quinta-feira, 8 de outubro de 2026

HIPERTIMESIA - O DRAMA DE QUEM NÃO CONSEGUE ESQUECER

LEMBRAR DE TUDO: DOM OU MALDIÇÃO?

O DRAMA DE QUEM NÃO CONSEGUE ESQUECER

Por Heitor Jorge Lau

            Imagine acordar e saber, sem esforço, o que você almoçou em 14 de março de 2009, como estava o clima naquele dia, qual música tocava no rádio e o que você sentiu durante a tarde. Para a maioria de nós, isso soa como superpoder. Para quem vive com HIPERTIMESIA, é só o funcionamento normal da própria cabeça.

            O termo surgiu em 2006, quando pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Irvine, estudaram o caso de uma mulher que se tornou conhecida como Jill Price. Ela procurou os cientistas porque se lembrava de praticamente todos os dias da vida adulta, e essa lembrança vinha em forma de cena, como um filme que nunca para de rodar ao fundo. Daí o nome, que une o prefixo grego que indica excesso à palavra que significa "lembrar". Anos depois, a ciência passou a chamar o fenômeno também de Memória Autobiográfica Altamente Superior. É uma condição rara, com poucas dezenas de casos confirmados no mundo, entre eles o da atriz norte-americana Marilu Henner.

            Aqui vale desfazer um mal-entendido comum. Hipertimesia não é memória fotográfica. Essas pessoas não decoram uma lista de compras, um número de telefone ou um capítulo de livro com mais facilidade que ninguém. Em testes de laboratório com listas de palavras, por exemplo, costumam ir tão bem quanto qualquer pessoa. O que elas têm de extraordinário é a memória da própria vida: datas, lugares, conversas, acontecimentos e, principalmente, a sensação de ter estado ali. Se você perguntar o que aconteceu em uma data qualquer de anos atrás, a resposta vem quase instantânea e com uma riqueza de detalhes que parece inventada.

            Os estudos de imagem cerebral mostram diferenças em regiões ligadas à memória e à organização das lembranças, além de uma comunicação mais intensa entre elas. Mas ninguém sabe ao certo por que isso acontece. Alguns pesquisadores observam que muitas dessas pessoas têm o hábito de revisitar o próprio passado o tempo todo, e isso levanta uma pergunta curiosa: elas lembram mais porque o cérebro é diferente, ou o cérebro é diferente porque elas lembram o tempo todo? A resposta ainda está em aberto.

            Então, o que há de bom nisso? Muita coisa, para começar pelo lado humano. Quem tem Hipertimesia carrega uma biografia viva. Os momentos felizes, como um aniversário, uma viagem, o rosto de alguém querido, podem ser revividos com uma nitidez que a maioria de nós só encontra em fotografias desbotadas. Nomes, datas e conversas importantes dificilmente se perdem, e isso cria uma sensação rara de continuidade: a vida inteira ao alcance, sem lacunas. Para a ciência, esses casos são um tesouro. Entender como alguns cérebros guardam o passado com tanta precisão pode ajudar a compreender melhor a memória humana e, quem sabe, abrir caminhos para pesquisas sobre doenças como o Alzheimer, em que justamente a memória se desfaz.

            Só que a mesma moeda tem outro lado, e é ele que costuma pesar mais. Quem lembra de tudo lembra de tudo, inclusive do que gostaria de esquecer. Os vexames, as perdas, as despedidas, as palavras duras ditas ou ouvidas ficam guardados com a mesma clareza das alegrias. Os relatos dessas pessoas apontam uma dificuldade real de virar a página, porque o passado não esmaece com o tempo: ele volta como se fosse hoje. As lembranças surgem sozinhas, sem convite, e o cansaço mental pode ser grande. Pessoas com essa condição contam que a memória é, ao mesmo tempo, o maior tesouro e o maior fardo que carregam.

            E há um detalhe que desmonta a ideia de infalibilidade: a memória delas também pode errar. Pesquisas indicam que pessoas com Hipertimesia continuam suscetíveis a falsas memórias, assim como todos nós. Lembrar com muita convicção e muita riqueza de detalhes não significa lembrar de forma correta. A lembrança continua sendo uma reconstrução do cérebro, e não um arquivo de vídeo guardado intacto.

            Essa história lembra um conto famoso do escritor argentino Jorge Luis Borges, “Funes, o Memorioso”, sobre um homem que, depois de um acidente, passa a lembrar absolutamente tudo. Funes recorda cada folha de cada árvore, cada nuvem em cada instante, e justamente por isso não consegue pensar. Pensar, dizia Borges, é esquecer diferenças, generalizar, abstrair... Sem esquecer, não há ideias, só lembranças soltas, infinitas e esmagadoras. A ficção exagera, claro, mas a intuição é poderosa.

            No fundo, a Hipertimesia nos obriga a rever o que pensamos sobre o esquecimento. Costumamos tratá-lo como falha, como o defeito do cérebro que nos faz perder a chave ou o nome daquela pessoa. Mas o esquecimento também é uma função. É ele que suaviza a dor, que nos permite perdoar, que dá espaço ao novo e que transforma o que vivemos em aprendizado, em vez de arquivo morto. Esquecer é, em muitos sentidos, uma forma de cuidar de si. Enfim... a pergunta mais importante na vida pode não ser: "como lembrar mais?", mas "o que vale a pena guardar?".

            E você? Se pudesse escolher, trocaria a sua memória pela de quem não esquece nada, ou agradeceria por poder esquecer?

 

 

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