AS (in)DIFERENÇAS
ENTRE A ESPÉCIE HUMANA E AS DEMAIS
por Heitor Jorge Lau
Existe uma
maneira bastante confortável de imaginar a diferença entre seres humanos e os
demais animais: colocar de um lado a razão, a linguagem, a consciência, a
cultura e a capacidade de construir cidades, máquinas, religiões e sistemas
políticos; do outro, colocar o instinto, a sobrevivência, a reprodução e os
comportamentos determinados pela natureza. A imagem é sedutora porque oferece à
espécie humana um lugar privilegiado no mundo, como se a evolução tivesse
produzido uma ruptura definitiva entre nós e o restante da vida. O problema é
que a própria ciência vem tornando essa separação cada vez mais difícil de
sustentar. Quanto mais conhecemos o funcionamento de outros animais, mais
percebemos que medo, prazer, sofrimento, apego, competição, cooperação,
hierarquia, aprendizagem e até formas de transmissão cultural não pertencem
exclusivamente ao Homo sapiens. E, ao mesmo tempo, quanto mais conhecemos a
nossa própria espécie, mais percebemos que aquilo que parece nos tornar
especiais não está necessariamente na existência de capacidades absolutamente
inéditas, mas na combinação extraordinariamente complexa de capacidades que
também aparecem, em diferentes graus e configurações, em outros animais.
A violência
é um dos melhores lugares para observar esse paradoxo. Eu parto de uma
constatação desconfortável: a espécie humana possui uma relação profundamente
ambígua com a violência. Condenamos o assassinato, mas transformamos
determinadas formas de combate em espetáculo; educamos crianças para rejeitar a
agressão, mas ensinamos que determinadas agressões são necessárias;
consideramos abominável atacar alguém por interesse pessoal, enquanto
sociedades inteiras podem organizar sistemas destinados a eliminar pessoas
identificadas como inimigas. O mesmo gesto físico pode receber significados
completamente diferentes dependendo da história contada ao redor dele. Um golpe
pode ser crime, esporte, defesa, ritual, punição ou guerra. Um disparo pode
significar assassinato ou, dentro de determinada estrutura institucional,
cumprimento de uma ordem. O músculo utilizado é praticamente o mesmo. O sistema
nervoso envolvido pertence à mesma espécie. O que muda é o universo simbólico
no qual o comportamento está inserido. Essa capacidade de transformar uma ação
física em acontecimento moral, político ou ideológico é uma das características
mais inquietantes da nossa espécie.
A ciência
não permite mais imaginar a agressividade como uma espécie de botão localizado
em uma região isolada do cérebro. Existe uma rede de estruturas envolvidas na
avaliação de ameaças, na produção de respostas emocionais e na capacidade de
inibir ou redirecionar comportamentos. A amígdala participa do processamento de
estímulos emocionalmente relevantes, enquanto regiões do córtex pré-frontal
estão envolvidas na avaliação, no controle e na seleção das respostas. Estudos
sobre agressividade indicam justamente que o comportamento emerge da interação
entre sistemas que podem favorecer uma resposta agressiva e sistemas capazes de
modulá-la. Não existe, portanto, um simples “centro da violência” escondido
dentro do cérebro humano. A agressividade é resultado de uma arquitetura muito
mais complexa, na qual emoção, percepção, memória, contexto, aprendizagem e
controle executivo participam conjuntamente.
Um dos
exemplos históricos mais conhecidos dessa relação entre cérebro e comportamento
surgiu no século XIX, muito antes de existirem as modernas técnicas de
neuroimagem. Phineas Gage era um trabalhador ferroviário considerado
responsável e equilibrado até sofrer um acidente em que uma barra de ferro
atravessou seu crânio, atingindo regiões do córtex frontal. Sobreviveu ao
acidente, mas relatos posteriores descreveram mudanças importantes em sua
personalidade, julgamento social e controle comportamental. O caso tornou-se
célebre porque ajudou a demonstrar, ainda que de maneira rudimentar, que
alterações físicas no cérebro podem modificar profundamente aquilo que chamamos
de personalidade. O cérebro não era apenas uma espécie de instrumento utilizado
por uma mente independente dele. Alterar determinadas estruturas podia alterar
a própria maneira de uma pessoa se relacionar com o mundo. Pesquisas
posteriores reforçaram a importância do córtex pré-frontal para a regulação do
comportamento social e da impulsividade, embora o caso de Gage, como
frequentemente acontece com episódios históricos, tenha sido simplificado e
romantizado ao longo do tempo.
Outro
conjunto impressionante de evidências surgiu dos estudos envolvendo a amígdala
e estruturas temporais. Nas primeiras décadas do século XX, Heinrich Klüver e
Paul Bucy observaram mudanças profundas no comportamento de macacos submetidos
a lesões bilaterais de regiões temporais. Os animais apresentavam perda de
medo, alterações emocionais, comportamento sexual inadequado e uma aproximação
incomum de estímulos que anteriormente provocavam cautela. O fenômeno ficou
conhecido como síndrome de Klüver-Bucy e posteriormente também foi
identificado, de maneira parcial, em seres humanos com determinadas lesões
cerebrais. O que esses experimentos revelaram não foi simplesmente que uma
pequena estrutura “produz” medo ou violência, mas algo mais interessante:
comportamentos aparentemente naturais dependem de sistemas neurais que atribuem
valor emocional às coisas. Um animal não reage apenas ao que vê; reage ao
significado biológico que aquilo adquire dentro de seu sistema nervoso.
Isso ajuda
a compreender por que a violência humana jamais pode ser reduzida a uma
descarga de agressividade. O cérebro não recebe o mundo como uma sequência
neutra de acontecimentos. Ele interpreta. Uma expressão facial pode ser
percebida como ameaça. Uma palavra pode ser experimentada como humilhação. Uma
bandeira pode produzir orgulho em uma pessoa e repulsa em outra. Um uniforme
pode transformar um desconhecido em aliado ou inimigo. Uma diferença religiosa,
política, territorial ou étnica pode adquirir um valor emocional que ultrapassa
completamente aquilo que existe na diferença física entre duas pessoas. A
agressividade, nesse sentido, pode ser biologicamente preparada, mas o objeto
contra o qual ela será dirigida pode ser fornecido pela cultura. O chimpanzé
pode competir por território, alimento ou posição social; o ser humano consegue
transformar uma ideia em território, uma crença em identidade e uma abstração
em inimigo.
Essa talvez
seja uma das diferenças mais extraordinárias entre nós e os demais animais. Não
porque outros animais sejam incapazes de possuir cultura. Sabemos hoje que
diversas espécies aprendem comportamentos socialmente, desenvolvem tradições
locais e transmitem determinadas habilidades entre gerações. Chimpanzés,
baleias, aves e outros animais apresentam formas de aprendizagem social que
podem produzir diferenças comportamentais entre grupos da mesma espécie. A
antiga imagem de animais governados exclusivamente por instintos tornou-se
cientificamente insustentável.
O que
parece particularmente extraordinário no caso humano é a amplitude aberta pela
cultura. Uma população humana pode inventar uma ferramenta, aperfeiçoá-la,
ensinar sua utilização, registrar a informação, transformá-la em conhecimento,
combinar esse conhecimento com outro e entregar tudo isso à geração seguinte. A
geração seguinte não começa do zero. Começa em cima de uma montanha construída
por milhares de gerações anteriores. Um indivíduo não precisa compreender
sozinho todos os conhecimentos necessários para construir um computador,
produzir um medicamento ou lançar um satélite. Basta dominar uma pequena parte
de uma cadeia gigantesca de conhecimentos produzidos coletivamente.
Pesquisadores contemporâneos têm inclusive questionado a ideia de que a cultura
humana seja simplesmente “única” por ser cumulativa, ressaltando que outros
animais também apresentam formas de transmissão e acumulação comportamental;
uma característica particularmente distintiva da cultura humana parece estar na
sua abertura praticamente ilimitada para produzir novas formas.
A
diferença, portanto, pode estar menos na capacidade de aprender e mais na
capacidade de construir mundos sobre aquilo que foi aprendido. Uma abelha pode
adquirir informação socialmente relevante. Um chimpanzé pode aprender uma
técnica observando outro indivíduo. Uma ave pode transmitir determinado padrão
de comportamento. Mas o ser humano transforma aquilo que aprendeu em objeto de
reflexão, discussão, contestação e reinvenção. Aprende uma regra e pergunta por
que a regra existe. Aprende uma crença e pode transformá-la em religião.
Aprende uma tradição e pode decidir abandoná-la. Aprende uma técnica e pode
combiná-la com outra técnica que surgiu milhares de quilômetros distante. É
como se a cultura humana tivesse adquirido uma capacidade extraordinária de
voltar sobre si mesma.
É nesse
ponto que a linguagem modifica radicalmente o problema. Não basta ao ser humano
experimentar alguma coisa; existe uma tendência quase irresistível de
transformá-la em narrativa. Uma experiência pode virar memória, a memória pode
virar relato, o relato pode virar tradição, a tradição pode virar instituição e
a instituição pode continuar existindo muito depois da morte daqueles que a
criaram. Uma pessoa pode morrer, mas sua ideia continua circulando. Um líder
pode desaparecer, mas seu discurso pode permanecer. Uma crença criada há
séculos pode continuar organizando comportamentos de pessoas que jamais
conheceram quem a formulou. Um detalhe chama atenção para esse fenômeno:
crenças sobre a natureza da vida podem ser transmitidas através de milênios.
Essa
característica também altera completamente a natureza da violência. Um animal
pode matar outro porque disputa território, alimento, posição hierárquica ou parceiro
sexual. O ser humano consegue matar alguém que nunca viu, por uma razão que não
pode ser tocada, cheirada ou comida. Pode matar em nome de uma fronteira
desenhada em um mapa. Pode perseguir alguém por uma ideia. Pode destruir uma
população em nome de uma interpretação da história. Pode apertar um botão a
milhares de quilômetros do alvo e nunca observar diretamente a consequência da
própria ação. O desenvolvimento tecnológico aumentou brutalmente a distância
entre intenção e resultado. A força física deixou de ser requisito para
produzir destruição em grande escala. Esse texto expressa exatamente essa
transformação quando eu observo que determinados danos podem ser provocados sem
esforço físico maior do que apertar um gatilho, consentir com a cabeça ou
simplesmente olhar para o outro lado.
A ironia é
que nossa sofisticação tecnológica não eliminou o animal que existe em nós.
Apenas colocou ferramentas incomparavelmente mais poderosas nas mãos dele. A
mesma mão que segura uma pedra pode segurar uma arma. A mesma boca que produz
uma ameaça pode produzir um poema. O mesmo cérebro capaz de imaginar uma
vingança pode imaginar uma vacina. A mesma capacidade de antecipar o futuro que
permite planejar uma guerra permite construir uma política de preservação
ambiental para daqui a cem anos. A evolução não parece ter produzido um cérebro
dividido entre uma parte “animal” e outra “humana”. Produziu um organismo no
qual antigas estruturas biológicas passaram a funcionar dentro de redes
cognitivas, sociais e culturais cada vez mais complexas.
Talvez por
isso seja tão perigoso dizer que o ser humano é naturalmente violento. A
afirmação parece científica, mas é insuficiente. A agressividade possui
componentes biológicos e uma longa história evolutiva, mas a expressão da
violência depende profundamente do contexto. Uma análise comparativa publicada
na Nature, examinando a violência letal em mais de mil espécies de mamíferos,
encontrou raízes filogenéticas importantes para a violência entre indivíduos da
mesma espécie e mostrou que os níveis humanos de violência variaram
significativamente ao longo da história, sendo modulados pelas formas de
organização social e política. A conclusão é particularmente interessante
porque não coloca natureza e cultura em lados opostos: uma predisposição
biológica pode existir, enquanto a organização cultural modifica intensamente
sua expressão.
Os
chimpanzés oferecem uma comparação particularmente desconcertante. Eles não são
criaturas pacíficas que se tornam violentas apenas porque entram em contato com
seres humanos. Estudos de longo prazo documentaram mortes provocadas por outros
chimpanzés, inclusive em conflitos entre comunidades. Em uma análise que reuniu
dados de 18 comunidades de Chimpanzés e quatro de Bonobos, pesquisadores
registraram 152 mortes atribuídas a Chimpanzés e apenas uma morte suspeita
entre Bonobos dentro do conjunto analisado. A maioria das mortes de Chimpanzés
envolvia ataques entre comunidades, frequentemente realizados por vários machos
contra um indivíduo isolado.
A
comparação é importante porque impede dois erros opostos. O primeiro consiste
em acreditar que somente seres humanos são capazes de violência. Não são. O
segundo consiste em acreditar que, por possuirmos raízes evolutivas
compartilhadas com outros primatas, toda violência humana é simplesmente uma
versão ampliada da violência animal. Também não é. Um grupo de chimpanzés pode
matar um rival; uma sociedade humana pode criar uma burocracia inteira para
decidir quem será considerado inimigo, produzir documentos justificando sua
eliminação, fabricar equipamentos destinados à tarefa, estabelecer instituições
para executar as ordens e posteriormente construir narrativas para explicar por
que tudo aquilo teria sido necessário. A violência física continua presente,
mas foi envolvida por camadas de linguagem, administração, ideologia e simbolismo.
É possível
compreender melhor essa diferença observando algo ainda mais banal: o ser
humano consegue brigar consigo mesmo. Não apenas no sentido metafórico. Uma
pessoa pode desejar alguma coisa e, simultaneamente, julgar que não deveria
desejá-la. Pode sentir raiva e decidir não a demonstrar. Pode desejar vingança
e construir uma justificativa para não a executar. Pode sentir medo e, ainda
assim, avançar. Pode sentir atração por alguém e decidir permanecer distante.
Pode reconhecer uma emoção enquanto a experimenta e, em determinados momentos,
modificar o próprio comportamento a partir desse reconhecimento. Existe aqui
uma espécie de circuito recursivo: o organismo reage ao mundo, mas a própria
reação pode se transformar em objeto de observação.
Esse
mecanismo talvez seja uma das portas de entrada para compreender a consciência
humana. O problema não está apenas em sentir, mas em poder pensar sobre aquilo
que se sente. O animal pode fugir de uma ameaça; o ser humano pode fugir de uma
ameaça e, anos depois, perguntar por que aquele acontecimento ainda produz
medo. Pode experimentar raiva e perguntar de onde veio aquela raiva. Pode
descobrir que uma reação aparentemente espontânea foi preparada por
experiências muito anteriores. O comportamento que aparece no presente passa a
ser investigado como resultado de uma história.
A sequência
causal do comportamento é remontada desde o instante imediatamente anterior à
ação até os estímulos sensoriais, os estados hormonais, as experiências
anteriores e, finalmente, as pressões evolutivas acumuladas ao longo de milhões
de anos. Esse modo de pensar transforma radicalmente a pergunta. Em vez de
perguntar simplesmente “por que essa pessoa fez isso?”, começamos a perguntar
que acontecimentos prepararam o sistema nervoso para responder daquela maneira,
que estímulos foram interpretados como relevantes, que memórias estavam
disponíveis, que estado fisiológico estava presente, que expectativas estavam
operando e que aprendizado anterior havia modificado a sensibilidade daquele
cérebro.
Isso não
significa transformar o comportamento humano em destino biológico. Pelo
contrário. Quanto mais complexa se torna a explicação, menos plausível fica a
ideia de uma causa única. Genes participam. Desenvolvimento participa.
Hormônios participam. Experiências participam. Relações sociais participam.
Cultura participa. Linguagem participa. Instituições participam. A situação
imediata participa. Nenhum desses elementos, isoladamente, explica a totalidade
do comportamento. A pesquisa contemporânea sobre agressividade justamente
aponta para a interação entre sistemas neurais, processos psicológicos e
circunstâncias sociais.
A grande
diferença humana está exatamente na capacidade de transformar a própria
natureza em problema. Outros animais vivem dentro de seus ambientes; nós também
vivemos, evidentemente, mas construímos representações desses ambientes e
passamos a agir sobre as representações. Não disputamos apenas recursos;
disputamos significados. Não protegemos apenas territórios; protegemos
símbolos. Não transmitimos apenas comportamentos; transmitimos explicações
sobre por que determinados comportamentos deveriam existir. Uma fronteira pode
ser invisível e, ainda assim, milhares de pessoas podem morrer por ela. Uma
moeda é apenas papel ou registro eletrônico, mas pode organizar economias
inteiras. Uma bandeira é feita de tecido, mas pode despertar lágrimas, orgulho,
ódio ou disposição para morrer. Uma palavra pode ser apenas som e, ainda assim,
provocar uma guerra.
É possível
que essa seja a nossa verdadeira singularidade: não sermos menos animais, mas
sermos animais capazes de construir universos sobre a própria animalidade.
Continuamos sujeitos ao medo, à fome, ao desejo, ao prazer, à disputa, ao apego
e à necessidade de pertencimento. Continuamos possuindo um cérebro moldado por
milhões de anos de evolução. Continuamos reagindo fisiologicamente a ameaças,
recompensas e vínculos. Entretanto, sobre essa base biológica construímos uma
segunda natureza, feita de linguagem, memória coletiva, instituições,
tecnologia, moral, religião, arte, ciência e imaginação. A biologia fornece
possibilidades; a cultura organiza algumas delas, reprime outras e inventa
combinações que nenhum indivíduo poderia produzir sozinho.
Por isso, a
pergunta “o que diferencia o ser humano dos demais animais?” pode ser menos
interessante do que outra: “até que ponto o ser humano consegue modificar
aquilo que recebeu da evolução?”. A resposta permanece aberta. A ciência mostra
que somos profundamente animais, mas também mostra que somos animais incomuns.
Não porque tenhamos deixado de obedecer às leis da natureza, mas porque
aprendemos a construir ambientes capazes de modificar nosso próprio
comportamento. A cultura passou a influenciar a evolução; a tecnologia passou a
modificar o ambiente; o ambiente passou a modificar o comportamento; o
comportamento passou a modificar as relações sociais; e essas relações voltaram
a atuar sobre indivíduos que nasceram muito depois dos acontecimentos que iniciaram
o processo. Estudos sobre interação entre genes e cultura mostram justamente
que a evolução humana não pode ser compreendida adequadamente separando
“biologia” e “cultura” como se fossem mundos independentes.
Existe,
então, uma ironia profunda na expressão “espécie humana”. Somos uma espécie
entre milhões, resultado de processos evolutivos que não começaram conosco e
não terminarão conosco. Compartilhamos mecanismos celulares fundamentais com
organismos extremamente distantes de nós e circuitos emocionais com outros
mamíferos. Possuímos parentes próximos que demonstram inteligência social,
cooperação, competição, aprendizagem e violência. Não somos uma exceção
absoluta à natureza. E, contudo, nenhuma outra espécie conhecida transformou
sua própria existência em uma pergunta tão persistente.
Construímos
microscópios para observar aquilo que os olhos não conseguem ver, telescópios
para enxergar aquilo que está a bilhões de quilômetros, instrumentos para
registrar a atividade do cérebro e teorias para compreender o comportamento de
outros animais. Depois utilizamos esse conhecimento para investigar a nós
mesmos. O animal tornou-se simultaneamente observador e objeto de observação.
Essa é uma das mais curiosas características da condição humana: somos parte da
natureza tentando compreender a própria natureza.
É justamente
aí que a diferença entre nós e as demais espécies se torna mais interessante.
Não estamos separados dos outros animais por um muro. Estamos ligados a eles
por uma continuidade biológica profunda. A diferença está nas formas que essa
continuidade assumiu em nosso cérebro, em nossa linguagem, em nossa cultura e em
nossa capacidade de produzir mundos simbólicos. Somos suficientemente animais
para sentir medo diante de uma ameaça, suficientemente sociais para precisar
dos outros e suficientemente complexos para transformar uma experiência de
infância em uma crença sobre o mundo. Somos capazes de utilizar a mesma
agressividade que herdamos de nossos ancestrais para destruir e, ao mesmo
tempo, de utilizar nossa capacidade de reflexão para decidir que determinados
impulsos não devem governar nossas ações.
A espécie
humana, portanto, não é simplesmente aquela que conseguiu escapar da natureza.
É aquela que levou a natureza consigo e passou a construir explicações sobre
ela. Somos animais que inventaram a ideia de não serem animais. Somos
organismos biológicos que criaram conceitos como alma, liberdade, culpa,
justiça, pecado, ciência, progresso e responsabilidade. Somos primatas que
construíram armas capazes de destruir cidades e, simultaneamente, instituições
destinadas a impedir que essas armas sejam utilizadas. Somos capazes de
transformar a violência em espetáculo, mas também somos capazes de sentir
horror diante dela. Somos capazes de criar sistemas de dominação e, em seguida,
desenvolver ideias de igualdade para contestá-los.
A diferença
entre a espécie humana e as demais é muito difícil e complexa de estabelecer.
Quando procuramos a diferença exclusivamente nos genes, encontramos
continuidade. Quando procuramos no cérebro, encontramos estruturas
compartilhadas. Quando procuramos emoções, encontramos parentesco. Quando
procuramos aprendizagem, encontramos cultura em outras espécies. Quando
procuramos cooperação, encontramos sociedades animais. Quando procuramos
agressividade, encontramos uma história evolutiva compartilhada. Mas quando
observamos a capacidade de combinar todas essas características com linguagem
simbólica, memória coletiva, instituições, tecnologia e reflexão sobre o
próprio comportamento, encontramos algo extraordinariamente singular.
A
diferença, no fim, pode não estar em uma característica isolada, mas na
arquitetura formada pela combinação de muitas características. E isso modifica
a própria pergunta inicial. Não somos diferentes dos demais animais porque
deixamos de ser animais. Somos diferentes porque, permanecendo animais,
desenvolvemos uma maneira incomum de transformar experiência em representação,
representação em conhecimento, conhecimento em cultura e cultura em um ambiente
que passa a modificar novamente o animal que a produziu.
Somos, em
certo sentido, a espécie que construiu um espelho grande o suficiente para
olhar para a própria natureza. O problema é que ainda não aprendemos
inteiramente o que estamos vendo.





