem permanecendo intelectualmente jovens, enquanto outras envelhecem muito antes de seus cabelos embranquecerem. A idade cronológica não determina sozinha a vitalidade interior. Existe uma diferença enorme entre acumular anos e continuar aprendendo. Quem deixou de aprender pode permanecer biologicamente vivo, mas começa a viver dentro de um mundo cada vez mais fechado, no qual as novas experiências precisam caber nas antigas certezas. Quem continua aprendendo aceita, ainda que nem sempre confortavelmente, que o mundo pode obrigá-lo a reorganizar aquilo que pensava saber. Isso não significa abandonar princípios ou transformar toda convicção em dúvida permanente. Significa reconhecer que uma mente viva não é uma sala onde colocamos objetos e depois fechamos a porta. É um espaço em permanente reorganização, no qual cada experiência significativa pode deslocar alguma coisa de lugar.

            É justamente aí que a leitura adquire uma importância que ultrapassa o simples prazer de ler. Ler é permitir que uma inteligência que existiu em outro tempo entre em contato com a nossa própria inteligência e produza alguma alteração. Quando abrimos um livro, colocamos nossa experiência diante da experiência de alguém que viveu, pensou, imaginou ou pesquisou de outra maneira. Podemos concordar ou discordar, aceitar ou rejeitar, mas alguma coisa acontece nesse encontro. Muitas vezes o livro confirma aquilo que já pensávamos. Noutras vezes destrói uma certeza. Ou... oferece uma pergunta que permanece conosco por anos. E, em determinadas ocasiões, encontramos uma ideia que parece ter esperado por nós durante toda a vida. É nesse momento que compreendemos que ler não é simplesmente passar os olhos sobre palavras. Ler é permitir que palavras produzam movimento dentro de nós.

            No fim, a grande aventura intelectual de uma vida não está em chegar a um ponto onde finalmente sabemos tudo, mas em conservar a capacidade de sermos modificados por aquilo que encontramos. Há uma espécie de pobreza interior em quem já não admite nenhuma transformação, porque toda novidade passa a ser julgada imediatamente pelas antigas certezas. Em contrapartida, existe uma forma de riqueza silenciosa naquele que ainda consegue dizer: eu não havia pensado nisso dessa maneira. Essa pequena frase representa uma das maiores demonstrações de inteligência que um ser humano pode oferecer. Ela significa que ainda existe espaço interior para que alguma coisa nova aconteça. Significa que o cérebro continua aprendendo, mas significa também algo maior: que a pessoa ainda permite que a vida participe da construção de quem ela é.

            Envelhecer, em parte, é compreender isso. Não podemos impedir que o tempo transforme nosso corpo, nem podemos recuperar exatamente as pessoas que fomos em outras épocas. Também não podemos voltar ao estado mental anterior a determinadas experiências. Mas podemos continuar oferecendo à nossa existência aquilo que a mantém intelectualmente viva: curiosidade, leitura, observação, diálogo, contemplação e disposição para aprender. Cada nova compreensão modifica alguma coisa em nós. Cada experiência importante desloca alguma peça do nosso mundo interior. Cada livro que realmente nos alcança deixa alguma marca, ainda que não consigamos identificá-la imediatamente. E assim vamos envelhecendo, não como quem simplesmente acumula tempo, mas como quem atravessa sucessivas transformações.

            No fundo, esse é o paradoxo mais valoroso da existência: passamos a vida tentando descobrir quem somos, enquanto cada descoberta modifica aquele que está descobrindo. Procuramos conhecer o mundo, mas o mundo também nos transforma enquanto o conhecemos. Lemos para compreender a realidade, mas as melhores leituras acabam modificando o leitor. Vivemos para acumular experiências, mas são as experiências que acabam nos reconstruindo. E, quando percebemos isso, compreendemos que não existe uma versão definitiva de nós mesmos esperando no futuro. Existe apenas essa construção contínua, silenciosa e inevitável de alguém que nunca permanece exatamente igual.

            Toda vez que realmente aprendemos alguma coisa, alguma coisa em nós precisa deixar de ser exatamente como era. Isso não é uma perda. É precisamente a maneira que a vida encontrou para impedir que nos tornemos estátuas de nós mesmos.

 

QUANDO UMA CULTURA PASSA A REPRESENTAR UMA CIDADE INTEIRA

QUANDO UMA CULTURA PASSA A REPRESENTAR

UMA CIDADE INTEIRA

por Heitor Jorge Lau

            Santa Cruz do Sul tem uma história marcada pela imigração alemã. Isso é indiscutível. Os primeiros imigrantes chegaram à região a partir de 1849 e deixaram marcas profundas na arquitetura e gastronomia, nas festas e sociedades, nos costumes e em diferentes aspectos da vida local. Preservar essa memória é legítimo e necessário. O problema começa quando preservar uma parte da história passa a apresentar essa parte como se fosse a própria história inteira.

            Basta observar a maneira como a cultura do município é frequentemente divulgada. A palavra “alemã” aparece associada à identidade local com uma frequência impressionante. Oktoberfest, grupos folclóricos, danças, trajes, culinária, sociedades, monumentos, roteiros turísticos, intercâmbios e inúmeras manifestações reforçam continuamente essa narrativa. Não se trata de negar a importância de nenhuma delas. Trata-se de perguntar por que outras histórias, outras origens e outras formas de cultura não recebem a mesma capacidade de ocupar o imaginário coletivo.

            E essa não é apenas uma impressão pessoal. Um parecer do próprio Conselho Estadual de Cultura do Rio Grande do Sul descreveu Santa Cruz do Sul como marcada por uma “narrativa germânica” e chegou a identificar nessa construção um “mito de origem” baseado na germanidade. O mesmo documento registra algo ainda mais importante: pesquisas realizadas pela universidade local indicavam que, desde a última década do século XX, a maioria da população residente no município já não era de descendência germânica.

            Isso deveria provocar uma reflexão. Se a população mudou e novas famílias chegaram, se diferentes grupos étnicos passaram a viver aqui e novas manifestações culturais foram incorporadas à vida cotidiana, por que continuamos contando a história do município como se ela tivesse parado no século XIX?

            O próprio Plano Decenal de Cultura de Santa Cruz do Sul reconhece que a cidade possui uma “Aquarela Cultural”. O documento menciona, além da influência alemã, as culturas italiana, afrodescendente, árabe, gaúcha e popular, incluindo o carnaval. Reconhece também a diversidade gastronômica e iniciativas destinadas a apresentar diferentes segmentos culturais da cidade.

            A pergunta, então, não é se devemos abandonar a cultura alemã. Não devemos. A pergunta é outra: quanto espaço dedicamos às demais? Porque cultura brasileira não é uma coisa abstrata que existe somente em outras cidades. Ela está aqui. Está na música que nasceu nas periferias, no samba e carnaval, na literatura e cultura negra, nas tradições indígenas, na cultura popular, nas manifestações nordestinas trazidas por famílias que migraram para o Sul, na cultura gaúcha, na produção artística contemporânea, no teatro, na fotografia, dança, música urbana, culinária e em todas as formas de criação que foram surgindo depois da chegada dos primeiros imigrantes.

            E existe uma diferença fundamental entre preservar uma herança e transformar uma herança em hierarquia cultural. Quando uma cidade celebra durante décadas uma determinada origem com grande visibilidade, grandes eventos, forte divulgação turística e sucessivos projetos culturais, enquanto outras manifestações aparecem de maneira episódica e secundária, cria-se uma percepção de que uma cultura é mais representativa da cidade do que as demais.

            Os próprios documentos públicos oferecem elementos para essa discussão. Em 2024, por exemplo, a prefeitura abriu editais específicos para fomento à cultura germânica, à cultura italiana e às tradições gaúchas. Em 2026, a 41ª Oktoberfest voltou a aparecer no sistema estadual de cultura como projeto de grande dimensão, associado explicitamente à celebração da herança germânica. O projeto aprovado registra R$ 1 milhão como valor da opção e R$ 200 mil como valor total solicitado.

            Nada disso é uma acusação de irregularidade. São políticas culturais legítimas, dentro dos mecanismos existentes. Mas políticas culturais também podem e devem ser discutidas pela sociedade. Afinal, quem decide aquilo que merece ser lembrado está, de certa maneira, decidindo aquilo que uma comunidade considera importante sobre si mesma. E é justamente aí que reside minha inquietação.

            Não tenho absolutamente nada contra a cultura alemã. Tenho contra a ideia de que a descendência de uma parcela dos habitantes possa continuar funcionando como uma espécie de certificado de autenticidade cultural do município inteiro. Santa Cruz do Sul não pertence aos descendentes dos imigrantes alemães. Também não pertence aos descendentes de italianos, portugueses, africanos, indígenas ou de qualquer outro grupo. Pertence às pessoas que vivem aqui.

            A cidade de hoje é resultado de tudo aquilo que aconteceu depois de 1849 também. São gerações que nasceram aqui, pessoas que chegaram de outros lugares, famílias que se misturaram, costumes que desapareceram, outros que surgiram, novas linguagens artísticas, novas formas de pensar e uma população que já não pode ser reduzida à fotografia dos seus primeiros colonizadores.

            Uma cidade madura não precisa apagar suas origens para reconhecer o presente. Pode preservar a memória alemã sem transformá-la em pedestal. Pode celebrar a Oktoberfest sem fazer dela uma síntese da identidade municipal. Pode contar a história dos imigrantes sem esquecer daqueles que vieram depois. Pode admirar seus antepassados sem transformar seus antepassados em donos simbólicos da cidade.

            A cultura alemã faz parte da história de Santa Cruz do Sul. Mas Santa Cruz do Sul é maior do que a cultura alemã. A pergunta mais relevante é exatamente esta: quando olhamos para a cultura que promovemos, financiamos, divulgamos e ensinamos, estamos mostrando a cidade que fomos ou a cidade que somos? Uma cidade não deveria viver eternamente reverenciando quem chegou primeiro. Deveria também aprender a enxergar quem chegou depois. E, sobretudo, deveria reconhecer aqueles que estão construindo agora a cultura que será lembrada no futuro.