terça-feira, 3 de novembro de 2026

QUANDO O HÁBITO SE TRANSFORMA EM PRISÃO

QUANDO O HÁBITO SE TRANSFORMA EM PRISÃO:

SOMOS DONOS DAS NOSSAS ESCOLHAS?

por Heitor Jorge Lau

            Existe uma força silenciosa que participa da construção da nossa personalidade, organiza boa parte das nossas atividades cotidianas e, em determinadas circunstâncias, pode assumir o controle de nossas decisões sem que percebamos. Essa força atende pelo nome de hábito. Repetimos comportamentos, incorporamos rotinas, desenvolvemos preferências e estabelecemos padrões de funcionamento que, com o passar do tempo, deixam de exigir reflexão ou deliberação consciente. O problema começa quando essa capacidade extraordinária de automatizar nossas ações ultrapassa os limites da conveniência e passa a restringir nossa liberdade. Afinal, existe uma diferença considerável entre adquirir um hábito e tornar-se prisioneiro dele. E essa diferença merece uma reflexão que vai muito além dos conhecidos problemas relacionados ao consumo de drogas lícitas e ilícitas.

            Costumo ouvir afirmações de pessoas que dizem ter experimentado cocaína ou maconha uma única vez e, imediatamente, desenvolvido um vício. Minha reação costuma ser de questionamento, pois a dependência não funciona, em regra, como um interruptor que se aciona instantaneamente após um único contato com determinada substância. Existe um processo complexo envolvendo aprendizagem, repetição, associação de estímulos, mecanismos de recompensa e adaptações neurobiológicas. Uma primeira experiência pode proporcionar prazer, curiosidade, sensação de bem-estar ou alívio momentâneo de alguma tensão, levando o indivíduo a desejar sua repetição. Entretanto, é importante esclarecer que não existe uma quantidade universal de experiências a partir da qual alguém desenvolve dependência, tampouco se pode considerar inofensivo um primeiro consumo. A vulnerabilidade individual, a substância utilizada, a frequência, a intensidade e o contexto interferem nesse processo. Cocaína e maconha, por exemplo, apresentam características e riscos distintos. O ponto central da reflexão é que a repetição pode fortalecer associações entre determinada experiência e a recompensa percebida, transformando gradualmente um comportamento inicialmente ocasional em uma prática persistente, por vezes acompanhada de perda de controle.

            É justamente nesse processo que encontramos uma das explicações mais interessantes oferecidas pela neurociência. Os Gânglios da Base, também denominados Núcleos da Base, constituem um conjunto de estruturas profundas do cérebro que participa de funções relacionadas ao movimento, à aprendizagem, à seleção de ações e à formação de hábitos. Uma região particularmente importante desse sistema é o Estriado, que participa dos circuitos envolvidos na aprendizagem por recompensa e na automatização de comportamentos. Em termos simplificados, o cérebro aprende a reconhecer determinadas situações, estímulos e circunstâncias que antecedem uma ação e suas respectivas consequências. Quando uma sequência comportamental é repetida suficientemente, ela pode passar a ser executada com menor necessidade de deliberação consciente. É por isso que conseguimos dirigir por trajetos conhecidos, escovar os dentes ou executar tarefas familiares enquanto pensamos em outras coisas. Essa capacidade representa uma extraordinária economia de recursos cognitivos. O cérebro não precisa reinventar diariamente aquilo que já aprendeu. Entretanto, o mesmo mecanismo que facilita nossa vida também pode consolidar comportamentos prejudiciais, excessivos ou incompatíveis com nossas necessidades. A automatização, portanto, não distingue necessariamente aquilo que nos beneficia daquilo que nos prejudica.

            Aqui encontramos uma questão que considero particularmente relevante: nem todo hábito é um vício, mas todo vício comportamental envolve, em alguma medida, processos de aprendizagem e repetição. Um hábito pode ser perfeitamente saudável enquanto permanece subordinado às nossas necessidades e escolhas. O problema surge quando a pessoa continua executando determinada atividade mesmo diante de consequências negativas, quando sente desconforto intenso ao tentar interrompê-la ou quando passa a organizar sua existência em função daquele comportamento. É nesse momento que precisamos abandonar a interpretação superficial de que tudo se resume à força de vontade. Existem mecanismos psicológicos e neurobiológicos envolvidos, e compreender sua atuação é fundamental para não transformar uma questão complexa em simples julgamento moral.

            Pensemos, por exemplo, nas atividades domésticas, um território aparentemente distante das discussões sobre dependência, mas que oferece situações bastante ilustrativas. Limpar a casa, lavar roupas, passar camisas, organizar armários, arear panelas e manter os ambientes em ordem são atividades legítimas e necessárias. Algumas pessoas encontram satisfação genuína nessas tarefas, e não existe absolutamente nada de errado nisso. Entretanto, o que acontece quando alguém não consegue descansar porque existe uma peça de roupa fora do lugar? Quando uma panela precisa ser novamente limpa, mesmo estando perfeitamente utilizável? Quando a pessoa interrompe momentos de convivência, lazer ou descanso porque sente uma necessidade praticamente incontrolável de executar alguma tarefa doméstica? A questão deixa de ser a limpeza ou a organização propriamente ditas e passa a envolver a relação psicológica estabelecida com essas atividades. Em determinadas circunstâncias, a repetição pode funcionar como uma tentativa de aliviar ansiedade, recuperar uma sensação de controle ou evitar o contato com pensamentos e sentimentos desagradáveis. Existem situações em que esse padrão se aproxima de manifestações obsessiva-compulsivas, que exigem avaliação clínica adequada, mas não devemos confundir organização, zelo e disciplina com transtornos psicológicos. O que interessa investigar é quando uma atividade deixa de servir à pessoa e passa a exigir que a pessoa sirva a ela.

            Existe, entretanto, uma manifestação dessa dinâmica que considero ainda mais curiosa, justamente porque costuma receber reconhecimento e aprovação social: a relação excessivamente intensa com o trabalho. Sempre tive reservas diante da expressão “sou apaixonado pelo meu trabalho”, principalmente quando ela vem acompanhada de uma dedicação que praticamente elimina todos os demais espaços da existência. É perfeitamente saudável encontrar satisfação na profissão, sentir orgulho das próprias realizações e reconhecer a importância do trabalho para a construção da identidade e da autonomia individual. Minha inquietação está relacionada àqueles que não conseguem se desligar das obrigações profissionais, que sentem desconforto diante do descanso, que precisam estar permanentemente ocupados e que parecem experimentar uma espécie de vazio quando não existe uma tarefa a cumprir. Em determinadas circunstâncias, o trabalho pode deixar de representar uma atividade produtiva e transformar-se em um mecanismo de compensação psicológica. A pessoa encontra na ocupação permanente uma maneira socialmente aceita de evitar questionamentos, conflitos, frustrações e insatisfações que exigiriam um confronto consigo mesma. Enquanto trabalha, não precisa pensar sobre determinados aspectos da vida; enquanto cumpre metas, não precisa examinar suas relações; enquanto permanece ocupada, não precisa enfrentar o silêncio que surge quando as obrigações terminam.

            Essa possibilidade merece atenção porque o excesso de trabalho costuma ser confundido com virtude. A sociedade frequentemente recompensa quem trabalha além dos limites, quem abre mão do descanso e quem transforma a profissão no centro absoluto da própria existência. O indivíduo recebe elogios por sua dedicação, comprometimento e produtividade, mas raramente alguém pergunta o que acontece quando ele não está trabalhando. Será que consegue aproveitar o tempo livre? Consegue estabelecer relações que não estejam subordinadas às exigências profissionais? Consegue simplesmente permanecer consigo mesmo, sem precisar preencher cada instante com alguma obrigação? É claro que não podemos afirmar que toda pessoa extremamente dedicada ao trabalho esteja fugindo de conflitos internos ou desenvolvendo uma dependência comportamental. Existem diferenças individuais, necessidades econômicas, características profissionais e motivações legítimas. Entretanto, quando o trabalho se transforma em uma necessidade permanente, quando a pessoa perde a capacidade de estabelecer limites e quando sua identidade passa a depender exclusivamente da produtividade, estamos diante de uma situação que merece investigação. A paixão pelo trabalho não deve servir como justificativa automática para a renúncia à própria vida.

            O mesmo raciocínio pode ser ampliado para inúmeros comportamentos contemporâneos. A necessidade de verificar constantemente o telefone celular, acompanhar notificações, consultar redes sociais, realizar compras desnecessárias, consumir alimentos sem fome ou procurar entretenimento a cada instante revela como determinadas práticas podem adquirir uma dimensão que ultrapassa sua finalidade original. Em muitos casos, a repetição proporciona uma recompensa imediata, ainda que passageira, e essa recompensa contribui para reforçar o comportamento. A pessoa consulta o celular porque espera encontrar alguma novidade; compra porque experimenta uma satisfação momentânea; trabalha porque recebe reconhecimento; limpa porque sente alívio diante da organização. O cérebro aprende essas associações e passa a favorecer a repetição. Entretanto, a satisfação inicial pode diminuir, enquanto a necessidade de repetir permanece ou até aumenta. O comportamento deixa de ser uma escolha plenamente deliberada e começa a funcionar como resposta automática a determinados estímulos, emoções ou circunstâncias.

            Sob uma perspectiva psicanalítica, essa discussão ganha outra dimensão. A repetição não está necessariamente relacionada apenas à busca de prazer. Em determinadas situações, ela também pode expressar tentativas inconscientes de lidar com conflitos, angústias e experiências que não foram devidamente elaboradas. Uma pessoa pode repetir comportamentos porque encontra neles uma forma de administrar tensões internas, evitar determinadas percepções ou manter uma sensação de estabilidade diante de um mundo que experimenta como ameaçador. Nesse sentido, a repetição pode representar muito mais do que uma rotina consolidada: pode revelar uma maneira particular de se relacionar consigo mesmo e com a realidade. O indivíduo acredita estar escolhendo livremente, mas nem sempre reconhece os motivos que sustentam suas escolhas. É por isso que a investigação das razões subjacentes ao comportamento se torna tão importante. Não basta perguntar o que alguém faz repetidamente; precisamos compreender o que aquela repetição representa em sua vida e qual função psicológica desempenha.

            Uma das maiores dificuldades humanas está, justamente, em reconhecer quando perdemos a capacidade de questionar nossos próprios comportamentos. Estamos tão acostumados a determinadas rotinas que passamos a considerá-las naturais, necessárias e até indispensáveis. Não percebemos que algumas delas consomem nosso tempo, limitam nossas experiências, prejudicam nossas relações e impedem o desenvolvimento de outras possibilidades de existência. O hábito oferece conforto porque reduz a necessidade de decidir, mas também pode nos manter presos a padrões que já não fazem sentido. A repetição proporciona familiaridade, e a familiaridade frequentemente é confundida com segurança. Entretanto, viver permanentemente dentro daquilo que já conhecemos não significa necessariamente viver melhor.

            O desafio, portanto, não consiste em eliminar os hábitos, pois eles são indispensáveis à organização da vida humana. Precisamos aprender a reconhecer sua função, avaliar suas consequências e preservar a capacidade de modificá-los quando deixam de nos beneficiar. Uma rotina saudável amplia nossa autonomia; uma compulsão pode restringi-la. A disciplina contribui para a realização de objetivos; a rigidez impede adaptações. O trabalho pode proporcionar satisfação e dignidade; o excesso pode servir de esconderijo. A organização doméstica pode trazer bem-estar; a necessidade de controlar cada detalhe pode produzir sofrimento. A diferença não está necessariamente na atividade executada, mas na relação que estabelecemos com ela e na liberdade que conservamos diante de sua repetição.

            No fim das contas, a pergunta mais importante não é quantas vezes repetimos determinado comportamento, mas o quanto ainda somos capazes de decidir sobre ele. Conseguimos interrompê-lo sem experimentar angústia desproporcional? Conseguimos substituí-lo por outras atividades? Conseguimos reconhecer quando ele começa a prejudicar nossa saúde, nossas relações e nossa qualidade de vida? Ou precisamos encontrar justificativas para continuar fazendo exatamente aquilo que já percebemos ser excessivo? Essas perguntas nos colocam diante de uma questão fundamental da existência: a liberdade não consiste apenas em poder fazer o que desejamos, mas também em conservar a capacidade de deixar de fazer aquilo que já não nos faz bem. O hábito deveria ser um instrumento a serviço da nossa existência, nunca o senhor que determina como devemos vivê-la. Afinal, quando deixamos de questionar nossas repetições, corremos o risco de passar a vida inteira obedecendo a comportamentos que um dia começamos a escolher. 

 

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

SOLASTALGIA: A SAUDADE DE CASA ESTANDO EM CASA

SOLASTALGIA: A SAUDADE DE CASA ESTANDO EM CASA

Sobre a nostalgia, a memória e os lugares que mudam diante de nós

por Heitor Jorge Lau

            Existe um tipo de saudade que dispensa a viagem. Não é a de quem partiu e olha para trás, mas a de quem ficou e foi percebendo, aos poucos, que o lugar onde sempre viveu já não é o mesmo. A rua conserva o nome, a casa continua no mesmo número, mas o cheiro, o ruído, o comércio da esquina e a sombra da árvore da calçada não são mais aqueles. Quem passa por isso costuma sentir um desconforto difícil de explicar, porque não há a quem dizer “estou com saudade de casa” sem ouvir como resposta: “mas você está em casa”.

            Para esse sentimento, o filósofo australiano Glenn Albrecht propôs, em 2003, a palavra solastalgia, formada pelo latim solacium, que significa consolo, e pelo grego algos, que significa dor. Seria, portanto, a dor de perder o consolo que um lugar nos oferecia. Albrecht a observou em moradores de uma região cuja paisagem foi profundamente transformada, mas o termo logo ultrapassou a origem e passou a nomear algo que qualquer pessoa já experimentou em escala menor: o bairro da infância irreconhecível, a escola reformada, a padaria que fechou, a praça que ganhou outro desenho. O ponto central é que a perda, aqui, não está na distância, e sim na mudança. É o lugar que parte, enquanto a pessoa fica.

            A palavra irmã, nostalgia, tem uma história curiosa. Ela foi cunhada em 1688 pelo estudante de medicina suíço Johannes Hofer, a partir do grego nostos, que quer dizer regresso, e algos, dor. Hofer a criou para descrever uma doença: o mal que acometia soldados suíços servindo longe de casa, com tristeza persistente, insônia e perda de apetite. Durante muito tempo, médicos procuraram causas físicas para ela e a trataram como enfermidade. Só séculos depois a nostalgia passou a ser compreendida como uma emoção humana comum, e algo curioso aconteceu com o seu sentido: nascida como dor do espaço, a saudade do lugar distante, ela se tornou dor do tempo, a falta de uma época que não volta. A solastalgia reúne as duas, porque o lugar que perdemos é sempre o lugar de um tempo.

            A Antropologia ajuda a entender por que essa perda pesa tanto. O geógrafo Yi-Fu Tuan falou em topofilia, o laço afetivo que as pessoas criam com os lugares, e lembrou que um lugar é diferente de um simples espaço: é um espaço ao qual atribuímos significado. O antropólogo Marc Augé, por sua vez, distinguiu os lugares antropológicos, que carregam identidade, relações e história, dos chamados não-lugares, como aeroportos e corredores de passagem, onde ninguém se demora o bastante para deixar marcas. Quando um lugar cheio de sentido vai perdendo seus traços, as pessoas perdem também parte dos “espelhos” em que se reconheciam. Quem sou eu sem a esquina onde aprendi a andar de bicicleta? A identidade, de certa forma, tem endereço.

            A Psicanálise oferece outra chave. Em “Luto e Melancolia”, de 1917, Freud descreveu o trabalho do luto como o processo lento pelo qual retiramos, pouco a pouco, a energia afetiva depositada em algo ou alguém que perdemos. Mas o luto costuma pressupor uma perda reconhecível, com marcos claros, como a morte, a despedida e o velório. Na solastalgia, não há cerimônia alguma, porque o objeto amado continua ali, apenas modificado. Como elaborar a perda de algo que ainda existe? Isso nos remete a outro conceito freudiano, o estranho familiar, apresentado em 1919. A palavra alemã heimlich, que designa o que é íntimo e doméstico, vem de Heim, o lar, e o seu oposto, unheimlich, descreve aquilo que inquieta justamente por ter sido familiar. O que nos perturba, nesse caso, não é o desconhecido, mas o conhecido que mudou de rosto. O lugar da infância alterado produz exatamente essa sensação.

            A Neurociência acrescenta que a memória não funciona como um arquivo fixo. Cada vez que recordamos, reconstruímos, e o ambiente físico serve como um conjunto de pistas que facilitam esse resgate. O hipocampo, estrutura ligada à memória espacial e à memória de episódios, trabalha em estreita relação com o lugar em que as coisas aconteceram, e o olfato mantém conexões diretas com regiões como a amígdala e o próprio hipocampo, o que ajuda a explicar por que um simples cheiro pode devolver uma tarde inteira em poucos segundos, fenômeno eternizado por Proust no Episódio da Madeleine. É plausível supor, portanto, que, quando o cenário muda, algumas dessas pistas desaparecem e certas lembranças ficam mais difíceis de alcançar. A pessoa sente que perdeu o lugar e, ao mesmo tempo, que está perdendo um pouco do acesso ao que viveu nele.

            Seria um erro, porém, pensar que a nostalgia é apenas dor. Pesquisadores como Constantine Sedikides e Tim Wildschut, da Universidade de Southampton, vêm mostrando em estudos que recordar o passado de forma nostálgica tende a aumentar a sensação de sentido na vida, de conexão com outras pessoas e de continuidade da própria história. A estudiosa Svetlana Boym propôs uma distinção interessante entre dois modos de sentir. Na nostalgia restauradora, a pessoa deseja reconstruir o passado tal como ele era, como se fosse possível fazer o relógio voltar. Na nostalgia reflexiva, ela se demora na saudade, aceita que o tempo passou e usa a lembrança para compreender melhor quem foi e quem é. As duas existem em nós, em proporções que variam conforme a fase da vida e o que está em jogo.

            O português tem uma palavra que costuma ser apontada como difícil de traduzir: saudade. Talvez, ainda assim, nos falte uma para a saudade específica do lugar que mudou diante dos nossos olhos. Há também uma observação antiga que pode adicionar uma camada a essa reflexão. Heráclito dizia que ninguém entra duas vezes no mesmo rio, porque o rio muda e quem entra também muda. Parte da dor da solastalgia talvez venha de esquecermos que não foi apenas o lugar que se transformou. Quem olha também não é mais a criança que corria por aquela calçada. A casa da infância parece menor quando voltamos a ela não só porque foi alterada, mas porque crescemos, e porque aquilo que de fato perdemos não cabe em nenhum endereço: é o olhar com o qual a víamos.

            Este texto não pretende dizer se a mudança dos lugares é boa ou ruim. Cidades, bairros e paisagens se transformam o tempo todo, e nem sempre para pior; muitas vezes, aquilo que parece perda para uns é conquista para outros. A intenção é apenas dar nome a uma experiência silenciosa, porque nomear já é uma maneira de começar a elaborar. Quem descobre que existe uma palavra para o que sente deixa de achar que está exagerando ou sozinho nesse sentimento. E fica uma pergunta que cada leitor pode levar consigo: qual lugar ainda está no mesmo endereço, mas já não mora onde você o deixou?

#Reflexão #Nostalgia #Memória #Saudade #Solastalgia