O FUTURO NÃO FOI
FEITO PARA TODOS
Modernização ou
Abandono?
por Heitor Jorge Lau
Há uma
violência silenciosa acontecendo diante dos nossos olhos e, talvez justamente
por ser silenciosa, ela passe despercebida pela maioria das pessoas que ainda
conseguem acompanhar a velocidade frenética das transformações digitais. Não se
trata de uma violência feita com armas, gritos ou ameaças explícitas. Trata-se
de uma violência burocrática, tecnológica e institucionalizada. Uma violência
fria, automatizada, polida por telas coloridas, slogans modernos e aplicativos
“inteligentes” que prometem praticidade enquanto empurram milhões de seres
humanos para fora do mundo funcional.
Criou-se
uma narrativa quase religiosa de que a tecnologia veio para facilitar a vida de
todos. “Todos.” Essa palavra é repetida como um mantra publicitário, mas ela é
profundamente falsa. A tecnologia facilita a vida de quem consegue
compreendê-la, acompanhá-la e adaptar-se continuamente às mudanças arbitrárias
impostas pelos sistemas. Para milhões de pessoas, especialmente idosos,
aposentados, pessoas simples, trabalhadores exaustos e cidadãos sem intimidade
com o universo digital, a tecnologia não trouxe liberdade. Trouxe humilhação.
O mais
perverso é que essa exclusão ainda costuma vir acompanhada de culpa. O
indivíduo é levado a acreditar que o problema está nele. Se não consegue
acessar sua conta, a culpa é dele. Se não entende a autenticação em duas
etapas, a culpa é dele. Se não sabe diferenciar conta prata de conta ouro, a
culpa é dele. Se o aplicativo trava, muda de interface ou exige reconhecimento
facial impossível de concluir, o sistema nunca está errado. O ser humano é que
se tornou “desatualizado”.
Existe algo
de profundamente cruel nisso.
Imagine a
ironia: pessoas que trabalharam a vida inteira, pagaram impostos durante
décadas, ajudaram a construir o próprio país, criaram filhos, sustentaram
famílias, sobreviveram a crises econômicas, ditaduras, hiperinflação e toda
espécie de dificuldade, agora precisam implorar diante de um celular para
acessar um benefício, consultar um valor esquecido ou simplesmente provar que
existem. E muitas vezes não conseguem. A tecnologia deveria servir ao ser
humano. Mas em inúmeros serviços públicos ela se tornou um filtro de exclusão.
O cidadão não é mais atendido por pessoas, ele é confrontado por labirintos
digitais projetados por técnicos que parecem esquecer completamente que do
outro lado existe alguém cansado, envelhecido, inseguro ou simplesmente sem
familiaridade tecnológica.
O mais
absurdo é perceber que boa parte dessas barreiras sequer é realmente
necessária. Muitos sistemas são construídos com uma arrogância técnica quase
obscena. Interfaces mal pensadas, excesso de etapas, termos incompreensíveis,
validações redundantes, autenticações sucessivas e mensagens vagas como “erro
inesperado”, “atualizando sistema”, “tente novamente mais tarde”. Parece que os
sistemas foram feitos não para acolher o cidadão, mas para proteger a máquina
do contato humano. E quando alguém reclama, surge imediatamente uma espécie de
elite digital para ridicularizar o problema. “Mas é tão fácil.” “É só clicar
ali.” “Minha avó consegue.” Como se capacidade tecnológica fosse medida de
inteligência, dignidade ou valor humano. Existe uma soberba escondida no
discurso tecnocrático contemporâneo. Uma incapacidade completa de perceber que
aquilo que é intuitivo para alguns pode ser praticamente indecifrável para
outros.
O drama se
torna ainda mais revoltante quando os canais humanos desaparecem. Bancos fecham
agências. Serviços públicos eliminam atendimentos presenciais. Telefones levam
a menus infinitos onde nenhuma opção resolve nada. O cidadão fica abandonado
diante de máquinas que não escutam, não interpretam sofrimento e não possuem
qualquer sensibilidade humana. O mundo moderno transformou o atendimento em
autodefesa institucional: tudo é feito para reduzir custos, eliminar
funcionários e transferir o trabalho para o próprio usuário. Hoje o cliente faz
o trabalho do caixa. O paciente faz o trabalho da recepção. O cidadão faz o
trabalho do atendente público. Todos trabalham gratuitamente para empresas e
instituições bilionárias em nome de uma suposta “modernização”.
E há algo
ainda mais grave: a exclusão digital não atinge apenas a praticidade cotidiana.
Ela corrói a autonomia psicológica das pessoas. Muitos idosos passam a sentir
vergonha de pedir ajuda. Sentem-se inúteis. Dependentes. Lentamente, vão sendo
empurrados para uma condição infantilizada diante da própria vida. Precisam que
filhos, netos ou terceiros resolvam aquilo que antes conseguiam resolver
sozinhos num balcão, numa conversa simples, numa assinatura em papel. A
dignidade humana começa a morrer quando alguém perde a autonomia sobre as
próprias necessidades básicas.
O mais
irônico é que frequentemente os sistemas são desenvolvidos por pessoas
obcecadas pela eficiência, mas completamente desconectadas da experiência
humana real. O sujeito consegue criar algoritmos sofisticados, inteligência
artificial, integração bancária complexa, mas parece incapaz de compreender uma
verdade elementar: nem toda pessoa deseja viver refém de senhas, aplicativos,
biometria facial, QR Codes, tokens e verificações intermináveis.
A obsessão
tecnológica contemporânea criou uma sociedade onde envelhecer virou quase um
pecado operacional. O idoso passou a ser tratado como incompatibilidade de
sistema. E talvez a frase mais cruel do nosso tempo não seja uma ofensa direta,
mas uma mensagem automática na tela: “Seu acesso não pôde ser concluído.” Porque
ali não está apenas um erro técnico. Está uma declaração simbólica. Uma
sociedade inteira dizendo: “Você não acompanha mais o ritmo. Você ficou para
trás.” O problema não é a tecnologia em si. Ela pode ser extraordinária. O
problema é a transformação da tecnologia em único caminho possível para existir
socialmente. Quando o digital deixa de ser uma alternativa e se torna obrigação
absoluta, ele deixa de ser progresso e começa a se tornar mecanismo de
exclusão.
Uma
civilização minimamente ética jamais eliminaria completamente os caminhos
humanos de acesso. Sempre haveria atendimento presencial digno, orientação
simples, suporte real e respeito pelo tempo das pessoas. Mas o que vemos é
exatamente o contrário: uma pressa desumana de informatizar tudo sem qualquer
preocupação genuína com aqueles que serão deixados pelo caminho. E os deixados
para trás não são poucos. São milhões. Milhões de pessoas constrangidas diante
de caixas eletrônicos. Milhões que fingem entender aplicativos por vergonha.
Milhões que anotam senhas em papéis porque não conseguem decorar dezenas de
códigos. Milhões que sentem medo quando uma atualização muda tudo de lugar (mas
continua fazendo a mesma coisa). Milhões que dependem de filhos ou vizinhos até
para acessar um direito básico.
Isso não é
modernidade humanizada. É abandono tecnológico institucionalizado.
Talvez uma
das grandes tragédias do nosso tempo seja justamente esta: nunca tivemos tanta
tecnologia e, ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil fazer um ser humano sentir-se
incapaz.






