O SILÊNCIO DAS
ARAUCÁRIAS E O PESO DESIGUAL DA LEI
Heitor Jorge Lau
Quando li a pequena nota publicada no jornal Gazeta do Sul, na edição de sábado, 1º de agosto de 2026, intitulada "Sobre Araucárias", o sentimento de tristeza e indignação voltou redobrado. A impressão é que, quando interesses econômicos entram em cena, a esperança de preservar o patrimônio natural se torna cada vez mais distante. Toda sociedade organizada depende de um princípio simples: a lei deve ser igual para todos. Essa frase aparece em discursos, livros, campanhas educativas e documentos oficiais. Representa um ideal civilizatório. No entanto, basta acompanhar o noticiário para perceber que, em muitos momentos, esse princípio parece perder força diante de interesses econômicos.
Pequena manifestação anterior na Gazeta do Sul A recente
notícia do corte de diversas araucárias para a construção de um condomínio
residencial fechado desperta uma inquietação que ultrapassa a perda das
árvores. A questão central não é apenas ambiental. É moral. É institucional. É
o sentimento crescente de que existem diferentes pesos e diferentes medidas na
aplicação das normas. A
araucária não é uma árvore qualquer. Ela faz parte da identidade do Sul do
Brasil. Sua presença moldou paisagens, alimentou comunidades, abrigou inúmeras
espécies da fauna e tornou-se um dos símbolos naturais do país. Uma araucária
leva décadas para alcançar a imponência que encanta quem passa por ela.
Cinquenta anos representam metade de uma vida humana. Derrubar uma árvore assim
exige poucos minutos. Recuperar esse patrimônio leva gerações.
É evidente
que cidades precisam crescer. Pessoas precisam de moradias. O desenvolvimento
urbano faz parte da evolução das sociedades. O problema não está em construir.
O problema está em aceitar que o crescimento aconteça sempre às custas daquilo
que não pode ser reposto no tempo de uma geração. As leis ambientais existem
justamente para estabelecer limites. Elas não foram criadas para impedir o
desenvolvimento, mas para conciliá-lo com a preservação do patrimônio natural.
Quando esses limites parecem desaparecer diante de grandes investimentos,
instala-se uma perigosa sensação de seletividade jurídica.
O cidadão
comum conhece bem essa realidade. Quem corta uma árvore em seu terreno sem
autorização pode enfrentar multas severas. Quem realiza pequenas intervenções
em áreas protegidas responde rapidamente aos órgãos fiscalizadores. Quem
constrói alguns metros além do permitido pode ser obrigado a demolir a obra.
Entretanto, quando empreendimentos milionários entram em cena, surgem licenças,
compensações, autorizações especiais, estudos técnicos, interesses públicos e
interpretações jurídicas que, muitas vezes, parecem flexibilizar aquilo que
antes era considerado inegociável.
Não se
trata de afirmar que toda autorização ambiental seja ilegal. Existem processos
técnicos sérios e profissionais comprometidos com seu trabalho. A questão é
outra. O cidadão observa o resultado final e pergunta: se a proteção ambiental
é um valor constitucional, por que tantas áreas de elevado valor ecológico
continuam desaparecendo? Se determinadas espécies são protegidas, por que
continuam sendo derrubadas? Se a legislação é rigorosa, por que a paisagem muda
tão rapidamente quando grandes investimentos entram em cena?
Essas
perguntas não nascem da ignorância. Nascem da percepção cotidiana de que o
poder econômico frequentemente possui uma capacidade muito maior de negociar
limites do que possui o cidadão comum. Essa percepção corrói um dos pilares
mais importantes da democracia: a confiança nas instituições. Quando as pessoas
deixam de acreditar que a lei é aplicada de forma equilibrada, deixam também de
enxergar legitimidade nas decisões públicas. Surge o sentimento de que cumprir
regras é obrigação apenas de alguns, enquanto outros encontram caminhos para contorná-las.
Esse processo enfraquece a cidadania, estimula o descrédito e alimenta a
sensação de injustiça.
A natureza,
por sua vez, não negocia. Uma floresta não reconhece decretos, pareceres ou
interesses imobiliários. Cada árvore derrubada representa perda de
biodiversidade, alteração do clima local, redução da infiltração da água,
diminuição do abrigo para aves e animais e empobrecimento da paisagem. Não
existe compensação capaz de devolver imediatamente aquilo que levou meio século
para existir. Plantar dezenas de mudas não devolve cinquenta anos de história.
Compensação ambiental possui seu valor, mas não pode ser utilizada como
argumento para banalizar a eliminação de ecossistemas consolidados. Existe uma
diferença profunda entre restaurar uma área e preservar aquilo que já estava
plenamente formado.
Também é
necessário refletir sobre o significado da palavra progresso. Durante muito
tempo, progresso foi confundido com concreto, asfalto e expansão imobiliária.
Hoje, sociedades mais desenvolvidas entendem que qualidade de vida inclui áreas
verdes, árvores maduras, biodiversidade e equilíbrio ambiental. O mundo inteiro
procura recuperar aquilo que destruiu no passado. Enquanto isso, ainda existem
localidades que continuam repetindo erros já reconhecidos por outras nações. O
desenvolvimento verdadeiramente sustentável não escolhe entre economia e meio
ambiente. Ele compreende que ambos caminham juntos. Cidades arborizadas
tornam-se mais valorizadas. Áreas preservadas atraem turismo, melhoram o
conforto térmico, reduzem enchentes e elevam a qualidade de vida de seus
moradores. A preservação não representa atraso. Representa inteligência
coletiva.
A
discussão, portanto, não é contra condomínios, empresas ou investimentos. É a
favor da coerência. Se a lei existe, deve valer para todos. Se uma espécie
merece proteção, essa proteção não pode depender do tamanho do investimento
envolvido. Se o patrimônio ambiental pertence à sociedade, nenhuma decisão
deveria tratá-lo apenas como um obstáculo financeiro a ser removido. Nenhuma
árvore possui voz para protestar. Nenhuma floresta publica notas de repúdio.
Nenhuma araucária comparece às audiências públicas para defender sua
permanência. Essa responsabilidade pertence à sociedade.
A forma
como tratamos nossas árvores revela a forma como entendemos o futuro. Quem
observa apenas o lucro imediato enxerga madeira, terreno e metragem construída.
Quem olha além percebe memória, identidade, equilíbrio ecológico e legado. As
próximas gerações dificilmente cobrarão dos atuais administradores quantos
condomínios foram construídos em 2026. Em compensação, certamente perguntarão
por que permitimos que patrimônios naturais desaparecessem quando ainda havia
tempo para preservá-los. A credibilidade das leis não depende apenas do texto
escrito nos códigos. Depende da coragem de aplicá-las com o mesmo rigor,
independentemente do poder econômico, da influência política ou do tamanho do
empreendimento. Quando a igualdade perante a lei deixa de ser prática e passa a
ser apenas discurso, toda a sociedade perde. E, junto com ela, caem
silenciosamente árvores que levaram meio século para crescer, mas apenas alguns
minutos para desaparecer.








