POR QUE
ACREDITAMOS EM COISAS ESTRANHAS?
por Heitor Jorge Lau
Conheço
quem deixe o registro da água meio aberto "para poupar água". Conheço
quem coloque garrafas PET no medidor de energia elétrica "para economizar
luz". Já vi garrafas com água espalhadas pelo pátio, e nem perguntei por
quê. E conheço quem lave o cabelo o mínimo possível porque "estraga os
fios". Todas essas pessoas têm algo em comum: acreditam de verdade no que
fazem.
A lista é
longa. Tem gente que desliga a geladeira à noite para gastar menos, enquanto o
motor trabalha mais para esfriar tudo de novo. Tem quem passe pasta de dente na
queimadura, pó de café na ferida ou coloque uma faca embaixo do travesseiro.
Tem quem jure que manga com leite faz mal e que deixar o celular carregando a
noite toda estraga a bateria (o que valia para aparelhos antigos, não para os
de hoje).
Por que
isso pega? Quase nunca é falta de inteligência. É uma lógica intuitiva
incompleta. Se passa menos água pelo registro, gasta-se menos, parece óbvio. Só
que o hidrômetro mede volume: para encher o mesmo balde, a conta será a mesma,
mais devagar ou mais depressa. A garrafa no medidor também ilude, porque ele
apenas mede a corrente que passa pelos fios, e nenhuma garrafa muda isso.
Há ainda a
prova que parece prova. A pessoa pôs a garrafa, a conta veio mais baixa e
pronto, funcionou. Ela não considera o clima, a viagem da família, o chuveiro
desligado. E se a conta sobe, a culpa é de outra coisa. Quando dá certo, o
mérito é da crença; quando dá errado, nunca é dela. Muitas dessas ideias também
carregam um grão de verdade. Xampu em excesso pode ressecar o cabelo, e daí a
crença exagera até "lavar estraga". É esse pedaço de verdade que a
torna tão difícil de derrubar.
E o mais
curioso: se alguém que entende do assunto explica o contrário, a pessoa muitas
vezes nem ouve. A crença deixou de ser opinião e virou identidade. Ela é
"aquela que economiza", "aquele que entende de cabelo".
Admitir o erro é admitir que passou anos enganada, e ninguém gosta disso. Além
do mais, o "eu vi com meus olhos" pesa mais do que qualquer estudo. E
o especialista, às vezes, fala de cima para baixo, com arrogância e jargão, o
que faz a pessoa defender o território em vez de pensar no argumento. Acreditar
na bobagem não custa nada. Rever a crença custa reconhecer o erro e recomeçar.
Mas antes
que alguém ria dos outros, vale a pergunta: e as minhas crenças? Quem nunca
colocou garrafa em medidor também carrega as suas, do seu jeito. Aquela certeza
que nunca testou, aquela verdade herdada de alguém confiável, aquela convicção
da qual não abre mão nem diante de bons argumentos... e isso vale para crenças
de todo tipo, das domésticas às ideológicas. As nossas sempre nos parecem
razoáveis, por definição.
No fim, o
que separa quem muda de ideia de quem não muda não é a inteligência. É a
disposição de testar e de aceitar ser corrigido sem se sentir humilhado ou
desmerecido.

Nenhum comentário:
Postar um comentário