sábado, 10 de outubro de 2026

POR QUE ACREDITAMOS EM COISAS ESTRANHAS?

POR QUE ACREDITAMOS EM COISAS ESTRANHAS?

por Heitor Jorge Lau

            Conheço quem deixe o registro da água meio aberto "para poupar água". Conheço quem coloque garrafas PET no medidor de energia elétrica "para economizar luz". Já vi garrafas com água espalhadas pelo pátio, e nem perguntei por quê. E conheço quem lave o cabelo o mínimo possível porque "estraga os fios". Todas essas pessoas têm algo em comum: acreditam de verdade no que fazem.

            A lista é longa. Tem gente que desliga a geladeira à noite para gastar menos, enquanto o motor trabalha mais para esfriar tudo de novo. Tem quem passe pasta de dente na queimadura, pó de café na ferida ou coloque uma faca embaixo do travesseiro. Tem quem jure que manga com leite faz mal e que deixar o celular carregando a noite toda estraga a bateria (o que valia para aparelhos antigos, não para os de hoje).

            Por que isso pega? Quase nunca é falta de inteligência. É uma lógica intuitiva incompleta. Se passa menos água pelo registro, gasta-se menos, parece óbvio. Só que o hidrômetro mede volume: para encher o mesmo balde, a conta será a mesma, mais devagar ou mais depressa. A garrafa no medidor também ilude, porque ele apenas mede a corrente que passa pelos fios, e nenhuma garrafa muda isso.

            Há ainda a prova que parece prova. A pessoa pôs a garrafa, a conta veio mais baixa e pronto, funcionou. Ela não considera o clima, a viagem da família, o chuveiro desligado. E se a conta sobe, a culpa é de outra coisa. Quando dá certo, o mérito é da crença; quando dá errado, nunca é dela. Muitas dessas ideias também carregam um grão de verdade. Xampu em excesso pode ressecar o cabelo, e daí a crença exagera até "lavar estraga". É esse pedaço de verdade que a torna tão difícil de derrubar.

            E o mais curioso: se alguém que entende do assunto explica o contrário, a pessoa muitas vezes nem ouve. A crença deixou de ser opinião e virou identidade. Ela é "aquela que economiza", "aquele que entende de cabelo". Admitir o erro é admitir que passou anos enganada, e ninguém gosta disso. Além do mais, o "eu vi com meus olhos" pesa mais do que qualquer estudo. E o especialista, às vezes, fala de cima para baixo, com arrogância e jargão, o que faz a pessoa defender o território em vez de pensar no argumento. Acreditar na bobagem não custa nada. Rever a crença custa reconhecer o erro e recomeçar.

            Mas antes que alguém ria dos outros, vale a pergunta: e as minhas crenças? Quem nunca colocou garrafa em medidor também carrega as suas, do seu jeito. Aquela certeza que nunca testou, aquela verdade herdada de alguém confiável, aquela convicção da qual não abre mão nem diante de bons argumentos... e isso vale para crenças de todo tipo, das domésticas às ideológicas. As nossas sempre nos parecem razoáveis, por definição.

            No fim, o que separa quem muda de ideia de quem não muda não é a inteligência. É a disposição de testar e de aceitar ser corrigido sem se sentir humilhado ou desmerecido.

 

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