QUANDO
"POLARIZAÇÃO" PERDEU O SIGNIFICADO
por Heitor Jorge Lau
Há palavras
que atravessam uma década carregando um sentido e, na seguinte, passam a
carregar outro, sem que ninguém se dê conta do abismo entre os dois.
"Polarização" é uma delas. O que se chamava assim nos anos 2000 pouco
tem a ver com o que o termo passou a designar depois das eleições de 2018. Essa
mudança não é um capricho do vocabulário. É sintoma de transformações profundas
na vida social, na relação entre a sociedade e as instituições e no próprio
modo de funcionamento delas.
Até meados
da década de 2010, falar em polarização era descrever um sistema político
organizado em torno de dois polos, encarnados por PT e PSDB. Quem vencia a
eleição presidencial assumia a liderança de uma coalizão. Primeiro, isolava
algumas áreas tidas como estratégicas, protegendo-as, na medida do possível, da
partilha de cargos. O resto da máquina era repartido de acordo com o peso de
cada força política. Esse arranjo vigorou de 1994 a 2013 e tinha uma lógica
quase empresarial: os partidos funcionavam como firmas que vendiam apoio
parlamentar a governos de coalizão. Quem se sentia mal contemplado na divisão
dos quinhões, ou simplesmente achava que podia arrancar mais, trocava de
legenda ou fundava uma nova, o que só estimulava a fragmentação partidária (um
problema que se multiplicou).
Nesse
condomínio de interesses dispersos, cabia a quem estava no poder o papel de
síndico, dando alguma unidade ao arquipélago e definindo agendas que
atravessassem as diferenças. PT e PSDB desempenharam essa função no período. A
ciência política brasileira batizou o método de presidencialismo de coalizão,
mas poderia chamá-lo de pemedebismo, em homenagem ao PMDB, que por cerca de
três décadas liderou esse cartel de venda de apoio e que, desde 2018, atende
por MDB. Na imagem dos campos magnéticos, os dois polos disputavam a atração do
grande pântano peemedebista que se estendia entre as duas margens de terra
firme.
Poucos
documentos expõem esse modelo de forma tão crua quanto uma conversa de 2004
entre Fernando Henrique Cardoso e Cristovam Buarque, registrada no site oficial
do PSDB. O ex-presidente disse que não se discutia nem se disputava ideologia,
que a questão era poder e saber quem comandava. Para ele, o país tinha uma
massa atrasada e partidos que a representavam por meio do clientelismo, e
apenas PT e PSDB, aliados a outras siglas, teriam força para liderar uma
mudança. No fundo, resumia, a disputa era por quem comandaria o atraso. O
perigo, completava, era o atraso acabar comandando quem pretendia comandá-lo,
como no pacto de Fausto com o diabo, em que se pode perder a alma pelo caminho.
A passagem
é reveladora porque mostra que a polarização daquele tempo era uma disputa por
gestão, não por visões de mundo incompatíveis. Os dois polos competiam pela
chefia de um sistema que ambos aceitavam e que, em boa medida, ambos
reproduziam. Entender como se passou dessa polarização de administradores para
a que hoje divide famílias, amizades e instituições é entender que a palavra
mudou porque o chão sob ela mudou.

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