PESSIMISMO E
REALISMO: QUAL A DIFERENÇA?
por Heitor Jorge Lau
Hoje, ao
término de uma conversa sobre o futuro da humanidade, fui rotulado como
pessimista. Salientei que sou realista, o que é bem outra coisa, mas parece que
de nada adiantou, pois a pessoa afirmou: “Dá na mesma!”. Então vamos às devidas
explicações.
Pessimismo
e realismo se confundem porque ambos costumam enxergar o que dá errado, mas
partem de lugares muito diferentes. O pessimista tem uma expectativa de
fracasso que vem antes dos fatos: ele já decidiu que o resultado será ruim e
passa a recolher evidências que confirmem essa convicção. É uma disposição de
ânimo, uma lente que escurece tudo. O realista, ao contrário, tenta ajustar sua
expectativa ao que os dados permitem concluir. Se as evidências apontam risco,
ele fala em risco; se apontam oportunidade, ele fala em oportunidade. Sua
atitude é de conferência, não de torcida a favor ou contra.
Por isso o
realista pode soar pessimista num ambiente onde o otimismo virou obrigação
social. Quando todos esperam entusiasmo, quem pergunta "e se isso não der
certo?" ou "quanto isso realmente custa?" parece estar remando
contra. Mas fazer a pergunta incômoda não é desejar o pior. É o que um
engenheiro faz ao calcular a carga de uma ponte: ninguém diz que ele é
pessimista por prever que o material pode ceder, porque é justamente essa
previsão que permite construir algo que não caia. O realismo é, em boa medida,
uma forma de cuidado com o resultado.
Há também
uma diferença importante na relação com a ação. O pessimismo tende à paralisia,
já que, se o fim é ruim de qualquer jeito, para que tentar? O realismo, tendo
mapeado os obstáculos, costuma ser o ponto de partida do plano. Quem sabe onde
estão as dificuldades consegue se preparar para elas, e muitas vezes chega mais
longe do que o otimista ingênuo, que só descobre o problema quando ele já está
em cima dele.
Vale
lembrar que o realismo não é o ponto médio entre os dois extremos, uma espécie
de meio-termo morno. Em certas situações os fatos justificam enorme confiança,
e o realista será então bastante otimista, sem que isso o torne ingênuo. O que
o define é a fidelidade ao que se pode verificar, não o tom emocional da
conclusão. Ele pode dar boas notícias com a mesma serenidade com que dá as más.
O otimismo
ingênuo, aliás, é o outro lado dessa confusão. Ele toma a esperança por método
e trata a dúvida como falta de fé. Quando o mundo desmente essa expectativa, a
frustração costuma ser maior e, curiosamente, empurra muita gente para o
pessimismo. Assim, os dois extremos se alimentam, enquanto o realista, que
nunca apostou na ilusão, tem menos a perder com a desilusão.
Enfim, a
pergunta que separa os três é: de onde vem a minha expectativa? Caso venha do
temperamento, seja para o negativo ou para o positivo, estamos diante de
pessimismo ou otimismo. Caso venha da análise do que está de fato diante de
mim, estamos diante do realismo. Chamar o realista de pessimista é, no fundo,
confundir quem descreve o terreno com quem desejava que o terreno fosse outro.

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