sexta-feira, 23 de outubro de 2026

QUANDO "POLARIZAÇÃO" PERDEU O SIGNIFICADO

QUANDO "POLARIZAÇÃO" PERDEU O SIGNIFICADO  

por Heitor Jorge Lau

            Há palavras que atravessam uma década carregando um sentido e, na seguinte, passam a carregar outro, sem que ninguém se dê conta do abismo entre os dois. "Polarização" é uma delas. O que se chamava assim nos anos 2000 pouco tem a ver com o que o termo passou a designar depois das eleições de 2018. Essa mudança não é um capricho do vocabulário. É sintoma de transformações profundas na vida social, na relação entre a sociedade e as instituições e no próprio modo de funcionamento delas.

            Até meados da década de 2010, falar em polarização era descrever um sistema político organizado em torno de dois polos, encarnados por PT e PSDB. Quem vencia a eleição presidencial assumia a liderança de uma coalizão. Primeiro, isolava algumas áreas tidas como estratégicas, protegendo-as, na medida do possível, da partilha de cargos. O resto da máquina era repartido de acordo com o peso de cada força política. Esse arranjo vigorou de 1994 a 2013 e tinha uma lógica quase empresarial: os partidos funcionavam como firmas que vendiam apoio parlamentar a governos de coalizão. Quem se sentia mal contemplado na divisão dos quinhões, ou simplesmente achava que podia arrancar mais, trocava de legenda ou fundava uma nova, o que só estimulava a fragmentação partidária (um problema que se multiplicou).

            Nesse condomínio de interesses dispersos, cabia a quem estava no poder o papel de síndico, dando alguma unidade ao arquipélago e definindo agendas que atravessassem as diferenças. PT e PSDB desempenharam essa função no período. A ciência política brasileira batizou o método de presidencialismo de coalizão, mas poderia chamá-lo de pemedebismo, em homenagem ao PMDB, que por cerca de três décadas liderou esse cartel de venda de apoio e que, desde 2018, atende por MDB. Na imagem dos campos magnéticos, os dois polos disputavam a atração do grande pântano peemedebista que se estendia entre as duas margens de terra firme.

            Poucos documentos expõem esse modelo de forma tão crua quanto uma conversa de 2004 entre Fernando Henrique Cardoso e Cristovam Buarque, registrada no site oficial do PSDB. O ex-presidente disse que não se discutia nem se disputava ideologia, que a questão era poder e saber quem comandava. Para ele, o país tinha uma massa atrasada e partidos que a representavam por meio do clientelismo, e apenas PT e PSDB, aliados a outras siglas, teriam força para liderar uma mudança. No fundo, resumia, a disputa era por quem comandaria o atraso. O perigo, completava, era o atraso acabar comandando quem pretendia comandá-lo, como no pacto de Fausto com o diabo, em que se pode perder a alma pelo caminho.

            A passagem é reveladora porque mostra que a polarização daquele tempo era uma disputa por gestão, não por visões de mundo incompatíveis. Os dois polos competiam pela chefia de um sistema que ambos aceitavam e que, em boa medida, ambos reproduziam. Entender como se passou dessa polarização de administradores para a que hoje divide famílias, amizades e instituições é entender que a palavra mudou porque o chão sob ela mudou.

 

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