sábado, 10 de outubro de 2026

A CURIOSIDADE DA CRIANÇA DE HOJE, É O PENSAMENTO CRÍTICO DO ADULTO DE AMANHÃ.

A CURIOSIDADE DA CRIANÇA DE HOJE,

É O PENSAMENTO CRÍTICO DO ADULTO DE AMANHÃ.

por Heitor Jorge Lau

            Há iniciativas educacionais que merecem ser observadas para além dos resultados imediatos que apresentam, pois seus maiores efeitos não aparecem necessariamente nas avaliações escolares, nos certificados recebidos ou nos números divulgados pelas instituições. Seus frutos se manifestam silenciosamente, ao longo dos anos, na maneira como uma criança aprende a observar o mundo, formular perguntas, lidar com as próprias dúvidas e construir explicações para aquilo que ainda não compreende. A Feira de Ciências — Inovação e Sustentabilidade da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), ao selecionar 120 trabalhos desenvolvidos por estudantes de diferentes etapas da educação, representa uma oportunidade de refletir sobre a importância dessas experiências para a formação intelectual e humana das novas gerações.

            Quando uma criança começa a investigar um fenômeno, seja ele relacionado à natureza, à tecnologia ou aos desafios da vida cotidiana, alguma coisa importante acontece em sua maneira de pensar. O mundo deixa de ser apenas um conjunto de coisas prontas, cujos significados são apresentados pelos adultos, e passa a se transformar em um território de descobertas. Uma planta que cresce em determinadas condições, a água que se modifica conforme a temperatura, o comportamento de pequenos animais ou o funcionamento de um objeto comum podem despertar perguntas que conduzem a novas observações. Nesse movimento, a criança começa a compreender que conhecer não significa apenas receber informações, mas também investigar, comparar, experimentar e procurar explicações consistentes para aquilo que desperta sua curiosidade.

            Esse processo guarda uma analogia interessante com o próprio desenvolvimento infantil. Assim como o corpo cresce por meio de transformações sucessivas, a mente também amplia suas capacidades à medida que encontra experiências que a desafiam. Uma criança que recebe respostas prontas para todas as perguntas pode acumular informações sem necessariamente aprender a examiná-las. Em contrapartida, aquela que é estimulada a investigar desenvolve uma relação mais ativa com o conhecimento. Aprende que uma dúvida não representa uma deficiência, mas o ponto de partida de uma descoberta... que uma hipótese pode ser modificada diante de novas evidências... e que reconhecer um erro constitui uma oportunidade de aprendizagem, não um motivo para constrangimento.

            É exatamente nessa passagem entre a curiosidade espontânea e a investigação organizada que iniciativas como as feiras de ciências adquirem um valor extraordinário. Ao transformar uma pergunta em um projeto, o estudante precisa organizar ideias, estabelecer objetivos, selecionar materiais, observar resultados e encontrar uma maneira de comunicar aquilo que descobriu. Mesmo quando o trabalho é simples, essas etapas mobilizam capacidades que ultrapassam os limites de uma disciplina escolar. A criança exercita a atenção, a memória, o raciocínio lógico, a criatividade e a persistência, enquanto aprende a estabelecer relações entre diferentes informações. Mais do que reproduzir um conteúdo apresentado em sala de aula, ela começa a experimentar o significado de produzir conhecimento.

            Existe ainda uma dimensão particularmente relevante nessa experiência: a necessidade de explicar o próprio trabalho a outras pessoas. Quando um estudante apresenta sua pesquisa diante de colegas, professores, avaliadores ou visitantes, precisa organizar o pensamento para torná-lo compreensível. É nesse momento que a aprendizagem individual encontra a dimensão social do conhecimento. Ao ouvir perguntas, receber observações e confrontar interpretações diferentes, a criança descobre que suas ideias podem ser examinadas, aperfeiçoadas e enriquecidas pelo diálogo. Desenvolve, assim, não apenas a capacidade de argumentar, mas também a disposição para escutar, reconhecer limites e considerar perspectivas que não havia percebido anteriormente.

            Essas experiências são especialmente importantes durante a pré-adolescência, período em que o jovem amplia progressivamente sua capacidade de abstração, começa a questionar explicações antes aceitas sem resistência e procura compreender melhor o próprio lugar no mundo. O pensamento crítico não surge automaticamente com a idade, assim como a maturidade intelectual não decorre exclusivamente da quantidade de informações acumuladas. Ambos dependem, em boa medida, das oportunidades de exercitar o raciocínio, enfrentar problemas, sustentar argumentos e rever conclusões. Uma escola que abre espaço para a investigação oferece ao estudante condições para experimentar essas capacidades em desenvolvimento, respeitando seu ritmo e incentivando sua autonomia.

            Há também uma contribuição importante para a formação emocional. Desenvolver um projeto exige lidar com dificuldades, resultados inesperados, limitações de materiais e momentos em que as coisas não funcionam como foram planejadas. A criança aprende, na prática, que nem todo esforço produz imediatamente o resultado esperado e que a persistência precisa caminhar junto com a capacidade de modificar estratégias. Essa aprendizagem fortalece a confiança baseada na experiência, diferente daquela sustentada apenas por elogios. O estudante passa a reconhecer que é capaz de enfrentar desafios, procurar alternativas e continuar aprendendo mesmo quando o caminho se mostra mais difícil do que imaginava.

            No atual modelo de sociedade, marcada pela circulação acelerada de informações, essa formação assume uma importância ainda maior. Crianças e adolescentes entram em contato diariamente com afirmações, imagens, vídeos e explicações que disputam sua atenção, nem sempre acompanhados de evidências confiáveis. Aprender a pensar criticamente significa desenvolver a capacidade de perguntar de onde vem uma informação, quais elementos sustentam determinada afirmação, se existem explicações alternativas e quais interesses podem estar envolvidos em sua divulgação. Uma feira de ciências, evidentemente, não resolve sozinha os desafios da desinformação, mas contribui para construir uma disposição intelectual indispensável: a de não confundir uma afirmação convincente com uma afirmação comprovada.

            A sustentabilidade, presente no nome da iniciativa da Unisc, acrescenta outra dimensão a essa reflexão. Investigar questões ambientais pode ajudar o estudante a compreender que os fenômenos naturais não existem isoladamente e que as ações humanas produzem consequências que ultrapassam o momento e o lugar em que ocorrem. Ao estudar o solo, a água, a vegetação, os resíduos ou as relações entre os seres vivos, a criança encontra oportunidades de relacionar conhecimento científico e responsabilidade coletiva. A natureza deixa de ser apenas um cenário observado à distância e passa a ser compreendida como um sistema do qual fazemos parte, cuja preservação depende de escolhas fundamentadas e de uma percepção mais ampla das relações entre sociedade e ambiente.

            Naturalmente, não se deve esperar que toda criança participante de uma feira científica se transforme em pesquisadora ou cientista. O valor dessas experiências não está em antecipar uma profissão, mas em ampliar as possibilidades de desenvolvimento de cada estudante. Mesmo aquele que seguirá caminhos inteiramente diferentes poderá levar consigo a capacidade de investigar problemas, avaliar argumentos, reconhecer informações frágeis e tomar decisões com maior consciência. São habilidades que encontram aplicação na vida profissional, nas relações sociais, no exercício da cidadania e na maneira como cada pessoa interpreta a realidade.

            Portanto, os 120 trabalhos selecionados pela Feira de Ciências — Inovação e Sustentabilidade não representam meramente uma coleção de pesquisas escolares. Representam também 120 oportunidades de exercitar a curiosidade, estimular a autonomia intelectual e mostrar às novas gerações que o conhecimento é uma construção permanente. Naturalmente, os resultados mais profundos desse processo não podem ser medidos apenas pelo número de projetos apresentados ou pelas classificações obtidas. Eles dependem da continuidade dessas experiências, da qualidade da orientação oferecida e da disposição das instituições educacionais para preservar espaços nos quais perguntar, experimentar e pensar sejam atividades tão valorizadas quanto memorizar conteúdos.

            Uma sociedade que deseja cidadãos mais conscientes, críticos e reflexivos deveria estimular mentes pensantes muito antes da idade adulta. Precisa oferecer às crianças oportunidades para descobrir que a realidade pode ser examinada, que as ideias podem ser questionadas e que compreender um problema exige mais do que aceitar a primeira resposta disponível. A mente crítica não nasce pronta: desenvolve-se por meio de estímulos, experiências, diálogos e desafios que ensinam o indivíduo a pensar por conta própria sem desprezar o conhecimento construído pelos outros.

            O maior mérito de uma iniciativa como essa está naquilo que não aparece nas fotografias, nos painéis ou nas apresentações: a transformação silenciosa que ocorre quando uma criança percebe que é capaz de formular uma pergunta relevante e procurar, com os próprios recursos e a orientação necessária, uma resposta fundamentada. Nesse instante, não está apenas aprendendo ciências. Está descobrindo uma maneira de se relacionar com o mundo, com as outras pessoas e consigo mesma.

            Investir na curiosidade infantil é investir na qualidade do pensamento que acompanhará essa criança durante toda a vida. E uma educação que ensina a perguntar, investigar e refletir oferece algo que ultrapassa qualquer resultado escolar imediato: as condições para que o conhecimento deixe de ser uma coleção de respostas decoradas e se transforme em instrumento de compreensão, autonomia e liberdade intelectual.

 

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