quarta-feira, 28 de outubro de 2026

MEA CULPA OU DE QUEM É A CULPA?

MEA CULPA OU DE QUEM É A CULPA?

A síndrome do indicador e o Brasil das urnas

por Heitor Jorge Lau

            Existe um gesto que o brasileiro aprendeu cedo e foi aperfeiçoando com o tempo: esticar o braço, dobrar três dedos e deixar o indicador apontando para longe de si. Não é um gesto raro, nem exclusivo de uma ideologia, de uma região ou de uma faixa etária. É quase um reflexo. Algo dá errado e, antes mesmo de entender o que aconteceu, já sabemos de quem é a culpa, desde que seja de outra pessoa. A esse reflexo coletivo vou chamar aqui de síndrome do indicador: a tendência de apontar o dedo, transferir a responsabilidade e sair de cena com a consciência tranquila. Falo do Brasil, apenas dele, porque é o país que vivo e que consigo observar de perto, sem pretensão de opinar sobre o que se passa em outros lugares.

            O cenário eleitoral é o palco onde essa síndrome se manifesta com mais nitidez, e o curioso é que ela funciona nos dois tempos, antes e depois das urnas. Durante a campanha, cada lado descreve os problemas do país como obra exclusiva do adversário: a economia que não anda como deveria, o serviço público que falha, a segurança que preocupa, a divisão entre as pessoas. Ouvindo os discursos, parece que ninguém jamais teve qualquer participação no que está aí, que as dificuldades surgiram sozinhas e que só existe um grupo capaz de tê-las causado. O dedo aponta para a frente, na direção do outro candidato, e o eleitor é convidado a apontar junto.

            Passada a eleição, o gesto não desaparece, apenas muda de alvo. Quem venceu atribui as dificuldades que vierem ao que foi herdado, aos obstáculos colocados pela oposição, às instituições que atrapalham, à imprensa que distorce. Quem perdeu explica a derrota pelos erros dos outros: o eleitor que não entendeu a mensagem, a informação que chegou torta, a estrutura que favoreceu o adversário, a campanha rival que foi injusta. Raramente se ouve, nas noites de apuração, alguém dizer com simplicidade: "nós erramos neste ponto". E o eleitor, que assiste a tudo do sofá ou da mesa do bar, completa o ciclo: culpa os políticos, todos eles, como se o voto de cada um fosse um assunto separado do resultado final. É uma tentação que alcança todos nós, e é justamente por ser tão humana que merece ser examinada com calma.

            Aqui está o ponto mais interessante, aquele que dá nome a este texto: nesse jogo, todos são culpados e todos são inocentes ao mesmo tempo. Todos são culpados porque cada um aponta o dedo para o outro e o acusa... todos são inocentes porque cada um, em sua própria narrativa, nunca teve nada a ver com o problema. É um paradoxo e tanto. Se todos são sempre inocentes em suas próprias versões, de onde vêm então os problemas? Se a soma de milhões de inocentes resulta em um país com tantas queixas, alguma coisa nessa conta não fecha. A culpa, quando todos a repassam adiante como uma batata quente, não desaparece, ela apenas fica sem dono, e o que não tem dono dificilmente tem conserto.

            A psicanálise ajuda a entender por que esse gesto é tão confortável. Estudos sobre atribuição mostram que tendemos a explicar nossos acertos por mérito pessoal e nossos fracassos por circunstâncias externas, enquanto fazemos exatamente o contrário ao julgar os outros: o fracasso alheio vira defeito de caráter, e o sucesso alheio vira sorte. Há ainda o mecanismo da projeção, em que depositamos em outra pessoa aquilo que nos incomoda reconhecer em nós mesmos. Apontar o dedo, portanto, não é apenas um hábito político; é um recurso de proteção do ego. Dói menos acreditar que o problema está fora. O preço, porém, é alto: quem nunca olha para dentro nunca encontra a parte que lhe cabe e, sem encontrá-la, nunca poderá mudá-la.

            Na outra ponta vem a expressão que abre o título: mea culpa, do latim, "minha culpa". Ela vem de uma oração antiga em que a pessoa reconhece, batendo no peito, o próprio erro. Hoje a expressão é usada com certa leveza e, muitas vezes, de forma retórica, como um pedido de desculpas protocolar que não altera coisa alguma. Mas o mea culpa verdadeiro não é humilhação nem autoflagelo... é um ato de maturidade. É dizer: nesta parte do problema eu participei, e nesta parte posso fazer diferente. Não se trata de assumir a culpa por tudo, o que seria apenas outra forma de distorção, mas de separar o que é do outro do que é meu, com honestidade suficiente para não empurrar tudo para um lado só.

            Aplicado ao cenário político, esse exercício incomoda e, por isso mesmo, é necessário. O voto é um ato individual com consequências coletivas. Isso significa que, ao escolher alguém, assumo uma parcela pequena, mas real, de corresponsabilidade pelo que virá: pelo quanto me informei, pelo quanto desconfiei de promessas fáceis, pelo quanto cobrei depois. Votar e se desligar por quatro anos, reaparecendo apenas na hora da queixa, é uma forma elegante de apontar o dedo para o futuro. Da mesma maneira, quem governa ou legisla precisa aprender que "a culpa é de quem veio antes" tem prazo de validade, e que prestar contas não é um favor feito ao eleitor, e sim parte do cargo. Cada um, no seu lugar, tem uma fatia da responsabilidade, e o país só funciona quando as fatias são reconhecidas.

            Há ainda um detalhe que o gesto do indicador esconde, e que muita gente já ouviu, mas poucos aplicam: quando apontamos um dedo para alguém, os outros três dedos da mesma mão estão apontados para nós. A anatomia, nesse caso, é uma pequena lição de ética, bastando olhar para a própria mão. O que a síndrome do indicador nos pede, portanto, não é que deixemos de cobrar, criticar ou de apontar falhas, pois isso faz parte saudável de qualquer democracia. Pede apenas que o dedo que aponta para fora venha acompanhado de uma pergunta que aponte para dentro: o que me cabe nisso?

            Então, de quem é a culpa? Talvez a pergunta esteja mal formulada. Procurar o culpado é procurar alguém para punir. Procurar a responsabilidade é procurar o que pode ser feito. Enquanto o Brasil perguntar apenas "de quem é a culpa?", continuará girando em círculos, com cada lado acusando o outro e todos se sentindo injustiçados. Quando passar a perguntar "qual é a minha parte, e o que posso fazer com ela?", talvez descubra que a saída nunca esteve em um único nome, em um único partido ou em uma única eleição. Esteve, desde sempre, na mão que aponta, e na coragem de recolher o dedo, ao menos por um instante, para olhar o que ele apontava de volta.

 

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