O VERNIZ DA
CIVILIZAÇÃO
O Senhor das Moscas e
a natureza que insistimos em esquecer
por Heitor Jorge Lau
Há obras
que envelhecem e há obras que apenas esperam. O Senhor das Moscas pertence ao
segundo grupo: a cada geração ele volta a ser atual, não porque o mundo se
parece com uma ilha deserta, mas porque nós continuamos a ser quem somos.
Retomo estas reflexões, que publiquei há um ano, por uma razão simples: as
pessoas parecem ter esquecido de que carregam dentro de si uma natureza
primitiva, e quem esquece o que é costuma ser surpreendido pelo que faz.
Os
comentários que seguem nascem da observação do filme à luz da Filosofia, mas
logo ficou claro que ela, sozinha, não bastaria. A riqueza de situações, com
atitudes individuais e coletivas, proativas e reativas, racionais e
irracionais, exigiu um passeio pela psicologia, pela sociologia e pela
antropologia. A diversidade de detalhes comportamentais é tão ampla que um
olhar restrito aos aspectos filosóficos, ainda que fortemente presentes,
deixaria escapar metade do que a história revela.
O que se vê
na tela é a exposição dos instintos mais antigos da condição humana: a desordem
social, a disputa pelo poder, o domínio do fogo, o impulso de caçar, a urgência
de sobreviver. Não seria exagero tratá-lo como uma Guerra do Fogo vivida em
tempos modernos. Que o elenco seja formado por garotos pré-adolescentes,
vestidos com resquícios de uniformes militares, importa menos do que parece.
Para esta análise, interessam as atitudes e o aprendizado que delas se extrai,
não a idade de quem as protagoniza.
Praticamente
todas as sociedades constroem hierarquias nas quais alguns recebem poder e
autoridade sobre os demais. Na nossa, pais, diretores de escola, gerentes e até
amigos exercem diferentes graus de autoridade, e a relação entre quem manda e
quem obedece raramente se dá sem conflito moral. A história de Abraão, a quem
Deus ordenou o sacrifício do filho Isaac, ilustra o dilema com força incomum:
ele amava a Deus e amava o filho, e viu-se numa posição em que parecia obrigado
a trair um dos dois. Até onde deve ir a obediência?
O mesmo
conflito aparece, em versão sombria, quando soldados recebem ordem de matar
civis indefesos. Foi o que ocorreu na Guerra do Vietnã, quando o tenente Calley
mandou massacrar moradores de My Lai e se defendeu dizendo que apenas obedecia
a ordens superiores, "cumprindo o seu dever". De um lado, a
disciplina militar; de outro, o respeito pela vida humana. O exemplo mostra a
disposição das pessoas de ir a extremos para ser obedientes. E não precisamos
de um campo de batalha para reconhecê-la: basta observar como colaboradores se
comportam diante de chefes que dizem e fazem coisas evidentemente erradas, e
como existe uma relutância generalizada em contestá-los.
A cultura
insiste nessa lição porque acredita que uma sociedade eficiente e organizada
depende de uma hierarquia estável, e procura garantir a obediência dando ao
indivíduo obediente um lugar na estrutura. Entregamos a saúde ao médico, as
finanças ao contador, e precisamos confiar nas opiniões de várias figuras de
autoridade para que a vida funcione. É exatamente isso que os garotos do filme
retratam: um impulso difícil de controlar, uma necessidade quase inconsciente
de submeter-se a quem parece mandar. Chamo isso de efeito manada, e ele não
precisa de ilha alguma para operar.
Há ainda um
detalhe que não deve passar despercebido: toda a trama acontece num ambiente
hostil, sem as leis sociais que regulam a moral, a ética e os bons costumes.
Pode não parecer evidente, mas o contexto geográfico valida ou rejeita
determinadas ações. Qualquer homem oferece o pescoço a alguém munido de uma
navalha numa barbearia; ninguém faria o mesmo numa sapataria. O cenário diz o
que é aceitável antes mesmo de alguém falar.
Misture o
ambiente errado com a influência inadequada e teremos a receita da capacidade
humana de abandonar a própria humanidade, à medida que a personalidade singular
se dissolve em estruturas institucionais defeituosas. Talvez seja esse o
defeito de fábrica com que a natureza nos dotou, e que, a longo prazo, dá à
nossa espécie apenas uma modesta chance de sobreviver. Pessimismo ou não, basta
lembrar Darwin: compartilhamos ancestrais com os animais mais primitivos, e
essa herança vale tanto para o cérebro, berço da razão e da sensação, quanto
para qualquer outra parte do corpo. Como o assunto aqui é comportamento,
deixemos de lado o que fica do pescoço para baixo.
A ciência
identificou duas estruturas cerebrais decisivas. O sistema límbico, também
chamado de Paleocórtex, é a parte mais antiga e governa a expressão das
emoções. O Neocórtex, a massa cinzenta que surgiu depois, é o que distingue o
homem dos demais animais: permite o raciocínio lógico, a linguagem complexa e a
superação das barreiras da evolução puramente biológica. Herdamos mais do que
genes; herdamos as culturas complexas que nós mesmos criamos. Há comunicação
entre as duas partes, mas cada uma cumpre funções próprias, e nenhuma tentativa
de explicar a natureza humana prospera se ignorar essa diferença.
O ponto
crucial é que o raciocínio e a linguagem derivam de uma estrutura posterior e
separada, e por isso têm pouco poder sobre o sistema límbico e sobre as emoções
que ele comanda. É provável que aí esteja a explicação para a migração dos
garotos do filme: de um imaginário moral e eticamente correto para um mundo em
que a luta pela sobrevivência passou a mandar.
Se a ilha
do filme parece distante, basta olhar para o debate político brasileiro dos
últimos anos. Sem que ninguém tenha sido abandonado numa praia deserta, o país
se dividiu em grupos que mal se reconhecem como parte da mesma comunidade. Cada
um tem a sua fogueira, o seu chefe, a sua concha que dá o direito à palavra, e
a sua certeza de que o outro lado é a fera escondida na mata. O desacordo, que
é a substância normal da vida democrática, foi substituído pela hostilidade.
Opinião virou identidade, e quem discorda deixou de ser adversário para
tornar-se inimigo.
O mecanismo
é o mesmo que o filme escancara. O indivíduo que é capaz de ponderar, em sua
vida privada, com a calma do Neocórtex, entrega-se em grupo ao comando do
sistema límbico: medo, raiva, orgulho tribal, necessidade de pertencer. Passa a
repetir o que a sua manada repete, a aplaudir sem examinar e a condenar sem
ouvir. A obediência a líderes e narrativas, que antes vimos em Abraão e no
tenente Calley, reaparece sob a forma de fidelidade cega a figuras políticas e
a correntes de opinião, e a falha, quando há, é sempre do outro. Num ambiente
em que cada lado afirma defender a civilização contra a barbárie, ambos acabam
cometendo, com a consciência tranquila, as pequenas barbáries do cotidiano: o
insulto, a mentira repassada sem checagem, o rompimento de amizades e a quebra
de laços familiares.
Vale
lembrar o que vimos há pouco sobre a distância da vítima. As redes sociais, que
dominam o debate, ampliam justamente o que favorece a crueldade: não enxergamos
o rosto de quem é atingido pela palavra. Sem testemunhar o sofrimento, a
obediência ao grupo prevalece sobre a compaixão. O ambiente, repito, também
decide: a arena digital, sem as regras de conduta de uma conversa face a face,
é a ilha, e nela muita gente se comporta de um modo que jamais adotaria numa
mesa de jantar.
Quem lê
isto talvez queira apontar o dedo para um lado, ou para o outro. Esse é
exatamente o reflexo que o filme denuncia. A política não é o problema; o
problema é o que fazemos com ela quando deixamos de pensar. A posição de cada
um é um direito, e defendê-la com firmeza é legítimo. Perder a capacidade de
reconhecer a humanidade de quem pensa diferente é que é o primeiro passo rumo à
selvageria.
Conflitos
extremamente poderosos surgem quando alguém é levado por uma autoridade a
cometer atos imorais, e a tensão resultante pode ser quase intolerável. A
obediência tende a prevalecer quando o indivíduo se sente mais ligado à figura
de autoridade do que à vítima; a desobediência aparece quando ele testemunha o
sofrimento de quem está sendo atingido. Proximidade com a dor alheia, portanto,
é um dos poucos freios que conhecemos.
Sobram,
então, perguntas que cada leitor pode levar consigo. Somente situações extremas
fazem aflorar nossos instintos mais primitivos, ou bastam um grupo, um líder e
um inimigo comum? Ou seríamos selvagens em nosso cotidiano, de forma
institucionalizada, sem que a palavra "selvageria" nos ocorra? Resta
refletir sobre elas e sobre tantas outras situações que atrapalham o nosso
desenvolvimento social. Quem sabe, um dia, as pessoas deixem de ser candidatas
e passem à categoria efetiva de seres humanos, no sentido mais verdadeiro da
palavra.

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