A NATUREZA
APRENDE?
QUEM ENSINOU A NATUREZA A APRENDER?
por Heitor Jorge Lau
Há
histórias científicas que se tornam tão populares que acabam adquirindo uma
vida própria, afastando-se lentamente dos fatos que lhes deram origem. Uma das
mais curiosas envolve macacos, bananas, batatas e uma suposta transmissão
misteriosa de conhecimento entre animais que nunca tiveram contato. A história
ficou conhecida como o “centésimo macaco” e passou a ser utilizada como
argumento para defender a existência de uma espécie de consciência coletiva
capaz de transportar informações à distância. A ciência, entretanto, não
encontrou evidências que sustentem essa conclusão. O curioso é que, quando
retiramos a parte fantasiosa da história, sobra algo ainda mais interessante:
animais realmente aprendem uns com os outros, determinados comportamentos podem
se espalhar por uma população, algumas práticas atravessam gerações e
diferentes grupos da mesma espécie podem desenvolver costumes próprios. A
questão, portanto, não desaparece quando abandonamos o mito. Ela se torna muito
mais interessante: quando um comportamento aprendido por um indivíduo passa
para outros e permanece através das gerações, estamos diante de alguma forma de
cultura?
Tudo
começou, nesse caso, com algo aparentemente banal. Em uma ilha japonesa, uma
jovem macaca descobriu uma maneira diferente de preparar seu alimento. Em vez
de simplesmente comer batatas-doces cobertas de areia, passou a lavá-las antes
de consumi-las. Outros animais observaram o comportamento e começaram a fazer o
mesmo. Com o passar do tempo, a prática se espalhou pelo grupo. Não houve
transmissão telepática, nenhum misterioso salto de consciência e nenhum
acontecimento sobrenatural. Houve observação, repetição, convivência e
aprendizagem social. O episódio é importante justamente porque demonstra que
determinados comportamentos não precisam surgir novamente do zero em cada
indivíduo. Um animal pode observar outro, incorporar uma determinada estratégia
e transmiti-la posteriormente a outro membro do grupo. A informação, nesse
caso, deixa de estar confinada ao indivíduo que a descobriu e passa a circular
socialmente.
É nesse
ponto que a história começa a ficar desconfortável para aquela velha ideia de
que a cultura seria uma propriedade exclusivamente humana. Durante muito tempo,
cultura foi associada à linguagem, à escrita, à religião, às instituições, às
artes e à capacidade humana de acumular conhecimentos durante gerações. Quando
observamos outros animais com mais atenção, porém, encontramos comportamentos
que não parecem ser explicados apenas por instinto. Diferentes populações podem
desenvolver maneiras distintas de obter alimento, utilizar objetos, emitir sons
ou enfrentar determinados problemas. Baleias, por exemplo, podem desenvolver
técnicas específicas de alimentação que se espalham entre indivíduos. Aves
aprendem vocalizações observando outras aves. Primatas utilizam ferramentas e
diferentes grupos podem apresentar técnicas próprias para resolver problemas
semelhantes. Não estamos diante de uma cultura equivalente à humana,
evidentemente, mas estamos diante de algo que merece ser levado a sério:
informação adquirida durante a vida de um indivíduo pode tornar-se parte do
repertório de outros.
Isso muda
profundamente a pergunta. Em vez de perguntar se um animal possui inteligência
suficiente para ser comparado ao ser humano, deveríamos perguntar como a
informação circula dentro de uma comunidade de seres vivos. A pergunta deixa de
ser “eles pensam como nós?” e passa a ser “o que eles conseguem aprender uns
com os outros?”. Essa mudança é importante porque evita um erro bastante comum:
medir todas as formas de inteligência usando exclusivamente a inteligência
humana como régua. Uma baleia não precisa escrever um livro para demonstrar que
consegue adquirir e transmitir informação. Uma ave não precisa construir uma
biblioteca para conservar um comportamento aprendido. Um macaco não precisa
compreender filosofia para descobrir uma solução que outros integrantes de seu
grupo poderão posteriormente reproduzir. A natureza não precisa repetir nossa
maneira de pensar para demonstrar que possui outras maneiras de resolver
problemas.
E então
surge uma questão ainda mais surpreendente: se um comportamento pode ser
aprendido por um indivíduo, observado por outro e transmitido sucessivamente
dentro de uma população, onde exatamente termina o indivíduo e começa o grupo?
A informação pertence ao primeiro animal que descobriu determinada estratégia
ou passa a pertencer, de alguma maneira, à comunidade que a conserva? Uma
tradição não precisa de palavras para existir. Ela pode estar contida em um
gesto, em uma rota, em uma vocalização, em uma técnica de alimentação ou em uma
maneira específica de utilizar um objeto. O que chamamos de conhecimento pode
assumir formas muito diferentes daquela que encontramos nos livros. Em algumas
espécies, uma geração recebe da anterior algo que não estava inscrito
diretamente em seus genes, mas que foi adquirido através da convivência.
Isso nos
aproxima de uma ideia fascinante: a existência de uma espécie de memória
social. Não se trata de uma memória armazenada em um único cérebro e
consultada conscientemente quando necessário. É uma memória distribuída entre
indivíduos, comportamentos e relações. Um animal aprende algo, outro observa,
um terceiro reproduz, e o comportamento permanece enquanto houver indivíduos
capazes de transmiti-lo. Quando uma determinada geração desaparece, parte do
repertório pode desaparecer com ela. Quando o comportamento permanece, uma
espécie de continuidade é estabelecida. A natureza, nesse sentido, não guarda
apenas informações em moléculas e genes. Ela também pode conservá-las em
comportamentos.
Mas é
justamente aqui que precisamos abandonar uma tentação: a de transformar
qualquer fenômeno curioso em prova de uma consciência universal. A história do
“centésimo macaco” é um bom exemplo de como uma observação legítima pode ganhar
uma interpretação que a ciência nunca demonstrou. Não existe evidência de que
um número específico de macacos tenha atingido uma espécie de massa crítica e,
a partir daí, transmitido mentalmente uma informação para animais separados por
grandes distâncias. A verdadeira história é menos fantástica e, ao mesmo tempo,
muito mais importante. Animais observam, imitam, experimentam, modificam
comportamentos e transmitem determinadas soluções. Não precisamos acrescentar
telepatia à natureza para torná-la extraordinária.
E quando
pensamos que já chegamos ao limite dessa discussão, aparecem as plantas. Durante
muito tempo, a planta ocupou um lugar quase decorativo em nossa visão do mundo.
Ela crescia, florescia, produzia sementes e permanecia imóvel enquanto os
animais faziam aquilo que costumamos chamar de vida. Essa imagem começou a
perder força à medida que a biologia passou a revelar uma complexidade
extraordinária nos sistemas vegetais. Plantas percebem alterações no ambiente,
respondem à presença de determinados organismos, modificam seu metabolismo
diante de ameaças, utilizam sinais químicos e podem alterar respostas futuras
de acordo com experiências anteriores. Algumas dessas respostas são descritas
pela ciência utilizando conceitos como memória e aprendizagem, embora esses
termos precisem ser utilizados com cuidado para não projetarmos sobre as
plantas uma psicologia humana que elas evidentemente não possuem.
Uma planta
não precisa ter cérebro para registrar uma diferença entre o que aconteceu
antes e o que está acontecendo agora. Ela precisa apenas possuir mecanismos
capazes de alterar seu comportamento biológico diante das condições
encontradas. Essa constatação parece simples, mas possui uma consequência
filosófica enorme. Durante séculos, associamos memória à existência de um
cérebro. A biologia mostra que a capacidade de conservar efeitos de
experiências anteriores pode existir de maneiras muito mais antigas e
diversificadas. A memória, entendida em sentido amplo como a capacidade de uma
experiência passada modificar uma resposta futura, não começou com o ser
humano. Ela está profundamente inserida na própria história da vida.
Isso nos
leva a outro território ainda mais curioso. Se uma planta consegue modificar
sua resposta futura em função de uma experiência anterior, se uma ave aprende
vocalizações observando outras aves, se baleias transmitem técnicas de
alimentação, se primatas aprendem comportamentos uns com os outros e se
determinados conhecimentos permanecem dentro de populações durante gerações, o
que exatamente estamos chamando de aprendizagem? Estamos falando de uma
capacidade exclusivamente mental ou de algo muito mais antigo, que adquiriu
formas cada vez mais sofisticadas ao longo da evolução?
Uma das
maiores dificuldades está em nossa tendência de confundir a forma como
aprendemos com a própria essência da aprendizagem. O ser humano aprende através
da linguagem, observação, experiência, escola, dos livros, das relações sociais
e de uma extraordinária capacidade de acumular informações. Construímos
conhecimentos sobre conhecimentos anteriores e transmitimos tudo isso através
das gerações. Nossa capacidade de acumulação cultural atingiu uma dimensão
incomparável entre os organismos conhecidos. Mas isso não significa que o
princípio fundamental da aprendizagem tenha surgido conosco. Significa que uma
capacidade muito mais antiga encontrou em nossa espécie uma forma
extraordinariamente sofisticada de expressão.
A própria
evolução pode ser observada como uma gigantesca história de informação. O DNA
conserva registros da história biológica de cada organismo. As estruturas
celulares carregam mecanismos desenvolvidos ao longo de bilhões de anos. Os
organismos respondem às condições ambientais. Populações mudam. Comportamentos
são selecionados, modificados e transmitidos. Em determinado momento dessa
história surgiu um animal capaz não apenas de aprender com o ambiente, mas de
transformar aquilo que aprendeu em linguagem, memória coletiva, tecnologia,
arte, ciência e instituições. A partir daí, a informação deixou de circular
apenas através dos mecanismos biológicos e passou a circular também por
símbolos.
Foi nesse
momento que a aprendizagem adquiriu uma dimensão completamente nova. Um ser
humano pode aprender algo e ensinar a outro. O segundo pode modificar aquilo
que recebeu e ensinar a um terceiro. O terceiro pode registrar a informação em
um livro, outra pessoa pode lê-la séculos depois, corrigir seu conteúdo,
acrescentar uma nova descoberta e transmitir novamente aquele conhecimento.
Assim, uma informação pode sobreviver à morte de todos aqueles que participaram
de sua descoberta. Nenhum indivíduo precisa carregar sozinho a totalidade do
conhecimento de uma espécie. A sociedade passa a funcionar como uma gigantesca
memória externa, e esta é uma das maiores singularidades humanas.
Não somos
os únicos seres capazes de aprender. Não somos os únicos capazes de observar.
Não somos os únicos capazes de modificar comportamentos a partir da
experiência. Também não somos os únicos capazes de transmitir informações. O
que nos diferencia é a dimensão cumulativa que conseguimos dar a tudo isso. Uma
descoberta humana pode ser incorporada por outra pessoa, aperfeiçoada,
registrada, ensinada, contestada e novamente transformada. Cada geração pode
receber uma quantidade extraordinária de conhecimento produzida pelas
anteriores e acrescentar algo ao que recebeu.
Isso não
diminui a distância entre nós e os demais animais. Pelo contrário. Torna essa
diferença ainda mais interessante, porque nos obriga a reconhecer que ela não
surgiu do nada. A capacidade humana de produzir cultura parece ter raízes em
capacidades muito mais antigas de aprendizagem social, comunicação, memória e
adaptação. A natureza não precisou esperar pelo aparecimento do ser humano para
descobrir que informações podem ser conservadas e transmitidas. Nós apenas
levamos esse processo a uma dimensão que transformou completamente a relação
entre uma geração e a seguinte.
Então
voltamos à pergunta inicial: a natureza aprende? A resposta depende do
significado que damos à palavra aprender. Se aprender significa refletir
conscientemente sobre uma experiência, elaborar conceitos abstratos e
compreender aquilo que estamos fazendo, não podemos atribuir essa capacidade
indiscriminadamente aos demais seres vivos. Se aprender significa modificar
respostas futuras a partir de experiências anteriores e, em alguns casos,
transmitir comportamentos adquiridos para outros indivíduos, então a história
da aprendizagem é muito mais antiga do que a história humana.
A pergunta
seguinte é ainda mais interessante: quem ensinou a natureza a aprender? Ninguém.
A própria evolução produziu, ao longo de bilhões de anos, mecanismos capazes de
conservar informações, responder a experiências, reconhecer padrões, modificar
comportamentos e transmitir soluções. O aprendizado não apareceu de repente
quando o primeiro ser humano abriu um livro. Muito antes de existirem livros,
escolas ou professores, a vida já encontrava maneiras de conservar aquilo que
funcionava e abandonar aquilo que deixava de funcionar.
O macaco
que observa outro macaco, a baleia que aprende uma técnica de alimentação, a
ave que modifica seu canto, a planta que altera sua resposta diante de uma
experiência anterior e o ser humano que escreve uma descoberta em uma página
pertencem a capítulos muito diferentes da mesma história: a história da
informação atravessando o tempo. Enfim, eu creio que a pergunta mais
extraordinária não seja, portanto, se a natureza aprende. É perceber que a
natureza vem aprendendo há bilhões de anos — e nós somos uma de suas formas
mais recentes de memória.








