quarta-feira, 21 de outubro de 2026

PESSIMISMO E REALISMO: QUAL A DIFERENÇA?

PESSIMISMO E REALISMO: QUAL A DIFERENÇA?

por Heitor Jorge Lau

            Hoje, ao término de uma conversa sobre o futuro da humanidade, fui rotulado como pessimista. Salientei que sou realista, o que é bem outra coisa, mas parece que de nada adiantou, pois a pessoa afirmou: “Dá na mesma!”. Então vamos às devidas explicações.

            Pessimismo e realismo se confundem porque ambos costumam enxergar o que dá errado, mas partem de lugares muito diferentes. O pessimista tem uma expectativa de fracasso que vem antes dos fatos: ele já decidiu que o resultado será ruim e passa a recolher evidências que confirmem essa convicção. É uma disposição de ânimo, uma lente que escurece tudo. O realista, ao contrário, tenta ajustar sua expectativa ao que os dados permitem concluir. Se as evidências apontam risco, ele fala em risco; se apontam oportunidade, ele fala em oportunidade. Sua atitude é de conferência, não de torcida a favor ou contra.

            Por isso o realista pode soar pessimista num ambiente onde o otimismo virou obrigação social. Quando todos esperam entusiasmo, quem pergunta "e se isso não der certo?" ou "quanto isso realmente custa?" parece estar remando contra. Mas fazer a pergunta incômoda não é desejar o pior. É o que um engenheiro faz ao calcular a carga de uma ponte: ninguém diz que ele é pessimista por prever que o material pode ceder, porque é justamente essa previsão que permite construir algo que não caia. O realismo é, em boa medida, uma forma de cuidado com o resultado.

            Há também uma diferença importante na relação com a ação. O pessimismo tende à paralisia, já que, se o fim é ruim de qualquer jeito, para que tentar? O realismo, tendo mapeado os obstáculos, costuma ser o ponto de partida do plano. Quem sabe onde estão as dificuldades consegue se preparar para elas, e muitas vezes chega mais longe do que o otimista ingênuo, que só descobre o problema quando ele já está em cima dele.

            Vale lembrar que o realismo não é o ponto médio entre os dois extremos, uma espécie de meio-termo morno. Em certas situações os fatos justificam enorme confiança, e o realista será então bastante otimista, sem que isso o torne ingênuo. O que o define é a fidelidade ao que se pode verificar, não o tom emocional da conclusão. Ele pode dar boas notícias com a mesma serenidade com que dá as más.

            O otimismo ingênuo, aliás, é o outro lado dessa confusão. Ele toma a esperança por método e trata a dúvida como falta de fé. Quando o mundo desmente essa expectativa, a frustração costuma ser maior e, curiosamente, empurra muita gente para o pessimismo. Assim, os dois extremos se alimentam, enquanto o realista, que nunca apostou na ilusão, tem menos a perder com a desilusão.

            Enfim, a pergunta que separa os três é: de onde vem a minha expectativa? Caso venha do temperamento, seja para o negativo ou para o positivo, estamos diante de pessimismo ou otimismo. Caso venha da análise do que está de fato diante de mim, estamos diante do realismo. Chamar o realista de pessimista é, no fundo, confundir quem descreve o terreno com quem desejava que o terreno fosse outro.

 

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