quinta-feira, 22 de outubro de 2026

A PIRÂMIDE DE MASLOW E AS NECESSIDADES DE CADA LADO DA POLARIZAÇÃO

A PIRÂMIDE DE MASLOW

E AS NECESSIDADES DE CADA LADO DA POLARIZAÇÃO

por Heitor Jorge Lau

            A Pirâmide de Maslow, proposta pelo psicólogo Abraham Maslow em 1943, organiza as motivações humanas em degraus: as necessidades fisiológicas, como alimentação e abrigo; as de segurança; as de pertencimento; as de estima e reconhecimento; e, no alto, a autorrealização. A ideia central é simples e poderosa: enquanto o degrau mais básico não está minimamente atendido, ele ocupa o centro da atenção, e só depois de satisfeito é que o olhar se volta para o seguinte. Poucas vezes essa ideia pareceu tão presente quanto agora, em uma sociedade dividida entre a direita e a esquerda radicalizadas. Sem querer generalizar, até porque isso seria um raciocínio burro e radical, as necessidades daqueles que se posicionam radicalmente à direita parecem ser diferentes das daqueles que se posicionam à esquerda. É nesse ponto do embate que Maslow se faz presente.

            Tenho um exemplo muito pessoal disso. Há muito tempo, houve um momento em que eu necessitava, ou simplesmente desejava, um carro. Depois de conquistá-lo, o desejo seguinte passou a ser um lugar próprio para morar, e do carro eu já não pensava mais, pelo menos não com a mesma urgência. E assim foi, a cada nova conquista, que podemos chamar de uma melhora de vida. A aquisição anterior jamais era esquecida; apenas deixava de ser lembrada como falta e deixava de ser desejada como meta. Não era descartada, era "guardada" no baú das lembranças. O degrau já vencido continuava ali, sustentando os demais, mas a atenção seguia adiante.

            Se levarmos essa lógica para o debate político, algo se esclarece. Quem vive a incerteza do prato de comida, do emprego, do aluguel ou do atendimento de saúde tende a enxergar o mundo a partir da base da pirâmide e a valorizar o que garante um piso mínimo de dignidade. Quem já superou essa etapa e construiu algum patrimônio, algum espaço, alguma estabilidade, tende a voltar a atenção para o degrau seguinte: a proteção do que conquistou, a segurança, a liberdade para empreender, o reconhecimento pelo próprio esforço. Cada um olha para a política da altura em que se encontra na pirâmide, e por isso pede ao Estado coisas diferentes. Nada disso é uma regra rígida. Há pessoas pobres com valores conservadores e pessoas ricas com sensibilidade social, e o próprio modelo de Maslow, mais tarde criticado e relativizado, nunca foi uma escada que todos sobem na mesma ordem. Ele descreve momentos de vida, não identidades ideológicas.

            O problema surge quando a polarização transforma degraus em trincheiras. Quem está embaixo e olha para cima passa a acusar o outro de egoísmo e de insensibilidade, e quem está em cima e olha para baixo passa a acusar o outro de acomodação e de ingratidão. Ambos tomam o degrau em que se encontram pelo mapa completo da realidade. Esquecem que quase todos já estiveram, ou podem vir a estar, em outro nível, e que a vida, como mostra o meu baú de lembranças, é feita de passagens, não de lugares fixos.

            Chego, então, à questão central do tema: as necessidades de uns não invalidam as necessidades de outros. Não me refiro a serem as mesmas necessidades, mas às necessidades básicas, por assim dizer, aquelas sem as quais nenhum degrau superior se sustenta. Quem luta por comida e moradia não está pedindo demais, e quem luta por segurança, liberdade e reconhecimento também não está pedindo de menos. Reconhecer a legitimidade da necessidade alheia não exige abrir mão da própria; exige apenas admitir que a pirâmide é de todos, e não de uma facção.

            Há ainda um segundo aspecto, que me parece decisivo. As duas visões sempre irão se complementar, e não me refiro às necessidades propriamente ditas, mas ao equilíbrio entre o empenho em proporcionar tudo para todos, independentemente da classe social ou do posicionamento em que cada cidadão se encontra. Uma sociedade saudável precisa de um piso firme, que impeça que alguém caia abaixo do mínimo, e de um teto aberto, que permita a quem deseja crescer chegar mais alto. Sem o piso, a liberdade vira privilégio de poucos; sem o teto, a proteção vira estagnação. Defender apenas um dos dois é enxergar metade da pirâmide.

            Se cada lado conseguir olhar para o degrau do outro com o mesmo respeito com que gostaria que olhassem para o seu, o embate deixa de ser uma guerra de necessidades e passa a ser aquilo que a democracia sempre pretendeu ser: a busca conjunta de um modo de garantir que todos, em qualquer ponto da pirâmide, tenham as condições de seguir adiante.

 

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