MUDAM OS SÉCULOS, MUDAM OS RÓTULOS,
A EXCLUSÃO
PERMANECE
por Heitor Jorge Lau
Em pleno
ano de 2026, voltam a circular, nas redes sociais e nas conversas do cotidiano,
convocações para que pessoas sejam demitidas por causa do partido que
escolheram e para que empresas sejam boicotadas por supostamente apoiarem este
ou aquele lado. Boicote, para quem não está habituado ao termo, é a recusa
organizada de comprar, de contratar ou de se relacionar com alguém, com o
objetivo de pressioná-lo ou puni-lo. Convém deixar claro desde o início: este
texto não defende nem critica partido algum. Ele olha para o método, porque o
método é o mesmo, qualquer que seja o lado que o utilize, e a história tem
muito a nos dizer sobre onde esse caminho costuma terminar.
Quase nunca
a perseguição começa pela violência. Ela segue uma sequência que se repete em
épocas e lugares muito diferentes. Primeiro vem o rótulo, que reduz uma pessoa
a uma única característica, seja o partido, a religião, a origem ou a idade, e
a faz parecer menos digna de respeito. Depois vem a pressão econômica, que
consiste em tirar o emprego, esvaziar o comércio e tornar a vida material
impossível. Em seguida, o isolamento social, em que o grupo marcado passa a ser
evitado e o mundo ao redor se acostuma com isso. Só no final, e nem sempre,
aparece a violência física. O que torna o processo perigoso é que cada etapa,
isolada, parece pequena e até justificável para quem a pratica, e é justamente
por isso que tanta gente não percebe o caminho que está sendo percorrido.
O exemplo
mais conhecido é o da Alemanha nazista. Em 1º de abril de 1933, o regime
organizou um boicote nacional aos negócios de judeus, com integrantes da SA, a
tropa paramilitar do partido nazista, postados diante das lojas para intimidar
os clientes. Poucos dias depois, uma lei afastou judeus e opositores políticos
do serviço público e, em 1935, as chamadas Leis de Nuremberg retiraram a
cidadania dos judeus alemães e proibiram casamentos entre judeus e não judeus.
A eliminação física veio anos depois e foi precedida por esse longo preparo, no
qual muita gente aprendeu a olhar para o lado.
A Alemanha,
porém, não foi a primeira nem a única. Na Europa medieval, judeus eram
impedidos de ingressar em muitas corporações de ofício, confinados em bairros
fechados chamados guetos e, na Espanha, expulsos do reino em 1492. No início do
século XVII foi a vez dos mouriscos, descendentes de muçulmanos convertidos à
força ao cristianismo. A Inquisição, tribunal da Igreja Católica criado para
investigar desvios de fé, perseguiu hereges e "cristãos-novos",
judeus convertidos cuja sinceridade era sempre posta sob suspeita. Nos Estados
Unidos, as leis conhecidas como Jim Crow mantiveram, por quase um século depois
do fim da escravidão, a separação legal entre brancos e negros em escolas,
transportes e empregos. Na África do Sul, o Apartheid, regime vigente a partir
de 1948, dividiu a população por raça e determinou onde cada grupo podia morar,
estudar e trabalhar.
Houve
também perseguições por ideias políticas, o que se aproxima mais do que vemos
hoje. Nos Estados Unidos dos anos 1950, o macarthismo, nome dado à caça a
supostos comunistas liderada pelo senador Joseph McCarthy, levou à criação de
listas negras: roteiristas, atores, professores e funcionários públicos eram
demitidos ou impedidos de trabalhar apenas por serem acusados de simpatizar com
o comunismo, muitas vezes sem provas. Na União Soviética de Stálin, os chamados
"inimigos do povo" perdiam o emprego e a moradia antes de serem
presos ou executados. Na China de Mao, a partir de 1966, a Revolução Cultural
humilhou publicamente professores e intelectuais e os afastou de suas funções.
No Camboja do Khmer Vermelho, na segunda metade da década de 1970, as pessoas
instruídas e os profissionais liberais estavam entre os principais alvos. E, em
outro registro, a caça às bruxas na Europa dos séculos XV a XVII atingiu
majoritariamente mulheres, acusadas de desvio por não se encaixarem no papel
que a sociedade lhes reservava.
Mas não é
preciso voltar tantos séculos para encontrar a segregação de pessoas do
trabalho. Ela acontece, em silêncio, no mercado de hoje. Profissionais com mais
de 50 ou 60 anos relatam que, a partir de certa idade, seus currículos deixam
de ser lidos, as vagas passam a pedir "perfil jovem" e a experiência,
que deveria ser um ativo, é tratada como obstáculo. Mulheres enfrentam a
pergunta velada sobre planos de ter filhos, a desconfiança diante da
maternidade, a dificuldade de chegar a cargos de liderança e, em muitos casos,
salários menores para funções iguais. O mesmo se dá com pessoas com deficiência
e com quem vem de determinado bairro ou tem determinado sotaque. Não há lista
oficial nem boicote declarado, mas o efeito é parecido: uma característica isolada
passa a valer mais do que a competência, e a pessoa é afastada antes de ter
tido a chance de mostrar o que sabe fazer. A diferença em relação aos
fanatismos políticos de hoje está apenas no rótulo escolhido. A lógica de
excluir alguém pelo que ela é, ou pelo que pensa, e não pelo que faz, é a
mesma.
O Brasil
tem proteção para isso, ao menos no papel. A Constituição proíbe diferença de
salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo,
idade, cor ou estado civil, e garante o voto direto e secreto. A Lei nº
9.029/1995 proíbe práticas discriminatórias no acesso ao emprego e na sua
manutenção, e a Lei nº 14.611/2023 trata da igualdade salarial entre mulheres e
homens. O Ministério Público do Trabalho, por sua vez, tem tratado como assédio
eleitoral a pressão exercida sobre trabalhadores por causa do voto. Mas lei
nenhuma funciona sozinha: ela depende de uma cultura que reconheça o outro como
pessoa inteira.
É preciso
prudência com as comparações. Os casos históricos citados foram, em sua
maioria, projetos de poder nos quais o Estado estava nas mãos de quem
perseguia, e suas consequências foram incomparavelmente mais graves. O que
vemos hoje, em grande parte, são grupos privados, sem esse poder, e exagerar a
analogia só enfraquece o alerta. O ponto não é dizer que estamos repetindo o
passado, e sim que o começo de todos esses processos foi parecido: a
naturalização da ideia de que alguém pode ser privado do seu sustento por
pertencer a um grupo ou por pensar de determinada forma.
Um
trabalhador não é o partido em que vota, a religião que professa, a idade que
tem ou o gênero a que pertence. É uma pessoa com contas a pagar, família,
competência e uma vida inteira além daquela característica. O voto é secreto
exatamente para que ninguém precise pagar com o próprio sustento pela sua
convicção. Defender esse princípio não é tomar partido, é defender a
possibilidade de convivermos entre diferentes. Podemos discordar com firmeza,
argumentar e votar de modos distintos. O que não podemos é confundir
divergência com inimizade, nem deixar que a discordância vire pretexto para
tirar o pão da mesa de alguém.
Uma sociedade amadurece quando aprende a debater ideias sem destruir pessoas e a contratar, promover e conviver pelo que cada um faz, e não pelo rótulo que carrega.
E você, já viu alguém ser julgado pelo que é ou pelo que pensa, e não
pelo que faz?
#Reflexão #Democracia #Respeito
#MercadoDeTrabalho

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