QUANTAS PASSAGENS
"PROBLEMÁTICAS" EXISTEM NA BÍBLIA?
Por Heitor Jorge Lau
Os números brutos
Pesquisadores que catalogaram
mortes diretamente atribuídas a Deus na Bíblia chegaram a aproximadamente 2,5
milhões de mortes causadas pelo divino — contra menos de uma dezena
atribuídas a Satanás. Por outro lado, um estudo acadêmico argumenta que quase
97% do texto hebraico é não-violento — o que significa que os 3% restantes de
um livro com 929 capítulos no Antigo Testamento ainda representam diversas,
muitas passagens de violência explícita.
As categorias do problema
O problema não é só
violência. Existem pelo menos 6 categorias distintas de passagens
perturbadoras:
1. Genocídios ordenados
por Deus
Em Números, Deus ordena a
Moisés que destrua um reino inteiro. O exército mata todos os homens e captura
mulheres e crianças — mas isso enfurece Moisés, que então manda matar todos os
prisioneiros, preservando apenas as meninas virgens como espólio.
2. Punições completamente
desproporcionais
Em Deuteronômio, há a ordem
de que qualquer pessoa que incentive a adoração de outro deus deve ser
imediatamente executada — sem exceções, mesmo que seja seu amigo, irmão, esposa
ou filho.
3. Estupro sistematizado
Há uma quantidade
perturbadora de histórias envolvendo estupro na Bíblia. O caso de Diná: a
punição do estuprador foi apenas pagar 50 moedas ao pai e casar com a vítima
(Deuteronômio 22:28-29), e o uso de mulheres como espólio de guerra se repetem
ao longo de vários livros.
4. Passagens usadas para
oprimir grupos até hoje
Versículos como Romanos
1:26-27 foram usados historicamente para perseguir homossexuais, com alguns
pregadores contemporâneos afirmando que Deus teria enviado a AIDS como punição
divina.
5. O Apocalipse inteiro
O Apocalipse é estruturado
como uma série de três catástrofes — 7 selos, 7 trombetas e 7 taças de ira —
trazendo guerra, morte, colapso econômico, fome, tormento e destruição cósmica.
O livro inteiro é essencialmente um roteiro de terror e vingança em escala
universal.
6. Canibalismo aprovado
como cenário bíblico
Há um episódio em que duas
mulheres famintas combinam de comer seus próprios filhos para sobreviver
durante um cerco inimigo — e a história é narrada para mostrar a gravidade da
situação ao rei, sem nenhuma condenação moral explícita do ato.
Por que isso importa
A Bíblia é frequentemente
tratada como um documento homogêneo com uma mensagem consistentemente
não-violenta — mas está longe de ser um livro pacífico. As histórias violentas
são frequentemente ignoradas ou explicadas como resquícios culturais da época em
que foram transmitidas. O historiador Philip Jenkins afirma que a Bíblia está
cheia de "textos de terror", mas argumenta que não devem ser tomados
literalmente — e que historiadores do século VIII a.C. os teriam adicionado
para embelezar a história ancestral e prender a atenção dos leitores.
CONCLUSÃO NUMÉRICA
HONESTA
Categoria Estimativa de passagens
Violência
ordenada por Deus 50
a 100 + episódios
Escravidão
regulamentada (não proibida) Dezenas de
leis
Subordinação
feminina 20 a 30
passagens explícitas
Punição
de morte por infrações menores 30 + casos
Genocídios
e massacres étnicos 10 a 15
episódios maiores
Estupro sem punição adequada 10 + episódios
Estimativa conservadora de
estudiosos: entre 150 e 300 passagens que, lidas com ética contemporânea, são
indefensáveis sem contextualização histórica profunda. O problema real não é a
existência dessas passagens — é a leitura seletiva e acrítica de um livro que a
maioria nunca leu de fato.
AS 10 PASSAGENS
QUE A IGREJA NÃO VAI LER NO DOMINGO
(vamos descrever apenas 10 porque a lista é imensa)
1. Deus manda Abraham
matar o próprio filho (Gênesis 22:2)
"Toma agora teu filho,
teu único filho Isaque, a quem amas, e vai-te... e oferece-o ali em
holocausto."
*** Um pai que ama pede que
você assassine sua criança para provar lealdade. Se um humano fizesse isso
hoje, estaria preso.
2. Deus endurece o coração
do Faraó... e depois o pune por isso (Êxodo 9:12 + 14:28)
Deus propositalmente endurece
o coração do Faraó para ele não libertar os hebreus — e então afoga o exército
egípcio como punição pela teimosia que Ele mesmo causou.
*** Livre-arbítrio:
literalmente cancelado.
3. Dois ursos despedaçam
42 crianças por zoar um careca (2 Reis 2:23-24)
Crianças chamam o profeta
Eliseu de "careca". Eliseu as amaldiçoa em nome do Senhor. Dois ursos
saem do mato e matam 42 crianças.
*** Proporcionalidade zero.
4. Lot oferece suas filhas
virgens para serem estupradas por uma multidão (Gênesis 19:8)
"Tenho duas filhas que
não conheceram varão; deixai-me, rogo-vos, tirá-las para vós..."
*** E Lot é descrito como o
homem justo da cidade. O padrão de "homem de bem" da época era
assustador.
5. Deus mata 70.000
pessoas inocentes pelo pecado de Davi (2 Samuel 24:15)
Davi faz um censo que
desagrada a Deus. A punição? Uma praga que mata 70 mil pessoas que não tinham
nada a ver com o censo.
*** Responsabilidade coletiva
divina.
6. A escravidão é
regulamentada, não proibida (Êxodo 21:7)
"Se um homem vender sua
filha como escrava, ela não sairá como saem os servos."
*** Deus tem tempo para
regulamentar o preço de bois e a forma correta de vender filhas. Mas abolir a
escravidão? Não era prioridade.
7. Jefté queima a própria
filha viva como promessa a Deus (Juízes 11:30-39)
Jefté promete sacrificar o
primeiro ser vivo que sair de sua casa se vencer a batalha. Sua filha sai
correndo para recebê-lo. Ele a queima em holocausto. Deus não intervém.
*** Abraham foi salvo no
último segundo. A filha de Jefté não teve essa sorte.
8. Deus ordena o massacre
de mulheres, crianças e bebês — mas guardem as virgens (Números 31:17-18)
"Matai, pois, agora
todos os varões entre as crianças; matai também toda mulher... mas todas as
meninas que não conheceram homem, guardai-as vivas para vós."
*** O texto sagrado
regulamentando espólios de guerra que incluem meninas.
9. Elias manda executar
450 profetas num concurso de quem acende fogueira mais rápido (1 Reis 18:40)
Após vencer o duelo dos
altares, Elias ordena: "Tomai os profetas de Baal; não escape nenhum
deles." E os degola todos à beira do rio.
*** Tolerância religiosa:
também cancelada.
10. A mulher deve ficar em
silêncio e não pode ensinar homens (1 Timóteo 2:12)
"Não permito que a
mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em
silêncio."
*** Esse versículo é de Paulo
— e ainda é usado ativamente para barrar mulheres de posições de liderança em
igrejas no século XXI.
Conclusão honesta
A Bíblia é um documento
histórico extraordinariamente complexo, escrito por dezenas de autores ao longo
de mais de mil anos, refletindo culturas brutais, tribais e patriarcais. O
problema não é existir — é ser lida de forma seletiva e acrítica, como se fosse
um manual de ética universal e imutável. Quem realmente leu o livro todo tende
a ter perguntas muito mais difíceis do que respostas fáceis. No fundo, as
perguntas inexistem porque ninguém - de fato - lê esse livro de historinhas. Ou...caso
leia ou tenha lido, o raciocínio e a lógica passaram longe, muito longe das
páginas e contextos. No fundo esse livro histórico (de faz de conta) é uma “tábua
de salvação”, afinal, não analisar, criticar e refletir é uma “dádiva”.
E...selecionar somente aquilo que se deseja ver é, no mínimo, o mesmo que olhar
para o lado para não perceber a verdade.