sábado, 24 de outubro de 2026

O VERNIZ DA CIVILIZAÇÃO

O VERNIZ DA CIVILIZAÇÃO

O Senhor das Moscas e a natureza que insistimos em esquecer

por Heitor Jorge Lau

            Há obras que envelhecem e há obras que apenas esperam. O Senhor das Moscas pertence ao segundo grupo: a cada geração ele volta a ser atual, não porque o mundo se parece com uma ilha deserta, mas porque nós continuamos a ser quem somos. Retomo estas reflexões, que publiquei há um ano, por uma razão simples: as pessoas parecem ter esquecido de que carregam dentro de si uma natureza primitiva, e quem esquece o que é costuma ser surpreendido pelo que faz.

            Os comentários que seguem nascem da observação do filme à luz da Filosofia, mas logo ficou claro que ela, sozinha, não bastaria. A riqueza de situações, com atitudes individuais e coletivas, proativas e reativas, racionais e irracionais, exigiu um passeio pela psicologia, pela sociologia e pela antropologia. A diversidade de detalhes comportamentais é tão ampla que um olhar restrito aos aspectos filosóficos, ainda que fortemente presentes, deixaria escapar metade do que a história revela.

            O que se vê na tela é a exposição dos instintos mais antigos da condição humana: a desordem social, a disputa pelo poder, o domínio do fogo, o impulso de caçar, a urgência de sobreviver. Não seria exagero tratá-lo como uma Guerra do Fogo vivida em tempos modernos. Que o elenco seja formado por garotos pré-adolescentes, vestidos com resquícios de uniformes militares, importa menos do que parece. Para esta análise, interessam as atitudes e o aprendizado que delas se extrai, não a idade de quem as protagoniza.

            Praticamente todas as sociedades constroem hierarquias nas quais alguns recebem poder e autoridade sobre os demais. Na nossa, pais, diretores de escola, gerentes e até amigos exercem diferentes graus de autoridade, e a relação entre quem manda e quem obedece raramente se dá sem conflito moral. A história de Abraão, a quem Deus ordenou o sacrifício do filho Isaac, ilustra o dilema com força incomum: ele amava a Deus e amava o filho, e viu-se numa posição em que parecia obrigado a trair um dos dois. Até onde deve ir a obediência?

            O mesmo conflito aparece, em versão sombria, quando soldados recebem ordem de matar civis indefesos. Foi o que ocorreu na Guerra do Vietnã, quando o tenente Calley mandou massacrar moradores de My Lai e se defendeu dizendo que apenas obedecia a ordens superiores, "cumprindo o seu dever". De um lado, a disciplina militar; de outro, o respeito pela vida humana. O exemplo mostra a disposição das pessoas de ir a extremos para ser obedientes. E não precisamos de um campo de batalha para reconhecê-la: basta observar como colaboradores se comportam diante de chefes que dizem e fazem coisas evidentemente erradas, e como existe uma relutância generalizada em contestá-los.

            A cultura insiste nessa lição porque acredita que uma sociedade eficiente e organizada depende de uma hierarquia estável, e procura garantir a obediência dando ao indivíduo obediente um lugar na estrutura. Entregamos a saúde ao médico, as finanças ao contador, e precisamos confiar nas opiniões de várias figuras de autoridade para que a vida funcione. É exatamente isso que os garotos do filme retratam: um impulso difícil de controlar, uma necessidade quase inconsciente de submeter-se a quem parece mandar. Chamo isso de efeito manada, e ele não precisa de ilha alguma para operar.

            Há ainda um detalhe que não deve passar despercebido: toda a trama acontece num ambiente hostil, sem as leis sociais que regulam a moral, a ética e os bons costumes. Pode não parecer evidente, mas o contexto geográfico valida ou rejeita determinadas ações. Qualquer homem oferece o pescoço a alguém munido de uma navalha numa barbearia; ninguém faria o mesmo numa sapataria. O cenário diz o que é aceitável antes mesmo de alguém falar.

            Misture o ambiente errado com a influência inadequada e teremos a receita da capacidade humana de abandonar a própria humanidade, à medida que a personalidade singular se dissolve em estruturas institucionais defeituosas. Talvez seja esse o defeito de fábrica com que a natureza nos dotou, e que, a longo prazo, dá à nossa espécie apenas uma modesta chance de sobreviver. Pessimismo ou não, basta lembrar Darwin: compartilhamos ancestrais com os animais mais primitivos, e essa herança vale tanto para o cérebro, berço da razão e da sensação, quanto para qualquer outra parte do corpo. Como o assunto aqui é comportamento, deixemos de lado o que fica do pescoço para baixo.

            A ciência identificou duas estruturas cerebrais decisivas. O sistema límbico, também chamado de Paleocórtex, é a parte mais antiga e governa a expressão das emoções. O Neocórtex, a massa cinzenta que surgiu depois, é o que distingue o homem dos demais animais: permite o raciocínio lógico, a linguagem complexa e a superação das barreiras da evolução puramente biológica. Herdamos mais do que genes; herdamos as culturas complexas que nós mesmos criamos. Há comunicação entre as duas partes, mas cada uma cumpre funções próprias, e nenhuma tentativa de explicar a natureza humana prospera se ignorar essa diferença.

            O ponto crucial é que o raciocínio e a linguagem derivam de uma estrutura posterior e separada, e por isso têm pouco poder sobre o sistema límbico e sobre as emoções que ele comanda. É provável que aí esteja a explicação para a migração dos garotos do filme: de um imaginário moral e eticamente correto para um mundo em que a luta pela sobrevivência passou a mandar.

            Se a ilha do filme parece distante, basta olhar para o debate político brasileiro dos últimos anos. Sem que ninguém tenha sido abandonado numa praia deserta, o país se dividiu em grupos que mal se reconhecem como parte da mesma comunidade. Cada um tem a sua fogueira, o seu chefe, a sua concha que dá o direito à palavra, e a sua certeza de que o outro lado é a fera escondida na mata. O desacordo, que é a substância normal da vida democrática, foi substituído pela hostilidade. Opinião virou identidade, e quem discorda deixou de ser adversário para tornar-se inimigo.

            O mecanismo é o mesmo que o filme escancara. O indivíduo que é capaz de ponderar, em sua vida privada, com a calma do Neocórtex, entrega-se em grupo ao comando do sistema límbico: medo, raiva, orgulho tribal, necessidade de pertencer. Passa a repetir o que a sua manada repete, a aplaudir sem examinar e a condenar sem ouvir. A obediência a líderes e narrativas, que antes vimos em Abraão e no tenente Calley, reaparece sob a forma de fidelidade cega a figuras políticas e a correntes de opinião, e a falha, quando há, é sempre do outro. Num ambiente em que cada lado afirma defender a civilização contra a barbárie, ambos acabam cometendo, com a consciência tranquila, as pequenas barbáries do cotidiano: o insulto, a mentira repassada sem checagem, o rompimento de amizades e a quebra de laços familiares.

            Vale lembrar o que vimos há pouco sobre a distância da vítima. As redes sociais, que dominam o debate, ampliam justamente o que favorece a crueldade: não enxergamos o rosto de quem é atingido pela palavra. Sem testemunhar o sofrimento, a obediência ao grupo prevalece sobre a compaixão. O ambiente, repito, também decide: a arena digital, sem as regras de conduta de uma conversa face a face, é a ilha, e nela muita gente se comporta de um modo que jamais adotaria numa mesa de jantar.

            Quem lê isto talvez queira apontar o dedo para um lado, ou para o outro. Esse é exatamente o reflexo que o filme denuncia. A política não é o problema; o problema é o que fazemos com ela quando deixamos de pensar. A posição de cada um é um direito, e defendê-la com firmeza é legítimo. Perder a capacidade de reconhecer a humanidade de quem pensa diferente é que é o primeiro passo rumo à selvageria.

            Conflitos extremamente poderosos surgem quando alguém é levado por uma autoridade a cometer atos imorais, e a tensão resultante pode ser quase intolerável. A obediência tende a prevalecer quando o indivíduo se sente mais ligado à figura de autoridade do que à vítima; a desobediência aparece quando ele testemunha o sofrimento de quem está sendo atingido. Proximidade com a dor alheia, portanto, é um dos poucos freios que conhecemos.

            Sobram, então, perguntas que cada leitor pode levar consigo. Somente situações extremas fazem aflorar nossos instintos mais primitivos, ou bastam um grupo, um líder e um inimigo comum? Ou seríamos selvagens em nosso cotidiano, de forma institucionalizada, sem que a palavra "selvageria" nos ocorra? Resta refletir sobre elas e sobre tantas outras situações que atrapalham o nosso desenvolvimento social. Quem sabe, um dia, as pessoas deixem de ser candidatas e passem à categoria efetiva de seres humanos, no sentido mais verdadeiro da palavra.

 

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