A NÉVOA DAS PALAVRAS
sobre o obscurantismo acadêmico e a escrita que esconde mais do que revela
Por Heitor Jorge Lau
Existe uma crença muito difundida nos meios acadêmicos e em certos círculos intelectuais de que a profundidade de um pensamento se mede pela dificuldade de compreendê-lo. Quanto mais impenetrável o texto, quanto mais densa a teia de neologismos, jargões e referências cruzadas, mais sério e sofisticado o autor parece ser. Essa crença é não apenas falsa — é perigosa. Ela confunde obscuridade com profundidade, hermetismo com rigor, e inacessibilidade com originalidade. E, ao fazer isso, protege ideias medíocres de qualquer escrutínio crítico real, porque ninguém consegue examinar com seriedade aquilo que não consegue sequer compreender.
A história do pensamento humano está repleta de exemplos do contrário. Os maiores filósofos conseguiram tratar dos problemas mais complexos da existência com uma clareza que não empobrecia o pensamento, mas o tornava mais poderoso. Platão escrevia em forma de diálogo, acessível a qualquer pessoa letrada de sua época. Descartes, ao formular suas Meditações, optou por uma prosa limpa e direta, sem a armadura de um vocabulário especializado desnecessário. Hume escrevia com elegância e precisão simultaneamente. Bertrand Russell, um dos lógicos mais rigorosos do século XX, era também um prosador admirável, capaz de explicar problemas filosóficos difíceis sem sacrificar nem a clareza nem a profundidade. Einstein dizia que, se não se consegue explicar algo de forma simples, é porque ainda não se entendeu bem o suficiente. Essa máxima deveria estar afixada na entrada de todos os departamentos de humanidades do mundo.
O que aconteceu, então, para que uma parte significativa da produção acadêmica contemporânea — especialmente nas áreas de teoria literária, estudos culturais, filosofia continental e estudos de gênero — tenha se tornado tão deliberadamente ilegível? A resposta não é inocente. O obscurantismo acadêmico cumpre funções muito específicas, e nenhuma delas tem a ver com a busca honesta pela verdade ou pela compreensão.
A primeira função é a de proteção. Um texto que ninguém consegue ler com clareza é um texto que ninguém consegue refutar com clareza. A obscuridade serve como escudo: quando um crítico aponta uma contradição ou uma afirmação sem evidência, o autor ou seus defensores podem sempre responder que houve incompreensão, que o leitor não captou as nuances, que o argumento é mais sutil do que pareceu. Essa manobra é intelectualmente desonesta, mas eficaz. Ela transforma a imprecisão em sofisticação e o erro em interpretação equivocada do leitor.
A segunda função é a de distinção social. O domínio de um vocabulário especializado e inacessível funciona como uma senha de acesso a determinados círculos acadêmicos. Quem usa os termos certos, cita os autores certos, escreve no estilo certo, pertence ao clube. Quem não usa, fica de fora — não necessariamente porque não pensa com profundidade, mas porque não aprendeu o dialeto do grupo. Isso transforma o conhecimento em hierarquia social, e a produção intelectual em performance de pertencimento. O problema é que a performance pode existir sem o conteúdo — e frequentemente existe.
A terceira função, talvez a mais grave, é a de ilusão de profundidade. Frases longas, recheadas de substantivos abstratos empilhados uns sobre os outros, referências a teóricos que também escrevem de forma impenetrável, negações que negam as negações e afirmações que se contradizem deliberadamente — tudo isso pode criar, em certos leitores, a impressão de que está diante de algo extraordinariamente complexo e importante. A impressão, nesse caso, não nasce da compreensão, mas exatamente da ausência dela. O leitor confunde a sua dificuldade de entender com a grandeza do que não entende, e conclui que o problema está nele, não no texto. É uma forma sofisticada de ilusão coletiva — e tem um nome: o Efeito do Rei Nu, aplicado ao mundo acadêmico.
O filósofo americano Daniel Dennett descreveu com precisão esse fenômeno ao falar sobre o que chamou de "pomposidade filosófica" — a tendência de certos autores de escrever de maneira deliberadamente obscura para parecer mais profundos do que são. O físico Alan Sokal foi mais longe: em 1996, submeteu a uma importante revista acadêmica de estudos culturais um artigo completamente sem sentido, recheado de jargão pós-moderno e referências a físicos usadas de forma totalmente incorreta. O artigo foi aceito e publicado. Sokal revelou então a fraude, demonstrando que os editores da revista não tinham como avaliar o conteúdo real do artigo — porque o critério de qualidade não era a coerência do argumento, mas o estilo e o vocabulário. O escândalo ficou conhecido como o "Caso Sokal" e permanece como uma das críticas mais devastadoras ao obscurantismo acadêmico já produzidas.
É precisamente nesse contexto que se deve situar a crítica ao tipo de escrita que se tornou dominante em certas correntes dos estudos de gênero e da teoria queer. Não se trata de uma crítica às ideias em si — algumas das perguntas levantadas por essas correntes são genuinamente importantes e merecem debate sério. A questão de como o gênero é construído socialmente, de como as normas culturais moldam identidades, de como certas categorias operam como instrumentos de poder — esses são temas legítimos e relevantes. O problema não está nas perguntas. Está na maneira como as respostas são formuladas.
Quando um texto acadêmico exige que o leitor domine previamente dezenas de outros textos igualmente impenetráveis para poder começar a compreendê-lo, quando cada parágrafo acumula negações sobre negações sem nunca afirmar nada de forma clara, quando os conceitos centrais são deliberadamente deixados indefinidos para que possam ser reconfigurados a qualquer momento em que uma crítica se aproxime — isso não é sofisticação intelectual. É evasão sistemática do pensamento claro. E o pensamento claro é exatamente o que a filosofia e as ciências humanas deveriam cultivar, não evitar.
Há uma diferença fundamental entre um texto difícil porque genuinamente trata de um assunto complexo, e um texto difícil porque foi escrito de maneira deliberadamente obscura. O primeiro é difícil como a matemática é difícil — exige esforço, atenção e pré-requisito, mas recompensa o leitor com compreensão real ao final do processo. O segundo é difícil como um mapa propositalmente embaralhado é difícil — não porque o território seja complexo, mas porque o mapa foi desenhado para confundir. A diferença é perceptível quando se tenta parafrasear o que foi lido: um texto genuinamente complexo pode ser parafraseado em linguagem mais simples, com alguma perda de precisão técnica, mas com preservação do argumento central. Um texto obscurantista, quando parafraseado, revela frequentemente que não havia muito a dizer.
Aqui vai um exemplo, construído exatamente no estilo criticado no texto anterior:
"A performatividade discursiva da heteronormatividade compulsória, enquanto matriz genealógica de interpelações subjetivantes, reinscreve iterativamente a binaridade ontológica do corpo-sexuado na topologia diferencial do desejo, desestabilizando, paradoxalmente, a própria condição de possibilidade da agência resistente que simultaneamente convoca e interdita."
Tente parafraseá-la. É praticamente impossível — não porque o pensamento seja profundo demais, mas porque não há pensamento algum a parafrasear. Cada termo remete a outro termo igualmente vago, formando uma cadeia de abstrações que nunca toca o chão da realidade concreta. A frase tem sujeito, verbo, objeto e até advérbio. Gramaticalmente está correta. Semanticamente é vazia. E o mais revelador: soa exatamente como centenas de frases reais publicadas em periódicos acadêmicos respeitados. Essa é a parte mais perturbadora — não a frase em si, mas o fato de que ela seria perfeitamente aceita em certos contextos como evidência de sofisticação intelectual.
Isso não é uma impressão subjetiva de leitores despreparados. O filósofo John Searle, um dos maiores especialistas em filosofia da linguagem do século XX, criticou explicitamente a prosa de vários autores do chamado pós-estruturalismo francês, argumentando que muitas afirmações que pareciam profundas e radicais, quando traduzidas para uma linguagem clara, revelavam-se ou trivialmente verdadeiras, ou simplesmente falsas, ou simplesmente sem sentido verificável. A dificuldade de tradução não era sinal de profundidade — era sinal de que não havia argumento claro a ser traduzido.
O problema se agrava quando se considera o impacto que essa escrita tem sobre o debate público. As humanidades têm uma contribuição genuína e insubstituível a dar à sociedade: o pensamento crítico sobre cultura, poder, linguagem, identidade, história e valores é essencial para qualquer democracia saudável. Mas quando as ideias produzidas nesses campos são apresentadas de forma tão hermética que apenas um grupo muito restrito de “ungidos” pode acessá-las, elas perdem sua capacidade de influenciar o debate público de maneira construtiva. E o espaço que deixam vazio é preenchido — por simplificações grosseiras, demagogia, e ideologias que não têm o menor pudor de ser claras, mesmo quando estão erradas.
Existe também uma dimensão política nessa questão que raramente é discutida abertamente. O obscurantismo acadêmico frequentemente se apresenta como radical e subversivo — como um desafio às estruturas de poder estabelecidas. Mas, na prática, produz o efeito contrário. Uma escrita que apenas os já “ungidos” conseguem ler é uma escrita que já desistiu de transformar o mundo antes de tentar. A transformação social exige comunicação — exige que ideias cruzem fronteiras de classe, formação e de experiência. Uma teoria que só circula entre professores de universidades de elite, escrita em um estilo que os exclui de qualquer interlocução com o restante da sociedade, não é subversiva. É autorreferencial.
Os grandes textos que de fato mudaram a maneira como sociedades inteiras pensaram sobre si mesmas foram, na sua maioria, textos que qualquer pessoa razoavelmente atenta conseguia ler. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Os panfletos de Thomas Paine. Os discursos de Frederick Douglass. O Manifesto Comunista. A Mística Feminina, de Betty Friedan. Não porque esses textos evitassem a complexidade — ao contrário, tratavam de problemas profundamente complexos. Mas porque seus autores entendiam que a clareza é uma responsabilidade ética, não uma concessão à superficialidade.
Há ainda um aspecto específico que merece atenção: a proliferação de neologismos desnecessários. Criar um novo termo tem sentido quando se está nomeando um conceito genuinamente novo, para o qual a língua ainda não tem nome adequado. Mas criar novos termos para nomear conceitos que já têm nomes perfeitamente funcionais, apenas para sinalizar pertencimento a uma corrente teórica específica, é um desperdício linguístico que encarece artificialmente o texto. Quando um conceito que poderia ser expresso em três palavras claras é substituído por um neologismo em itálico, seguido de uma nota de rodapé que remete a outro texto igualmente denso, não houve ganho de precisão — houve perda de clareza sem nenhuma compensação intelectual.
A crítica ao obscurantismo acadêmico não é, portanto, uma crítica anti-intelectual. É exatamente o oposto: é a defesa de um intelectualismo genuíno, que se compromete com a clareza porque se compromete com a verdade. Quem escreve obscuramente pode estar escondendo a pobreza do argumento atrás da densidade do estilo. Quem escreve com clareza não tem onde se esconder — e é exatamente por isso que a clareza é uma virtude intelectual de primeira ordem, não um sinal de mediocridade.
O leitor que fecha um livro sem ter entendido nada (se conseguir ler até a última página), após páginas e páginas de esforço honesto, não deveria concluir automaticamente que o problema está em sua capacidade de compreensão. Deveria também considerar a hipótese de que o texto falhou em sua função primária: comunicar. Um texto que não comunica pode ter muitas qualidades — pode ser tecnicamente impressionante, pode demonstrar erudição, pode mobilizar referências amplas. Mas se não comunica, não cumpre o propósito que justifica a existência de qualquer texto. E nenhuma quantidade de elogios de outros “ungidos” no mesmo dialeto muda essa realidade fundamental.
O imperador, às vezes, simplesmente não tem roupa.
E reconhecer isso não é ignorância — é lucidez.

