terça-feira, 14 de outubro de 2025

HEMATOFILIA E PSICOPATOLOGIA FORENSE

 

UMA ANÁLISE PROFUNDA DO VAMPIRISMO CLÍNICO E SEUS REFLEXOS NA CONDUTA HUMANA

Por Heitor Jorge Lau

            Há quem afirme que não passe de história digna da Transilvânia e do seu personagem principal: o Conde Drácula. Contudo, o interesse humano pelo sangue transcende os limites da biologia e da fisiologia, mergulhando profundamente no reino do mito, da religião e, notavelmente, da psicopatologia. O chamado “vampirismo clínico”, ou hematofilia compulsiva, representa um fenômeno raro e perturbador que desafia as classificações diagnósticas padrão, situando-se frequentemente na fronteira entre as parafilias, as psicoses e os transtornos de personalidade graves. Embora a condição não esteja oficialmente codificada no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) como uma entidade diagnóstica singular, seu estudo é crucial para a compreensão da motivação por trás de certas condutas desviantes e, em casos extremos, de crimes violentos. A natureza do vampirismo clínico reside na compulsão ou desejo sexualmente excitante de ingerir ou ver sangue, uma manifestação que o psicólogo Richard Noll, em uma tentativa de categorização, sugeriu chamar de Síndrome de Renfield, em alusão ao personagem secundário do romance Drácula de Bram Stoker, cuja obsessão por consumir insetos e, posteriormente, sangue, simbolizava sua degeneração psíquica.

            A gênese desta parafilia é frequentemente atribuída a um evento traumático ou "catalisador" na infância, envolvendo sangue e que, por um mecanismo de condicionamento, transforma-se em fonte de excitação ou alívio emocional. A progressão da síndrome, conforme postulada, costuma seguir uma trajetória escalonada. Inicialmente, o indivíduo pode praticar o autovampirismo (cortar a si mesmo para ingerir o próprio sangue), buscando uma satisfação puramente sensorial ou um alívio da tensão interna. Em seguida, pode haver uma transição para o consumo de sangue animal, muitas vezes associada a rituais de poder ou satisfação sexual. O estágio mais grave, e de maior relevância médico-legal, envolve a hematofilia dirigida a outros seres humanos. Neste ponto, o ato de obter, manipular e ingerir o sangue de outra pessoa não é apenas uma busca por excitação; torna-se um símbolo de dominação, poder e, em algumas interpretações, de incorporação mística da força vital da vítima.

            A complexidade do vampirismo clínico reside na sua comorbidade e na dificuldade em isolá-lo de outras perturbações subjacentes. Em muitos dos casos documentados na literatura psiquiátrica forense, a hematofilia é uma manifestação sintomática de um transtorno de base mais grave, como a Esquizofrenia, Transtorno de Personalidade Borderline ou, mais perigosamente, o Transtorno de Personalidade Antissocial com traços sádicos. Em indivíduos com esquizofrenia, por exemplo, o consumo de sangue pode ser motivado por delírios, como a crença de que a substância possui propriedades mágicas, curativas, ou que é a única forma de evitar uma morte iminente. Para indivíduos com traços sádicos ou antissociais, o ato de infligir dor e extrair sangue pode ser a expressão máxima de poder e crueldade, com o sangue sendo o troféu ou o ápice do prazer sexual e da dominação.

             Um dos casos mais notoriamente associados a este fenômeno é o do assassino em série alemão Peter Kürten, conhecido como o "Vampiro de Düsseldorf" ou o "Monstro de Düsseldorf". Ativo no final da década de 1920, Kürten cometeu uma série de assassinatos e ataques sexuais. Embora não se limitasse ao vampirismo, a hematofilia era um componente central de seus atos sádicos. Relatos sugerem que, após estrangular ou apunhalar suas vítimas, ele bebia o sangue que jorrava das feridas. Seu comportamento era motivado por uma intensa excitação sexual e um desejo irrefreável de dominar e destruir a vida. O perfil psiquiátrico de Kürten revelou uma profunda desorganização da personalidade e sadismo sexual extremo, no qual o sangue atuava como um poderoso estimulante e um componente ritualístico do seu crime. Este caso ilustra como a hematofilia pode estar intrinsecamente ligada à violência letal e ao sadismo.

            Outro exemplo que frequentemente surge na discussão sobre vampirismo clínico, embora seu diagnóstico seja mais complexo e multifacetado, é o de Richard Trenton Chase, apelidado de "O Vampiro de Sacramento". Chase, um assassino em série americano que aterrorizou a Califórnia no final dos anos 1970, apresentava sintomas de esquizofrenia paranoide. Seus delírios eram de natureza bizarra: ele acreditava que seu sangue estava sendo transformado em pó por agentes secretos, e que ele precisava consumir sangue fresco para sobreviver e evitar que seu coração encolhesse. Seus atos criminosos incluíam matar animais e pessoas, mutilar cadáveres e, notavelmente, beber o sangue de suas vítimas, misturando-o por vezes com iogurte ou refrigerante. O caso de Chase é um exemplo clássico de como a psicose desorganizada pode levar a uma forma extrema de hematofilia, onde o comportamento não é primariamente uma parafilia sexual (embora a excitação possa estar presente), mas sim uma manifestação de um sistema delirante complexo e destrutivo.

            Além dos casos de violência extrema, a literatura médica também relata exemplos de hematofilia em contextos não letais. Um caso notável, documentado em periódicos psiquiátricos, descreve um jovem na Turquia que foi diagnosticado e tratado com sucesso para uma desordem de “vampirismo”. Ele cortava com uma lâmina de barbear seus próprios braços, peito e barriga para colher o sangue em um copo e bebê-lo. Seu hábito era o resultado de problemas psicológicos subjacentes, incluindo trauma e dependência emocional, e não uma dependência per se do sangue. O tratamento focou no transtorno básico, e a conduta de beber sangue cessou. Este caso sublinha a diversidade das manifestações do vampirismo clínico, que pode variar do autolesionismo não letal, como forma de regulação emocional ou prazer, até o sadismo homicida.

            A distinção entre o vampirismo clínico e a porfiria, um grupo de doenças genéticas raras, é fundamental para o rigor científico. As lendas folclóricas do vampiro, com sua aversão à luz solar, dentes proeminentes e palidez, têm sido, em parte, atribuídas às manifestações da porfiria. Contudo, a porfiria é uma condição bioquímica que afeta a produção do heme, componente da hemoglobina, e não um transtorno psiquiátrico ou comportamental. Embora em épocas passadas, sem o conhecimento da medicina moderna, algumas pessoas com porfiria pudessem ter sido levadas a consumir sangue na esperança de suprir suas deficiências de heme – e esta correlação histórica é relevante para o folclore –, o vampirismo clínico é, inequivocamente, uma desordem da mente e da conduta.

            Do ponto de vista da medicina legal e do sistema judiciário, o diagnóstico de vampirismo clínico, ou Síndrome de Renfield, é primariamente descritivo e auxiliar. O foco pericial é sempre a avaliação das categorias diagnósticas oficiais, como esquizofrenia, sadismo sexual ou transtorno antissocial. A identificação da hematofilia ajuda a traçar o perfil do agressor e a compreender a modus operandi e a motivação. O tratamento, quando a condição é identificada precocemente ou em um contexto de menor gravidade, tipicamente envolve psicoterapia, com ênfase em terapias cognitivo-comportamentais para descondicionar a associação do sangue com o prazer ou poder. Em casos ligados a psicoses, a farmacoterapia antipsicótica é indispensável.

            Para finalizar, o vampirismo clínico serve como um lembrete sombrio da complexa e, por vezes, aterrorizante interação entre trauma, excitação, delírio e violência na psique humana. Não é uma doença de criaturas da noite, mas sim uma manifestação rara e perigosa de uma mente doente, cujo estudo contínuo é vital para a criminologia, a psiquiatria forense e a busca incessante pela compreensão dos abismos da patologia humana. A ausência de uma classificação diagnóstica formal reflete a sua raridade e heterogeneidade, mas a sua presença nos anais dos crimes mais hediondos exige uma atenção continuada e rigorosa por parte da comunidade científica.

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