Heitor Jorge Lau
Sociologia acessível, filosofia existencial, antropologia cultural, psicologia simbólica
quarta-feira, 21 de outubro de 2026
CETICISMO E ATEÍSMO: DÚVIDA NÃO É DESCRENÇA
CETICISMO E
ATEÍSMO: DÚVIDA NÃO É DESCRENÇA
por Heitor Jorge Lau
No texto
que redigi anteriormente, expliquei o significado de “pessimismo” e “realismo”.
Lembrei-me, então, de outros dois termos de que comumente ouço falar: ceticismo
e ateísmo. Já me perguntaram, inclusive, se eu era ateu. Vamos, pois, às
devidas explicações.
Ceticismo e
ateísmo se confundem porque ambos costumam aparecer juntos na mesma pessoa e
porque o senso comum associa "duvidar" a "não acreditar em
Deus". Mas as duas palavras respondem a perguntas diferentes. O ceticismo
diz respeito a como alguém forma suas convicções, enquanto o ateísmo diz
respeito a uma convicção específica, a de que não há deuses.
A palavra
"cético" vem do grego skeptikós, que significa "aquele
que examina". Na Antiguidade, filósofos como Pirro e, mais tarde, Sexto
Empírico propunham suspender o juízo (a epoché) diante de afirmações que
não podem ser sustentadas por razões suficientes. Em sua forma mais radical,
isso valia para quase tudo. Na versão moderna, mais comum, o ceticismo virou
uma atitude de exigir evidências proporcionais à força da afirmação, aplicada a
qualquer assunto: medicina alternativa, horóscopo, notícias, promessas de
investimento, teorias da conspiração. Nesse sentido, o cético é alguém que
pergunta "como você sabe disso?" antes de concordar.
"Epoché"
é uma palavra grega que significa "suspensão" ou
"contenção". Na filosofia cética, ela designa o ato de não aceitar
nem rejeitar uma afirmação, deixando o juízo em aberto. Quem pratica a epoché
não diz "isso é verdade" nem "isso é falso", mas "por
enquanto não tenho razões suficientes para decidir".
A ideia
aparece em Pirro de Élis, filósofo do século IV a.C., e foi sistematizada
séculos depois por Sexto Empírico, em obras como os Esboços Pirrônicos. O
raciocínio deles partia de uma observação: para quase toda afirmação sobre como
as coisas realmente são, é possível encontrar um argumento contrário de força
semelhante. Os céticos chamavam isso de equipolência, ou seja, razões que se
equilibram como pesos numa balança. Quando as razões a favor e contra se
equivalem, qualquer decisão parece arbitrária, e o caminho mais honesto é
suspender o juízo.
Um exemplo
cotidiano ajuda: imagine duas testemunhas igualmente confiáveis que contam
versões opostas de um acidente. Enquanto não surgir um fato novo, como uma
gravação ou uma perícia, a atitude racional é não bater o martelo. Isso é a epoché
em pequena escala: não é ignorância nem preguiça, mas uma recusa consciente de
concluir além do que as evidências permitem.
Convém
notar que essa suspensão não leva à paralisia nem à afirmação de que nada pode
ser conhecido. Os céticos pirrônicos faziam questão de distinguir sua posição
da de outros filósofos, os da chamada Academia Cética, que declaravam ser
impossível o conhecimento. Para Sexto Empírico, isso já seria uma tese
dogmática, só que negativa. O cético de verdade continua investigando, e é por
isso que o nome vem de "aquele que examina". Na vida prática, ele segue
as aparências, os costumes e as necessidades do dia a dia: o mel lhe parece
doce, ele come quando tem fome e respeita as leis da cidade. O que ele evita é
afirmar, com certeza metafísica, como as coisas são em si mesmas.
Havia
também um objetivo de fundo. Os pirrônicos observaram que a ansiedade de quem
briga para ter certezas, e sofre quando elas são contestadas, costuma
desaparecer em quem suspende o juízo. Eles chamavam esse estado de Ataraxia,
a tranquilidade do espírito. A suspensão, portanto, era vista não só como uma
conclusão intelectual, mas como um caminho para viver com mais serenidade.
No uso
moderno, a ideia sobrevive de forma mais branda. O cético atual não suspende o
juízo sobre tudo, mas o faz de modo provisório diante de afirmações que carecem
de evidência suficiente, e está disposto a revisá-lo quando surgirem dados
novos. A epoché, nesse sentido, é uma pausa antes da conclusão, não uma
recusa permanente de concluir.
O ateísmo,
por sua vez, trata de um único tema. Em sentido amplo, é a ausência de crença
em divindades, e em sentido mais estrito é a afirmação de que elas não existem.
Perceba que o ateu pode chegar a essa posição por vários caminhos, alguns
bastante rigorosos. Existem ateus que examinaram argumentos com muito cuidado,
e há ateus que simplesmente herdaram a descrença da família ou do meio social,
sem jamais terem questionado outras crenças que sustentam, como superstições,
teorias da conspiração ou fé cega em alguma ideologia. Ser ateu não torna
ninguém automaticamente cético.
O inverso
também vale. Existem pessoas religiosas e céticas ao mesmo tempo, porque
aplicam a dúvida metódica à política, à ciência e à imprensa e, ainda assim,
mantêm uma crença religiosa que consideram fora do alcance da prova, como
aquelas que a tratam como questão de fé e não de evidência. Pensadores como
Pascal e Montaigne, cada um à sua maneira, combinaram um olhar muito crítico
sobre a capacidade da razão com uma postura religiosa. Além disso, o próprio
cético rigoroso costuma desconfiar também do ateísmo dogmático, quando este se
apresenta como certeza absoluta, porque a ausência de evidência não é, por si
só, prova de ausência.
Há ainda um
terceiro termo que costuma entrar na confusão, o agnosticismo. Foi cunhado por
Thomas Huxley no século XIX e se refere ao conhecimento, não à crença:
agnóstico é quem entende que não é possível saber se há ou não um deus. Ele é
mais próximo do ceticismo do que o ateísmo, mas ainda assim é uma posição
específica sobre um tema específico, ao passo que o ceticismo é uma postura bem
mais ampla. Aliás, é possível ser ao mesmo tempo ateu e agnóstico, quando se
vive sem crer em deuses, mas se admite que não há como provar a inexistência
deles.
Em resumo,
o ceticismo é um método, uma disposição de examinar antes de aceitar, e o
ateísmo é uma conclusão a respeito de um assunto determinado. Chamar o cético
de ateu é parecido com o equívoco do texto anterior, quando se chama o realista
de pessimista: toma-se a atitude que examina pelo resultado que alguns, e só
alguns, tiram dela.
PESSIMISMO E REALISMO: QUAL A DIFERENÇA?
PESSIMISMO E
REALISMO: QUAL A DIFERENÇA?
por Heitor Jorge Lau
Hoje, ao
término de uma conversa sobre o futuro da humanidade, fui rotulado como
pessimista. Salientei que sou realista, o que é bem outra coisa, mas parece que
de nada adiantou, pois a pessoa afirmou: “Dá na mesma!”. Então vamos às devidas
explicações.
Pessimismo
e realismo se confundem porque ambos costumam enxergar o que dá errado, mas
partem de lugares muito diferentes. O pessimista tem uma expectativa de
fracasso que vem antes dos fatos: ele já decidiu que o resultado será ruim e
passa a recolher evidências que confirmem essa convicção. É uma disposição de
ânimo, uma lente que escurece tudo. O realista, ao contrário, tenta ajustar sua
expectativa ao que os dados permitem concluir. Se as evidências apontam risco,
ele fala em risco; se apontam oportunidade, ele fala em oportunidade. Sua
atitude é de conferência, não de torcida a favor ou contra.
Por isso o
realista pode soar pessimista num ambiente onde o otimismo virou obrigação
social. Quando todos esperam entusiasmo, quem pergunta "e se isso não der
certo?" ou "quanto isso realmente custa?" parece estar remando
contra. Mas fazer a pergunta incômoda não é desejar o pior. É o que um
engenheiro faz ao calcular a carga de uma ponte: ninguém diz que ele é
pessimista por prever que o material pode ceder, porque é justamente essa
previsão que permite construir algo que não caia. O realismo é, em boa medida,
uma forma de cuidado com o resultado.
Há também
uma diferença importante na relação com a ação. O pessimismo tende à paralisia,
já que, se o fim é ruim de qualquer jeito, para que tentar? O realismo, tendo
mapeado os obstáculos, costuma ser o ponto de partida do plano. Quem sabe onde
estão as dificuldades consegue se preparar para elas, e muitas vezes chega mais
longe do que o otimista ingênuo, que só descobre o problema quando ele já está
em cima dele.
Vale
lembrar que o realismo não é o ponto médio entre os dois extremos, uma espécie
de meio-termo morno. Em certas situações os fatos justificam enorme confiança,
e o realista será então bastante otimista, sem que isso o torne ingênuo. O que
o define é a fidelidade ao que se pode verificar, não o tom emocional da
conclusão. Ele pode dar boas notícias com a mesma serenidade com que dá as más.
O otimismo
ingênuo, aliás, é o outro lado dessa confusão. Ele toma a esperança por método
e trata a dúvida como falta de fé. Quando o mundo desmente essa expectativa, a
frustração costuma ser maior e, curiosamente, empurra muita gente para o
pessimismo. Assim, os dois extremos se alimentam, enquanto o realista, que
nunca apostou na ilusão, tem menos a perder com a desilusão.
Enfim, a
pergunta que separa os três é: de onde vem a minha expectativa? Caso venha do
temperamento, seja para o negativo ou para o positivo, estamos diante de
pessimismo ou otimismo. Caso venha da análise do que está de fato diante de
mim, estamos diante do realismo. Chamar o realista de pessimista é, no fundo,
confundir quem descreve o terreno com quem desejava que o terreno fosse outro.
terça-feira, 20 de outubro de 2026
DOENÇA DE CREUTZFELDT-JAKOB
DOENÇA
DE CREUTZFELDT-JAKOB
ENTENDENDO UMA
ENFERMIDADE RARA E SILENCIOSA
por Heitor Jorge Lau
PSICANALISTA
Lito Sousa,
influenciador e especialista em aviação, criador do canal “Aviões e Músicas”.
Falecido aos 59 anos, em 1º de outubro de 2026, por complicações da doença de
Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma condição neurológica rara que compromete o
funcionamento do cérebro. Foram menos de dois meses entre o diagnóstico e a
morte.
A doença de
Creutzfeldt-Jakob, muitas vezes chamada apenas de DCJ, é uma enfermidade que
ataca o cérebro e provoca uma perda muito rápida das capacidades de pensar, lembrar
das coisas e de controlar o próprio corpo. O nome vem dos dois médicos alemães
que a descreveram no início do século passado. Ela é considerada rara porque
aparece em cerca de uma a duas pessoas por milhão a cada ano. Apesar de pouco
frequente, desperta atenção por ser grave e por ter uma origem diferente de
quase todas as outras doenças que conhecemos.
Para
entendê-la, é preciso primeiro saber o que é uma proteína. Proteínas são
pequenas estruturas, invisíveis a olho nu, que o corpo fabrica o tempo todo e
que funcionam como minúsculas peças de trabalho. Algumas ajudam a digerir os
alimentos, outras formam os músculos, outras transportam substâncias pelo
sangue. Cada proteína só funciona direito porque tem um formato específico,
como uma chave que só abre determinada fechadura. Quando o formato muda, a peça
deixa de cumprir seu papel e pode até atrapalhar o trabalho das vizinhas.
No centro
da doença está um tipo especial de proteína, chamada Príon. O mais
curioso é que ela existe normalmente no cérebro de todas as pessoas saudáveis,
e os cientistas ainda discutem qual é exatamente a sua função. O problema
começa quando uma dessas proteínas se “dobra” do jeito errado, adquirindo um
formato anormal. Essa versão defeituosa tem uma característica perigosa: ela
força as proteínas normais ao seu redor a adotarem também o formato errado. É
como uma fila de dominós em que a queda de um derruba o seguinte, e assim a
alteração se espalha aos poucos.
À medida
que as proteínas defeituosas se multiplicam, elas se acumulam dentro do cérebro
e passam a prejudicar os neurônios, que são as células responsáveis por
receber, processar e enviar as mensagens que nos permitem pensar, sentir, falar
e nos movimentar. Os neurônios danificados vão morrendo, e no lugar deles
surgem pequenos buracos. Quando os médicos examinam o tecido cerebral ao
microscópio, ele lembra uma esponja cheia de furos. Por isso a DCJ pertence a
um grupo chamado de Encefalopatias Espongiformes, expressão que significa,
simplesmente, doenças do cérebro com aspecto de esponja.
A doença
pode surgir por três caminhos diferentes. O mais comum, responsável pela grande
maioria dos casos, é o chamado esporádico, em que ela aparece sem motivo
conhecido, como se uma proteína se dobrasse errado por acaso. O segundo caminho
é o hereditário, em que a pessoa nasce com uma alteração em um gene, que é o
trecho do material genético que guarda as instruções para fabricar cada
proteína. Esse defeito passa de pais para filhos e faz o corpo produzir a
proteína já propensa ao erro. O terceiro caminho, bem mais raro, é o adquirido,
quando o contato com tecido cerebral contaminado transmite o problema, como
ocorreu no passado em certos tratamentos médicos antigos e em casos ligados ao
consumo de carne de gado doente, a famosa Doença da Vaca Louca.
Os
primeiros sinais costumam ser confundidos com problemas comuns: esquecimentos,
dificuldade de concentração, mudanças de humor, ansiedade, tristeza profunda ou
alterações de comportamento. Logo depois surgem sintomas mais evidentes, como
falta de coordenação ao andar, problemas de visão, dificuldade para falar e
movimentos bruscos e involuntários, que são pequenos sacolejos nos músculos que
a pessoa não consegue controlar. O quadro avança até a demência, que é a perda
grave da capacidade de raciocinar, de lembrar e de cuidar de si mesmo. Nas
fases finais, a pessoa pode ficar incapaz de se mexer e de se comunicar, embora
em muitos casos a consciência permaneça por bastante tempo.
O que torna
a DCJ especialmente dura é a velocidade. Enquanto outras doenças que afetam a
memória levam muitos anos para progredir, aqui a DCJ costuma se dar em semanas
ou meses, e a maioria dos pacientes falece em cerca de um ano após os primeiros
sintomas, muitas vezes em bem menos tempo. O diagnóstico não é simples, porque
os sintomas lembram os de outras condições. Os médicos combinam a avaliação
clínica com exames de imagem do cérebro, o registro da atividade elétrica
cerebral e a análise do líquido que envolve a medula, em busca de sinais da
proteína alterada. A confirmação absoluta só vem com o exame do tecido do
cérebro.
Até hoje
não existe cura nem tratamento capaz de interromper ou reverter a doença. O
cuidado se concentra nos chamados cuidados paliativos, que são aqueles voltados
a aliviar o sofrimento, controlar os sintomas e dar conforto ao paciente e à
família, sem a pretensão de curar. Pesquisadores em vários países testam
substâncias experimentais, que são medicamentos ainda em fase de estudo e sem
eficácia comprovada, na esperança de frear o avanço da doença. Os resultados
ainda são incertos, mas cada estudo ajuda a compreender melhor esse mecanismo
tão incomum de adoecimento.
Uma dúvida
frequente é se a doença é contagiosa, e a resposta tranquilizadora é que ela
não se transmite pelo convívio do dia a dia. Abraçar, conversar, dividir a mesa
ou cuidar de um paciente em casa não oferece risco. A transmissão exige contato
direto com tecidos contaminados, o que só ocorre em situações muito
específicas, como certos procedimentos médicos com instrumentos mal
esterilizados, algo que hoje é rigorosamente controlado. Compreender a DCJ
ajuda a diminuir o medo e o preconceito e lembra o quanto ainda há a descobrir
sobre o funcionamento do cérebro humano e sobre os limites da medicina.
quinta-feira, 15 de outubro de 2026
ESCALA 6X1 - A HISTÓRIA NÃO CONTADA
A HISTÓRIA NÃO CONTADA DA ESCALA
6X1:
O QUE ESTÁ POR TRÁS DO DEBATE
Uma
viagem até 1780
Para
entender por que ainda discutimos o fim da escala 6x1 (mesmo que aprovada o seu
fim), é preciso voltar a uma época em que o trabalho não era medido em horas,
mas em tarefas. Numa aldeia europeia de 1780, ninguém cumpria “turno”: as
pessoas ordenhavam, plantavam, consertavam cercas e buscavam água até a tarefa
acabar. O dia terminava com o sol, e no inverno, quando a terra congelava, o
trabalho praticamente parava. O historiador Edward Thompson batizou essa lógica
de “orientação pela tarefa”: o ritmo era ditado pela natureza e pela
necessidade, não por um relógio. À primeira vista, pode parecer um modo de vida
mais humano e menos apressado. Mas essa pausa forçada no inverno não era
descanso — era fome. A dispensa esvaziava e restava torcer para o estoque durar
até a primavera.
O
quanto já avançamos
Comparado
a essas pessoas, qualquer um hoje vive de forma extraordinariamente
privilegiada. Basta reparar no cotidiano: internet, smartphone, computador, ...
Em poucos minutos, uma pessoa comum consome produtos vindos dos cantos mais
remotos do planeta — um exército invisível de gente trabalha para sustentar
esse padrão de vida.
Há
até uma forma de medir isso em energia: em média, uma pessoa consome cerca de
2.500 watts. Como um ciclista em boa forma gera algo em torno de 50 watts,
seriam necessárias por volta de 150 pessoas trabalhando oito horas por dia só
para sustentar o estilo de vida de um único indivíduo — e cerca de 600 pessoas
para uma família de quatro. Quem fosse transportado de volta a 1780 veria essa
segurança desaparecer instantaneamente, ficando exposto à fome, à tuberculose,
à malária, à pólio e a uma série de doenças hoje quase esquecidas.
Nos
últimos 200 anos, dois movimentos aconteceram ao mesmo tempo: a humanidade
ficou “mais rica” e passou a trabalhar cada vez menos horas. No Brasil, os
dados confiáveis começam apenas nos anos 1950, mas já mostram que o trabalhador
médio saiu de 2.483 horas anuais em 1970 para cerca de 1.994 horas atualmente—
quase 490 horas a menos por ano, o equivalente a praticamente dez horas a menos
por semana.
Dinheiro
é uma régua enganosa para medir riqueza, porque se desvaloriza e varia de país
para país. O tempo é uma medida mais honesta. Há duzentos anos, um trabalhador
inglês precisava de mais de seis horas de trabalho para pagar uma hora de luz à
noite; hoje, essa mesma hora custa menos de um segundo de trabalho. O mesmo
vale para uma cesta de matérias-primas básicas — petróleo, trigo, café, ...:
entre 1980 e 2018, o “preço em tempo” dessa cesta caiu 72%. Cada vez que o
custo de algo cai em termos de tempo, é tempo de vida que volta para o bolso
das pessoas.
A
virada brutal: a fábrica
O
debate sobre a escala 6x1 é, no fundo, uma discussão sobre tempo — mas a
história tem uma virada importante, e ela passa pela Revolução Industrial.
Antes da máquina a vapor, trabalhar menos significava passar fome. Depois dela,
e por muito tempo ainda, trabalhar menos continuou sendo impossível — só que
por outro motivo: a lógica da própria máquina.
Uma
máquina a vapor era cara, e hora ociosa era prejuízo. Pela primeira vez na
história, o tempo do trabalhador precisou se render ao tempo da máquina: se ela
rodava 12 horas, o operário ficava disponível pelas mesmas 12 horas. As
fábricas criaram sistemas de multas — atrasos de poucos minutos custavam meia
hora de salário, cantar ou assobiar também podia ser punido (incrível, não!) —
e há registros de patrões que adulteravam os próprios relógios da fábrica para
roubar minutos dos trabalhadores.
Foi
justamente nesse período que as jornadas atingiram o pico histórico: em
Londres, chegaram a 70 horas semanais. Parte disso vinha da imposição dos empregadores,
mas parte também era escolha das famílias, atraídas por bens de consumo
inéditos como açúcar, chá e tecidos — o que o historiador Jan de Vries chamou
de “revolução do esforço”. Por volta de 1800, o mundo bateu seu recorde
histórico de horas trabalhadas. A partir daí, as jornadas começaram a cair — e
não pararam de cair por 150 anos.
O
motor por trás da queda: produtividade
A
palavra que explica essa reversão é produtividade — um termo que costuma soar
como discurso motivacional, mas significa exatamente o oposto de “trabalhar
mais”. Produtividade é produzir mais valor por hora trabalhada, não trabalhar
mais horas. Atualmente um pedreiro brasileiro não trabalha mais do que um
pedreiro em 1926 — na verdade, provavelmente trabalha menos — e ainda assim
constrói muito mais em menos tempo, porque tem betoneira em vez de pá,
furadeira elétrica, caminhão de entrega, cimento padronizado e energia elétrica
disponível.
Economistas
costumam apontar três motores da produtividade:
1.
Capital físico — máquinas, estradas, energia, ferramentas que multiplicam o
rendimento de cada hora de trabalho.
2.
Capital humano — educação, saúde, conhecimento e experiência acumulada pelo
trabalhador.
3.
Produtividade total dos fatores — a camada mais difícil de enxergar:
organização, tecnologia, instituições, regras do jogo e confiança, que fazem
capital e trabalho renderem mais juntos do que renderiam isoladamente. É como a
diferença entre uma cidade com semáforos sincronizados e ruas bem cuidadas e
outra caótica, cheia de buracos e regras inconsistentes — mesmos carros, mesmos
motoristas, resultados completamente diferentes.
Quando
esses três fatores avançam juntos, cada hora de trabalho passa a valer mais, e
isso abre uma possibilidade inédita na história: trabalhar menos sem
empobrecer. Mas o excedente gerado pela produtividade pode seguir caminhos
distintos — virar salário maior, jornada menor, preço mais baixo ou lucro maior
para o proprietário do negócio. Para onde ele vai depende de negociação, de
lei, de força sindical e da cultura de cada sociedade.
Produtividade
não é uma qualidade da pessoa — é do lugar
Existe
a tentação de explicar diferenças de produtividade pelo esforço individual:
teria gente mais trabalhadora e gente mais preguiçosa. Um estudo de 2008 dos
economistas Michael Clemens, Cláudio Montenegro e Lant Pritchett derrubou essa
ideia. Eles compararam trabalhadores estatisticamente idênticos — mesma idade,
escolaridade, experiência e sexo — que migraram do país de origem para os
Estados Unidos. Um trabalhador boliviano passava a ganhar quase três vezes mais
só por mudar de país; um nigeriano, mais de oito vezes mais — sem que nada na
pessoa tivesse mudado. Esse fenômeno recebeu o nome de “prêmio do lugar”:
se a mesma pessoa, com o mesmo esforço, produz oito vezes mais de um lado de
uma fronteira do que do outro, a produtividade não é um traço individual, mas
uma propriedade do sistema ao redor — das máquinas, das estradas, da energia,
das instituições...
Onde
o Brasil está nessa história
O
trabalhador brasileiro não é preguiçoso — pelo contrário, trabalha bastante:
cerca de 1.708 horas por ano, contra 1.386 horas de um trabalhador alemão, mais
de 300 horas de diferença. O problema não é a quantidade de horas, é o valor
gerado em cada uma delas. Segundo estimativas da Organização Internacional do
Trabalho, cada hora trabalhada no Brasil gera cerca de US$ 21 de valor, contra
mais de US$ 80 nos Estados Unidos e cerca de US$ 70 na média dos países ricos —
o Brasil aparece na 94ª posição entre 184 países. Em 1970, o Brasil produzia o
dobro da Coreia do Sul; hoje um trabalhador brasileiro produz menos da metade
do que produz um coreano.
Vários
fatores estruturais explicam essa distância:
Educação
de baixa qualidade. O Brasil quase universalizou o acesso à escola, mas o
aprendizado é frágil: menos da metade das crianças que terminam o primário
conseguem interpretar um texto curto. Levando em conta o que de fato se
aprende, os quase 13 anos de escolaridade média equivalem a apenas 7,9 anos
efetivos, segundo o Banco Mundial. No último grande exame internacional, o
estudante brasileiro médio de 15 anos ficou na posição 64 entre 81 países em
matemática. O Banco Mundial estima que, com educação e saúde de qualidade para
todos, a renda de cada brasileiro poderia ser dois terços maior.
Infraestrutura
precária. Transportar produtos pelo Brasil custa entre 12% e 15% de tudo
que o país produz, contra 8% a 10% nos países ricos. Das mais de 1,7 milhão de
km de estradas, só 12% são pavimentadas, e a malha ferroviária ativa é de
apenas 10 mil km, um terço do que já existiu.
Estado
que protege em vez de estimular a concorrência. Há duas formas de uma
empresa lucrar: inovando e conquistando o consumidor, ou obtendo regimes
fiscais especiais e proteção contra a concorrência estrangeira. A primeira
melhora a produtividade geral; a segunda tende a aumentar a desigualdade e
travar a mobilidade social. Setores mais organizados e com mais capacidade de
pressionar Brasília conseguem mais benefícios — não necessariamente os mais
relevantes para a economia. A economia brasileira também é pouco aberta ao
comércio exterior: importações e exportações somam cerca de um terço do PIB,
bem abaixo da média mundial (acima de 50%) e do que o próprio tamanho do país
justificaria, segundo modelos do Banco Mundial.
Crédito
mal direcionado. Mais de 40% do crédito no sistema financeiro brasileiro é
direcionado, mas estudos do Banco Mundial não encontraram evidência de que o
crédito subsidiado, como o do BNDES, tenha melhorado a alocação de recursos —
ele tende a beneficiar empresas grandes e estabelecidas, não as mais
inovadoras.
Burocracia
excessiva. Uma empresa brasileira gasta, em média, mais de 1.500 horas por
ano só para calcular, declarar e pagar tributos — dez vezes mais que em países
ricos, onde esse número gira em torno de 150 horas.
O
resultado é um ambiente em que empresas pouco produtivas sobrevivem protegidas
da concorrência, em vez de serem substituídas por outras mais eficientes — um
mecanismo que funciona em países desenvolvidos e que, no Brasil, está
emperrado.
O
debate da escala 6x1 – que agora deixa de existir...pelo menos a escala
É
nesse contexto que entra a discussão sobre a escala 6x1 — o regime de seis dias
trabalhados por um de folga, realidade de cerca de 14,8 milhões de
trabalhadores brasileiros, um terço dos ocupados com registro formal, segundo o
instituto DIEESE.
Em
maio, a Câmara dos Deputados aprovou uma PEC que reduz a jornada máxima de 44
para 40 horas semanais, distribuídas em cinco dias com duas folgas, sem redução
salarial — atingindo não só quem está na escala 6x1, mas cerca de 64% dos
trabalhadores formais que cumprem mais de 40 horas semanais.
De
um lado, defensores do fim da escala apontam a injustiça de passar seis dias
por semana longe da família, sem tempo para estudar ou simplesmente viver. Do
outro, opositores temem que mexer na jornada encareça o trabalho e prejudique a
economia.
Quem
ficou de fora do debate
Isso
não significa que os quase 15 milhões de trabalhadores na escala 6x1 tenham que
se conformar com a situação — cada
pessoa tem direito à sua posição sobre o tema. Mas há um grupo ainda maior e
mais vulnerável que nenhuma reforma da CLT alcança: os trabalhadores informais.
Segundo
o IBGE, quem trabalha por conta própria é, em média, quem mais trabalha no
Brasil — 45,3 horas semanais, mais que empregados e empregadores —, mas a maior
parte dessas pessoas não tem CNPJ: é o vendedor de rua, o motorista de
aplicativo, a diarista, o autônomo... São 38 milhões de trabalhadores sem
carteira assinada e sem qualquer proteção — quatro em cada dez trabalhadores
brasileiros, chegando a mais da metade em estados como o Maranhão. Um
trabalhador informal produz, em média, um quarto do que produz um trabalhador
formal, não por falta de esforço, mas porque a empresa em que atua não investe,
não treina e não consegue ganhar em escala.
Essas
são as mesmas 150 pessoas que, em média, sustentam o padrão de vida de qualquer
um hoje — só que muitas delas estão aqui mesmo, no Brasil: o entregador que
sobe a rua às dez da noite, a diarista que pega três conduções, o autônomo que
trabalha 45 horas por semana para levar para casa um quarto do que uma pessoa
formal ganha. Nenhuma reforma trabalhista em discussão alcança essas pessoas.
Conclusão
Nos
últimos 200 anos, a humanidade conseguiu algo raro: aprender a trabalhar menos
e viver melhor ao mesmo tempo, devolvendo hora por hora o tempo que antes era
gasto apenas para não morrer de fome. O Brasil trilhou parte desse caminho, mas
parou no meio. Uma jornada mais curta — mesmo que num modelo como o 4x3 — não é
uma fantasia inalcançável: é o destino natural de um país que produz o
suficiente para bancar o próprio descanso. O problema é que essa conquista não
se decreta por lei; ela se constrói, degrau por degrau, com aumento real de
produtividade, resultado direto de investimento em educação, infraestrutura,
abertura econômica, crédito bem direcionado e menos burocracia. Sem isso,
discutir e aprovar apenas a duração da jornada resolve a superfície do
problema, sem tocar no que está por baixo dele.
SOBRE A HEREDITARIEDADE
O GENE E A
PERGUNTA QUE ELE NOS FAZ:
ATÉ ONDE SOMOS O
QUE ESTÁ ESCRITO EM NÓS?
por Heitor Jorge Lau
Quase todo
mundo já ouviu alguém dizer "puxou ao pai" ou "tem o gênio da
avó". Frases assim mostram que, desde sempre, as pessoas perceberam que
algo passa de uma geração para a outra, mas ninguém sabia o quê, nem como. É
essa curiosidade antiga que o médico e pesquisador Siddhartha Mukherjee
transforma em história no livro "O Gene: uma história íntima". Ele
conta como a humanidade passou de simples palpites sobre a hereditariedade a
ler, e hoje até a reescrever, o código que está dentro de cada uma de nossas
células. Mas o livro não é apenas ciência. Mukherjee mistura essa trajetória
com a da própria família, em que vários parentes sofreram de doenças mentais
graves, como esquizofrenia e transtorno bipolar. Essa sombra o acompanha e o
leva a uma dúvida que também pode ser nossa: quanto do nosso destino já vem
pronto de “fábrica”?
A história
começa no século XIX, com um monge chamado Gregor Mendel, que passou anos
cultivando ervilhas no jardim de um mosteiro. Cruzando plantas de sementes
lisas e rugosas, de flores brancas e roxas, ele percebeu que as características
não se misturavam como tinta. Elas passavam de pai para filho em pequenas
unidades separadas, que depois ganhariam o nome de genes. O mais curioso é que
ninguém deu importância ao trabalho dele. Mendel morreu sem reconhecimento, e
suas ideias ficaram esquecidas por décadas. Enquanto isso, Charles Darwin
propunha a evolução das espécies sem conseguir explicar como as características
eram transmitidas de uma geração para a outra. A resposta já existia, mas
estava guardada numa publicação que quase ninguém leu. Só no início do século
XX o mundo redescobriu Mendel e percebeu que ele tinha entregado a peça que
faltava no quebra-cabeça da vida.
Quando a
genética ganhou força, veio também um dos capítulos mais tristes da história.
Se era possível entender a hereditariedade, algumas pessoas pensaram que seria
possível "melhorar" a humanidade, escolhendo quem deveria ter filhos
e quem não deveria. Essa ideia se chamou eugenia e foi defendida em vários
países, inclusive por pessoas respeitadas na época. Nos Estados Unidos,
milhares de pessoas foram esterilizadas à força, só por serem pobres, terem
alguma deficiência ou serem consideradas "inadequadas". Um dos casos
mais conhecidos é o da jovem Carrie Buck, que teve a esterilização aprovada
pela Justiça. Na Alemanha nazista, essa lógica foi levada ao extremo e terminou
no extermínio de milhões de pessoas. Mukherjee faz questão de lembrar esse
episódio porque ele mostra o perigo de usar a ciência da herança para decidir
quem merece existir e quem não merece.
Passado
esse período sombrio, os cientistas começaram a perguntar do que, afinal, os
genes são feitos. Durante um tempo, muita gente achava que a herança estava
guardada nas proteínas. Depois, experimentos cuidadosos mostraram que o
verdadeiro material hereditário era o DNA. Em 1953, James Watson e Francis
Crick apresentaram ao mundo a famosa forma de dupla hélice, uma espécie de
escada em espiral. Eles contaram com dados importantes obtidos pela cientista
Rosalind Franklin, cujo papel só foi reconhecido de forma mais justa com o
passar do tempo. A partir dali tudo mudou de velocidade. Os pesquisadores
decifraram como o DNA funciona como uma receita, escrita com apenas quatro
letras, que ensina a célula a fabricar proteínas. Descobriram também que os
genes são ligados e desligados conforme a necessidade, o que explica por que
uma célula do coração é diferente de uma célula do cérebro, mesmo tendo o mesmo
DNA.
Com o
avanço das técnicas, os cientistas aprenderam não só a ler o DNA, mas a
cortá-lo, emendá-lo e passá-lo de um organismo para outro. Era uma ferramenta
poderosa, capaz de produzir remédios, como a insulina feita por bactérias, mas
também capaz de assustar. Em 1975, pesquisadores do mundo inteiro se reuniram
numa cidade da Califórnia, chamada Asilomar, para discutir os riscos do que
estavam criando. Foi um momento raro na história, em que cientistas propuseram
limites para o próprio trabalho antes que algo desse errado. Pouco depois veio
o grande projeto de ler o genoma humano inteiro, o conjunto completo das nossas
instruções genéticas. Foi uma corrida entre um grupo de instituições públicas e
uma empresa privada, e ela terminou, no início dos anos 2000, com o primeiro
mapa da nossa espécie. A comemoração foi enorme, e a expectativa, ainda maior.
Mas o mapa
trouxe uma surpresa. Muita gente imaginava que, com o genoma na mão, saberíamos
explicar tudo sobre as doenças e sobre as pessoas. Não foi isso que aconteceu.
Algumas doenças, como a de Huntington (doença hereditária e degenerativa do
cérebro), dependem de um único gene defeituoso, e nesses casos a ligação é
direta. Mas a grande maioria das características humanas, da altura à propensão
para certas doenças, depende de muitos genes trabalhando juntos, além do
ambiente em que a pessoa vive, das experiências que tem e até do puro acaso.
Mukherjee mostra que os genes não funcionam como uma sentença definitiva, e sim
como um conjunto de probabilidades. Ter uma predisposição não significa que a
doença virá, assim como não ter não significa que ela nunca virá. Entender isso
é importante para não cairmos na ideia simplista de que somos apenas o que o
nosso DNA diz.
O livro
também trata de temas delicados, como inteligência, identidade, sexualidade e
raça. Nessas áreas, é comum que a ciência seja mal interpretada ou usada para
reforçar preconceitos que já existiam. O autor lembra que as diferenças entre
grupos humanos são muito menores do que as diferenças que existem entre
indivíduos dentro de um mesmo grupo, e que a ideia de "raças"
biológicas bem definidas não se sustenta nos dados. Ele mostra, ainda, o lado difícil
da tentativa de corrigir genes defeituosos em pessoas doentes, a chamada
terapia gênica. Houve avanços importantes, mas também fracassos dolorosos, como
a morte de um jovem chamado Jesse Gelsinger, durante um teste, em 1999. Esse
caso serviu de alerta de que a medicina, por mais bem-intencionada que seja,
precisa avançar com cuidado, transparência e respeito pelas pessoas que se
voluntariam para a pesquisa.
Nos
capítulos finais, o autor chega ao presente e ao futuro. Hoje já é possível
investigar o DNA de um bebê antes mesmo do nascimento e identificar certas
doenças. Também já existem ferramentas, como a famosa CRISPR, que funcionam
como uma tesoura molecular capaz de editar o código da vida com enorme
precisão. Isso abre a porta para curar doenças graves, mas abre também uma
pergunta desconfortável: quem vai decidir o que é doença, o que é normal e o
que é apenas um "aprimoramento"? Será que um dia pais poderão
escolher a altura, a cor dos olhos ou a inteligência dos filhos? Mukherjee não
entrega uma resposta pronta. Ele defende que os genes moldam o que somos, mas
não decidem tudo, e que a liberdade de mexer na hereditariedade exige
humildade, regras claras e boa memória do que a eugenia já provocou.
Portanto, a
grande lição do livro é que conhecer o gene não significa dominar a vida.
Quanto mais aprendemos sobre a nossa herança biológica, mais percebemos que
somos resultado de uma combinação complexa entre genes, ambiente, história e
acaso. Ao mesmo tempo, o poder de ler e alterar o código humano cresce a cada
ano, e com ele cresce também a nossa responsabilidade. Não se trata apenas de
uma discussão para cientistas em laboratórios, mas de um debate que envolve
todos nós, porque diz respeito ao futuro da nossa espécie. Mukherjee nos
convida a olhar para essa história com curiosidade, mas também com cuidado,
lembrando que a pergunta mais importante não é o que a ciência consegue fazer
com os genes, e sim o que nós, como sociedade, decidimos que vale a pena fazer.
quarta-feira, 14 de outubro de 2026
QUEM PERGUNTA, PENSA
"SÓ SEI QUE
NADA SEI"
QUEM PERGUNTA, PENSA:
SÓCRATES, OS SOFISTAS E A ARTE
PERDIDA DE DUVIDAR
por Heitor Jorge Lau
Em 399
a.C., num tribunal popular de Atenas, um homem de setenta anos ouvia a acusação
de não reconhecer os deuses da cidade e de corromper a juventude. Diante de
centenas de jurados sorteados entre os cidadãos, ele poderia ter feito o que a
praxe recomendava: levar os filhos chorando, apelar à piedade, prometer
silêncio... Não fez nada disso. Segundo o relato de Platão na “Apologia”, falou
como quem continua uma conversa antiga e declarou que uma vida sem exame não
vale a pena ser vivida. Foi condenado por margem relativamente estreita, e, ao
propor sua própria pena, sugeriu, com ironia que os juízes não perdoaram, que a
cidade lhe pagasse refeições no edifício reservado aos benfeitores públicos.
Acabou condenado à morte e bebeu a cicuta (veneno). Seu crime, no fundo, era
outro: fazia perguntas, e as fazia justamente a quem se julgava sábio.
Para
entender por que isso incomodava tanto, vale voltar à origem da missão que ele
diz ter assumido. Conta Sócrates que seu amigo Querefonte foi a Delfos
perguntar ao oráculo se alguém era mais sábio que ele, e a resposta foi que
ninguém. Sócrates, que se sabia ignorante, tomou aquilo como um enigma e
decidiu refutá-lo. Procurou os políticos, que tinham fama de sábios, e
descobriu que não sabiam o que pensavam saber. Procurou os poetas e viu que
compunham belos versos sem conseguir explicá-los. Procurou os artesãos e
constatou que dominavam seu ofício, mas, por isso mesmo, julgavam entender
também de assuntos graves sobre os quais nada sabiam. Concluiu que a diferença
entre ele e os outros era mínima, porém real: ele não acreditava saber o que
não sabia. A tradição resumiu isso na fórmula "só sei que nada
sei", que é uma síntese posterior e um pouco simplificadora, mas que
capta o espírito da coisa. A sabedoria humana, para Sócrates, começa no
reconhecimento do próprio limite.
Daí o
método. Nos primeiros diálogos de Platão, Sócrates aborda alguém que parece
dominar um conceito e pergunta o que ele é. No “Êutifron” (personagem que dá
nome a um dos diálogos mais curtos e mais citados de Platão), pergunta a um
especialista em assuntos religiosos o que é a piedade, e vai desmontando,
resposta por resposta, cada definição apresentada, até que o interlocutor,
encurralado, alega ter pressa e sai de cena. No “Laques” (um dos diálogos
socráticos mais bem construídos de Platão, e o que o torna especial é o ponto
de partida: ele começa com uma questão prática de educação e termina numa
pergunta sobre a natureza da coragem), discute-se a coragem com dois generais,
e nenhum consegue defini-la. No “Cármides” (diálogo de Platão sobre a Sophrosýne,
palavra grega de tradução difícil que costumamos verter por temperança,
moderação ou sensatez), a temperança. No “Lísis” (diálogo de Platão sobre a
amizade), a amizade. Esses diálogos terminam em aporia, palavra grega que
designa o impasse, o beco sem saída. Ninguém chega a uma definição. Os
estudiosos chamam esse procedimento de “élenkhos”, a refutação, e seu efeito é
duplo: o interlocutor perde a falsa certeza e, ao mesmo tempo, ganha algo
difícil de nomear, a consciência de que há uma questão real onde antes via
apenas um lugar-comum. O desconforto faz parte do processo. Sócrates compara a
si mesmo a um moscardo que pica um cavalo grande e preguiçoso para despertá-lo,
e a um peixe-torpedo que paralisa quem o toca. Ele mesmo, aliás, se diz estéril
de sabedoria, como a parteira que ajuda a dar à luz sem ter parido, imagem que
Platão desenvolve no “Teeteto” (um dos diálogos mais densos e mais importantes
de Platão).
É aqui que
convém desfazer uma confusão frequente. O que chamamos hoje de método
socrático, em muitas salas de aula, é outra coisa. Quando o professor faz uma
sequência de perguntas já sabendo aonde quer chegar, está mais próximo do que
Platão encena no “Mênon” (um dos diálogos mais importantes de Platão e funciona
como ponto de passagem entre os diálogos de juventude, de linha socrática, e as
obras da maturidade, em que aparecem as doutrinas propriamente platônicas), em
que Sócrates conduz um jovem escravo, passo a passo, até a solução de um
problema de geometria. Ali a pergunta tem destino marcado, e Platão a usa para
ilustrar a ideia de que aprender é recordar. No mesmo diálogo surge um problema
que continua atual: como é possível buscar aquilo que não sabemos, se, ao
encontrá-lo, não o reconheceríamos? A resposta platônica, a reminiscência, é
discutível, mas a pergunta é uma das mais fecundas da história da pedagogia,
porque revela que todo aprendizado exige uma espécie de intuição prévia daquilo
que se busca. Já nos primeiros diálogos, a pergunta não conduz a lugar nenhum.
Ela limpa o terreno. Misturar as duas coisas é um erro comum, e talvez valha a
pena que quem ensina saiba qual das duas está praticando.
Essa
tradição ganhou uma versão institucional no século XIX, quando a faculdade de
direito de Harvard, sob Christopher Langdell, consagrou o método dos casos e a
interrogação em sala de aula, que passaram a ser chamados de socráticos. O
resultado é conhecido por quem passou por escolas assim: a pergunta pública
pode servir ao pensamento, mas também pode virar instrumento de exposição e
intimidação. Sócrates fazia perguntas a adultos que aceitavam o jogo, e que
podiam ir embora, como Êutifron foi. Um estudante cuja nota depende da resposta
não está na mesma posição. A lição, para quem ensina, é que a qualidade do
método não está na forma da pergunta, mas na atitude de quem pergunta: com real
interesse em pensar junto, ou com a intenção de provar que sabe mais.
A pedagogia
contemporânea reencontrou parte dessa intuição nas metodologias ativas e no
ensino por problemas. A convicção de fundo é a mesma: conhecimento não é um
objeto que se passa de uma cabeça a outra como quem enche um copo. Quem aprende
precisa se envolver, se confundir, formular hipóteses, errar e corrigir. Há uma
passagem do “Fedro” (diálogos de Platão e também dos mais difíceis de resumir,
porque parece tratar de dois assuntos que mal se tocam: a primeira metade fala
do amor, a segunda da retórica e da escrita) que dá a essa ideia uma
profundidade inesperada. Ali Sócrates conta o mito do deus egípcio Teute, que
apresenta ao rei Tamuz a invenção da escrita como remédio para a memória e para
a sabedoria. O rei responde que a escrita fará exatamente o contrário: produzirá
esquecimento, porque as pessoas deixarão de exercitar a memória e passarão a
confiar em sinais externos, e terão a aparência da sabedoria sem a sua
realidade. Sócrates acrescenta que o texto escrito é como uma pintura: parece
vivo, mas, se o interrogamos, permanece em silêncio solene, repetindo sempre a
mesma coisa. Não responde, não se defende, não adapta o que diz a quem o lê.
Lembre-se de que ele próprio nada escreveu, e que conhecemos seu pensamento por
meio de Platão, Xenofonte e outros. Há uma ironia notável em que a crítica à
escrita nos tenha chegado por escrito, e Platão sabia disso.
Troque a
escrita pela internet e a crítica ganha uma atualidade desconfortável. Temos
acesso instantâneo a quase tudo, mas a facilidade de acesso não equivale a
compreensão. Consultar não é examinar. Quem busca uma resposta em segundos pode
ter a sensação de saber sem ter feito o trabalho de entender, e o conteúdo que
lê, como a pintura de Sócrates, não o questiona de volta. É claro que seria
exagero reduzir tudo a uma condenação da tecnologia, e o próprio Platão não
abdicou de escrever. Mas a advertência permanece útil: o que se aprende sem
esforço de pensar tende a se esvair com a mesma facilidade com que chegou.
No debate
público, o contraste é ainda mais evidente. As redes recompensam a afirmação
rápida, categórica, de preferência com um tom de certeza que gera adesão e
compartilhamento. Pergunta engaja pouco. Admitir ignorância engaja menos ainda.
Se Sócrates entrasse hoje numa discussão online, provavelmente seria
silenciado em poucos minutos, e talvez fosse essa a melhor prova de que sua
atitude continua incomodando. O "só sei que nada sei" é quase o
oposto do que os algoritmos premiam, e talvez por isso seja tão necessário. Não
se trata de defender a dúvida permanente, que paralisa, nem de pedir que
ninguém tenha convicções. Sócrates tinha as suas, e morreu por elas. Trata-se
de manter a possibilidade de revisar o que se pensa quando surge um bom
argumento, algo que exige, antes de tudo, disposição para ouvir.
Do outro
lado do palco ateniense estavam os sofistas, os mestres itinerantes que
cobravam para ensinar a arte do discurso e da argumentação numa cidade em que
as decisões se tomavam em assembleias e tribunais. A imagem que a história lhes
legou, a de vendedores de vitórias retóricas indiferentes à verdade, vem em boa
parte de Platão, que era seu adversário, e os próprios sofistas deixaram poucos
textos para se defender. É preciso, portanto, cautela. Protágoras de Abdera, o
mais célebre deles, é citado por uma frase famosa, a de que o “homem é a
medida de todas as coisas”, que Platão discute no “Teeteto” e que pode ser
lida de modos muito diferentes, do relativismo radical à simples constatação de
que todo conhecimento humano é situado. No diálogo que leva seu nome,
Protágoras sustenta que todos os homens recebem um senso básico de justiça e
respeito mútuo e que, por isso, todos podem participar das decisões da cidade,
uma defesa da democracia mais sofisticada do que a caricatura permite supor.
Ainda assim, a pergunta de Platão ao confrontar essa tradição continua válida.
No “Górgias” (diálogo de Platão em que a pergunta sobre a retórica se
transforma, aos poucos, numa pergunta sobre como se deve viver), Sócrates
compara a retórica que busca apenas agradar à culinária, que dá prazer sem se
preocupar com a saúde, em contraste com a medicina, que cuida do corpo mesmo
quando incomoda. A retórica, diz ele, bajula, e a verdadeira arte do discurso
deveria tornar melhores os cidadãos. Isso lembra que persuadir e esclarecer são
coisas distintas, e que a mesma técnica pode servir a ambas.
Ao olhar
para a política, a publicidade e o ambiente digital de hoje, a distinção faz
falta. Vivemos cercados de uma retórica extremamente sofisticada, treinada para
convencer em segundos, calibrada por dados sobre o que funciona, e muito pouco
treinada para fazer a pergunta que Sócrates faria: isso é verdadeiro? Aquele
que ensina a persuadir responde pelo uso que se faz do que ensina? A pergunta,
que os atenienses já se faziam, segue sem resposta confortável.
O que
Sócrates deixa, afinal, não é uma técnica a ser aplicada mecanicamente nem um
conjunto de conclusões. É uma atitude, a de quem aceita ser questionado... de
quem trata a própria convicção como hipótese a ser testada e não como
patrimônio a ser defendido... de quem entende que conversar bem é pensar junto
e não vencer. Essa atitude custa caro, e o próprio Sócrates pagou o preço
máximo. Num tempo em que todos têm opinião sobre tudo e poucos têm paciência
para examiná-la, a pergunta mais socrática que podemos fazer é a mais simples e
a mais difícil: e se eu estiver errado? Quem consegue fazê-la
sinceramente, e escutar a resposta, já começou a filosofar.
segunda-feira, 12 de outubro de 2026
O DESTINO DA HUMANIDADE DIANTE DA IMENSIDÃO DO UNIVERSO
O DESTINO DA
HUMANIDADE DIANTE DA IMENSIDÃO DO UNIVERSO
por Heitor Jorge Lau
É possível
que, em um futuro distante, nossos descendentes observem a Terra a partir de
outros mundos, reconstruam os acontecimentos que marcaram nossa época e se
perguntem por que uma espécie que compreendia os riscos de suas próprias ações
demorou tanto para enfrentá-los. A questão fundamental, portanto, talvez não
seja se a humanidade conseguirá conquistar outros planetas, prolongar
indefinidamente sua existência ou descobrir todos os segredos da natureza, mas
se conseguirá desenvolver sabedoria suficiente para reconhecer o valor daquilo
que já possui.
Boa
leitura!
A história
do universo é uma história de transformações que se estende por bilhões de
anos, desde os primeiros instantes de sua existência até a formação das
galáxias, o nascimento e a morte das estrelas e a constituição dos elementos
químicos que hoje encontramos nos organismos vivos e em tudo aquilo que compõe
o mundo ao nosso redor. Durante uma parcela quase inimaginável desse tempo, não
havia olhos para contemplar o firmamento, mentes capazes de investigar a origem
da matéria ou consciência que se interrogasse sobre o significado da própria
existência. O universo seguia sua trajetória, indiferente à ausência de
observadores, enquanto as leis da natureza produziam estruturas cada vez mais
complexas em determinadas regiões do espaço. Em um pequeno planeta que orbita
uma estrela entre centenas de bilhões de outras estrelas de nossa galáxia, a
matéria adquiriu uma propriedade extraordinária: organizou-se em sistemas
capazes de se manter, reproduzir e evoluir, dando origem à diversidade da vida
e, depois de uma longa sucessão de acontecimentos, a seres que desenvolveram a
capacidade de investigar as condições que tornaram possível sua própria
existência. A humanidade surgiu como parte dessa história, não fora dela, e uma
das mais profundas descobertas que fizemos tenha sido compreender que não somos
espectadores independentes de uma realidade exterior, mas manifestações de um
universo que, por meio de nós, tornou-se capaz de formular perguntas sobre si
mesmo.
Essa
constatação, por mais fascinante que seja, não deveria alimentar a presunção de
que a humanidade ocupa uma posição privilegiada na ordem cósmica, tampouco
autoriza a conclusão de que a existência do universo tenha sido orientada para
produzir nossa espécie. Não conhecemos evidências que sustentem a ideia de que
o cosmos tenha sido concebido para nos acolher, e a história da Terra demonstra
que a vida não surgiu como resultado de uma sequência de acontecimentos
destinados inevitavelmente a culminar no aparecimento dos seres humanos. Nossa
existência dependeu de uma combinação extraordinariamente complexa de condições
físicas, químicas, geológicas e biológicas, desenvolvidas ao longo de uma
história que poderia ter seguido inúmeros outros caminhos. Se as circunstâncias
tivessem sido diferentes, talvez a vida jamais tivesse surgido, talvez tivesse
assumido formas inteiramente distintas ou talvez a consciência, tal como a
conhecemos, nunca tivesse aparecido. Precisamos reconhecer a dimensão dessa
incerteza, pois ela nos coloca diante de uma questão que ultrapassa a
curiosidade científica: o que significa existir em um universo cuja imensidão
mal conseguimos compreender, sabendo que nossa presença nele é recente,
vulnerável e, até onde podemos afirmar, ainda sem paralelo confirmado em
qualquer outro mundo?
A ciência
ampliou de maneira extraordinária nossa compreensão da natureza, permitindo-nos
reconstruir etapas da evolução cósmica, identificar a composição química de
estrelas distantes, investigar a história da vida e reconhecer os mecanismos
que sustentam o funcionamento dos ecossistemas. Entretanto, esse aumento de
conhecimento não foi acompanhado, necessariamente, por uma transformação
equivalente na maneira como nos relacionamos com o planeta e uns com os outros.
Desenvolvemos tecnologias capazes de alterar profundamente o ambiente,
produzimos quantidades imensas de riqueza e adquirimos instrumentos que ampliam
nosso poder sobre a matéria, mas continuamos convivendo com guerras,
desigualdades, destruição ambiental e formas de exploração que comprometem as
condições de vida de milhões de pessoas. Existe, portanto, uma contradição
fundamental em nossa trajetória: somos capazes de compreender processos
naturais que se desenvolveram durante bilhões de anos, mas frequentemente
agimos como se os sistemas que sustentam nossa existência fossem inesgotáveis,
como se os recursos do planeta pudessem ser consumidos indefinidamente e como
se as consequências de nossas decisões pudessem ser transferidas, sem custos,
para aqueles que ainda não nasceram. A questão que emerge dessa contradição não
diz respeito apenas aos limites da tecnologia, mas à maturidade de uma espécie
que conquistou um poder considerável sem ter desenvolvido, na mesma proporção,
a capacidade de avaliar as consequências de seu próprio comportamento.
A Terra não
é apenas o território sobre o qual construímos nossas cidades, estabelecemos
nossas fronteiras e desenvolvemos nossas atividades econômicas. Ela constitui o
sistema complexo do qual dependemos para respirar, obter água, produzir
alimentos e manter as condições ambientais necessárias à continuidade da vida
humana. A atmosfera, os oceanos, os solos, os organismos e os ciclos naturais
encontram-se interligados por processos cuja complexidade ainda estamos longe
de compreender integralmente. Durante muito tempo, a humanidade pôde
transformar ambientes locais sem alterar de maneira decisiva os sistemas
planetários, mas o crescimento populacional, a expansão industrial, o consumo
de combustíveis fósseis e a exploração intensiva dos recursos naturais ampliaram
nossa capacidade de interferir no funcionamento da biosfera. Hoje, as
consequências dessas transformações ultrapassam fronteiras geográficas e
gerações, manifestando-se na alteração do clima, perda de biodiversidade, degradação
dos ecossistemas e na crescente pressão sobre recursos indispensáveis à
sobrevivência. Ainda assim, continuamos alimentando a ilusão de que a natureza
representa uma realidade separada da civilização, uma espécie de reservatório
exterior ao qual podemos recorrer sempre que nossas necessidades aumentarem.
Esquecemos, nessa concepção equivocada, que não existe uma humanidade
independente das condições planetárias, porque toda atividade econômica, toda
organização social e toda aspiração individual dependem da integridade dos
sistemas que tornam a vida possível.
A maior
dificuldade está em reconhecer que a inteligência, por si só, não garante
sabedoria, assim como o conhecimento científico não determina automaticamente o
uso que fazemos dele. Compreender os mecanismos de funcionamento de uma bomba
nuclear não nos torna moralmente capazes de decidir quando jamais deveríamos
utilizá-la; desenvolver tecnologias de manipulação genética não resolve, por si
mesmo, os dilemas éticos envolvidos em sua aplicação; identificar os fatores
que contribuem para a degradação ambiental não significa que estejamos
dispostos a modificar os padrões econômicos e culturais responsáveis por ela. A
ciência nos permite distinguir aquilo que é possível daquilo que é impossível,
formular hipóteses, testar explicações e reconhecer as consequências
previsíveis de determinadas ações, mas as decisões sobre os objetivos que
desejamos perseguir envolvem valores, responsabilidades e escolhas coletivas.
Quando confundimos capacidade técnica com progresso moral, corremos o risco de
construir uma civilização cada vez mais poderosa e, simultaneamente, cada vez
mais vulnerável às consequências de suas próprias conquistas. A questão
decisiva não é, portanto, saber até onde conseguiremos estender nosso domínio
sobre a natureza, mas compreender se seremos capazes de desenvolver uma relação
com o conhecimento que não esteja subordinada exclusivamente à competição, ao
consumo e à busca incessante por poder.
Essa
reflexão adquire uma dimensão ainda mais profunda quando consideramos a
possibilidade de que a vida seja rara no universo. Embora conheçamos milhares
de planetas fora do Sistema Solar e saibamos que os ingredientes químicos
associados à vida são encontrados em diferentes regiões do cosmos, ainda não
identificamos nenhuma forma de vida extraterrestre confirmada. Não sabemos
quantos mundos abrigam organismos, quantas vezes a evolução produz seres
capazes de desenvolver inteligência ou quantas civilizações, caso existam,
conseguem sobreviver por períodos suficientemente longos para estabelecer
contato com outras formas de vida. Nossa ignorância é considerável, e seria
precipitado transformar a ausência de evidências em prova de que estamos
sozinhos. Entretanto, a incerteza também nos obriga a considerar uma
possibilidade inquietante: a vida complexa e consciente é muito menos comum do
que gostaríamos de imaginar. Se assim for, a biosfera terrestre representaria
um fenômeno de importância extraordinária, não porque possamos demonstrar que
seja única, mas porque constitui o único exemplo conhecido de um sistema
planetário no qual a matéria produziu uma diversidade tão ampla de organismos
e, entre eles, seres capazes de investigar a própria origem. Mesmo que um dia
encontremos vida em outros mundos, essa descoberta não diminuirá o valor da
vida terrestre, assim como a existência de outras estrelas não torna menos
extraordinária a estrela que ilumina nosso planeta.
A
consciência acrescenta a essa questão uma dimensão que não pode ser reduzida à
simples sobrevivência biológica. Por meio dela, tornamo-nos capazes de recordar
o passado, imaginar futuros possíveis, experimentar a beleza, reconhecer o
sofrimento alheio e interrogar os fundamentos de nossas escolhas. Essa
capacidade, entretanto, não nos coloca automaticamente acima das demais formas
de vida, nem nos concede um direito ilimitado de submetê-las aos nossos
interesses. Ao contrário, quanto maior nossa capacidade de compreender as
relações que conectam os organismos aos seus ambientes, maior deveria ser nossa
responsabilidade diante das consequências de nossas ações. A consciência pode
representar uma oportunidade para a preservação da vida, mas também pode ampliar
a capacidade de destruição quando se associa à indiferença, à ambição desmedida
e à convicção de que tudo aquilo que existe deve estar disponível para
exploração. O fato de sermos capazes de antecipar algumas consequências de
nosso comportamento torna particularmente inquietante a possibilidade de que
continuemos produzindo danos que sabemos serem reais. Não se trata de afirmar
que a humanidade esteja condenada ao fracasso, mas de reconhecer que o
conhecimento adquirido ao longo de nossa história nos coloca diante de uma
responsabilidade que já não pode ser atribuída exclusivamente à ignorância ou à
incapacidade de compreender o mundo.
O futuro da
humanidade permanece indeterminado, e essa indeterminação deve ser compreendida
tanto como uma fonte de preocupação quanto como uma possibilidade de
transformação. As crises que enfrentamos não tornam inevitável o colapso da
civilização, assim como os avanços científicos e tecnológicos não asseguram que
conseguiremos superar todas as ameaças. Entre esses extremos existe um vasto
campo de decisões políticas, econômicas, culturais e individuais que
influenciarão as condições de vida das próximas gerações. Podemos utilizar o
conhecimento científico para desenvolver formas mais sustentáveis de produção,
preservar ecossistemas, reduzir desigualdades e ampliar nossa capacidade de
cooperação, mas também podemos empregá-lo para intensificar conflitos, concentrar
poder e acelerar a exploração de recursos naturais. Nenhuma lei conhecida da
natureza garante que escolheremos o caminho mais sensato, pois a evolução
biológica não nos preparou necessariamente para lidar com problemas de escala
planetária, horizontes temporais extensos e consequências que ultrapassam os
interesses imediatos de cada indivíduo ou sociedade. Precisamos, portanto,
abandonar a crença de que o futuro será inevitavelmente melhor apenas porque
dispomos de instrumentos mais sofisticados para transformá-lo. O progresso
depende das finalidades que estabelecemos, dos valores que orientam nossas
decisões e da disposição de reconhecer que a prosperidade de uma geração não
pode ser construída à custa da destruição das condições necessárias à existência
das seguintes.
Diante da
vastidão do universo, a humanidade pode parecer insignificante, uma espécie
recente que habita um planeta entre incontáveis mundos possíveis, condenada a
desaparecer algum dia, como tantas outras formas de vida que já existiram na
Terra. Essa perspectiva, contudo, não precisa conduzir ao desespero nem à
conclusão de que nossa existência carece de significado. A ausência de
garantias cósmicas não elimina a importância das escolhas humanas, assim como a
finitude de uma vida não torna irrelevantes os vínculos, as experiências e os
conhecimentos que ela contém. O significado de nossa existência pode estar
menos na posição que ocupamos no universo do que na maneira como respondemos às
possibilidades que se apresentam diante de nós. Não precisamos ser o centro da
realidade para reconhecer o valor da vida, nem demonstrar que somos uma espécie
excepcional para assumir a responsabilidade por aquilo que somos capazes de
compreender e preservar. Talvez a verdadeira grandeza de uma civilização não
deva ser medida apenas pela extensão de seus territórios, pela quantidade de
energia que consome ou pela complexidade de suas máquinas, mas também por sua
capacidade de proteger aquilo que não pode recriar facilmente, reconhecer os
limites de seu poder e construir condições para que outras gerações possam
continuar investigando, questionando e descobrindo.
É possível
que, em um futuro distante, nossos descendentes observem a Terra a partir de
outros mundos, reconstruam os acontecimentos que marcaram nossa época e se
perguntem por que uma espécie que compreendia os riscos de suas próprias ações
demorou tanto para enfrentá-los. Também é possível que essa humanidade futura
jamais exista, não porque o desaparecimento de nossa espécie seja inevitável,
mas porque nenhuma garantia nos protege das consequências de nossas escolhas.
Entre essas possibilidades encontra-se o presente, esse intervalo breve no qual
ainda podemos avaliar os caminhos que estamos construindo e reconhecer que o
futuro não é uma realidade distante, separada de nossas decisões, mas o
resultado cumulativo de ações que começam muito antes de seus efeitos se
tornarem evidentes. A Terra continuará sua trajetória independentemente das
expectativas humanas, e a vida poderá transformar-se de maneiras que não somos
capazes de prever. O que está em questão é a continuidade de nossa própria
história e a preservação das condições que permitem a existência de uma
civilização consciente de sua origem e de sua vulnerabilidade. Se algum dia
deixarmos de existir, o universo não precisará interromper seu movimento para
registrar nossa ausência, afinal, as estrelas continuarão a nascer e morrer, e
as galáxias seguirão suas trajetórias. Mas, neste pequeno planeta, desaparecerá
uma forma de vida capaz de contemplar essa imensidão, investigar suas origens e
perguntar pelo significado de estar viva.
É precisamente
essa consciência de nossa fragilidade que deveria orientar uma nova maneira de
compreender o futuro. Não sabemos se estamos sozinhos no universo, não
conhecemos todos os caminhos que a evolução poderia ter percorrido e tampouco
podemos prever com segurança o destino de nossa espécie. Sabemos, entretanto,
que a vida existe aqui, que sua história depende de condições ambientais
específicas e que nossas ações já possuem uma dimensão capaz de alterar
profundamente o mundo que recebemos das gerações anteriores. Essa constatação
deveria ser suficiente para nos fazer reconsiderar a ideia de que o planeta é
apenas um recurso a ser utilizado até que novas possibilidades de exploração se
apresentem. A Terra não é um obstáculo a ser superado em nossa busca por outros
mundos, nem um patrimônio cuja importância possa ser substituída pela promessa
de futuras conquistas tecnológicas. É o lugar onde nossa história se tornou
possível, onde aprendemos a reconhecer a diversidade da vida e de onde partimos
para investigar a imensidão que nos cerca. Se desejamos compreender o universo,
precisamos também compreender nossa responsabilidade dentro dele, pois a
capacidade de formular perguntas sobre a existência não terá grande significado
se não formos capazes de preservar as condições que permitem continuar
perguntando.
A questão
fundamental, portanto, talvez não seja se a humanidade conseguirá conquistar
outros planetas, prolongar indefinidamente sua existência ou descobrir todos os
segredos da natureza, mas se conseguirá desenvolver sabedoria suficiente para
reconhecer o valor daquilo que já possui. Uma civilização verdadeiramente
consciente de sua condição não seria aquela que acreditasse ter superado sua
dependência da natureza, mas aquela que compreendesse a profundidade dessa
dependência e agisse de acordo com ela. Não seria aquela que transformasse o
poder em finalidade, mas aquela que reconhecesse que todo poder traz consigo
consequências e responsabilidades. E não seria aquela que se considerasse
proprietária absoluta do mundo, mas aquela que compreendesse que sua presença
na Terra constitui um episódio de uma história muito mais antiga e abrangente
do que a história humana. Jamais descobriremos se o universo está repleto de
outras formas de consciência ou se a nossa representa uma ocorrência
excepcional, mas essa resposta, por mais extraordinária que venha a ser, não
determinará sozinha o valor de nossas escolhas. O que determinará o futuro da
humanidade será, em grande medida, a capacidade de transformar conhecimento em
responsabilidade, inteligência em discernimento e consciência em compromisso
com a continuidade da vida. A pergunta que permanece diante de nós não é apenas
o que o universo poderá revelar sobre nossa origem, mas o que nossas decisões
revelarão sobre a espécie que se tornou capaz de contemplá-lo e, pela primeira
vez em sua história, compreender que também pode comprometer o próprio futuro.
domingo, 11 de outubro de 2026
sábado, 10 de outubro de 2026
POR QUE ACREDITAMOS EM COISAS ESTRANHAS?
POR QUE
ACREDITAMOS EM COISAS ESTRANHAS?
por Heitor Jorge Lau
Conheço
quem deixe o registro da água meio aberto "para poupar água". Conheço
quem coloque garrafas PET no medidor de energia elétrica "para economizar
luz". Já vi garrafas com água espalhadas pelo pátio, e nem perguntei por
quê. E conheço quem lave o cabelo o mínimo possível porque "estraga os
fios". Todas essas pessoas têm algo em comum: acreditam de verdade no que
fazem.
A lista é
longa. Tem gente que desliga a geladeira à noite para gastar menos, enquanto o
motor trabalha mais para esfriar tudo de novo. Tem quem passe pasta de dente na
queimadura, pó de café na ferida ou coloque uma faca embaixo do travesseiro.
Tem quem jure que manga com leite faz mal e que deixar o celular carregando a
noite toda estraga a bateria (o que valia para aparelhos antigos, não para os
de hoje).
Por que
isso pega? Quase nunca é falta de inteligência. É uma lógica intuitiva
incompleta. Se passa menos água pelo registro, gasta-se menos, parece óbvio. Só
que o hidrômetro mede volume: para encher o mesmo balde, a conta será a mesma,
mais devagar ou mais depressa. A garrafa no medidor também ilude, porque ele
apenas mede a corrente que passa pelos fios, e nenhuma garrafa muda isso.
Há ainda a
prova que parece prova. A pessoa pôs a garrafa, a conta veio mais baixa e
pronto, funcionou. Ela não considera o clima, a viagem da família, o chuveiro
desligado. E se a conta sobe, a culpa é de outra coisa. Quando dá certo, o
mérito é da crença; quando dá errado, nunca é dela. Muitas dessas ideias também
carregam um grão de verdade. Xampu em excesso pode ressecar o cabelo, e daí a
crença exagera até "lavar estraga". É esse pedaço de verdade que a
torna tão difícil de derrubar.
E o mais
curioso: se alguém que entende do assunto explica o contrário, a pessoa muitas
vezes nem ouve. A crença deixou de ser opinião e virou identidade. Ela é
"aquela que economiza", "aquele que entende de cabelo".
Admitir o erro é admitir que passou anos enganada, e ninguém gosta disso. Além
do mais, o "eu vi com meus olhos" pesa mais do que qualquer estudo. E
o especialista, às vezes, fala de cima para baixo, com arrogância e jargão, o
que faz a pessoa defender o território em vez de pensar no argumento. Acreditar
na bobagem não custa nada. Rever a crença custa reconhecer o erro e recomeçar.
Mas antes
que alguém ria dos outros, vale a pergunta: e as minhas crenças? Quem nunca
colocou garrafa em medidor também carrega as suas, do seu jeito. Aquela certeza
que nunca testou, aquela verdade herdada de alguém confiável, aquela convicção
da qual não abre mão nem diante de bons argumentos... e isso vale para crenças
de todo tipo, das domésticas às ideológicas. As nossas sempre nos parecem
razoáveis, por definição.
No fim, o
que separa quem muda de ideia de quem não muda não é a inteligência. É a
disposição de testar e de aceitar ser corrigido sem se sentir humilhado ou
desmerecido.
A CURIOSIDADE DA CRIANÇA DE HOJE, É O PENSAMENTO CRÍTICO DO ADULTO DE AMANHÃ.
A CURIOSIDADE DA CRIANÇA DE HOJE,
É O PENSAMENTO CRÍTICO DO ADULTO DE AMANHÃ.
por Heitor Jorge Lau
Há iniciativas educacionais que
merecem ser observadas para além dos resultados imediatos que apresentam, pois
seus maiores efeitos não aparecem necessariamente nas avaliações escolares, nos
certificados recebidos ou nos números divulgados pelas instituições. Seus
frutos se manifestam silenciosamente, ao longo dos anos, na maneira como uma
criança aprende a observar o mundo, formular perguntas, lidar com as próprias
dúvidas e construir explicações para aquilo que ainda não compreende. A Feira
de Ciências — Inovação e Sustentabilidade da Universidade de Santa Cruz do Sul
(Unisc), ao selecionar 120 trabalhos desenvolvidos por estudantes de diferentes
etapas da educação, representa uma oportunidade de refletir sobre a importância
dessas experiências para a formação intelectual e humana das novas gerações.
Quando uma criança começa a
investigar um fenômeno, seja ele relacionado à natureza, à tecnologia ou aos
desafios da vida cotidiana, alguma coisa importante acontece em sua maneira de
pensar. O mundo deixa de ser apenas um conjunto de coisas prontas, cujos
significados são apresentados pelos adultos, e passa a se transformar em um
território de descobertas. Uma planta que cresce em determinadas condições, a
água que se modifica conforme a temperatura, o comportamento de pequenos
animais ou o funcionamento de um objeto comum podem despertar perguntas que
conduzem a novas observações. Nesse movimento, a criança começa a compreender
que conhecer não significa apenas receber informações, mas também investigar,
comparar, experimentar e procurar explicações consistentes para aquilo que
desperta sua curiosidade.
Esse processo guarda uma analogia
interessante com o próprio desenvolvimento infantil. Assim como o corpo cresce
por meio de transformações sucessivas, a mente também amplia suas capacidades à
medida que encontra experiências que a desafiam. Uma criança que recebe
respostas prontas para todas as perguntas pode acumular informações sem
necessariamente aprender a examiná-las. Em contrapartida, aquela que é
estimulada a investigar desenvolve uma relação mais ativa com o conhecimento.
Aprende que uma dúvida não representa uma deficiência, mas o ponto de partida
de uma descoberta... que uma hipótese pode ser modificada diante de novas
evidências... e que reconhecer um erro constitui uma oportunidade de
aprendizagem, não um motivo para constrangimento.
É exatamente nessa passagem entre a
curiosidade espontânea e a investigação organizada que iniciativas como as
feiras de ciências adquirem um valor extraordinário. Ao transformar uma
pergunta em um projeto, o estudante precisa organizar ideias, estabelecer
objetivos, selecionar materiais, observar resultados e encontrar uma maneira de
comunicar aquilo que descobriu. Mesmo quando o trabalho é simples, essas etapas
mobilizam capacidades que ultrapassam os limites de uma disciplina escolar. A
criança exercita a atenção, a memória, o raciocínio lógico, a criatividade e a
persistência, enquanto aprende a estabelecer relações entre diferentes
informações. Mais do que reproduzir um conteúdo apresentado em sala de aula,
ela começa a experimentar o significado de produzir conhecimento.
Existe ainda uma dimensão
particularmente relevante nessa experiência: a necessidade de explicar o
próprio trabalho a outras pessoas. Quando um estudante apresenta sua pesquisa
diante de colegas, professores, avaliadores ou visitantes, precisa organizar o
pensamento para torná-lo compreensível. É nesse momento que a aprendizagem
individual encontra a dimensão social do conhecimento. Ao ouvir perguntas,
receber observações e confrontar interpretações diferentes, a criança descobre
que suas ideias podem ser examinadas, aperfeiçoadas e enriquecidas pelo
diálogo. Desenvolve, assim, não apenas a capacidade de argumentar, mas também a
disposição para escutar, reconhecer limites e considerar perspectivas que não
havia percebido anteriormente.
Essas experiências são especialmente
importantes durante a pré-adolescência, período em que o jovem amplia
progressivamente sua capacidade de abstração, começa a questionar explicações
antes aceitas sem resistência e procura compreender melhor o próprio lugar no
mundo. O pensamento crítico não surge automaticamente com a idade, assim como a
maturidade intelectual não decorre exclusivamente da quantidade de informações
acumuladas. Ambos dependem, em boa medida, das oportunidades de exercitar o
raciocínio, enfrentar problemas, sustentar argumentos e rever conclusões. Uma
escola que abre espaço para a investigação oferece ao estudante condições para
experimentar essas capacidades em desenvolvimento, respeitando seu ritmo e
incentivando sua autonomia.
Há também uma contribuição
importante para a formação emocional. Desenvolver um projeto exige lidar com
dificuldades, resultados inesperados, limitações de materiais e momentos em que
as coisas não funcionam como foram planejadas. A criança aprende, na prática,
que nem todo esforço produz imediatamente o resultado esperado e que a
persistência precisa caminhar junto com a capacidade de modificar estratégias.
Essa aprendizagem fortalece a confiança baseada na experiência, diferente
daquela sustentada apenas por elogios. O estudante passa a reconhecer que é
capaz de enfrentar desafios, procurar alternativas e continuar aprendendo mesmo
quando o caminho se mostra mais difícil do que imaginava.
No atual modelo de sociedade, marcada
pela circulação acelerada de informações, essa formação assume uma importância
ainda maior. Crianças e adolescentes entram em contato diariamente com
afirmações, imagens, vídeos e explicações que disputam sua atenção, nem sempre
acompanhados de evidências confiáveis. Aprender a pensar criticamente significa
desenvolver a capacidade de perguntar de onde vem uma informação, quais
elementos sustentam determinada afirmação, se existem explicações alternativas
e quais interesses podem estar envolvidos em sua divulgação. Uma feira de
ciências, evidentemente, não resolve sozinha os desafios da desinformação, mas
contribui para construir uma disposição intelectual indispensável: a de não
confundir uma afirmação convincente com uma afirmação comprovada.
A sustentabilidade, presente no nome
da iniciativa da Unisc, acrescenta outra dimensão a essa reflexão. Investigar
questões ambientais pode ajudar o estudante a compreender que os fenômenos
naturais não existem isoladamente e que as ações humanas produzem consequências
que ultrapassam o momento e o lugar em que ocorrem. Ao estudar o solo, a água,
a vegetação, os resíduos ou as relações entre os seres vivos, a criança
encontra oportunidades de relacionar conhecimento científico e responsabilidade
coletiva. A natureza deixa de ser apenas um cenário observado à distância e
passa a ser compreendida como um sistema do qual fazemos parte, cuja
preservação depende de escolhas fundamentadas e de uma percepção mais ampla das
relações entre sociedade e ambiente.
Naturalmente, não se deve esperar
que toda criança participante de uma feira científica se transforme em
pesquisadora ou cientista. O valor dessas experiências não está em antecipar
uma profissão, mas em ampliar as possibilidades de desenvolvimento de cada
estudante. Mesmo aquele que seguirá caminhos inteiramente diferentes poderá
levar consigo a capacidade de investigar problemas, avaliar argumentos,
reconhecer informações frágeis e tomar decisões com maior consciência. São
habilidades que encontram aplicação na vida profissional, nas relações sociais,
no exercício da cidadania e na maneira como cada pessoa interpreta a realidade.
Portanto, os 120 trabalhos
selecionados pela Feira de Ciências — Inovação e Sustentabilidade não
representam meramente uma coleção de pesquisas escolares. Representam também
120 oportunidades de exercitar a curiosidade, estimular a autonomia intelectual
e mostrar às novas gerações que o conhecimento é uma construção permanente.
Naturalmente, os resultados mais profundos desse processo não podem ser medidos
apenas pelo número de projetos apresentados ou pelas classificações obtidas.
Eles dependem da continuidade dessas experiências, da qualidade da orientação
oferecida e da disposição das instituições educacionais para preservar espaços
nos quais perguntar, experimentar e pensar sejam atividades tão valorizadas
quanto memorizar conteúdos.
Uma sociedade que deseja cidadãos
mais conscientes, críticos e reflexivos deveria estimular mentes pensantes muito
antes da idade adulta. Precisa oferecer às crianças oportunidades para
descobrir que a realidade pode ser examinada, que as ideias podem ser
questionadas e que compreender um problema exige mais do que aceitar a primeira
resposta disponível. A mente crítica não nasce pronta: desenvolve-se por meio
de estímulos, experiências, diálogos e desafios que ensinam o indivíduo a
pensar por conta própria sem desprezar o conhecimento construído pelos outros.
O maior mérito de uma iniciativa
como essa está naquilo que não aparece nas fotografias, nos painéis ou nas
apresentações: a transformação silenciosa que ocorre quando uma criança percebe
que é capaz de formular uma pergunta relevante e procurar, com os próprios
recursos e a orientação necessária, uma resposta fundamentada. Nesse instante,
não está apenas aprendendo ciências. Está descobrindo uma maneira de se
relacionar com o mundo, com as outras pessoas e consigo mesma.
Investir na curiosidade infantil
é investir na qualidade do pensamento que acompanhará essa criança durante toda
a vida. E uma educação que ensina a perguntar, investigar e refletir oferece
algo que ultrapassa qualquer resultado escolar imediato: as condições para que
o conhecimento deixe de ser uma coleção de respostas decoradas e se transforme
em instrumento de compreensão, autonomia e liberdade intelectual.







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