A PORTA GIRATÓRIA DO DESCASO
Um ensaio sobre
trabalho degradado, lucro cego
e
o custo humano que ninguém contabiliza
Por Heitor Jorge Laueitor
"Não
é possível separar a saúde mental do ambiente de trabalho.
É onde passamos a
maior parte de nossas vidas."
O lamento que não se quer entender
Repete-se, com crescente
regularidade, uma queixa oriunda do setor empresarial brasileiro: a falta de
mão de obra. Postos abertos, vagas que não se preenchem, contratos que se
encerram antes mesmo de completar três meses. O fenômeno ocorre com especial intensidade
nos setores de supermercados, postos de combustíveis, redes de conveniência e
varejo alimentar em geral — exatamente aqueles que movimentam o cotidiano de
milhões de brasileiros e que, paradoxalmente, treinaram o mercado a funcionar
sete dias por semana, 365 dias por ano.
Mas o lamento dos
empresários, legítimo em sua superfície, esconde uma pergunta que raramente se
formula com honestidade: por que razão alguém, estando em plenas faculdades
mentais e dispondo de alguma alternativa, escolheria permanecer indefinidamente
nesse tipo de trabalho?
Este ensaio não pretende
demonizar o empreendedor nem absolver o trabalhador de qualquer
responsabilidade. Pretende, antes, examinar com olhos abertos uma equação que
está sendo mal resolvida há décadas — e que o mercado continua insistindo em
tratar como problema de oferta, quando na verdade é, sobretudo, um problema de
condições.
O que os números revelam — e o que os empresários preferem
não calcular
Em 2025, a taxa de
rotatividade no comércio varejista da cidade de São Paulo atingiu 60,3% — o
maior patamar desde o início da série histórica do Novo Caged, em 2020,
representando crescimento de quase 60% em relação àquele ano inicial. Na
prática, isso significa que mais da metade de todos os vínculos formais do
setor foi renovada ao longo de doze meses. Não se trata de uma anomalia
pontual. É um padrão estrutural.
Em segmentos
específicos, os números são ainda mais brutais: lojas de conveniência e varejo
de artigos usados superam 90% de rotatividade. No comércio de bebidas, o índice
chega a 85%. Minimercados, mercearias e farmácias homeopáticas operam com taxas
acima de 38% — o que equivale a dizer que quatro em cada dez trabalhadores
deixaram seus postos em menos de seis meses.
Diante desses dados, é
impossível não perguntar: quanto isso custa? A resposta, devidamente calculada,
deveria ser suficiente para transformar qualquer gestor conservador em defensor
fervoroso do bem-estar dos seus funcionários. Um estudo da Fundação Getúlio
Vargas em parceria com a Confederação Nacional das Indústrias demonstrou que o
custo real de um funcionário pode atingir 183% do salário bruto — incluindo
encargos, provisões de férias, 13º salário, FGTS e benefícios. Para cada
demissão e nova contratação, somam-se ainda os gastos com recrutamento,
seleção, treinamento e o período de queda de produtividade que inevitavelmente
acompanha a chegada de um novo colaborador sem experiência na função.
Em empresas maiores, no
regime de Lucro Presumido, esses encargos podem chegar a 68% adicionais sobre o
salário base — sem contar os chamados custos invisíveis: o conhecimento perdido
quando o funcionário sai, o impacto no clima organizacional, a percepção
negativa do cliente diante de uma equipe sempre em formação, a desconfiança
gerada pela instabilidade crônica.
A conta, portanto, é
simples — e escandalosa. A rotatividade não é barata. Ela é, provavelmente, uma
das apostas de pior retorno que uma empresa de varejo pode fazer.
O domingo que separa mundos
Existe uma dimensão
desse debate que raramente aparece nos relatórios de RH e quase nunca é
mencionada nas convenções patronais: a dimensão humana do tempo.
Trabalhar de domingo a
domingo — com uma folga semanal que frequentemente coincide com uma terça-feira
ou uma quarta-feira —, significa estar ausente precisamente quando o resto da
família está presente. Significa perder as refeições coletivas do fim de semana,
os aniversários que sempre caem num sábado, o futebol das crianças, a missa ou
o culto, o almoço de domingo, o momento em que o bairro ganha vida e as pessoas
se encontram.
Pesquisas publicadas no
campo da saúde ocupacional são contundentes: o trabalho em horários não
padronizados — fins de semana, turnos noturnos, escalas rotativas — está
associado a maior conflito trabalho-família, menor bem-estar geral, piora da
qualidade do sono e aumento dos índices de ansiedade e depressão. O
desequilíbrio entre vida profissional e pessoal não é apenas um desconforto: é
um determinante social de saúde.
Estudos da área
confirmam que jornadas longas e trabalho em dias socialmente valorizados estão
diretamente relacionados à redução da saúde mental dos trabalhadores —
particularmente quando somados à baixa remuneração, à ausência de autonomia
sobre os próprios horários e ao sentimento de não pertencimento ao projeto da
empresa.
A Organização Mundial da
Saúde estima que 12 bilhões de dias de trabalho são perdidos anualmente em todo
o mundo em decorrência de depressão e ansiedade — problemas em grande medida
alimentados e agravados pelas condições do próprio ambiente laboral. A OMS é
direta: o trabalho está adoecendo as pessoas. E as pessoas, ao adoecer, deixam
os empregos.
Voltamos, então, à porta
giratória.
O trabalhador não é irracional — ele está sendo racional
Há uma narrativa
conveniente que circula nos ambientes empresariais: a de que o trabalhador
brasileiro é resistente ao trabalho, que a geração mais jovem é preguiçosa, que
as pessoas preferem o benefício social ao emprego formal. Essa narrativa é, em
sua essência, uma inversão de causa e efeito.
O trabalhador que deixa
um emprego de supermercado após alguns meses não está demonstrando incapacidade
de resiliência. Está exercendo, na ausência de voz formal, a única forma de
poder que lhe resta: o pé. Ele está comunicando, com o próprio corpo, que aquelas
condições são insustentáveis.
A Geração Z — que hoje
representa parcela significativa da força de trabalho no varejo — foi descrita
por especialistas do setor como avessa a empregos que não ofereçam
flexibilidade, equilíbrio entre vida pessoal e profissional, e perspectiva de
crescimento. Mas essa caracterização, frequentemente enunciada com tom de
lamentação, talvez devesse ser interpretada de outro modo: como uma geração
que, tendo crescido num mundo de informação abundante e oportunidades
fragmentadas, simplesmente se recusa a aceitar o que gerações anteriores
aceitavam por não terem alternativa.
Não é rebeldia. É
consciência. E o mercado terá que aprender a lidar com ela — ou continuará
contratando e demitindo ao infinito, pagando o custo enorme dessa porta que
nunca para de girar.
A liderança que também está doente
Há um segundo personagem
nessa história que merece atenção: o gestor intermediário. Em muitos casos, é
ele quem personifica, no cotidiano do trabalhador, o ambiente hostil que o faz
partir. Não porque seja uma pessoa má, mas porque ele próprio é produto de um
sistema que nunca lhe ofereceu ferramentas para gerir pessoas com competência e
humanidade.
O operador de caixa que
aguenta as ordens contraditórias de um supervisor despreparado, o repositor que
é repreendido à vista dos clientes, o atendente que não recebe feedback de
qualidade — todos eles estão sob o comando de alguém que, na maior parte das
vezes, chegou àquela posição de liderança pela antiguidade ou pela ausência de
alternativas, e não pela capacidade de inspirar uma equipe.
Especialistas do setor
são unânimes: a primeira semana de um novo colaborador é decisiva para sua
permanência na empresa. E a qualidade dessa experiência inicial depende,
fundamentalmente, da competência e do cuidado de quem o recebe. Quando esse
acolhimento é negligenciado — por falta de tempo, de recursos ou de cultura
organizacional —, a demissão voluntária se torna apenas uma questão de semanas.
Não se trata de exigir
que os gestores se tornem terapeutas. Trata-se de exigir que as empresas
compreendam que gerir pessoas é uma competência técnica — tão técnica quanto
operar um sistema de estoque ou calcular uma margem de lucro —, e que essa
competência precisa ser desenvolvida, treinada e continuamente avaliada.
Se eu não abrir, o concorrente abrirá — a lógica do
precipício coletivo
Existe uma última forma
de compreender por que o modelo não muda: a lógica da concorrência como
desculpa para a imobilidade ética.
'Se eu não abrir no
domingo, o concorrente abre.' 'Se eu fechar às 20h, perco clientes para a loja
ao lado.' 'Se eu oferecer condições melhores, meu custo sobe e meu preço não é
mais competitivo.'
Esse raciocínio tem uma
lógica interna. Mas é a lógica de uma corrida para o fundo do poço — uma
corrida em que todos os competidores estão igualmente exaustos, igualmente
endividados com rescisões e treinamentos, igualmente incapazes de formar
equipes estáveis, e em que nenhum deles se pergunta se a corrida em si faz
sentido.
O mercado, deixado à
própria dinâmica, não se autorregula em direção ao bem-estar humano. Nunca o
fez. Esse é o papel das normas coletivas, das convenções trabalhistas, das
regulamentações setoriais — instrumentos que, quando bem construídos, nivelam o
campo de jogo e permitem que empresas que querem tratar bem seus funcionários
não sejam penalizadas por isso.
Não é ingenuidade
defender isso. É observação histórica: em toda atividade humana em que os
padrões mínimos foram coletivamente estabelecidos e respeitados, o setor como
um todo se tornou mais sustentável — não menos.
O que pode ser feito — sem romantismos
Este ensaio não pretende
oferecer uma receita. Mas seria desonesto terminar sem apontar algumas direções
que os dados e a experiência de mercado já indicam com clareza.
Primeiro: tratar
a rotatividade como o que ela é — um sintoma, não um fenômeno natural. Quando
mais de 60% da força de trabalho de um setor é renovada em doze meses, não se
trata de uma característica estrutural inevitável. Trata-se de um sinal de
alarme que merece investigação séria das causas, não apenas gestão acelerada
das consequências.
Segundo:
reconhecer que o trabalhador que pede demissão é, frequentemente, a fonte de
informação mais valiosa que a empresa possui sobre si mesma. Entrevistas de
desligamento conduzidas com honestidade — e não como protocolo burocrático —
podem revelar disfunções que nenhuma consultoria externa enxergaria.
Terceiro:
compreender que flexibilidade de jornada, previsibilidade de escala e folgas em
fins de semana não são concessões generosas — são diferenciais competitivos
reais numa disputa por trabalhadores que têm cada vez mais alternativas.
Empresas que oferecem esses elementos retêm mais, treinam menos e têm equipes
mais experientes e produtivas.
Quarto: investir
na qualidade da liderança intermediária com o mesmo rigor com que se investe em
tecnologia ou em layout de loja. Um bom coordenador de seção vale mais, em
termos de retenção, do que qualquer programa de benefícios genérico.
Quinto: admitir,
com a lucidez que a questão exige, que há um limite para o que o indivíduo
suporta — e que esse limite não é fraqueza moral nem falta de comprometimento.
É simplesmente biologia, sociologia e dignidade humana.
A fechadura que não chaveava mais
Existe uma imagem útil
para pensar esse impasse: a de uma fechadura com defeito. Ela ainda está no
lugar. A porta continua de pé. Mas o mecanismo que deveria garantir a segurança
— a relação entre o trabalhador e a empresa, entre o esforço e a recompensa,
entre o tempo doado e a vida que se constrói — não funciona mais.
E o problema não é a
falta de mão de obra. O problema é que a mão de obra existe, é abundante, e
simplesmente não consegue ter resiliência nesse modelo. Não por fraqueza — mas
porque o modelo foi construído com a pressuposição de que as pessoas suportariam
qualquer coisa por qualquer salário, indefinidamente.
Essa pressuposição foi
falsa desde o início. A diferença é que, hoje, os trabalhadores têm meios —
ainda que precários — de demonstrá-lo. E o fazem. Mês após mês, em taxas de
rotatividade que custam às empresas fortunas que poderiam, com muito menor esforço
e muito mais inteligência, ser investidas na construção de ambientes onde as
pessoas quisessem ficar.
A mão de obra existe. O
que falta é a disposição de tratá-la como se existisse.
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REFERÊNCIAS E FONTES CONSULTADAS
·
Sindilojas
SP / Novo Caged — Taxa de rotatividade no varejo paulistano, 2025.
·
FecomercioSP
— Análise do mercado de trabalho no comércio varejista, 2025.
·
Fundação
Getulio Vargas / Confederação Nacional das Indústrias — Custo real do
funcionário CLT no Brasil.
·
Organização
Mundial da Saúde — Relatório Global de Saúde Mental, 2022.
·
EPSJV/Fiocruz
— 'Alertas globais chamam atenção para o papel do trabalho na saúde mental',
2023.
·
Revista
Pepsic — 'Família, gênero e jornada de trabalho: uma revisão sistemática de
literatura', 2021.
·
Parc.ipp.pt
— 'Impactos do trabalho por turnos na vida familiar e social', 2023.