A HISTÓRIA NÃO CONTADA DA ESCALA
6X1:
O QUE ESTÁ POR TRÁS DO DEBATE
Uma
viagem até 1780
Para
entender por que ainda discutimos o fim da escala 6x1 (mesmo que aprovada o seu
fim), é preciso voltar a uma época em que o trabalho não era medido em horas,
mas em tarefas. Numa aldeia europeia de 1780, ninguém cumpria “turno”: as
pessoas ordenhavam, plantavam, consertavam cercas e buscavam água até a tarefa
acabar. O dia terminava com o sol, e no inverno, quando a terra congelava, o
trabalho praticamente parava. O historiador Edward Thompson batizou essa lógica
de “orientação pela tarefa”: o ritmo era ditado pela natureza e pela
necessidade, não por um relógio. À primeira vista, pode parecer um modo de vida
mais humano e menos apressado. Mas essa pausa forçada no inverno não era
descanso — era fome. A dispensa esvaziava e restava torcer para o estoque durar
até a primavera.
O
quanto já avançamos
Comparado
a essas pessoas, qualquer um hoje vive de forma extraordinariamente
privilegiada. Basta reparar no cotidiano: internet, smartphone, computador, ...
Em poucos minutos, uma pessoa comum consome produtos vindos dos cantos mais
remotos do planeta — um exército invisível de gente trabalha para sustentar
esse padrão de vida.
Há
até uma forma de medir isso em energia: em média, uma pessoa consome cerca de
2.500 watts. Como um ciclista em boa forma gera algo em torno de 50 watts,
seriam necessárias por volta de 150 pessoas trabalhando oito horas por dia só
para sustentar o estilo de vida de um único indivíduo — e cerca de 600 pessoas
para uma família de quatro. Quem fosse transportado de volta a 1780 veria essa
segurança desaparecer instantaneamente, ficando exposto à fome, à tuberculose,
à malária, à pólio e a uma série de doenças hoje quase esquecidas.
Nos
últimos 200 anos, dois movimentos aconteceram ao mesmo tempo: a humanidade
ficou “mais rica” e passou a trabalhar cada vez menos horas. No Brasil, os
dados confiáveis começam apenas nos anos 1950, mas já mostram que o trabalhador
médio saiu de 2.483 horas anuais em 1970 para cerca de 1.994 horas atualmente—
quase 490 horas a menos por ano, o equivalente a praticamente dez horas a menos
por semana.
Dinheiro
é uma régua enganosa para medir riqueza, porque se desvaloriza e varia de país
para país. O tempo é uma medida mais honesta. Há duzentos anos, um trabalhador
inglês precisava de mais de seis horas de trabalho para pagar uma hora de luz à
noite; hoje, essa mesma hora custa menos de um segundo de trabalho. O mesmo
vale para uma cesta de matérias-primas básicas — petróleo, trigo, café, ...:
entre 1980 e 2018, o “preço em tempo” dessa cesta caiu 72%. Cada vez que o
custo de algo cai em termos de tempo, é tempo de vida que volta para o bolso
das pessoas.
A
virada brutal: a fábrica
O
debate sobre a escala 6x1 é, no fundo, uma discussão sobre tempo — mas a
história tem uma virada importante, e ela passa pela Revolução Industrial.
Antes da máquina a vapor, trabalhar menos significava passar fome. Depois dela,
e por muito tempo ainda, trabalhar menos continuou sendo impossível — só que
por outro motivo: a lógica da própria máquina.
Uma
máquina a vapor era cara, e hora ociosa era prejuízo. Pela primeira vez na
história, o tempo do trabalhador precisou se render ao tempo da máquina: se ela
rodava 12 horas, o operário ficava disponível pelas mesmas 12 horas. As
fábricas criaram sistemas de multas — atrasos de poucos minutos custavam meia
hora de salário, cantar ou assobiar também podia ser punido (incrível, não!) —
e há registros de patrões que adulteravam os próprios relógios da fábrica para
roubar minutos dos trabalhadores.
Foi
justamente nesse período que as jornadas atingiram o pico histórico: em
Londres, chegaram a 70 horas semanais. Parte disso vinha da imposição dos empregadores,
mas parte também era escolha das famílias, atraídas por bens de consumo
inéditos como açúcar, chá e tecidos — o que o historiador Jan de Vries chamou
de “revolução do esforço”. Por volta de 1800, o mundo bateu seu recorde
histórico de horas trabalhadas. A partir daí, as jornadas começaram a cair — e
não pararam de cair por 150 anos.
O
motor por trás da queda: produtividade
A
palavra que explica essa reversão é produtividade — um termo que costuma soar
como discurso motivacional, mas significa exatamente o oposto de “trabalhar
mais”. Produtividade é produzir mais valor por hora trabalhada, não trabalhar
mais horas. Atualmente um pedreiro brasileiro não trabalha mais do que um
pedreiro em 1926 — na verdade, provavelmente trabalha menos — e ainda assim
constrói muito mais em menos tempo, porque tem betoneira em vez de pá,
furadeira elétrica, caminhão de entrega, cimento padronizado e energia elétrica
disponível.
Economistas
costumam apontar três motores da produtividade:
1.
Capital físico — máquinas, estradas, energia, ferramentas que multiplicam o
rendimento de cada hora de trabalho.
2.
Capital humano — educação, saúde, conhecimento e experiência acumulada pelo
trabalhador.
3.
Produtividade total dos fatores — a camada mais difícil de enxergar:
organização, tecnologia, instituições, regras do jogo e confiança, que fazem
capital e trabalho renderem mais juntos do que renderiam isoladamente. É como a
diferença entre uma cidade com semáforos sincronizados e ruas bem cuidadas e
outra caótica, cheia de buracos e regras inconsistentes — mesmos carros, mesmos
motoristas, resultados completamente diferentes.
Quando
esses três fatores avançam juntos, cada hora de trabalho passa a valer mais, e
isso abre uma possibilidade inédita na história: trabalhar menos sem
empobrecer. Mas o excedente gerado pela produtividade pode seguir caminhos
distintos — virar salário maior, jornada menor, preço mais baixo ou lucro maior
para o proprietário do negócio. Para onde ele vai depende de negociação, de
lei, de força sindical e da cultura de cada sociedade.
Produtividade
não é uma qualidade da pessoa — é do lugar
Existe
a tentação de explicar diferenças de produtividade pelo esforço individual:
teria gente mais trabalhadora e gente mais preguiçosa. Um estudo de 2008 dos
economistas Michael Clemens, Cláudio Montenegro e Lant Pritchett derrubou essa
ideia. Eles compararam trabalhadores estatisticamente idênticos — mesma idade,
escolaridade, experiência e sexo — que migraram do país de origem para os
Estados Unidos. Um trabalhador boliviano passava a ganhar quase três vezes mais
só por mudar de país; um nigeriano, mais de oito vezes mais — sem que nada na
pessoa tivesse mudado. Esse fenômeno recebeu o nome de “prêmio do lugar”:
se a mesma pessoa, com o mesmo esforço, produz oito vezes mais de um lado de
uma fronteira do que do outro, a produtividade não é um traço individual, mas
uma propriedade do sistema ao redor — das máquinas, das estradas, da energia,
das instituições...
Onde
o Brasil está nessa história
O
trabalhador brasileiro não é preguiçoso — pelo contrário, trabalha bastante:
cerca de 1.708 horas por ano, contra 1.386 horas de um trabalhador alemão, mais
de 300 horas de diferença. O problema não é a quantidade de horas, é o valor
gerado em cada uma delas. Segundo estimativas da Organização Internacional do
Trabalho, cada hora trabalhada no Brasil gera cerca de US$ 21 de valor, contra
mais de US$ 80 nos Estados Unidos e cerca de US$ 70 na média dos países ricos —
o Brasil aparece na 94ª posição entre 184 países. Em 1970, o Brasil produzia o
dobro da Coreia do Sul; hoje um trabalhador brasileiro produz menos da metade
do que produz um coreano.
Vários
fatores estruturais explicam essa distância:
Educação
de baixa qualidade. O Brasil quase universalizou o acesso à escola, mas o
aprendizado é frágil: menos da metade das crianças que terminam o primário
conseguem interpretar um texto curto. Levando em conta o que de fato se
aprende, os quase 13 anos de escolaridade média equivalem a apenas 7,9 anos
efetivos, segundo o Banco Mundial. No último grande exame internacional, o
estudante brasileiro médio de 15 anos ficou na posição 64 entre 81 países em
matemática. O Banco Mundial estima que, com educação e saúde de qualidade para
todos, a renda de cada brasileiro poderia ser dois terços maior.
Infraestrutura
precária. Transportar produtos pelo Brasil custa entre 12% e 15% de tudo
que o país produz, contra 8% a 10% nos países ricos. Das mais de 1,7 milhão de
km de estradas, só 12% são pavimentadas, e a malha ferroviária ativa é de
apenas 10 mil km, um terço do que já existiu.
Estado
que protege em vez de estimular a concorrência. Há duas formas de uma
empresa lucrar: inovando e conquistando o consumidor, ou obtendo regimes
fiscais especiais e proteção contra a concorrência estrangeira. A primeira
melhora a produtividade geral; a segunda tende a aumentar a desigualdade e
travar a mobilidade social. Setores mais organizados e com mais capacidade de
pressionar Brasília conseguem mais benefícios — não necessariamente os mais
relevantes para a economia. A economia brasileira também é pouco aberta ao
comércio exterior: importações e exportações somam cerca de um terço do PIB,
bem abaixo da média mundial (acima de 50%) e do que o próprio tamanho do país
justificaria, segundo modelos do Banco Mundial.
Crédito
mal direcionado. Mais de 40% do crédito no sistema financeiro brasileiro é
direcionado, mas estudos do Banco Mundial não encontraram evidência de que o
crédito subsidiado, como o do BNDES, tenha melhorado a alocação de recursos —
ele tende a beneficiar empresas grandes e estabelecidas, não as mais
inovadoras.
Burocracia
excessiva. Uma empresa brasileira gasta, em média, mais de 1.500 horas por
ano só para calcular, declarar e pagar tributos — dez vezes mais que em países
ricos, onde esse número gira em torno de 150 horas.
O
resultado é um ambiente em que empresas pouco produtivas sobrevivem protegidas
da concorrência, em vez de serem substituídas por outras mais eficientes — um
mecanismo que funciona em países desenvolvidos e que, no Brasil, está
emperrado.
O
debate da escala 6x1 – que agora deixa de existir...pelo menos a escala
É
nesse contexto que entra a discussão sobre a escala 6x1 — o regime de seis dias
trabalhados por um de folga, realidade de cerca de 14,8 milhões de
trabalhadores brasileiros, um terço dos ocupados com registro formal, segundo o
instituto DIEESE.
Em
maio, a Câmara dos Deputados aprovou uma PEC que reduz a jornada máxima de 44
para 40 horas semanais, distribuídas em cinco dias com duas folgas, sem redução
salarial — atingindo não só quem está na escala 6x1, mas cerca de 64% dos
trabalhadores formais que cumprem mais de 40 horas semanais.
De
um lado, defensores do fim da escala apontam a injustiça de passar seis dias
por semana longe da família, sem tempo para estudar ou simplesmente viver. Do
outro, opositores temem que mexer na jornada encareça o trabalho e prejudique a
economia.
Quem
ficou de fora do debate
Isso
não significa que os quase 15 milhões de trabalhadores na escala 6x1 tenham que
se conformar com a situação — cada
pessoa tem direito à sua posição sobre o tema. Mas há um grupo ainda maior e
mais vulnerável que nenhuma reforma da CLT alcança: os trabalhadores informais.
Segundo
o IBGE, quem trabalha por conta própria é, em média, quem mais trabalha no
Brasil — 45,3 horas semanais, mais que empregados e empregadores —, mas a maior
parte dessas pessoas não tem CNPJ: é o vendedor de rua, o motorista de
aplicativo, a diarista, o autônomo... São 38 milhões de trabalhadores sem
carteira assinada e sem qualquer proteção — quatro em cada dez trabalhadores
brasileiros, chegando a mais da metade em estados como o Maranhão. Um
trabalhador informal produz, em média, um quarto do que produz um trabalhador
formal, não por falta de esforço, mas porque a empresa em que atua não investe,
não treina e não consegue ganhar em escala.
Essas
são as mesmas 150 pessoas que, em média, sustentam o padrão de vida de qualquer
um hoje — só que muitas delas estão aqui mesmo, no Brasil: o entregador que
sobe a rua às dez da noite, a diarista que pega três conduções, o autônomo que
trabalha 45 horas por semana para levar para casa um quarto do que uma pessoa
formal ganha. Nenhuma reforma trabalhista em discussão alcança essas pessoas.
Conclusão
Nos
últimos 200 anos, a humanidade conseguiu algo raro: aprender a trabalhar menos
e viver melhor ao mesmo tempo, devolvendo hora por hora o tempo que antes era
gasto apenas para não morrer de fome. O Brasil trilhou parte desse caminho, mas
parou no meio. Uma jornada mais curta — mesmo que num modelo como o 4x3 — não é
uma fantasia inalcançável: é o destino natural de um país que produz o
suficiente para bancar o próprio descanso. O problema é que essa conquista não
se decreta por lei; ela se constrói, degrau por degrau, com aumento real de
produtividade, resultado direto de investimento em educação, infraestrutura,
abertura econômica, crédito bem direcionado e menos burocracia. Sem isso,
discutir e aprovar apenas a duração da jornada resolve a superfície do
problema, sem tocar no que está por baixo dele.



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