quarta-feira, 21 de junho de 2023

Neuroplasticidade

 NEUROPLASTICIDADE CEREBRAL: O QUE É E O QUE NÃO É - YouTube

Uma Mulher em Constante Queda...

Resgatada pelo homem que descobriu a plasticidade de nossos sentidos  

Cheryl Schiltz se sente em queda constante. E, como se sente caindo, ela realmente cai. Quando se levanta sem apoio, segundos depois ela parece estar à beira de um precipício, prestes a despencar. Primeiro sua cabeça oscila e tomba para o lado, e seus braços se estendem para tentar estabilizar a postura. Logo, todo o seu corpo se mexe caoticamente de um lado para o outro, enquanto ela parece andar em uma corda bamba, oscilando freneticamente naquele momento em que vai perder o equilíbrio — só que seus pés estão bem plantados no chão, com as pernas separadas. Ela dá a impressão de que tem medo não apenas de cair, mas também de ser empurrada. “Você parece alguém cambaleando numa ponte”, falei. “Sim, me sinto como se fosse pular, embora não queira fazer isso. ” Observando-a mais de perto, posso ver que, enquanto tenta se manter imóvel, ela se desloca como se uma turma de arruaceiros invisíveis a estivesse empurrando, primeiro de um lado, depois de outro, tentando cruelmente derrubá-la. Só que esta gangue, na verdade, está dentro dela, fazendo-a agir dessa forma pelos últimos cinco anos. Quando Cheryl tenta andar, precisa se apoiar numa parede, mas, ainda assim, cambaleia como uma bêbada. Para Cheryl não existe paz, mesmo depois que cai no chão. “O que você sente quando cai?”, pergunto a ela. “A sensação de queda desaparece depois que você pousa?” “Há ocasiões”, diz Cheryl, “em que literalmente perco a sensação do chão... e um alçapão imaginário se abre e me engole.” Mesmo depois de ter caído, ela ainda se sente caindo num abismo infinito. O problema de Cheryl é que seu aparelho vestibular, o órgão sensorial do sistema de equilíbrio, não está funcionando como deveria. Ela fica muito cansada, e essa sensação de queda livre a enlouquece, porque ela não consegue pensar em mais nada. Cheryl tem medo do futuro. Assim que seu problema começou, ela perdeu o emprego de representante de vendas internacionais e agora vive com uma aposentadoria por invalidez de mil dólares mensais. Tem um medo recente de envelhecer. E sofre de uma forma rara de ansiedade que não possui nome. Um aspecto tácito, porém, profundo, de nosso bem-estar se baseia em ter um senso de equilíbrio que funcione normalmente.

Na década de 1930, o psiquiatra Paul Schilder estudou como um senso saudável de ser e uma imagem corporal “estável” estão relacionados com a percepção vestibular. Quando falamos sobre como nos sentimos “seguros” ou “inseguros”, “equilibrados” ou “desequilibrados”, “arraigados” ou “desarraigados”, “fundados” ou “infundados”, estamos falando uma linguagem vestibular, cuja verdade só é plenamente evidente em pessoas como Cheryl. Não é surpreendente que pacientes com esse distúrbio costumem desmoronar psicologicamente e que muitos deles cometam suicídio. Temos sentidos que desconhecemos — até que os perdemos. O equilíbrio é um sentido que normalmente funciona tão bem, de forma tão suave, que sequer é relacionado entre os cinco descritos por Aristóteles, sendo, então, ignorado por séculos. O sistema de equilíbrio confere nosso senso de orientação no espaço. Seu órgão sensorial, o aparelho vestibular, consiste em três canais semicirculares no ouvido interno que nos dizem quando estamos de pé e como a gravidade afeta nosso corpo, detectando o movimento no espaço tridimensional. Um canal detecta o movimento no plano horizontal; outro, no plano vertical, e o terceiro percebe quando estamos andando para a frente ou para trás. Os canais semicirculares contêm células ciliadas imersas em um fluido. Quando mexemos a cabeça, o fluido abala os cílios, que mandam um sinal ao nosso cérebro, informando que aumentamos nossa velocidade numa determinada direção. Cada movimento exige um ajuste correspondente do resto do corpo. Se mexermos a cabeça para a frente, nosso cérebro comandará o ajuste do segmento apropriado do corpo para que inconscientemente possamos compensar essa mudança em nosso centro de gravidade e manter o equilíbrio. Os sinais do aparelho vestibular correm por um nervo para um aglomerado especializado de neurônios chamado de “núcleo vestibular”, que os processa e envia comandos a nossos músculos para que se ajustem. O aparelho vestibular também tem uma forte ligação com nosso sistema visual. Quando você corre atrás de um ônibus, sua cabeça sobe e desce, mas você consegue manter o ônibus em movimento no centro de seu campo visual porque seu aparelho vestibular envia mensagens ao cérebro, dizendo-lhe a velocidade e a direção em que você está correndo. Esses sinais permitem que o cérebro gire e ajuste a posição dos globos oculares para que continuem orientados para o alvo: o ônibus. Cheryl e eu estamos na companhia de Paul Bach-y-Rita, um dos primeiros a entender a plasticidade cerebral, e da sua equipe, em um dos seus laboratórios. Cheryl deposita muitas esperanças no experimento de hoje, é estoica, mas receptiva ao seu problema. Yuri Danilov, o biofísico da equipe, faz os cálculos a partir dos dados colhidos sobre o aparelho vestibular de Cheryl. Ele é russo, extremamente inteligente e tem um forte sotaque. Ele diz: “Cheryl é paciente que perdeu sistema vestibular... 95% a 100%. ” Por qualquer padrão convencional, o caso de Cheryl é irremediável. A visão convencional é de que o cérebro é constituído de um grupo de módulos de processamento especializados, geneticamente programados para realizar funções específicas, cada uma delas desenvolvida e refinada por milhões de anos de evolução. Agora que seu aparelho vestibular está danificado, a probabilidade de Cheryl recuperar o equilíbrio não é maior do que a de uma pessoa recuperar a visão depois que a retina sofreu danos. Mas hoje tudo isso vai ser contestado. Ela está usando um capacete de operário com buracos na lateral, contendo um dispositivo chamado acelerômetro. Depois de lamber uma fina tira de plástico com pequenos eletrodos, ela a coloca na língua.

O acelerômetro no capacete envia sinais para a fita e os dois são conectados a um computador próximo. Ela ri de como fica com o capacete, “porque se eu não rir, vou chorar”. Essa máquina é um dos protótipos bizarros inventados por Bach-y-Rita. Substituirá o aparelho vestibular e mandará sinais de equilíbrio a seu cérebro a partir da língua. O capacete pode reverter o pesadelo atual de Cheryl. Em 1997, depois de uma histerectomia de rotina, Cheryl, então com 39 anos, teve uma infecção pós-operatória e tomou o antibiótico gentamicina. Sabe-se que o uso excessivo de gentamicina envenena as estruturas internas do ouvido e pode ocasionar perda de audição (que Cheryl não tem), zumbidos nos ouvidos (que ela tem) e destruir o sistema de equilíbrio. Mas como a gentamicina é barata e eficaz, ainda é receitada, embora geralmente só por um curto período de tempo. Cheryl diz que recebeu o medicamento muito além da dosagem recomendada. E assim passou a integrar a pequena tribo das vítimas da gentamicina, conhecidas entre eles como os Wobblers (“Oscilantes”) De repente, num dia, ela descobriu que não conseguia mais ficar de pé sem cair. Ela virava a cabeça, e todo o quarto se movia. Cheryl não conseguia entender se era ela ou as paredes que provocavam o movimento. Por fim ela se colocou de pé, apoiando-se na parede, e pegou o telefone para falar com o médico. Quando chegou ao hospital, os médicos fizeram vários exames para avaliar sua função vestibular. Despejaram água gelada e quente em seus ouvidos e a inclinaram numa mesa. Quando lhe pediram para ficar de pé com os olhos fechados, ela caiu.

Um médico disse a ela: “Você não tem função vestibular. ” Os exames mostraram que só lhe restavam 2% da função. “Ele foi tão indiferente”, disse ela. “‘Parece um efeito colateral da gentamicina’. ” Nesse momento, Cheryl ficou emotiva. “Por que diabos não me falaram isso? ‘É permanente’, disse ele. Eu estava sozinha. Minha mãe tinha me levado ao médico, mas saíra para pegar o carro e esperava por mim na frente do hospital. Minha mãe perguntou: ‘Vai ficar tudo bem? ’ E eu olhei para ela e disse: ‘É permanente... Isso nunca vai passar’. ” Devido à ruptura da ligação entre o aparelho vestibular de Cheryl e seu sistema visual, seus olhos não conseguem acompanhar suavemente um alvo móvel. “Tudo o que vejo treme como um vídeo amador ruim”, diz ela. “É como se tudo que olho fosse de gelatina e, a cada passo que dou, tudo oscila. ” Embora ela não consiga acompanhar objetos em movimento com os olhos, a visão é o único meio que ela tem para saber que está de pé. Nossos olhos nos ajudam a saber onde estamos no espaço, fixando linhas horizontais. Quando as luzes se apagam, Cheryl imediatamente cai no chão. Mas a visão acaba sendo uma muleta muito pouco confiável, porque qualquer tipo de movimento realizado diante dela — até uma pessoa estendendo a mão — exacerba a sensação de queda. Até os ziguezagues num tapete podem fazê-la tropeçar, por iniciar uma série de falsas mensagens que a levam a pensar que está torta, quando não é verdade.

Ela também sofre de cansaço mental, por ficar em alerta máximo constante. É preciso muita energia cerebral para manter a posição ereta — energia que é desviada de funções mentais como a memória e a capacidade de calcular e raciocinar. Enquanto Yuri está preparando o computador para Cheryl, peço para experimentar a máquina. Coloco o capacete de operário e, na boca, o dispositivo de plástico com eletrodos, chamado de tela lingual, achatado e cuja espessura não é maior do que a de um chiclete. No capacete, o acelerômetro, ou sensor, detecta movimentos em dois planos. Quando eu aceno a cabeça, o movimento é traduzido em um diagrama na tela do computador, permitindo que a equipe o monitore. O mesmo diagrama é projetado em uma minúscula matriz de 144 eletrodos implantados na tira plástica em minha língua. Quando volto para a frente, os choques elétricos, que parecem bolhas de champanhe estourando na ponta de minha língua, dizem-me que estou curvado para a frente. Na tela do computador, posso ver onde está minha cabeça. Quando volto para trás, sinto o redemoinho de champanhe numa onda suave no fundo da língua. O mesmo acontece quando tombo para o lado. Depois fecho os olhos e experimento sentir com a língua meu caminho no espaço. Logo esqueço que a informação sensorial está vindo de minha língua e consigo me localizar no espaço. Cheryl pega o capacete de volta, encostando-se na mesa para manter o equilíbrio. “Vamos começar”, diz Yuri, ajustando os controles. Cheryl coloca o capacete e fecha os olhos. Afasta-se da mesa, mantendo dois dedos encostados nela. Cheryl não cai, embora não tenha nenhuma indicação do que está acima ou abaixo, a não ser o redemoinho das bolhas de champanhe na língua. Ela tira os dedos da mesa. Não está mais cambaleando. Ela começa a chorar — um rio dessas lágrimas que vêm depois de um choque; ela pode se soltar, agora que está com o capacete e se sente segura. Na primeira vez em que colocou o capacete, a constante sensação de queda a deixou, pela primeira vez em cinco anos. Seu objetivo hoje é ficar de pé, solta, por 20 minutos, com o capacete, tentando manter-se centrada. Para qualquer um — e mais ainda para um “oscilante Wobbler” — ficar de pé imóvel por 20 minutos requer o treinamento e a habilidade de um guarda do Palácio de Buckingham. Ela parece tranquila. Faz pequenas correções. Parou de oscilar, e os demônios misteriosos que pareciam estar dentro dela, empurrando-a e a atropelando, desapareceram. Seu cérebro está decodificando sinais do aparelho vestibular artificial. Para ela, esses momentos de paz são um milagre — um milagre neuroplástico, porque de algum modo a sensação de formigamento na língua, que normalmente segue para a parte do cérebro chamada córtex sensorial — a camada fina na superfície do cérebro que processa o tato —, achou um novo caminho cerebral para alcançar a área encefálica que processa o equilíbrio. “Agora estamos trabalhando num dispositivo que seja pequeno o bastante para que fique escondido na boca”, diz Bach-y-Rita, “como um aparelho ortodôntico. Este é o nosso objetivo. Com isso Cheryl, e qualquer um que tenha este problema, poderá ter sua vida normal restaurada. Pessoas como Cheryl devem poder falar e comer sem que ninguém perceba que estão usando o dispositivo. “Mas isto não vai afetar só as pessoas lesadas pela gentamicina”, continua ele. “Ontem li um artigo no New York Times sobre as quedas dos idosos. 1 Os idosos têm mais medo de cair do que de ser assaltados. Um terço dos idosos cai e, por medo de cair, eles ficam em casa, não usam as pernas e se tornam fisicamente frágeis. Mas acredito que parte do problema seja que o sentido vestibular... assim como a audição, o paladar, a visão e nossos outros sentidos... começa a enfraquecer com a idade. Esse dispositivo poderá ajudá-los.” “Está na hora”, diz Yuri, desligando o aparelho. Eis agora a segunda maravilha neuroplástica. Cheryl retira o dispositivo da língua e o capacete. Abre um largo sorriso, fica de pé livremente com os olhos fechados e não cai. Depois abre os olhos e, ainda sem tocar a mesa, ergue um pé do chão, para se equilibrar somente no outro. “Eu adoro esse homem”, diz ela, e vai dar um abraço em Bach-y-Rita. Cheryl volta para perto de mim. Está transbordando de emoção, dominada pela sensação do mundo novamente sob seus pés, e me abraça também. “Sinto-me ancorada e estável. Não tenho de pensar onde estão meus músculos. Na verdade, posso pensar em outras coisas.” Ela se volta para Yuri e lhe dá um beijo. “Preciso destacar por que isso é um milagre”, diz Yuri, que se considera um cético empírico. “Ela praticamente não tem sensores naturais. Nos últimos 20 minutos, demos a ela um sensor artificial. Mas o verdadeiro milagre é o que está acontecendo agora, quando retiramos o dispositivo, e ela fica sem aparelho vestibular natural nem artificial. Estamos revelando alguma força dentro dela.” Na primeira vez em que experimentaram o capacete, Cheryl o usou por apenas um minuto. Eles perceberam que depois que o capacete foi retirado, houve um “efeito residual” de cerca de 20 segundos, um terço do tempo em que ela tinha usado o dispositivo. Depois Cheryl usou o capacete por dois minutos, e o efeito residual foi de cerca de 40 segundos. Em seguida, eles continuaram até chegar a 20 minutos, esperando um efeito residual de uns 7 minutos. Mas em vez de durar um terço do tempo, durou o triplo, uma hora inteira. Hoje, segundo Bach-y-Rita, eles estão verificando se 20 minutos a mais no dispositivo levará a uma espécie de efeito de treinamento, de modo que o efeito residual dure ainda mais. Cheryl começa a fazer palhaçadas e a se exibir. “Posso andar como uma mulher de novo. Isso não deve ser importante para a maioria das pessoas, mas para mim significa muito não ter de andar com os pés tão separados.” Ela sobe numa cadeira e pula. Curva-se para pegar coisas no chão, para mostrar que pode endireitar o corpo. “Da última vez, consegui pular corda durante o tempo residual.” “O incrível”, diz Yuri, “é que ela não só mantém a postura. Depois de algum tempo com o dispositivo, ela se comporta quase normalmente. Equilibra-se em uma viga. Dirige um carro. Há a recuperação da função vestibular. Quando ela mexe a cabeça, pode manter o foco no alvo... A ligação entre os sistemas visual e vestibular também foi recuperada.” Levanto a cabeça e vejo que Cheryl está dançando com Bach-y-Rita. E é ela que conduz. Como é que Cheryl consegue dançar e recuperar o funcionamento normal sem o auxílio da máquina? Bach-y-Rita aponta vários motivos. Primeiro, seu aparelho vestibular danificado está desorganizado e “ruidoso”, mandando sinais aleatórios. Assim, o ruído do tecido danificado bloqueia qualquer sinal enviado pelo tecido saudável. O aparelho ajuda a reforçar os sinais dos tecidos saudáveis. Ele crê que o aparelho também ajuda a recrutar outras vias, e é aí que entra em jogo a plasticidade. O sistema cerebral é composto de muitas vias neurais, ou neurônios que são conectados a outros e trabalham juntos. Se determinadas viaschave são bloqueadas, o cérebro usa vias mais antigas como desvios. “Entendo da seguinte maneira”, diz Bach-y-Rita. “Se você estiver dirigindo daqui até Milwaukee e a ponte principal tiver sumido, primeiro você ficará paralisado. Depois pegará estradas secundárias antigas, passando pelo campo. Mais tarde, à medida que usar mais essas estradas, você achará caminhos mais curtos para chegar onde quer e começará a viajar mais rápido.” Essas vias neurais “secundárias” são “desmascaradas”, ou expostas, e fortalecidas pelo uso. Costuma-se pensar que esse “desmascaramento” é uma das principais maneiras de o cérebro plástico se reorganizar. O fato de que Cheryl aos poucos estende o efeito residual sugere que a via desmascarada está ficando mais forte. Bach-y-Rita espera que, com treinamento, Cheryl seja capaz de estender mais ainda a duração do efeito residual. Alguns dias depois, Bach-y-Rita recebeu um e-mail de Cheryl, no qual ela relatava a duração do último efeito residual obtido na sua casa. “Tempo residual total: 3 horas, 20 minutos... a oscilação começa em minha cabeça... como sempre... Tenho dificuldade de encontrar as palavras... como se minha cabeça boiasse. Cansada, exausta... deprimida.” Uma dolorosa história de Cinderela. Deixar a normalidade é muito difícil. Quando acontece, ela sente que morreu, voltou à vida e morreu de novo. Por outro lado, 3 horas e 20 minutos depois de apenas 20 minutos na máquina é um tempo residual dez vezes maior do que o tempo no dispositivo. Ela é a primeira Wobbler a ser tratada e, mesmo que o tempo residual nunca fique maior, agora poderá usar o dispositivo brevemente, quatro vezes por dia, e ter uma vida normal. Mas há um bom motivo para esperar mais, pois cada sessão parece treinar seu cérebro a estender o tempo residual. Se continuar assim... ... e continuou. No ano seguinte, Cheryl usou o dispositivo com mais frequência para conseguir alívio e aumentar seu efeito residual, que progrediu até várias horas, até dias e, mais tarde, até quatro meses. Hoje ela não usa mais o dispositivo e não se considera mais uma Wobbler. Em 1969, a Nature, o mais importante periódico científico da Europa, publicou um curto artigo que tinha um claro toque de ficção científica. Seu principal autor, Paul Bach-y-Rita, era ao mesmo tempo cientista e médico de reabilitação — uma combinação rara. O artigo descrevia um dispositivo que permitia que cegos de nascença enxergassem. 2 Todos tinham suas retinas danificadas, e eram considerados totalmente incuráveis. O artigo da Nature foi mencionado no New York Times, na Newsweek e na Life, mas o dispositivo e seu inventor logo caíram numa relativa obscuridade, talvez porque sua alegação parecesse tão implausível. Acompanhando o artigo, havia uma foto de um aparelho bizarro — uma grande e velha cadeira de dentista com encosto vibratório, um emaranhado de fios e computadores enormes. Todo o amontoado de peças de sucata e componentes eletrônicos da década de 1960 pesava aproximadamente 20 quilos. Um cego congênito — alguém que nunca teve nenhuma experiência visual — estava sentado na cadeira, atrás de uma grande câmera, do tamanho daquelas usadas nos estúdios de televisão da época. Ele “varria” uma cena diante dele, virando manivelas para mover a câmera; esta enviava sinais elétricos da imagem a um computador, que os processava. Depois, os sinais elétricos eram transmitidos para 400 estimuladores vibratórios, organizados em fileiras numa placa de metal fixada por dentro do encosto da cadeira, para que os estimuladores ficassem em contato com a pele do cego. Os estimuladores funcionavam como pixels vibrando na parte escura de uma cena e permanecendo imóveis nos tons mais brilhantes. Este “dispositivo para visão tátil”, como foi chamado, permitia que cegos lessem, percebessem rostos e sombras, e distinguissem os objetos mais próximos dos mais distantes. Permitia-lhes descobrir a perspectiva e observar como os objetos parecem mudar de forma, dependendo do ângulo em que são vistos. Os seis participantes do experimento aprenderam a reconhecer objetos como um telefone mesmo quando este era parcialmente encoberto por um vaso. Como isso aconteceu nos anos 1960, eles até aprenderam a reconhecer uma fotografia da supermodelo anoréxica Twiggy. Todos os que usaram esse “dispositivo para visão tátil” relativamente estranho tiveram uma experiência perceptiva extraordinária, deixando de ter sensações táteis e passando a “ver” pessoas e objetos. Com um pouco de prática, os cegos começaram a perceber o espaço diante deles como tridimensional, embora a informação chegasse a partir de uma matriz bidimensional em suas costas. Se alguém atirava uma bola para a câmera, o participante automaticamente pulava para se afastar dela. Se a matriz de estimuladores vibratórios era transferida das costas para o abdome, os participantes ainda percebiam corretamente a cena projetada na frente da câmera. Se lhe fizessem cócegas perto dos estimuladores, eles não confundiam as cócegas com um estímulo visual. Sua experiência de percepção mental acontecia não na superfície da pele, mas no mundo ao seu redor. E suas percepções eram complexas. Com a prática, os participantes podiam mover a câmera e dizer coisas como: “Esta é Betty; hoje ela está com o cabelo solto e sem os óculos; a boca está aberta e ela passa a mão direita do lado esquerdo para a nuca.” É verdade que a resolução em geral era fraca, mas, como explicaria Bach-y-Rita, a visão não tem de ser perfeita para ser visão. “Quando andamos por uma rua com neblina e vemos a silhueta de um prédio”, pergunta ele, “estamos vendo menos por falta de resolução? Quando vemos uma coisa em preto e branco, deixamos de ver por falta de cor?” Essa máquina, hoje esquecida, foi uma das primeiras e mais ousadas aplicações da neuroplasticidade — uma tentativa de usar um sentido para substituir outro — e deu certo. No entanto, foi considerada implausível e ignorada porque a mentalidade científica da época presumia que a estrutura do cérebro é fixa e que nossos sentidos, as avenidas pelas quais a experiência chega a nossa mente, são rigidamente conectados. Esta concepção, que ainda tem muitos adeptos, é chamada de “localizacionismo”. Tem relação estreita com a ideia de que o cérebro é uma máquina complexa, composta de peças, cada uma delas realizando uma função mental específica e com uma localização geneticamente predeterminada ou embutida — daí o seu nome. Um cérebro que é fisicamente estruturado e onde cada função mental tem uma localização estrita deixa pouco espaço para a plasticidade. A ideia do cérebro-máquina inspirou e norteou a neurociência desde que foi proposta no século XVII, substituindo concepções mais místicas sobre a alma e o corpo. Os cientistas, impressionados com as descobertas de Galileu (1564- 1642), que mostrou que os planetas podiam ser compreendidos como corpos inanimados movidos por forças mecânicas, passaram a acreditar que toda a natureza funcionava como um grande relógio cósmico, sujeito às leis da física, e começaram a explicar cada ser vivo do ponto de vista mecanicista, inclusive nossos órgãos corporais, já que pensavam que também eram máquinas. A ideia de que toda a natureza era um vasto mecanismo e que nossos órgãos eram construídos como máquinas substituiu o conceito grego de 2 mil anos, segundo o qual toda a natureza era um vasto organismo vivo e nossos órgãos corporais, nada mais do que mecanismos inanimados. 3 Mas a primeira grande realização desta nova “biologia mecanicista” foi brilhante e original. William Harvey (1578-1657), que estudou anatomia em Pádua, na Itália, onde Galileu dava aulas, descobriu como nosso sangue circula pelo corpo e demonstrou que o coração funciona como uma bomba, claramente uma máquina simples. Logo muitos cientistas passaram a crer que uma explicação, para ser científica, tinha de ser mecanicista — isto é, sujeita às leis mecânicas do movimento. Seguindo Harvey, o filósofo francês René Descartes (1596-1650) argumentou que o cérebro e o sistema nervoso também funcionavam como uma bomba. Nossos nervos eram verdadeiros tubos, argumentou ele, que iam de nossos membros ao cérebro e vice-versa. Ele foi o primeiro a teorizar sobre como funcionam os reflexos, propondo que quando uma pessoa é tocada na pele, uma substância líquida nos tubos nervosos flui para o cérebro e é mecanicamente enviada de volta através dos nervos, movendo os músculos. Embora isso pareça grosseiro, ele não estava tão longe da verdade. Os cientistas logo refinaram essa imagem primitiva, argumentando que uma corrente elétrica — e não um fluido — movia-se pelos nervos. A ideia de Descartes do cérebro como uma máquina complexa culminou no localizacionismo e em nossa concepção atual do cérebro como um computador . Como uma máquina, o cérebro passou a ser considerado como composto de peças, cada uma delas numa localização pré-atribuída, realizando uma única função, de modo que, se uma das peças fosse danificada, nada poderia ser feito para substituí-la; afinal, as máquinas não desenvolvem peças novas. 4 O localizacionismo foi aplicado também aos sentidos: teorizou-se que cada um de nossos sentidos — visão, audição, paladar, tato, olfato, equilíbrio — dispõe de um tipo de célula receptora especializada em detectar uma das várias formas de energia que nos cercam. 5 Quando estimuladas, essas células receptoras enviam um sinal elétrico por seu nervo a uma área específica do cérebro que processa o sinal. A maioria dos cientistas acreditava que essas áreas do cérebro eram tão especializadas que uma não podia fazer o trabalho de outra. Quase isolado de seus colegas, Paul Bach-y-Rita rejeitava as alegações do localizacionismo. Ele descobriu que nossos sentidos têm uma natureza inesperadamente plástica, e que, se um deles sofre danos, outro pode assumir seu lugar, um processo que ele chama de “substituição sensorial”. Ele desenvolveu meios de estimular a substituição sensorial e dispositivos que nos dão “supersentidos”. Ao descobrir que o sistema nervoso pode se adaptar a enxergar com a câmera em vez da retina, Bach-y-Rita estabeleceu as bases da maior esperança para os cegos: os implantes de retina, que podem ser inseridos cirurgicamente nos olhos. Ao contrário da maioria dos cientistas, que se atém a um só campo, Bach-y-Rita se especializou em muitas áreas — medicina, psicofarmacologia, neurofisiologia ocular (o estudo dos músculos dos olhos), neurofisiologia visual (o estudo da visão e do sistema nervoso) e engenharia biomédica. Ele segue as ideias aonde elas o levam. Fala cinco idiomas e morou por longos períodos na Itália, Alemanha, França, México, Suécia e em todos os Estados Unidos. Trabalhou nos laboratórios dos mais importantes cientistas e ganhadores do prêmio Nobel, mas nunca se importou muito com o que os outros pensavam e não participa dos jogos políticos que muitos pesquisadores fazem para conseguir trabalhar. Depois de se formar em medicina, desistiu da profissão e passou à pesquisa básica. Fez perguntas que pareciam desafiar o bom senso, tais como: “Os olhos são necessários para a visão, os ouvidos para a audição, a língua para o paladar, o nariz para o olfato?” Mais tarde, aos 44 anos, com sua mente mais ativa que nunca, ele voltou à medicina e começou uma residência médica, com seus dias intermináveis e noites insones, em uma das especialidades mais árduas de todas: reabilitação. Sua ambição era transformar um pântano intelectual em uma ciência, aplicando o que aprendera sobre a plasticidade. Bach-y-Rita é um homem modesto. Aprecia ternos de cinco dólares e usa roupas do Exército da Salvação sempre que a esposa deixa que ele saia com elas. Dirige um carro velho e enferrujado de 12 anos enquanto a esposa tem um novo modelo do Passat. Ele tem a cabeça cheia de grossos fios de cabelos ondulados e grisalhos, fala baixo e rapidamente, tem a pele morena de um homem do Mediterrâneo de ascendência espanhola e judaica e aparenta ter bem menos do que seus 69 anos. Evidentemente ele é racional, mas irradia um calor juvenil quando está próximo da esposa, Esther, mexicana de antepassados maias. Ele está acostumado a ser um outsider. Foi criado no Bronx e, quando chegou ao segundo ciclo do ensino fundamental, tinha 1,45 metro de altura devido a uma doença misteriosa que retardou seu crescimento por oito anos, tendo recebido por duas vezes o diagnóstico preliminar de leucemia. Todo dia era espancado por alunos maiores e durante aqueles anos desenvolveu uma extraordinária resistência à dor. Aos 12 anos, seu apêndice rompeu-se e a doença misteriosa, uma forma rara de apendicite crônica, foi corretamente diagnosticada. Ele cresceu 20 centímetros e ganhou sua primeira briga. Estamos atravessando de carro a cidade de Madison, no Wisconsin, seu lar quando ele não está no México. Ele é despretensioso e, depois de muitas horas conversando comigo, só deixa que uma observação remotamente autocongratulatória escape de seus lábios. “Posso conectar o que quiser a qualquer coisa”, diz, sorrindo. “Vemos com o cérebro, não com os olhos”, diz ele. Esta afirmação contraria a noção comum de que vemos com os olhos, ouvimos com os ouvidos, saboreamos com a língua, cheiramos com o nariz e tateamos com a pele. Quem contestaria esses fatos? Mas para Bach-y-Rita, nossos olhos apenas sentem as mudanças na energia luminosa; é o cérebro que percebe e, portanto, vê. Para Bach-y-Rita, não importa como uma sensação chega ao cérebro. “Quando usa uma bengala, um cego a bate de um lado a outro e só tem um local, a ponta, alimentando com informações os receptores da pele da mão. Mas o balançar lhe permite distinguir onde está a soleira da porta, ou a cadeira, ou distinguir um pé quando o toca, porque a bengala cederá um pouco. Ele usa essa informação para se guiar até a cadeira e se sentar, mas é pelos sensores da mão que ele consegue informações e é ali que a bengala tem “interface” com ele. O que ele percebe subjetivamente não é a pressão da bengala na mão, mas o desenho do ambiente: cadeiras, paredes, pés, o espaço tridimensional. A superfície receptora na mão se torna apenas um retransmissor das informações, uma fonte de dados. A superfície receptora perde, assim, sua identidade.” Bach-y-Rita concluiu que a pele e seus receptores táteis podem substituir a retina, porque tanto a pele quanto a retina são estruturas bidimensionais cobertas de receptores sensoriais que permitem que se forme uma “imagem” sobre suas superfícieis. 6 Uma coisa é descobrir uma nova fonte de dados ou uma maneira de levar sensações ao cérebro. Outra, para o cérebro, é decodificar essas sensações da pele e transformá-las em imagens. Para fazer isso, o cérebro precisa aprender alguma coisa nova, e a parte do cérebro dedicada ao processamento do tato deve se adaptar aos novos sinais. Esta capacidade de adaptação implica a plasticidade do cérebro no sentido de que ele pode reorganizar seu próprio sistema sensórioperceptivo. Se o cérebro pode se reorganizar, o simples localizacionismo não pode ser uma visão correta do cérebro. No início, até Bach-y-Rita era um localizacionista, motivado por suas brilhantes realizações. O localizacionismo sério foi proposto pela primeira vez em 1861, quando Paul Broca, um cirurgião, teve um paciente que, depois de um derrame, perdeu a capacidade de falar e só conseguia pronunciar uma palavra. A qualquer pergunta feita, o pobre homem respondia: “Tan, tan.” Quando o paciente morreu, Broca dissecou seu cérebro e descobriu lesões no tecido do lobo frontal esquerdo. Os céticos duvidaram de que a fala pudesse estar localizada em uma única parte do cérebro, até que Broca lhes mostrou o tecido lesionado, depois lhes relatou os casos de outros pacientes que perderam a capacidade de falar e tinham danos no mesmo local, que passou a ser chamado de “área de Broca” e presumia-se que coordenava os movimentos dos músculos dos lábios e da língua. Logo depois, outro médico, Carl Wernicke, relacionou o dano em outra área do cérebro a um problema diferente: a incapacidade de entender a linguagem. Wernicke propôs que a área danificada era responsável pelas representações mentais das palavras e pela compreensão. Veio a ser conhecida como “área de Wernicke”. Nos cem anos seguintes, à medida que novas pesquisas refinavam o mapa do cérebro, o localizacionismo tornou-se mais específico. Infelizmente, porém, a defesa do localizacionismo logo foi exagerada. Deixou de ser uma série de correlações intrigantes (observações de que danos em áreas específicas do cérebro levam à perda de funções mentais específicas) e passou a uma teoria geral segundo a qual toda função cerebral tem apenas uma localização física — uma ideia resumida pela expressão “uma função, uma localização”, 7 o que significa que se uma parte sofria danos, o cérebro não podia se reorganizar nem recuperar a função perdida. Começou então uma idade das trevas para a plasticidade, sendo ignoradas quaisquer exceções à ideia de “uma função, uma localização”. Em 1868, Jules Cotard estudou crianças que tinham sofrido precocemente um dano cerebral grave, em que o hemisfério esquerdo (inclusive a área de Broca) tinha definhado. Mas essas crianças ainda podiam falar normalmente. 8 Isto significava que, mesmo que a fala tendesse a ser processada pelo hemisfério esquerdo, como afirmou Broca, o cérebro podia ser plástico o suficiente para se reorganizar, se necessário. Em 1876, Otto Soltmann retirou o córtex motor — a parte do cérebro considerada responsável pelo movimento — de filhotes de cachorros e coelhos, e descobriu que eles ainda eram capazes de se mexer. 9 Essas descobertas foram tragadas pela onda do entusiasmo localizacionista. Bach-y-Rita passou a duvidar do localizacionismo quando estava na Alemanha, no início da década de 1960. Ele tinha ingressado numa equipe que estudava como a visão funcionava, medindo com eletrodos as descargas elétricas da área de processamento visual do cérebro de um gato. A equipe estava convencida de que quando mostrasse uma imagem ao gato, os eletrodos em sua área de processamento visual captariam um pico elétrico, revelando que ela processava a imagem. E assim foi. Mas quando por acidente alguém roçou a pata do gato, a área visual também se ativou, indicando que também processava o tato. 10 E a equipe descobriu que a área visual também era ativada quando o gato ouvia sons. Bach-y-Rita começou a pensar que a teoria localizacionista “uma função, uma localização” não podia estar correta. A parte “visual” do cérebro do gato estava processando pelo menos outras duas funções: tato e audição. Ele passou a conceber grande parte do cérebro como “polissensorial” — isto é, as áreas sensoriais eram capazes de processar sinais de mais de um sentido. Isso pode acontecer porque todos os nossos receptores sensoriais traduzem diferentes tipos de energia do mundo externo, independente da origem, em padrões elétricos que são enviados por nossos nervos. Estes padrões elétricos são a linguagem universal “falada” dentro do cérebro — não há imagens visuais, sons, odores ou sensações movendo-se dentro dos nossos neurônios. Bach-y-Rita percebeu que as áreas que processam esses impulsos elétricos são muito mais homogêneas do que julgaram os neurocientistas, 11 uma convicção reforçada quando o neurocientista Vernon Mountcastle descobriu que os córtices visual, auditivo e sensorial têm uma estrutura de processamento semelhante, de seis camadas. Para Bach-y-Rita, isso significava que qualquer parte do córtex deve ser capaz de processar quaisquer sinais elétricos que são enviados e que nossos módulos cerebrais não são assim tão especializados. Nos anos seguintes, Bach-y-Rita começou a estudar todas as exceções ao localizacionismo. 12 Com seu conhecimento de línguas, ele pesquisou a literatura científica mais antiga e não traduzida e descobriu trabalhos científicos feitos antes das versões mais rígidas do localizacionismo. Descobriu o trabalho de Marie-Jean-Pierre Flourens, que na década de 1820 mostrou que o cérebro podia se reorganizar. 13 E leu em francês a obra muito citada, mas pouco traduzida, de Broca, descobrindo que nem mesmo Broca fechara a porta para a plasticidade, como fizeram seus seguidores. O sucesso de seu dispositivo para visão tátil inspirou Bach-y-Rita a revisar sua concepção do cérebro humano. Afinal, o milagre não era a sua máquina, mas o cérebro que estava vivo, mudando e se adaptando a novos tipos de sinais artificiais. Como parte da reorganização, ele conjeturou que os sinais provenientes do tato (processados inicialmente no córtex sensorial, na parte superior do cérebro) eram reorientados para o córtex visual na parte posterior do cérebro para um processamento adicional, o que significava que alguma via neuronal que ligava a pele ao córtex visual estava sendo desenvolvida. Quarenta anos atrás, justo quando o império do localizacionismo tinha alcançado o ápice, Bach-y-Rita começou seu protesto. Ele reconhecia os méritos do localizacionismo, mas argumentava que “um grande conjunto de evidências revela a plasticidade motora e sensorial do cérebro”. 14 Um de seus artigos foi seis vezes rejeitado para publicação pelos periódicos, não porque as evidências fossem questionadas, mas porque ele ousou usar a palavra “plasticidade” no título. Depois que o artigo foi publicado na Nature, seu querido mentor, Ragnar Granit, que tinha recebido o prêmio Nobel de fisiologia, em 1965, por seu trabalho sobre a retina e conseguira a publicação da tese de graduação de Bachy- Rita, convidou-o para um chá. Granit pediu à esposa para sair da sala e, depois de elogiar o trabalho de Bach-y-Rita sobre os músculos do olho, perguntou-lhe — para seu próprio bem — por que ele perdia tempo com “esse brinquedo de adultos”. Entretanto, Bach-y-Rita insistiu e começou a mostrar, numa série de livros e várias centenas de artigos, as evidências da plasticidade cerebral, desenvolvendo uma teoria que explicasse o seu funcionamento. 15 O interesse mais profundo de Bach-y-Rita passou a ser explicar a plasticidade, mas ele continuou a inventar dispositivos de substituição sensorial. Trabalhou com engenheiros para reduzir o tamanho do dispositivo “cadeira de dentistacâmera- computador” para cegos. A pesada e incômoda placa de estimuladores vibratórios que fora conectada no encosto foi substituída por uma tira de plástico, fina como papel, coberta de eletrodos, do diâmetro de uma moeda de um dólar para ser colocada na língua. A língua é o que ele chama de “interface máquina-cérebro” ideal, um excelente ponto de acesso ao cérebro por não possuir uma camada insensível de pele morta. O computador também encolheu radicalmente, e a câmera, que antes tinha o tamanho de uma mala grande, agora podia ser presa na armação dos óculos. Ele também trabalhou em outras invenções de substituição sensorial. Recebeu financiamento da NASA para desenvolver uma luva eletrônica “tátil” para os astronautas no espaço. As luvas espaciais eram tão grossas que os astronautas tinham dificuldade para sentir pequenos objetos ou realizar movimentos delicados. Assim, na parte externa da luva ele pôs sensores que retransmitiam sinais elétricos à mão. Depois usou o que aprendeu na invenção da luva para ajudar as pessoas com lepra, doença que mutila a pele e destrói os nervos periféricos, fazendo os leprosos perderem a sensibilidade nas mãos. A luva, como a de astronauta, tem sensores do lado de fora e envia sinais a uma parte saudável da pele, longe das mãos doentes, onde os nervos não foram afetados. A pele saudável torna-se o portal de entrada para as sensações táteis. Em seguida, ele começou a trabalhar numa luva que permitisse aos cegos ler telas de computador, e tem até um projeto para uma camisinha que, ele espera, permitirá que vítimas de lesão na medula espinhal que perderam a sensibilidade no pênis voltem a ter orgasmos. Bach-y-Rita baseia-se na premissa de que a excitação sexual, como outras experiências sensoriais, está “no cérebro”, e assim as sensações de movimento sexual captadas pelos sensores na camisinha podem ser traduzidas em impulsos elétricos que, por sua vez, podem ser transmitidos à parte do cérebro que processa a excitação sexual. Outros usos potenciais de seu trabalho incluem dar às pessoas “supersentidos”, como visão infravermelha ou noturna. Para os integrantes do SEALs (grupo de operações especiais da Marinha dos Estados Unidos), ele desenvolveu um dispositivo que os ajuda a sentir a orientação do corpo debaixo da água. Também desenvolveu outro, testado com sucesso na França, que informa aos cirurgiões a posição exata do bisturi enviando sinais a partir de um sensor eletrônico ligado ao bisturi a um pequeno dispositivo preso à língua ou ao cérebro. A origem da compreensão da reabilitação cerebral por Bach-y-Rita está na surpreendente recuperação do próprio pai, o poeta e acadêmico catalão Pedro Bach-y-Rita, depois de um derrame incapacitante. Em 1959, Pedro, então um viúvo de 65 anos, teve um derrame que lhe paralisou o rosto e metade do corpo, deixando-o incapaz de falar. George, irmão de Paul, hoje psiquiatra na Califórnia, foi informado de que não havia esperança alguma de recuperação para o pai e que ele teria de ir para uma clínica especializada. Em vez disso, George, então estudante de medicina no México, levou o pai paralítico de Nova York, onde ele morava, para o México, para morar com ele. De início ele tentou a reabilitação do pai no American British Hospital, que só oferecia um programa típico de quatro semanas: ninguém acreditava que o cérebro pudesse se beneficiar de um tratamento mais longo. Depois de quatro semanas, o pai não melhorara nada. Continuava incapacitado e precisava ser carregado ao banheiro e amparado no banho, o que George fazia com a ajuda do jardineiro. “Felizmente, ele era um homem miúdo, com pouco mais de 50 quilos, e por isso conseguíamos lidar com ele”, diz George. George não sabia nada de reabilitação, e sua ignorância acabou sendo uma dádiva: livre de teorias pessimistas, ele conseguiu quebrar todas as regras aceitas. “Decidi que em vez de ensinar meu pai a andar, eu ia ensiná-lo a engatinhar. Eu disse: ‘Você começou engatinhando, vai ter que engatinhar de novo por um tempo.’ Compramos joelheiras para ele. No início o colocávamos de quatro, mas os braços e as pernas não o sustentavam muito bem; então era uma luta.” Assim que Pedro conseguiu se sustentar de alguma maneira, George o fez engatinhar com o ombro e o braço fracos apoiados na parede. “Esse engatinhar junto à parede durou meses. Depois disso eu até o fiz praticar no jardim, o que gerou problemas com os vizinhos: diziam que isso não era gentil, que nunca tinham visto uma coisa dessas, fazer o professor andar de quatro feito um cachorro. O único modelo que eu tinha era como os bebês aprendiam a caminhar. Então brincávamos no chão; eu rolava bolas de gude, e ele tinha de pegá-las. Ou atirávamos moedas no chão, e ele tinha de tentar pegá-las com a mão fraca. Tudo o que tentávamos envolvia transformar em exercícios as experiências de vida normais. Transformamos a atividade de lavar panelas em um exercício. Ele segurava a panela com a mão boa e fazia sua mão fraca — ele tinha pouco controle e fazia movimentos espasmódicos e abruptos — girar sem parar, 15 minutos no sentido horário, 15 no sentido anti-horário. O contorno da panela mantinha sua mão no lugar. Seguíamos etapas, cada uma se sobrepondo à anterior, e pouco a pouco ele melhorava. Depois de um tempo, ele ajudou a projetar as etapas. Ele queria chegar ao ponto em que pudesse se sentar e comer comigo e com outros estudantes de medicina.” O processo consumia várias horas todo dia, mas aos poucos Pedro passou de engatinhar para andar de joelhos, e daí para se levantar e caminhar. Pedro lutou sozinho com sua fala e, depois de cerca de três meses, havia sinais de que ela estava voltando. Depois de vários meses, ele quis voltar a escrever. Sentava-se diante da máquina de escrever, o dedo médio na tecla desejada, depois largava o peso de todo o braço para apertá-la. Quando dominou essa técnica, passou a deixar cair só o pulso e, depois, os dedos, um de cada vez. Por fim reaprendeu a datilografar normalmente. No final de um ano, sua recuperação era completa. Pedro, então com 68 anos, começou a ensinar novamente em tempo integral na City College de Nova York. Ele adorava ensinar e trabalhou até se aposentar, aos 70 anos. Depois assumiu outro cargo de ensino na State University de São Francisco, casou-se de novo e continuou trabalhando, fazendo trilhas e viajando. Foi ativo por mais sete anos depois do derrame. Em uma visita a amigos em Bogotá, na Colômbia, ele foi escalar as montanhas. A mais de 2.700 metros de altitude, ele teve um ataque cardíaco e morreu pouco depois. Tinha 72 anos. Perguntei a George se ele entendia quão incomum essa recuperação era, tanto tempo depois do derrame, e se na época ele pensava que ela poderia ter resultado da plasticidade cerebral. “Eu só entendia que tinha de cuidar de papai. Mas Paul, nos anos seguintes, falou dela em termos de neuroplasticidade. Mas não de imediato. Foi só depois que nosso pai morreu.” O corpo de Pedro foi levado a São Francisco, onde Paul trabalhava. Era o ano de 1965 e, naquele tempo, antes da neuroimagem, as necropsias eram o procedimento de rotina, porque era assim que os médicos podiam aprender sobre doenças cerebrais e saber por que um paciente tinha morrido. Paul pediu à dra. Mary Jane Aguilar que fizesse a necropsia. “Alguns dias depois, Mary Jane me ligou e disse: ‘Paul, venha para cá. Tenho uma coisa para lhe mostrar.’ Quando cheguei ao antigo Stanford Hospital, vi, espalhadas sobre uma mesa, seções do cérebro de meu pai em lâminas.” Ele ficou sem fala. “Eu senti repulsa, mas também pude ver a empolgação de Mary Jane, porque as lâminas mostravam que o derrame tinha provocado uma lesão imensa e que ela nunca se curou, embora meu pai tivesse recuperado todas as funções. Pirei, fiquei pasmo. Eu pensava: ‘Veja o tamanho dessa lesão!’ Mary Jane disse: ‘Como é possível se recuperar com tal lesão?’” Quando examinou melhor, Paul viu que a lesão de sete anos do pai concentrava-se principalmente no tronco encefálico — a parte do cérebro mais próxima da medula espinhal — e que outros importantes centros cerebrais no córtex que controlam o movimento também tinham sido destruídos. Noventa e sete por cento dos nervos que vão do córtex cerebral à medula espinhal sido destruídos — um dano catastrófico que causou sua paralisia. “Eu sabia que isso significava que o cérebro dele tinha se reorganizado completamente com o trabalho que ele fizera com George. Até aquele momento, não sabíamos quão extraordinária sua recuperação tinha sido, porque não fazíamos ideia da extensão da lesão, já que na época não existia a neuroimagem. Quando as pessoas se recuperavam, tendíamos a imaginar que realmente não se tratava de um dano muito grave. Mary Jane queria que eu fosse coautor de do que escrevesse sobre o caso. Não pude.” 16 A história do pai oferecia uma prova direta de que pode acontecer uma recuperação “tardia” mesmo de uma lesão grave em um paciente idoso. Mas depois de examinar a lesão e pesquisar a literatura, Paul encontrou mais evidências de que o cérebro pode se reorganizar e recuperar funções depois de derrames arrasadores: descobriu que, em 1915, um psicólogo americano, Shepherd Ivory Franz, mostrou que pacientes que tinham ficado paralisados por 20 anos podiam obter uma recuperação tardia por meio de exercícios de estimulação do cérebro. 17 A “recuperarão tardia” de seu pai incitou uma mudança na carreira de Bach-y- Rita. Aos 44 anos, ele voltou à medicina e fez residência em neurologia e reabilitação. Compreendeu que, para que se recuperassem, os pacientes precisavam ser motivados como seu pai o fora, com exercícios que se aproximassem bastante de atividades da vida real. Ele voltou a atenção para o tratamento de derrames, concentrando-se na “reabilitação tardia”, ajudando os pacientes a superar graves problemas neurológicos anos depois de seu início e desenvolvendo videogames para treinar pacientes a voltar a mover os braços. Assim, começou a integrar ao projeto de exercícios o que sabia sobre a plasticidade. Os exercícios tradicionais de reabilitação em geral terminam depois de algumas semanas, quando um paciente para de melhorar ou chega a um “platô”, e os médicos perdem a motivação para continuar. Mas Bach-y-Rita, com base em seu conhecimento do desenvolvimento neural, começou a argumentar que esse platô de aprendizagem era temporário, apenas uma parte do ciclo de aprendizagem baseado na plasticidade, no qual as fases da aprendizagem são seguidas por períodos de consolidação. 18 Embora não houvesse progresso aparente na fase de consolidação, as mudanças biológicas aconteciam internamente, à medida que novas habilidades tornavam-se mais automáticas e mais refinadas. Bach-y-Rita desenvolveu um programa para pacientes com danos nos nervos motores faciais, que não podiam mover os músculos da face e assim não conseguiam fechar os olhos, nem falar adequadamente, nem expressar emoções, fazendo com que parecessem monstros autômatos. Bach-y-Rita ligou cirurgicamente um dos nervos “extras”, que normalmente vai até a língua, aos músculos faciais. Depois, desenvolveu um programa de exercícios cerebrais para treinar o “nervo da língua” (e em particular a parte do cérebro que o controla) a agir como nervo facial. Esses pacientes aprenderam a expressar emoções faciais normais, a falar e a fechar os olhos — mais um exemplo da capacidade de Bachy- Rita de “conectar tudo a qualquer coisa”. Trinta e três anos depois do artigo de Bach-y-Rita na Nature, os cientistas que usam a versão moderna e pequena de seu dispositivo para visão tátil submeteram pacientes a tomografias cerebrais e confirmaram que as imagens táteis que entram pela língua são, na verdade, processadas no córtex visual do cérebro. 19 Qualquer dúvida razoável de que os sentidos possam ser reconstruídos foi calada por um dos experimentos de plasticidade mais admiráveis de nossa época. Envolveu a reconstrução não das vias de sensibilidade tátil e visual, como fizera Bach-y-Rita, mas das vias auditiva e visual — literalmente. O neurocientista Mriganka Sur reconstruiu cirurgicamente o cérebro de um filhote de furão. 20 Normalmente, os nervos óticos vão dos olhos ao córtex visual, mas Sur redirecionou esses nervos cirurgicamente, do córtex visual para o córtex auditivo, e descobriu que o animal aprendeu a ver. Usando eletrodos inseridos no cérebro do furão, Sur provou que os neurônios do córtex auditivo estavam ativos quando o furão estava olhando e que realizavam o processamento visual. O córtex auditivo, plástico, como Bach-y-Rita sempre imaginou, se reorganizara, de modo a adquirir a estrutura do córtex visual. Embora os furões submetidos a essa cirurgia não tivessem uma visão normal de 20/20 , eles tinham um terço dela — como a de algumas pessoas que usam óculos. Até recentemente, essas transformações teriam sido inexplicáveis. Mas Bachy- Rita, mostrando que nosso cérebro é mais flexível do que admitem os localizacionistas, ajudou a criar uma concepção mais precisa do cérebro, que permite explicar tais mudanças. Antes de suas descobertas, era aceitável dizer, como faz a maioria dos neurocientistas, que temos um “córtex visual” em nosso lobo occipital, que processa a visão, e um “córtex auditivo” em nosso lobo temporal, que processa a audição. A partir de Bach-y-Rita, aprendemos que a questão é mais complexa e que essas áreas do cérebro são processadores plásticos, conectados entre si e capazes de processar uma variedade inesperada de informações. Cheryl não foi a única a se beneficiar do estranho capacete de Bach-y-Rita. Desde então, a equipe usou o dispositivo para treinar outros cinquenta pacientes a melhorar seu equilíbrio e sua marcha. Alguns tinham os mesmos danos de Cheryl; outros tinham algum trauma encefálico, haviam sofrido derrame ou eram portadores da doença de Parkinson. A importância de Paul Bach-y-Rita está no fato de ele ter sido o primeiro de sua geração de neurocientistas a entender que o cérebro é plástico e, ao mesmo tempo, aplicar concretamente esse conhecimento para atenuar o sofrimento humano. Implícita em todo o seu trabalho está a ideia de que todos nascemos com um cérebro mais adaptável, multifuncional e oportunista do que pensávamos. Quando o cérebro de Cheryl reconstruiu o sentido vestibular — ou quando o cérebro de cegos desenvolveu novas vias enquanto aprendiam a reconhecer objetos, perspectiva ou movimento —, essas mudanças não foram a exceção misteriosa à regra, mas a própria regra: o córtex sensorial é plástico e adaptável. Quando reagiu ao receptor artificial que substituiu o danificado, o cérebro de Cheryl não estava fazendo nada fora do comum. Recentemente, o trabalho de Bach-y-Rita inspirou o cientista cognitivo Andy Clark a argumentar com perspicácia que somos “ciborgues inatos”, o que significa que a plasticidade do cérebro permite que sejamos ligados a máquinas, como computadores e instrumentos eletrônicos, com muita naturalidade. Mas nosso cérebro também se reestrutura em reação a informações de instrumentos mais simples, como a bengala de um cego. Afinal, a plasticidade é uma propriedade inerente ao cérebro desde os tempos pré-históricos. O cérebro é um sistema muito mais aberto do que imaginávamos, e a natureza foi muito longe para nos ajudar a perceber e apreender o mundo que nos cerca. Deu-nos um cérebro que se transforma para sobreviver em um mundo em constante transformação.