A
PIRÂMIDE DE MASLOW
E AS NECESSIDADES
DE CADA LADO DA POLARIZAÇÃO
por Heitor Jorge Lau
A Pirâmide
de Maslow, proposta pelo psicólogo Abraham Maslow em 1943, organiza as
motivações humanas em degraus: as necessidades fisiológicas, como alimentação e
abrigo; as de segurança; as de pertencimento; as de estima e reconhecimento; e,
no alto, a autorrealização. A ideia central é simples e poderosa: enquanto o
degrau mais básico não está minimamente atendido, ele ocupa o centro da
atenção, e só depois de satisfeito é que o olhar se volta para o seguinte.
Poucas vezes essa ideia pareceu tão presente quanto agora, em uma sociedade
dividida entre a direita e a esquerda radicalizadas. Sem querer generalizar,
até porque isso seria um raciocínio burro e radical, as necessidades daqueles
que se posicionam radicalmente à direita parecem ser diferentes das daqueles
que se posicionam à esquerda. É nesse ponto do embate que Maslow se faz
presente.
Tenho um
exemplo muito pessoal disso. Há muito tempo, houve um momento em que eu
necessitava, ou simplesmente desejava, um carro. Depois de conquistá-lo, o
desejo seguinte passou a ser um lugar próprio para morar, e do carro eu já não
pensava mais, pelo menos não com a mesma urgência. E assim foi, a cada nova
conquista, que podemos chamar de uma melhora de vida. A aquisição anterior
jamais era esquecida; apenas deixava de ser lembrada como falta e deixava de
ser desejada como meta. Não era descartada, era "guardada" no baú das
lembranças. O degrau já vencido continuava ali, sustentando os demais, mas a
atenção seguia adiante.
Se levarmos
essa lógica para o debate político, algo se esclarece. Quem vive a incerteza do
prato de comida, do emprego, do aluguel ou do atendimento de saúde tende a
enxergar o mundo a partir da base da pirâmide e a valorizar o que garante um
piso mínimo de dignidade. Quem já superou essa etapa e construiu algum
patrimônio, algum espaço, alguma estabilidade, tende a voltar a atenção para o
degrau seguinte: a proteção do que conquistou, a segurança, a liberdade para
empreender, o reconhecimento pelo próprio esforço. Cada um olha para a política
da altura em que se encontra na pirâmide, e por isso pede ao Estado coisas
diferentes. Nada disso é uma regra rígida. Há pessoas pobres com valores
conservadores e pessoas ricas com sensibilidade social, e o próprio modelo de
Maslow, mais tarde criticado e relativizado, nunca foi uma escada que todos
sobem na mesma ordem. Ele descreve momentos de vida, não identidades
ideológicas.
O problema
surge quando a polarização transforma degraus em trincheiras. Quem está embaixo
e olha para cima passa a acusar o outro de egoísmo e de insensibilidade, e quem
está em cima e olha para baixo passa a acusar o outro de acomodação e de
ingratidão. Ambos tomam o degrau em que se encontram pelo mapa completo da
realidade. Esquecem que quase todos já estiveram, ou podem vir a estar, em
outro nível, e que a vida, como mostra o meu baú de lembranças, é feita de
passagens, não de lugares fixos.
Chego,
então, à questão central do tema: as necessidades de uns não invalidam as
necessidades de outros. Não me refiro a serem as mesmas necessidades, mas às
necessidades básicas, por assim dizer, aquelas sem as quais nenhum degrau
superior se sustenta. Quem luta por comida e moradia não está pedindo demais, e
quem luta por segurança, liberdade e reconhecimento também não está pedindo de
menos. Reconhecer a legitimidade da necessidade alheia não exige abrir mão da
própria; exige apenas admitir que a pirâmide é de todos, e não de uma facção.
Há ainda um
segundo aspecto, que me parece decisivo. As duas visões sempre irão se
complementar, e não me refiro às necessidades propriamente ditas, mas ao
equilíbrio entre o empenho em proporcionar tudo para todos, independentemente
da classe social ou do posicionamento em que cada cidadão se encontra. Uma
sociedade saudável precisa de um piso firme, que impeça que alguém caia abaixo
do mínimo, e de um teto aberto, que permita a quem deseja crescer chegar mais
alto. Sem o piso, a liberdade vira privilégio de poucos; sem o teto, a proteção
vira estagnação. Defender apenas um dos dois é enxergar metade da pirâmide.
Se cada
lado conseguir olhar para o degrau do outro com o mesmo respeito com que
gostaria que olhassem para o seu, o embate deixa de ser uma guerra de
necessidades e passa a ser aquilo que a democracia sempre pretendeu ser: a
busca conjunta de um modo de garantir que todos, em qualquer ponto da pirâmide,
tenham as condições de seguir adiante.

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