quinta-feira, 29 de outubro de 2026

MUDAM OS SÉCULOS, MUDAM OS RÓTULOS, A EXCLUSÃO PERMANECE

            MUDAM OS SÉCULOS, MUDAM OS RÓTULOS,

A EXCLUSÃO PERMANECE

por Heitor Jorge Lau

            Em pleno ano de 2026, voltam a circular, nas redes sociais e nas conversas do cotidiano, convocações para que pessoas sejam demitidas por causa do partido que escolheram e para que empresas sejam boicotadas por supostamente apoiarem este ou aquele lado. Boicote, para quem não está habituado ao termo, é a recusa organizada de comprar, de contratar ou de se relacionar com alguém, com o objetivo de pressioná-lo ou puni-lo. Convém deixar claro desde o início: este texto não defende nem critica partido algum. Ele olha para o método, porque o método é o mesmo, qualquer que seja o lado que o utilize, e a história tem muito a nos dizer sobre onde esse caminho costuma terminar.

            Quase nunca a perseguição começa pela violência. Ela segue uma sequência que se repete em épocas e lugares muito diferentes. Primeiro vem o rótulo, que reduz uma pessoa a uma única característica, seja o partido, a religião, a origem ou a idade, e a faz parecer menos digna de respeito. Depois vem a pressão econômica, que consiste em tirar o emprego, esvaziar o comércio e tornar a vida material impossível. Em seguida, o isolamento social, em que o grupo marcado passa a ser evitado e o mundo ao redor se acostuma com isso. Só no final, e nem sempre, aparece a violência física. O que torna o processo perigoso é que cada etapa, isolada, parece pequena e até justificável para quem a pratica, e é justamente por isso que tanta gente não percebe o caminho que está sendo percorrido.

            O exemplo mais conhecido é o da Alemanha nazista. Em 1º de abril de 1933, o regime organizou um boicote nacional aos negócios de judeus, com integrantes da SA, a tropa paramilitar do partido nazista, postados diante das lojas para intimidar os clientes. Poucos dias depois, uma lei afastou judeus e opositores políticos do serviço público e, em 1935, as chamadas Leis de Nuremberg retiraram a cidadania dos judeus alemães e proibiram casamentos entre judeus e não judeus. A eliminação física veio anos depois e foi precedida por esse longo preparo, no qual muita gente aprendeu a olhar para o lado.

            A Alemanha, porém, não foi a primeira nem a única. Na Europa medieval, judeus eram impedidos de ingressar em muitas corporações de ofício, confinados em bairros fechados chamados guetos e, na Espanha, expulsos do reino em 1492. No início do século XVII foi a vez dos mouriscos, descendentes de muçulmanos convertidos à força ao cristianismo. A Inquisição, tribunal da Igreja Católica criado para investigar desvios de fé, perseguiu hereges e "cristãos-novos", judeus convertidos cuja sinceridade era sempre posta sob suspeita. Nos Estados Unidos, as leis conhecidas como Jim Crow mantiveram, por quase um século depois do fim da escravidão, a separação legal entre brancos e negros em escolas, transportes e empregos. Na África do Sul, o Apartheid, regime vigente a partir de 1948, dividiu a população por raça e determinou onde cada grupo podia morar, estudar e trabalhar.

            Houve também perseguições por ideias políticas, o que se aproxima mais do que vemos hoje. Nos Estados Unidos dos anos 1950, o macarthismo, nome dado à caça a supostos comunistas liderada pelo senador Joseph McCarthy, levou à criação de listas negras: roteiristas, atores, professores e funcionários públicos eram demitidos ou impedidos de trabalhar apenas por serem acusados de simpatizar com o comunismo, muitas vezes sem provas. Na União Soviética de Stálin, os chamados "inimigos do povo" perdiam o emprego e a moradia antes de serem presos ou executados. Na China de Mao, a partir de 1966, a Revolução Cultural humilhou publicamente professores e intelectuais e os afastou de suas funções. No Camboja do Khmer Vermelho, na segunda metade da década de 1970, as pessoas instruídas e os profissionais liberais estavam entre os principais alvos. E, em outro registro, a caça às bruxas na Europa dos séculos XV a XVII atingiu majoritariamente mulheres, acusadas de desvio por não se encaixarem no papel que a sociedade lhes reservava.

            Mas não é preciso voltar tantos séculos para encontrar a segregação de pessoas do trabalho. Ela acontece, em silêncio, no mercado de hoje. Profissionais com mais de 50 ou 60 anos relatam que, a partir de certa idade, seus currículos deixam de ser lidos, as vagas passam a pedir "perfil jovem" e a experiência, que deveria ser um ativo, é tratada como obstáculo. Mulheres enfrentam a pergunta velada sobre planos de ter filhos, a desconfiança diante da maternidade, a dificuldade de chegar a cargos de liderança e, em muitos casos, salários menores para funções iguais. O mesmo se dá com pessoas com deficiência e com quem vem de determinado bairro ou tem determinado sotaque. Não há lista oficial nem boicote declarado, mas o efeito é parecido: uma característica isolada passa a valer mais do que a competência, e a pessoa é afastada antes de ter tido a chance de mostrar o que sabe fazer. A diferença em relação aos fanatismos políticos de hoje está apenas no rótulo escolhido. A lógica de excluir alguém pelo que ela é, ou pelo que pensa, e não pelo que faz, é a mesma.

            O Brasil tem proteção para isso, ao menos no papel. A Constituição proíbe diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil, e garante o voto direto e secreto. A Lei nº 9.029/1995 proíbe práticas discriminatórias no acesso ao emprego e na sua manutenção, e a Lei nº 14.611/2023 trata da igualdade salarial entre mulheres e homens. O Ministério Público do Trabalho, por sua vez, tem tratado como assédio eleitoral a pressão exercida sobre trabalhadores por causa do voto. Mas lei nenhuma funciona sozinha: ela depende de uma cultura que reconheça o outro como pessoa inteira.

            É preciso prudência com as comparações. Os casos históricos citados foram, em sua maioria, projetos de poder nos quais o Estado estava nas mãos de quem perseguia, e suas consequências foram incomparavelmente mais graves. O que vemos hoje, em grande parte, são grupos privados, sem esse poder, e exagerar a analogia só enfraquece o alerta. O ponto não é dizer que estamos repetindo o passado, e sim que o começo de todos esses processos foi parecido: a naturalização da ideia de que alguém pode ser privado do seu sustento por pertencer a um grupo ou por pensar de determinada forma.

            Um trabalhador não é o partido em que vota, a religião que professa, a idade que tem ou o gênero a que pertence. É uma pessoa com contas a pagar, família, competência e uma vida inteira além daquela característica. O voto é secreto exatamente para que ninguém precise pagar com o próprio sustento pela sua convicção. Defender esse princípio não é tomar partido, é defender a possibilidade de convivermos entre diferentes. Podemos discordar com firmeza, argumentar e votar de modos distintos. O que não podemos é confundir divergência com inimizade, nem deixar que a discordância vire pretexto para tirar o pão da mesa de alguém.

            Uma sociedade amadurece quando aprende a debater ideias sem destruir pessoas e a contratar, promover e conviver pelo que cada um faz, e não pelo rótulo que carrega.

E você, já viu alguém ser julgado pelo que é ou pelo que pensa, e não pelo que faz?

#Reflexão #Democracia #Respeito #MercadoDeTrabalho

 

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

MEA CULPA OU DE QUEM É A CULPA?

MEA CULPA OU DE QUEM É A CULPA?

A síndrome do indicador e o Brasil das urnas

por Heitor Jorge Lau

            Existe um gesto que o brasileiro aprendeu cedo e foi aperfeiçoando com o tempo: esticar o braço, dobrar três dedos e deixar o indicador apontando para longe de si. Não é um gesto raro, nem exclusivo de uma ideologia, de uma região ou de uma faixa etária. É quase um reflexo. Algo dá errado e, antes mesmo de entender o que aconteceu, já sabemos de quem é a culpa, desde que seja de outra pessoa. A esse reflexo coletivo vou chamar aqui de síndrome do indicador: a tendência de apontar o dedo, transferir a responsabilidade e sair de cena com a consciência tranquila. Falo do Brasil, apenas dele, porque é o país que vivo e que consigo observar de perto, sem pretensão de opinar sobre o que se passa em outros lugares.

            O cenário eleitoral é o palco onde essa síndrome se manifesta com mais nitidez, e o curioso é que ela funciona nos dois tempos, antes e depois das urnas. Durante a campanha, cada lado descreve os problemas do país como obra exclusiva do adversário: a economia que não anda como deveria, o serviço público que falha, a segurança que preocupa, a divisão entre as pessoas. Ouvindo os discursos, parece que ninguém jamais teve qualquer participação no que está aí, que as dificuldades surgiram sozinhas e que só existe um grupo capaz de tê-las causado. O dedo aponta para a frente, na direção do outro candidato, e o eleitor é convidado a apontar junto.

            Passada a eleição, o gesto não desaparece, apenas muda de alvo. Quem venceu atribui as dificuldades que vierem ao que foi herdado, aos obstáculos colocados pela oposição, às instituições que atrapalham, à imprensa que distorce. Quem perdeu explica a derrota pelos erros dos outros: o eleitor que não entendeu a mensagem, a informação que chegou torta, a estrutura que favoreceu o adversário, a campanha rival que foi injusta. Raramente se ouve, nas noites de apuração, alguém dizer com simplicidade: "nós erramos neste ponto". E o eleitor, que assiste a tudo do sofá ou da mesa do bar, completa o ciclo: culpa os políticos, todos eles, como se o voto de cada um fosse um assunto separado do resultado final. É uma tentação que alcança todos nós, e é justamente por ser tão humana que merece ser examinada com calma.

            Aqui está o ponto mais interessante, aquele que dá nome a este texto: nesse jogo, todos são culpados e todos são inocentes ao mesmo tempo. Todos são culpados porque cada um aponta o dedo para o outro e o acusa... todos são inocentes porque cada um, em sua própria narrativa, nunca teve nada a ver com o problema. É um paradoxo e tanto. Se todos são sempre inocentes em suas próprias versões, de onde vêm então os problemas? Se a soma de milhões de inocentes resulta em um país com tantas queixas, alguma coisa nessa conta não fecha. A culpa, quando todos a repassam adiante como uma batata quente, não desaparece, ela apenas fica sem dono, e o que não tem dono dificilmente tem conserto.

            A psicanálise ajuda a entender por que esse gesto é tão confortável. Estudos sobre atribuição mostram que tendemos a explicar nossos acertos por mérito pessoal e nossos fracassos por circunstâncias externas, enquanto fazemos exatamente o contrário ao julgar os outros: o fracasso alheio vira defeito de caráter, e o sucesso alheio vira sorte. Há ainda o mecanismo da projeção, em que depositamos em outra pessoa aquilo que nos incomoda reconhecer em nós mesmos. Apontar o dedo, portanto, não é apenas um hábito político; é um recurso de proteção do ego. Dói menos acreditar que o problema está fora. O preço, porém, é alto: quem nunca olha para dentro nunca encontra a parte que lhe cabe e, sem encontrá-la, nunca poderá mudá-la.

            Na outra ponta vem a expressão que abre o título: mea culpa, do latim, "minha culpa". Ela vem de uma oração antiga em que a pessoa reconhece, batendo no peito, o próprio erro. Hoje a expressão é usada com certa leveza e, muitas vezes, de forma retórica, como um pedido de desculpas protocolar que não altera coisa alguma. Mas o mea culpa verdadeiro não é humilhação nem autoflagelo... é um ato de maturidade. É dizer: nesta parte do problema eu participei, e nesta parte posso fazer diferente. Não se trata de assumir a culpa por tudo, o que seria apenas outra forma de distorção, mas de separar o que é do outro do que é meu, com honestidade suficiente para não empurrar tudo para um lado só.

            Aplicado ao cenário político, esse exercício incomoda e, por isso mesmo, é necessário. O voto é um ato individual com consequências coletivas. Isso significa que, ao escolher alguém, assumo uma parcela pequena, mas real, de corresponsabilidade pelo que virá: pelo quanto me informei, pelo quanto desconfiei de promessas fáceis, pelo quanto cobrei depois. Votar e se desligar por quatro anos, reaparecendo apenas na hora da queixa, é uma forma elegante de apontar o dedo para o futuro. Da mesma maneira, quem governa ou legisla precisa aprender que "a culpa é de quem veio antes" tem prazo de validade, e que prestar contas não é um favor feito ao eleitor, e sim parte do cargo. Cada um, no seu lugar, tem uma fatia da responsabilidade, e o país só funciona quando as fatias são reconhecidas.

            Há ainda um detalhe que o gesto do indicador esconde, e que muita gente já ouviu, mas poucos aplicam: quando apontamos um dedo para alguém, os outros três dedos da mesma mão estão apontados para nós. A anatomia, nesse caso, é uma pequena lição de ética, bastando olhar para a própria mão. O que a síndrome do indicador nos pede, portanto, não é que deixemos de cobrar, criticar ou de apontar falhas, pois isso faz parte saudável de qualquer democracia. Pede apenas que o dedo que aponta para fora venha acompanhado de uma pergunta que aponte para dentro: o que me cabe nisso?

            Então, de quem é a culpa? Talvez a pergunta esteja mal formulada. Procurar o culpado é procurar alguém para punir. Procurar a responsabilidade é procurar o que pode ser feito. Enquanto o Brasil perguntar apenas "de quem é a culpa?", continuará girando em círculos, com cada lado acusando o outro e todos se sentindo injustiçados. Quando passar a perguntar "qual é a minha parte, e o que posso fazer com ela?", talvez descubra que a saída nunca esteve em um único nome, em um único partido ou em uma única eleição. Esteve, desde sempre, na mão que aponta, e na coragem de recolher o dedo, ao menos por um instante, para olhar o que ele apontava de volta.

 

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

MÃOS QUE ORAM: A BELEZA DE NUNCA ESQUECER QUEM NOS AJUDOU A CHEGAR

MÃOS QUE ORAM:

A BELEZA DE NUNCA ESQUECER QUEM NOS AJUDOU A CHEGAR

por Heitor Jorge Lau

            A inspiração para esta reflexão nasceu da leitura de “Poesias em Aquarela”, de Antônio J. Giacomin, obra que apresenta, entre suas páginas, a imagem de “Mãos que Oram”, associada a uma comovente narrativa sobre sacrifício, amizade e gratidão. A partir dessa imagem, surge uma questão que ultrapassa os limites de uma única pintura: quantas histórias podem estar inscritas nas mãos de um artista plástico? Mãos que aprendem a observar o mundo, experimentam a resistência dos materiais, descobrem formas e cores, enfrentam dificuldades, amadurecem com o tempo e transformam sentimentos, lembranças e inquietações em expressões artísticas. Cada pincelada pode guardar a memória de uma experiência, cada obra pode carregar fragmentos de uma existência e cada marca deixada pelo tempo pode revelar o esforço silencioso que tornou possível uma criação. Por trás daquilo que admiramos em uma tela, existe uma trajetória que os olhos nem sempre conseguem enxergar: horas de dedicação, renúncias, descobertas, pessoas que ofereceram apoio e outras que, mesmo sem perceber, contribuíram para a formação do artista. Contemplar uma obra, portanto, é também reconhecer que a arte não nasce apenas do talento das mãos, mas de tudo aquilo que a vida deposita nelas. E, quando procuramos compreender essa dimensão humana da criação artística, percebemos que algumas das histórias mais profundas não estão pintadas na superfície da tela, mas permanecem guardadas nas mãos que a tornaram possível.           

Boa leitura!

 

            Existem obras de arte que ultrapassam a beleza de suas formas e encontram um lugar permanente na memória humana por seu significado original. Não é apenas o talento do artista que lhes confere grandeza, mas a história que carregam e os sentimentos que despertam. Entre elas está a célebre pintura “Mãos que Oram”, associada ao artista alemão Albrecht Dürer (1471–1528), cuja origem é contada por meio de uma lenda que, independentemente de sua veracidade histórica, encerra uma profunda lição sobre a gratidão e os vínculos que construímos ao longo da vida.

            Uma das versões dessa narrativa remonta à juventude de Dürer, um dos dezoito filhos de um ourives que vivia nas proximidades de Nuremberg. O jovem Albrecht compartilhava com um de seus irmãos o sonho de se tornar artista. A família, entretanto, não dispunha de recursos para custear a formação de ambos, e os dois irmãos precisavam encontrar uma maneira de superar aquela limitação. Foi então que conceberam um acordo que mudaria o destino de suas vidas.

            Decidiram lançar uma moeda ao alto para determinar quem teria a oportunidade de estudar arte. O vencedor partiria para a academia, enquanto o outro trabalharia nas minas de carvão da região, dedicando-se ao sustento do irmão. Quando os estudos terminassem, aquele que tivesse alcançado a formação artística assumiria a responsabilidade de financiar a educação do outro, permitindo-lhe realizar o mesmo sonho. A sorte favoreceu Albrecht, que partiu para estudar, enquanto seu irmão se submeteu ao trabalho árduo nas profundezas das minas.

            Durante quatro anos, Dürer dedicou-se intensamente à aprendizagem, demonstrando um talento extraordinário e conquistando reconhecimento por sua habilidade. Enquanto isso, o irmão cumpria sua parte no acordo, trabalhando incansavelmente para custear a formação daquele que havia sido escolhido. Cada jornada nas minas representava uma contribuição silenciosa para um futuro que ambos haviam imaginado, mas que apenas um deles, naquele momento, podia perseguir.

            Concluídos os estudos, Albrecht retornou à aldeia natal, já reconhecido por sua competência artística. A família reuniu-se para celebrar a conquista, e o jovem artista, em meio à alegria do reencontro, anunciou ao irmão que havia chegado sua vez de partir para a cidade e realizar o sonho de tornar-se pintor. Afinal, aquele era o compromisso assumido entre os dois. O que aconteceu em seguida, porém, transformou a celebração em um dos episódios mais comoventes dessa narrativa.

            Com lágrimas nos olhos, o irmão revelou que já não poderia seguir o caminho desejado. Os quatro anos de trabalho nas minas haviam deixado marcas profundas em suas mãos: ossos quebrados, calosidades, sulcos e deformações provocadas pelo esforço brutal. Aquilo que antes lhe permitiria manejar com delicadeza os instrumentos da arte havia sido comprometido de maneira irreversível. Seu sonho de tornar-se pintor não poderia mais se realizar.

            Diante dessa realidade, o irmão não demonstrou ressentimento. Pelo contrário, manifestou satisfação por ter contribuído para que Albrecht alcançasse a posição que ambos haviam desejado. Suas mãos, embora incapazes de executar os movimentos delicados exigidos pela pintura, haviam cumprido uma tarefa extraordinária: ajudaram a construir o futuro de outra pessoa. O sacrifício não fora pequeno, tampouco suas consequências, mas ele reconhecia o valor da conquista do irmão e encontrava nisso uma razão para se alegrar.

            Profundamente tocado por aquela demonstração de dedicação, Dürer decidiu desenhar as mãos castigadas do irmão, unidas em uma posição de oração e agradecimento. O resultado teria sido a imagem que atravessou gerações sob o título “Mãos que Oram”. A força expressiva do desenho estaria justamente no contraste entre a delicadeza do gesto e a dureza da vida que aquelas mãos representavam. Não eram mãos comuns: eram o testemunho de um esforço silencioso, de uma renúncia profunda e de uma generosidade que não exigia recompensas.

            Existe, contudo, outra versão da lenda. Porém, essa narrativa é o suficiente para germinar na mente do leitor a reflexão desejada. As duas narrativas apresentam diferenças quanto à identidade do homem retratado e às circunstâncias que teriam originado o desenho. Não é necessário, entretanto, decidir qual delas é verdadeira para compreender a mensagem que ambas procuram transmitir. A história pode ser examinada como uma lenda de origem, sem que se confunda sua força simbólica com a comprovação dos fatos históricos. Seu valor reside, sobretudo, na reflexão que desperta sobre a maneira como reconhecemos aqueles que contribuíram para nossas realizações.

            A imagem das mãos unidas nos convida a olhar para além do sucesso individual. Frequentemente, celebramos as conquistas como se fossem resultados exclusivos de nosso esforço, de nossa inteligência ou de nosso talento. Esquecemos que, em diferentes momentos da vida, alguém nos ofereceu tempo, conhecimento, trabalho, incentivo ou oportunidades que tornaram possível avançar. Nem sempre essas contribuições aparecem publicamente, e muitas delas permanecem invisíveis para aqueles que contemplam os resultados alcançados. Ainda assim, fazem parte da história de cada realização.

            Há pessoas cujos nomes jamais serão associados às grandes conquistas que ajudaram a tornar possíveis. Seus esforços não aparecem em certificados, homenagens ou biografias. Suas mãos, contudo, estão presentes em muitas das coisas que admiramos. Reconhecê-las exige sensibilidade para compreender que o mérito individual não elimina a importância da colaboração, e que a gratidão não diminui quem a manifesta. Ao contrário, revela a capacidade de reconhecer a presença do outro em nossa própria trajetória.

            É nesse sentido que “Mãos que Oram” adquire uma dimensão que ultrapassa a religiosidade sugerida por seu título e sua composição. A imagem pode ser compreendida como uma expressão universal de reconhecimento, respeito e gratidão. Ela nos lembra que existem sacrifícios que não podem ser desfeitos, oportunidades que não podem ser devolvidas e gestos de generosidade que nenhuma recompensa material consegue compensar integralmente. Diante deles, resta-nos preservar a memória, honrar a contribuição recebida e impedir que o esquecimento apague a importância de quem caminhou conosco.

            Seja qual for a versão da lenda, permanece uma verdade humana que merece ser preservada: ninguém constrói sozinho tudo aquilo que a vida lhe permite realizar. Em algum momento, nossas conquistas carregam a participação de pessoas que acreditaram em nós, que assumiram responsabilidades, que compartilharam dificuldades ou que aceitaram renúncias para nos oferecer melhores condições de seguir adiante. Reconhecer essa presença é uma forma de justiça, mas também uma expressão de maturidade e humanidade.

            A maior beleza das mãos retratadas não está apenas na posição em que foram desenhadas, mas naquilo que simbolizam: a possibilidade de transformar o sacrifício em generosidade, a lembrança em reconhecimento e o sucesso em motivo de gratidão. São mãos que, mesmo marcadas pelo sofrimento, não perderam a capacidade de expressar afeto. Mãos que contam uma história sem precisar de palavras. Mãos que nos recordam que a grandeza de uma pessoa não se mede somente pelo que consegue realizar, mas também pela maneira como reconhece aqueles que contribuíram para sua caminhada.

            No fim, a lição permanece simples e profunda: nunca devemos esquecer as mãos que nos ajudaram a chegar onde estamos. Algumas nos ensinaram, outras nos sustentaram; algumas abriram caminhos, outras trabalharam silenciosamente para que pudéssemos percorrê-los. Todas merecem ser lembradas com respeito. Porque o verdadeiro valor de uma conquista também está na gratidão que somos capazes de conservar por aqueles que fizeram parte dela.

 

VIDA - UMA QUESTÃO DE PERSPECTIVA

“Há grandes chances de o seu ponto de vista não ser o único possível!” - Carl Sagan

        A frase do renomado astrônomo científico Carl Sagan nos convida a uma reflexão profunda sobre a humildade intelectual e a abertura para perspectivas diversas. Em um mundo cada vez mais polarizado, onde opiniões se cristalizam e o diálogo muitas vezes dá lugar à intolerância, a mensagem de Sagan ressoa como um lembrete essencial: nossa visão de mundo, por mais fundamentada que pareça, é apenas uma entre muitas.

 

METONÍMIA e ROTULAGEM: ANTES DO RÓTULO, HAVIA ALGUÉM

ANTES DO RÓTULO, HAVIA ALGUÉM

Sobre a pessoa, a profissão e o posicionamento político

por Heitor Jorge Lau

            Há uma cena banal que se repete todos os dias, em conversas de bar, reuniões de trabalho e, sobretudo, nas redes sociais. Alguém menciona um nome e, antes que a frase termine, o interlocutor já decidiu quem é aquela pessoa: “ah, é professor”, “ah, é de direita”, “ah, é daquele partido”. Em poucos segundos, um ser humano inteiro foi arquivado numa gaveta com etiqueta. A pergunta que merece ser feita é simples e, justamente por isso, desconfortável: quando falamos de alguém, de quem estamos realmente falando? Sobre a pessoa, sobre a sua profissão ou do seu posicionamento político?

            A resposta mais honesta - do ponto de vista filosófico e linguístico - é que um nome próprio aponta para um indivíduo inteiro, com biografia, afetos, medos, contradições e uma história que ultrapassa qualquer papel que ele desempenhe. Quando dizemos “João”, não estamos dizendo “o contador” nem “o eleitor de tal candidato”. Profissão e convicção política são atributos de alguém, não o alguém em si. Um médico é uma pessoa que exerce a medicina; um militante é uma pessoa que abraçou certas ideias. O atributo descreve, mas não esgota. Essa distinção parece óbvia quando enunciada com calma, e, no entanto, é violada com uma naturalidade assustadora no dia a dia.

            O mecanismo dessa violação é conhecido. Trata-se da METONÍMIA e da ROTULAGEM: tomamos a parte pelo todo e deixamos que a categoria fale no lugar do indivíduo. Expressamos “os médicos pensam assim”, “os professores são todos iguais”, “os eleitores daquele lado fazem aquilo”, e a pessoa concreta desaparece atrás do grupo abstrato. Há, é verdade, uma economia cognitiva nisso, porque o mundo é complexo e o rótulo simplifica. Mas o preço da simplificação é alto. O rótulo apaga a singularidade, atribui a cada um tudo o que se associa ao coletivo e transforma o debate de ideias em um confronto de identidades. Quem é reduzido ao rótulo deixa de ser ouvido pelo que diz e passa a ser lido pelo que supostamente representa.

            Convém, contudo, separar dois planos. No plano descritivo, mencionar a profissão ou a posição política de alguém é perfeitamente legítimo quando isso é relevante ao assunto em questão. Se discutimos uma sentença, é pertinente falar da juíza; se analisamos um voto no parlamento, é pertinente falar do partido do parlamentar. O problema nasce no plano valorativo, quando o atributo deixa de ser informação e vira argumento. “Isso é coisa de empresário”, “só poderia vir de um professor universitário”: nessas frases, ninguém examina o que foi dito, apenas desqualifica-se quem disse. É a velha falácia ad hominem, que avalia o falante em vez da fala. E o caminho inverso é igualmente enganoso, o argumento de autoridade, em que o atributo serve de escudo: “ele é doutor, logo está certo”. Nos dois casos, o rótulo ocupa o lugar que deveria pertencer à razão.

            Seria um erro, porém, concluir que profissão e política são camadas superficiais, que a pessoa veste e despe como um casaco. Para muita gente, ser professor, militar, enfermeiro ou militante não é apenas o que faz... é quem é. São escolhas que moldam rotinas, vínculos, vocabulário e até a forma de enxergar o mundo. Tratar esses elementos como descartáveis também seria uma injustiça, porque negaria algo que a própria pessoa considera essencial em sua trajetória. A questão, portanto, não é negar que tais atributos compõem alguém, e sim reconhecer que compõem sem esgotar. Uma pessoa pode ser coerente em suas convicções e, ainda assim, surpreender, mudar de ideia, discordar do próprio grupo e agir de modo que nenhum rótulo previa. A coerência de um indivíduo é maior e mais interessante do que a coerência de qualquer categoria.

            Há aqui, ainda, uma dimensão que toca diretamente o problema da interpretação. Quando lemos ou ouvimos alguém já munidos de um rótulo, aplicamos uma intenção presumida ao discurso antes mesmo de compreendê-lo. Em vez de interpretar o que foi dito, projetamos o que esperávamos ouvir. Umberto Eco, ao refletir sobre os limites da interpretação, lembrava que um texto não pode ser transformado em qualquer coisa que o leitor deseje, que há um ponto em que a leitura precisa ser contida por aquilo que o texto efetivamente diz. Com as pessoas ocorre algo semelhante. O rótulo funciona como uma chave de leitura imposta de fora, uma “sobreinterpretação” que faz a fala do outro caber, à força, na caixa que já tínhamos preparado. Ouvimos o que o rótulo prometia, não o que a pessoa disse.

            O ambiente digital agrava esse quadro. As redes sociais premiam a identificação rápida de lados, recompensam a frase de efeito e punem a nuance. Cada perfil é lido em segundos, classificado em segundos e, em segundos, aceito ou condenado. Nessa lógica, quem se apresenta como “fulano, professor, de direita” ou “beltrana, advogada, de esquerda” oferece, voluntariamente, o crachá com o qual será lido. Seria isso uma autorização para que o reduzam ao crachá? Penso que não. Quem se apresenta por um rótulo está dizendo de onde fala, não renunciando ao direito de ser compreendido além dele. Apresentar-se não é render-se à classificação alheia.

            Existe, por fim, uma maneira honesta de criticar ideias, instituições e grupos sem atingir injustamente os indivíduos que os compõem. Ela exige um esforço que o rótulo dispensa: o de ouvir antes de classificar, perguntar antes de presumir, e de refutar o argumento e não o argumentador. É mais trabalhoso, sem dúvida, porque obriga a reconhecer que o outro é complexo tanto quanto nós mesmos. Mas é também o único caminho para um debate que produza compreensão, e não apenas ruído.

            Enfim, quando nos referimos a uma pessoa, referimo-nos a ela, inteira, com tudo o que a torna única, inclusive a profissão que exerce e as ideias que defende, mas sem nunca nos limitarmos a essas marcas. Tratar alguém como pessoa antes de tratá-lo como representante de uma categoria é um ato de justiça e de generosidade intelectual. Antes do rótulo, havia alguém. E o maior desafio é lembrar disso, justamente quando o rótulo é mais conveniente do que a conversa.

 

sábado, 24 de outubro de 2026

O VERNIZ DA CIVILIZAÇÃO

O VERNIZ DA CIVILIZAÇÃO

O Senhor das Moscas e a natureza que insistimos em esquecer

por Heitor Jorge Lau

            Há obras que envelhecem e há obras que apenas esperam. O Senhor das Moscas pertence ao segundo grupo: a cada geração ele volta a ser atual, não porque o mundo se parece com uma ilha deserta, mas porque nós continuamos a ser quem somos. Retomo estas reflexões, que publiquei há um ano, por uma razão simples: as pessoas parecem ter esquecido de que carregam dentro de si uma natureza primitiva, e quem esquece o que é costuma ser surpreendido pelo que faz.

            Os comentários que seguem nascem da observação do filme à luz da Filosofia, mas logo ficou claro que ela, sozinha, não bastaria. A riqueza de situações, com atitudes individuais e coletivas, proativas e reativas, racionais e irracionais, exigiu um passeio pela psicologia, pela sociologia e pela antropologia. A diversidade de detalhes comportamentais é tão ampla que um olhar restrito aos aspectos filosóficos, ainda que fortemente presentes, deixaria escapar metade do que a história revela.

            O que se vê na tela é a exposição dos instintos mais antigos da condição humana: a desordem social, a disputa pelo poder, o domínio do fogo, o impulso de caçar, a urgência de sobreviver. Não seria exagero tratá-lo como uma Guerra do Fogo vivida em tempos modernos. Que o elenco seja formado por garotos pré-adolescentes, vestidos com resquícios de uniformes militares, importa menos do que parece. Para esta análise, interessam as atitudes e o aprendizado que delas se extrai, não a idade de quem as protagoniza.

            Praticamente todas as sociedades constroem hierarquias nas quais alguns recebem poder e autoridade sobre os demais. Na nossa, pais, diretores de escola, gerentes e até amigos exercem diferentes graus de autoridade, e a relação entre quem manda e quem obedece raramente se dá sem conflito moral. A história de Abraão, a quem Deus ordenou o sacrifício do filho Isaac, ilustra o dilema com força incomum: ele amava a Deus e amava o filho, e viu-se numa posição em que parecia obrigado a trair um dos dois. Até onde deve ir a obediência?

            O mesmo conflito aparece, em versão sombria, quando soldados recebem ordem de matar civis indefesos. Foi o que ocorreu na Guerra do Vietnã, quando o tenente Calley mandou massacrar moradores de My Lai e se defendeu dizendo que apenas obedecia a ordens superiores, "cumprindo o seu dever". De um lado, a disciplina militar; de outro, o respeito pela vida humana. O exemplo mostra a disposição das pessoas de ir a extremos para ser obedientes. E não precisamos de um campo de batalha para reconhecê-la: basta observar como colaboradores se comportam diante de chefes que dizem e fazem coisas evidentemente erradas, e como existe uma relutância generalizada em contestá-los.

            A cultura insiste nessa lição porque acredita que uma sociedade eficiente e organizada depende de uma hierarquia estável, e procura garantir a obediência dando ao indivíduo obediente um lugar na estrutura. Entregamos a saúde ao médico, as finanças ao contador, e precisamos confiar nas opiniões de várias figuras de autoridade para que a vida funcione. É exatamente isso que os garotos do filme retratam: um impulso difícil de controlar, uma necessidade quase inconsciente de submeter-se a quem parece mandar. Chamo isso de efeito manada, e ele não precisa de ilha alguma para operar.

            Há ainda um detalhe que não deve passar despercebido: toda a trama acontece num ambiente hostil, sem as leis sociais que regulam a moral, a ética e os bons costumes. Pode não parecer evidente, mas o contexto geográfico valida ou rejeita determinadas ações. Qualquer homem oferece o pescoço a alguém munido de uma navalha numa barbearia; ninguém faria o mesmo numa sapataria. O cenário diz o que é aceitável antes mesmo de alguém falar.

            Misture o ambiente errado com a influência inadequada e teremos a receita da capacidade humana de abandonar a própria humanidade, à medida que a personalidade singular se dissolve em estruturas institucionais defeituosas. Talvez seja esse o defeito de fábrica com que a natureza nos dotou, e que, a longo prazo, dá à nossa espécie apenas uma modesta chance de sobreviver. Pessimismo ou não, basta lembrar Darwin: compartilhamos ancestrais com os animais mais primitivos, e essa herança vale tanto para o cérebro, berço da razão e da sensação, quanto para qualquer outra parte do corpo. Como o assunto aqui é comportamento, deixemos de lado o que fica do pescoço para baixo.

            A ciência identificou duas estruturas cerebrais decisivas. O sistema límbico, também chamado de Paleocórtex, é a parte mais antiga e governa a expressão das emoções. O Neocórtex, a massa cinzenta que surgiu depois, é o que distingue o homem dos demais animais: permite o raciocínio lógico, a linguagem complexa e a superação das barreiras da evolução puramente biológica. Herdamos mais do que genes; herdamos as culturas complexas que nós mesmos criamos. Há comunicação entre as duas partes, mas cada uma cumpre funções próprias, e nenhuma tentativa de explicar a natureza humana prospera se ignorar essa diferença.

            O ponto crucial é que o raciocínio e a linguagem derivam de uma estrutura posterior e separada, e por isso têm pouco poder sobre o sistema límbico e sobre as emoções que ele comanda. É provável que aí esteja a explicação para a migração dos garotos do filme: de um imaginário moral e eticamente correto para um mundo em que a luta pela sobrevivência passou a mandar.

            Se a ilha do filme parece distante, basta olhar para o debate político brasileiro dos últimos anos. Sem que ninguém tenha sido abandonado numa praia deserta, o país se dividiu em grupos que mal se reconhecem como parte da mesma comunidade. Cada um tem a sua fogueira, o seu chefe, a sua concha que dá o direito à palavra, e a sua certeza de que o outro lado é a fera escondida na mata. O desacordo, que é a substância normal da vida democrática, foi substituído pela hostilidade. Opinião virou identidade, e quem discorda deixou de ser adversário para tornar-se inimigo.

            O mecanismo é o mesmo que o filme escancara. O indivíduo que é capaz de ponderar, em sua vida privada, com a calma do Neocórtex, entrega-se em grupo ao comando do sistema límbico: medo, raiva, orgulho tribal, necessidade de pertencer. Passa a repetir o que a sua manada repete, a aplaudir sem examinar e a condenar sem ouvir. A obediência a líderes e narrativas, que antes vimos em Abraão e no tenente Calley, reaparece sob a forma de fidelidade cega a figuras políticas e a correntes de opinião, e a falha, quando há, é sempre do outro. Num ambiente em que cada lado afirma defender a civilização contra a barbárie, ambos acabam cometendo, com a consciência tranquila, as pequenas barbáries do cotidiano: o insulto, a mentira repassada sem checagem, o rompimento de amizades e a quebra de laços familiares.

            Vale lembrar o que vimos há pouco sobre a distância da vítima. As redes sociais, que dominam o debate, ampliam justamente o que favorece a crueldade: não enxergamos o rosto de quem é atingido pela palavra. Sem testemunhar o sofrimento, a obediência ao grupo prevalece sobre a compaixão. O ambiente, repito, também decide: a arena digital, sem as regras de conduta de uma conversa face a face, é a ilha, e nela muita gente se comporta de um modo que jamais adotaria numa mesa de jantar.

            Quem lê isto talvez queira apontar o dedo para um lado, ou para o outro. Esse é exatamente o reflexo que o filme denuncia. A política não é o problema; o problema é o que fazemos com ela quando deixamos de pensar. A posição de cada um é um direito, e defendê-la com firmeza é legítimo. Perder a capacidade de reconhecer a humanidade de quem pensa diferente é que é o primeiro passo rumo à selvageria.

            Conflitos extremamente poderosos surgem quando alguém é levado por uma autoridade a cometer atos imorais, e a tensão resultante pode ser quase intolerável. A obediência tende a prevalecer quando o indivíduo se sente mais ligado à figura de autoridade do que à vítima; a desobediência aparece quando ele testemunha o sofrimento de quem está sendo atingido. Proximidade com a dor alheia, portanto, é um dos poucos freios que conhecemos.

            Sobram, então, perguntas que cada leitor pode levar consigo. Somente situações extremas fazem aflorar nossos instintos mais primitivos, ou bastam um grupo, um líder e um inimigo comum? Ou seríamos selvagens em nosso cotidiano, de forma institucionalizada, sem que a palavra "selvageria" nos ocorra? Resta refletir sobre elas e sobre tantas outras situações que atrapalham o nosso desenvolvimento social. Quem sabe, um dia, as pessoas deixem de ser candidatas e passem à categoria efetiva de seres humanos, no sentido mais verdadeiro da palavra.

 

A FORÇA DO RECONHECIMENTO

Estimado Leitor,

Cada acesso representa mais do que um número: é o encontro entre uma ideia e alguém disposto a conhecê-la. A todos que acompanham minhas publicações, leem, compartilham e ajudam a manter vivo este espaço de conhecimentos e reflexões, deixo meu sincero agradecimento. É essa presença que me incentiva a continuar escrevendo, pesquisando e compartilhando ideias sobre a natureza, a sociedade, a ciência, a política, a filosofia e tantos outros temas que merecem nossa atenção.

Seguimos juntos, porque o conhecimento ganha sentido quando encontra quem esteja disposto a refletir.

Minha gratidão a todos vocês! ❤️
 

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

QUANDO "POLARIZAÇÃO" PERDEU O SIGNIFICADO

QUANDO "POLARIZAÇÃO" PERDEU O SIGNIFICADO  

por Heitor Jorge Lau

            Há palavras que atravessam uma década carregando um sentido e, na seguinte, passam a carregar outro, sem que ninguém se dê conta do abismo entre os dois. "Polarização" é uma delas. O que se chamava assim nos anos 2000 pouco tem a ver com o que o termo passou a designar depois das eleições de 2018. Essa mudança não é um capricho do vocabulário. É sintoma de transformações profundas na vida social, na relação entre a sociedade e as instituições e no próprio modo de funcionamento delas.

            Até meados da década de 2010, falar em polarização era descrever um sistema político organizado em torno de dois polos, encarnados por PT e PSDB. Quem vencia a eleição presidencial assumia a liderança de uma coalizão. Primeiro, isolava algumas áreas tidas como estratégicas, protegendo-as, na medida do possível, da partilha de cargos. O resto da máquina era repartido de acordo com o peso de cada força política. Esse arranjo vigorou de 1994 a 2013 e tinha uma lógica quase empresarial: os partidos funcionavam como firmas que vendiam apoio parlamentar a governos de coalizão. Quem se sentia mal contemplado na divisão dos quinhões, ou simplesmente achava que podia arrancar mais, trocava de legenda ou fundava uma nova, o que só estimulava a fragmentação partidária (um problema que se multiplicou).

            Nesse condomínio de interesses dispersos, cabia a quem estava no poder o papel de síndico, dando alguma unidade ao arquipélago e definindo agendas que atravessassem as diferenças. PT e PSDB desempenharam essa função no período. A ciência política brasileira batizou o método de presidencialismo de coalizão, mas poderia chamá-lo de pemedebismo, em homenagem ao PMDB, que por cerca de três décadas liderou esse cartel de venda de apoio e que, desde 2018, atende por MDB. Na imagem dos campos magnéticos, os dois polos disputavam a atração do grande pântano peemedebista que se estendia entre as duas margens de terra firme.

            Poucos documentos expõem esse modelo de forma tão crua quanto uma conversa de 2004 entre Fernando Henrique Cardoso e Cristovam Buarque, registrada no site oficial do PSDB. O ex-presidente disse que não se discutia nem se disputava ideologia, que a questão era poder e saber quem comandava. Para ele, o país tinha uma massa atrasada e partidos que a representavam por meio do clientelismo, e apenas PT e PSDB, aliados a outras siglas, teriam força para liderar uma mudança. No fundo, resumia, a disputa era por quem comandaria o atraso. O perigo, completava, era o atraso acabar comandando quem pretendia comandá-lo, como no pacto de Fausto com o diabo, em que se pode perder a alma pelo caminho.

            A passagem é reveladora porque mostra que a polarização daquele tempo era uma disputa por gestão, não por visões de mundo incompatíveis. Os dois polos competiam pela chefia de um sistema que ambos aceitavam e que, em boa medida, ambos reproduziam. Entender como se passou dessa polarização de administradores para a que hoje divide famílias, amizades e instituições é entender que a palavra mudou porque o chão sob ela mudou.

 

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

A PIRÂMIDE DE MASLOW E AS NECESSIDADES DE CADA LADO DA POLARIZAÇÃO

A PIRÂMIDE DE MASLOW

E AS NECESSIDADES DE CADA LADO DA POLARIZAÇÃO

por Heitor Jorge Lau

            A Pirâmide de Maslow, proposta pelo psicólogo Abraham Maslow em 1943, organiza as motivações humanas em degraus: as necessidades fisiológicas, como alimentação e abrigo; as de segurança; as de pertencimento; as de estima e reconhecimento; e, no alto, a autorrealização. A ideia central é simples e poderosa: enquanto o degrau mais básico não está minimamente atendido, ele ocupa o centro da atenção, e só depois de satisfeito é que o olhar se volta para o seguinte. Poucas vezes essa ideia pareceu tão presente quanto agora, em uma sociedade dividida entre a direita e a esquerda radicalizadas. Sem querer generalizar, até porque isso seria um raciocínio burro e radical, as necessidades daqueles que se posicionam radicalmente à direita parecem ser diferentes das daqueles que se posicionam à esquerda. É nesse ponto do embate que Maslow se faz presente.

            Tenho um exemplo muito pessoal disso. Há muito tempo, houve um momento em que eu necessitava, ou simplesmente desejava, um carro. Depois de conquistá-lo, o desejo seguinte passou a ser um lugar próprio para morar, e do carro eu já não pensava mais, pelo menos não com a mesma urgência. E assim foi, a cada nova conquista, que podemos chamar de uma melhora de vida. A aquisição anterior jamais era esquecida; apenas deixava de ser lembrada como falta e deixava de ser desejada como meta. Não era descartada, era "guardada" no baú das lembranças. O degrau já vencido continuava ali, sustentando os demais, mas a atenção seguia adiante.

            Se levarmos essa lógica para o debate político, algo se esclarece. Quem vive a incerteza do prato de comida, do emprego, do aluguel ou do atendimento de saúde tende a enxergar o mundo a partir da base da pirâmide e a valorizar o que garante um piso mínimo de dignidade. Quem já superou essa etapa e construiu algum patrimônio, algum espaço, alguma estabilidade, tende a voltar a atenção para o degrau seguinte: a proteção do que conquistou, a segurança, a liberdade para empreender, o reconhecimento pelo próprio esforço. Cada um olha para a política da altura em que se encontra na pirâmide, e por isso pede ao Estado coisas diferentes. Nada disso é uma regra rígida. Há pessoas pobres com valores conservadores e pessoas ricas com sensibilidade social, e o próprio modelo de Maslow, mais tarde criticado e relativizado, nunca foi uma escada que todos sobem na mesma ordem. Ele descreve momentos de vida, não identidades ideológicas.

            O problema surge quando a polarização transforma degraus em trincheiras. Quem está embaixo e olha para cima passa a acusar o outro de egoísmo e de insensibilidade, e quem está em cima e olha para baixo passa a acusar o outro de acomodação e de ingratidão. Ambos tomam o degrau em que se encontram pelo mapa completo da realidade. Esquecem que quase todos já estiveram, ou podem vir a estar, em outro nível, e que a vida, como mostra o meu baú de lembranças, é feita de passagens, não de lugares fixos.

            Chego, então, à questão central do tema: as necessidades de uns não invalidam as necessidades de outros. Não me refiro a serem as mesmas necessidades, mas às necessidades básicas, por assim dizer, aquelas sem as quais nenhum degrau superior se sustenta. Quem luta por comida e moradia não está pedindo demais, e quem luta por segurança, liberdade e reconhecimento também não está pedindo de menos. Reconhecer a legitimidade da necessidade alheia não exige abrir mão da própria; exige apenas admitir que a pirâmide é de todos, e não de uma facção.

            Há ainda um segundo aspecto, que me parece decisivo. As duas visões sempre irão se complementar, e não me refiro às necessidades propriamente ditas, mas ao equilíbrio entre o empenho em proporcionar tudo para todos, independentemente da classe social ou do posicionamento em que cada cidadão se encontra. Uma sociedade saudável precisa de um piso firme, que impeça que alguém caia abaixo do mínimo, e de um teto aberto, que permita a quem deseja crescer chegar mais alto. Sem o piso, a liberdade vira privilégio de poucos; sem o teto, a proteção vira estagnação. Defender apenas um dos dois é enxergar metade da pirâmide.

            Se cada lado conseguir olhar para o degrau do outro com o mesmo respeito com que gostaria que olhassem para o seu, o embate deixa de ser uma guerra de necessidades e passa a ser aquilo que a democracia sempre pretendeu ser: a busca conjunta de um modo de garantir que todos, em qualquer ponto da pirâmide, tenham as condições de seguir adiante.

 

ENTRE A SOMBRA DE MEIN KAMPF DE ADOLF HITLER E OS RISCOS DA POLÍTICA BRASILEIRA

ENTRE A SOMBRA DE MEIN KAMPF DE ADOLF HITLER

E OS RISCOS DA POLÍTICA BRASILEIRA

por Heitor Jorge Lau

            A história não se repete necessariamente com os mesmos personagens, os mesmos métodos ou as mesmas circunstâncias. O que ela faz, com inquietante frequência, é oferecer padrões que permitem reconhecer os perigos de determinadas escolhas políticas antes que suas consequências se tornem irreversíveis. É sob essa perspectiva que a leitura de Mein Kampf, obra em que Adolf Hitler expôs suas ideias, seus ressentimentos e seu projeto de poder, pode provocar reflexões sobre o cenário político brasileiro e, particularmente, sobre as tensões envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF).

            O livro de Hitler não deve ser analisado apenas como um registro histórico do nazismo, mas também como um exemplo de como o discurso político pode ser utilizado para mobilizar ressentimentos, fabricar inimigos, simplificar problemas complexos e transformar divergências em conflitos entre aqueles que seriam considerados legítimos e aqueles que deveriam ser combatidos. Sua trajetória demonstra como a manipulação da opinião pública, o culto à liderança e a exploração do medo podem contribuir para enfraquecer as instituições democráticas. É importante, entretanto, reconhecer que a Alemanha da República de Weimar e o Brasil contemporâneo possuem contextos históricos, institucionais e sociais distintos. A comparação é útil quando ilumina mecanismos de poder, não quando transforma realidades diferentes em equivalentes históricos.

            No Brasil, a polarização política tem contribuído para um ambiente no qual parcelas da sociedade passaram a interpretar as instituições a partir de suas preferências ideológicas. O mesmo acontecimento pode ser considerado legítimo por um grupo e inaceitável por outro, dependendo de quem se beneficia de determinada decisão. Nesse ambiente, o debate racional cede espaço à fidelidade política, e a análise dos fatos frequentemente é substituída pela necessidade de defender o próprio lado. Quando isso acontece, perde-se uma condição fundamental da democracia: a disposição de submeter os próprios aliados aos mesmos critérios de avaliação aplicados aos adversários.

            É nesse contexto que o Supremo Tribunal Federal ocupa uma posição especialmente delicada. Como guardião da Constituição, o STF desempenha uma função indispensável à preservação do Estado Democrático de Direito. Sua independência diante dos demais Poderes é necessária, mas não o coloca acima da crítica pública. Pelo contrário, quanto maior a relevância de uma instituição para o equilíbrio democrático, maior deve ser a exigência de fundamentação de suas decisões, transparência, respeito aos limites constitucionais e mecanismos efetivos de responsabilização. Questionar decisões judiciais, discutir a extensão das competências dos ministros e exigir coerência jurídica não constitui, por si só, uma ameaça à democracia. A crítica fundamentada é parte essencial dela.

            O perigo começa quando a defesa de qualquer instituição se transforma em fidelidade incondicional, ou quando sua contestação abandona os argumentos jurídicos e passa a tratar seus integrantes como inimigos que precisam ser eliminados do debate público. A mesma cautela vale para os Poderes Executivo e Legislativo, para os partidos políticos e para as lideranças que reivindicam representar a vontade popular. Nenhum deles possui legitimidade para reivindicar uma autoridade ilimitada. A democracia não depende da infalibilidade de seus representantes, mas da existência de limites que impeçam qualquer pessoa ou instituição de concentrar poder sem controle.

            Uma das lições mais inquietantes do nazismo é que a erosão democrática não depende exclusivamente da violência explícita. Ela também pode avançar por meio da normalização de discursos autoritários, da desumanização dos adversários, propagação sistemática de falsidades e aceitação de que determinados fins justificariam a violação das regras. Hitler explorou o ressentimento e a instabilidade de sua época para apresentar a concentração de poder como solução para os problemas alemães. O resultado foi a destruição progressiva das liberdades, a perseguição de grupos inteiros e a implantação de um regime responsável por crimes de proporções históricas.

            Isso não significa afirmar que o STF brasileiro seja equivalente ao regime nazista, nem que toda decisão controversa represente um passo em direção ao totalitarismo. Uma analogia séria exige distinguir acontecimentos, intenções, instituições e consequências. O valor da comparação está em identificar sinais de alerta: a intolerância à divergência, a tentativa de deslegitimar toda oposição, a utilização seletiva das regras, a concentração de autoridade e a disposição de sacrificar direitos fundamentais em nome de uma suposta causa superior.

            O Brasil precisa compreender que a democracia não se resume à realização de eleições. Ela também exige instituições independentes, imprensa livre, oposição legítima, liberdade de expressão, devido processo legal e respeito às garantias constitucionais. Esses princípios devem valer para todos, inclusive para aqueles cujas ideias rejeitamos. Não existe compromisso democrático verdadeiro quando se exige liberdade para os próprios aliados e se considera aceitável restringi-la aos adversários.

            A leitura de Mein Kampf serve, portanto, menos para procurar um Hitler contemporâneo em cada liderança política e mais para compreender como sociedades podem ser conduzidas à intolerância quando abandonam o pensamento crítico. O risco não está apenas no aparecimento de um governante autoritário, mas também na disposição coletiva de justificar abusos quando eles parecem favorecer convicções.

            Diante do cenário brasileiro, a pergunta decisiva não é se o STF está sempre certo ou sempre errado. É se estamos dispostos a exigir de todas as instituições o mesmo compromisso com a Constituição, legalidade, transparência e os direitos fundamentais. Se a resposta depender da identidade ideológica de quem exerce o poder, o problema já ultrapassou os limites de uma disputa partidária.

            A história ensina que nenhuma democracia está protegida apenas por sua Constituição escrita. Ela depende de cidadãos capazes de desconfiar dos discursos fáceis, reconhecer os próprios preconceitos e defender princípios mesmo quando isso contraria suas preferências políticas. A liberdade não se preserva pela submissão a líderes, partidos ou tribunais, mas pela vigilância crítica sobre todos eles. Enfim, quando a convicção política se torna mais importante do que a verdade, e quando a lealdade a um grupo vale mais do que os princípios que deveriam limitar o poder, a sociedade começa a abrir mão justamente daquilo que acredita estar defendendo: a própria democracia.

 

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

FÉ NA VIDA...


 

CETICISMO E ATEÍSMO: DÚVIDA NÃO É DESCRENÇA

CETICISMO E ATEÍSMO: DÚVIDA NÃO É DESCRENÇA

por Heitor Jorge Lau

            No texto que redigi anteriormente, expliquei o significado de “pessimismo” e “realismo”. Lembrei-me, então, de outros dois termos de que comumente ouço falar: ceticismo e ateísmo. Já me perguntaram, inclusive, se eu era ateu. Vamos, pois, às devidas explicações.

            Ceticismo e ateísmo se confundem porque ambos costumam aparecer juntos na mesma pessoa e porque o senso comum associa "duvidar" a "não acreditar em Deus". Mas as duas palavras respondem a perguntas diferentes. O ceticismo diz respeito a como alguém forma suas convicções, enquanto o ateísmo diz respeito a uma convicção específica, a de que não há deuses.

            A palavra "cético" vem do grego skeptikós, que significa "aquele que examina". Na Antiguidade, filósofos como Pirro e, mais tarde, Sexto Empírico propunham suspender o juízo (a epoché) diante de afirmações que não podem ser sustentadas por razões suficientes. Em sua forma mais radical, isso valia para quase tudo. Na versão moderna, mais comum, o ceticismo virou uma atitude de exigir evidências proporcionais à força da afirmação, aplicada a qualquer assunto: medicina alternativa, horóscopo, notícias, promessas de investimento, teorias da conspiração. Nesse sentido, o cético é alguém que pergunta "como você sabe disso?" antes de concordar.

            "Epoché" é uma palavra grega que significa "suspensão" ou "contenção". Na filosofia cética, ela designa o ato de não aceitar nem rejeitar uma afirmação, deixando o juízo em aberto. Quem pratica a epoché não diz "isso é verdade" nem "isso é falso", mas "por enquanto não tenho razões suficientes para decidir".

            A ideia aparece em Pirro de Élis, filósofo do século IV a.C., e foi sistematizada séculos depois por Sexto Empírico, em obras como os Esboços Pirrônicos. O raciocínio deles partia de uma observação: para quase toda afirmação sobre como as coisas realmente são, é possível encontrar um argumento contrário de força semelhante. Os céticos chamavam isso de equipolência, ou seja, razões que se equilibram como pesos numa balança. Quando as razões a favor e contra se equivalem, qualquer decisão parece arbitrária, e o caminho mais honesto é suspender o juízo.

            Um exemplo cotidiano ajuda: imagine duas testemunhas igualmente confiáveis que contam versões opostas de um acidente. Enquanto não surgir um fato novo, como uma gravação ou uma perícia, a atitude racional é não bater o martelo. Isso é a epoché em pequena escala: não é ignorância nem preguiça, mas uma recusa consciente de concluir além do que as evidências permitem.

            Convém notar que essa suspensão não leva à paralisia nem à afirmação de que nada pode ser conhecido. Os céticos pirrônicos faziam questão de distinguir sua posição da de outros filósofos, os da chamada Academia Cética, que declaravam ser impossível o conhecimento. Para Sexto Empírico, isso já seria uma tese dogmática, só que negativa. O cético de verdade continua investigando, e é por isso que o nome vem de "aquele que examina". Na vida prática, ele segue as aparências, os costumes e as necessidades do dia a dia: o mel lhe parece doce, ele come quando tem fome e respeita as leis da cidade. O que ele evita é afirmar, com certeza metafísica, como as coisas são em si mesmas.

            Havia também um objetivo de fundo. Os pirrônicos observaram que a ansiedade de quem briga para ter certezas, e sofre quando elas são contestadas, costuma desaparecer em quem suspende o juízo. Eles chamavam esse estado de Ataraxia, a tranquilidade do espírito. A suspensão, portanto, era vista não só como uma conclusão intelectual, mas como um caminho para viver com mais serenidade.

            No uso moderno, a ideia sobrevive de forma mais branda. O cético atual não suspende o juízo sobre tudo, mas o faz de modo provisório diante de afirmações que carecem de evidência suficiente, e está disposto a revisá-lo quando surgirem dados novos. A epoché, nesse sentido, é uma pausa antes da conclusão, não uma recusa permanente de concluir.

            O ateísmo, por sua vez, trata de um único tema. Em sentido amplo, é a ausência de crença em divindades, e em sentido mais estrito é a afirmação de que elas não existem. Perceba que o ateu pode chegar a essa posição por vários caminhos, alguns bastante rigorosos. Existem ateus que examinaram argumentos com muito cuidado, e há ateus que simplesmente herdaram a descrença da família ou do meio social, sem jamais terem questionado outras crenças que sustentam, como superstições, teorias da conspiração ou fé cega em alguma ideologia. Ser ateu não torna ninguém automaticamente cético.

            O inverso também vale. Existem pessoas religiosas e céticas ao mesmo tempo, porque aplicam a dúvida metódica à política, à ciência e à imprensa e, ainda assim, mantêm uma crença religiosa que consideram fora do alcance da prova, como aquelas que a tratam como questão de fé e não de evidência. Pensadores como Pascal e Montaigne, cada um à sua maneira, combinaram um olhar muito crítico sobre a capacidade da razão com uma postura religiosa. Além disso, o próprio cético rigoroso costuma desconfiar também do ateísmo dogmático, quando este se apresenta como certeza absoluta, porque a ausência de evidência não é, por si só, prova de ausência.

            Há ainda um terceiro termo que costuma entrar na confusão, o agnosticismo. Foi cunhado por Thomas Huxley no século XIX e se refere ao conhecimento, não à crença: agnóstico é quem entende que não é possível saber se há ou não um deus. Ele é mais próximo do ceticismo do que o ateísmo, mas ainda assim é uma posição específica sobre um tema específico, ao passo que o ceticismo é uma postura bem mais ampla. Aliás, é possível ser ao mesmo tempo ateu e agnóstico, quando se vive sem crer em deuses, mas se admite que não há como provar a inexistência deles.

            Em resumo, o ceticismo é um método, uma disposição de examinar antes de aceitar, e o ateísmo é uma conclusão a respeito de um assunto determinado. Chamar o cético de ateu é parecido com o equívoco do texto anterior, quando se chama o realista de pessimista: toma-se a atitude que examina pelo resultado que alguns, e só alguns, tiram dela.

 

PESSIMISMO E REALISMO: QUAL A DIFERENÇA?

PESSIMISMO E REALISMO: QUAL A DIFERENÇA?

por Heitor Jorge Lau

            Hoje, ao término de uma conversa sobre o futuro da humanidade, fui rotulado como pessimista. Salientei que sou realista, o que é bem outra coisa, mas parece que de nada adiantou, pois a pessoa afirmou: “Dá na mesma!”. Então vamos às devidas explicações.

            Pessimismo e realismo se confundem porque ambos costumam enxergar o que dá errado, mas partem de lugares muito diferentes. O pessimista tem uma expectativa de fracasso que vem antes dos fatos: ele já decidiu que o resultado será ruim e passa a recolher evidências que confirmem essa convicção. É uma disposição de ânimo, uma lente que escurece tudo. O realista, ao contrário, tenta ajustar sua expectativa ao que os dados permitem concluir. Se as evidências apontam risco, ele fala em risco; se apontam oportunidade, ele fala em oportunidade. Sua atitude é de conferência, não de torcida a favor ou contra.

            Por isso o realista pode soar pessimista num ambiente onde o otimismo virou obrigação social. Quando todos esperam entusiasmo, quem pergunta "e se isso não der certo?" ou "quanto isso realmente custa?" parece estar remando contra. Mas fazer a pergunta incômoda não é desejar o pior. É o que um engenheiro faz ao calcular a carga de uma ponte: ninguém diz que ele é pessimista por prever que o material pode ceder, porque é justamente essa previsão que permite construir algo que não caia. O realismo é, em boa medida, uma forma de cuidado com o resultado.

            Há também uma diferença importante na relação com a ação. O pessimismo tende à paralisia, já que, se o fim é ruim de qualquer jeito, para que tentar? O realismo, tendo mapeado os obstáculos, costuma ser o ponto de partida do plano. Quem sabe onde estão as dificuldades consegue se preparar para elas, e muitas vezes chega mais longe do que o otimista ingênuo, que só descobre o problema quando ele já está em cima dele.

            Vale lembrar que o realismo não é o ponto médio entre os dois extremos, uma espécie de meio-termo morno. Em certas situações os fatos justificam enorme confiança, e o realista será então bastante otimista, sem que isso o torne ingênuo. O que o define é a fidelidade ao que se pode verificar, não o tom emocional da conclusão. Ele pode dar boas notícias com a mesma serenidade com que dá as más.

            O otimismo ingênuo, aliás, é o outro lado dessa confusão. Ele toma a esperança por método e trata a dúvida como falta de fé. Quando o mundo desmente essa expectativa, a frustração costuma ser maior e, curiosamente, empurra muita gente para o pessimismo. Assim, os dois extremos se alimentam, enquanto o realista, que nunca apostou na ilusão, tem menos a perder com a desilusão.

            Enfim, a pergunta que separa os três é: de onde vem a minha expectativa? Caso venha do temperamento, seja para o negativo ou para o positivo, estamos diante de pessimismo ou otimismo. Caso venha da análise do que está de fato diante de mim, estamos diante do realismo. Chamar o realista de pessimista é, no fundo, confundir quem descreve o terreno com quem desejava que o terreno fosse outro.