O PREÇO DA LIBERDADE EVITADA
por Heitor Jorge Lau
A vida humana, longe de ser uma marcha inexorável em direção ao aprimoramento contínuo, é uma luta incessante contra a inércia do próprio espírito. O filósofo prussiano Immanuel Kant (1724-1804), uma das figuras centrais do Iluminismo e autor de obras monumentais como Crítica da Razão Pura, legou-nos um diagnóstico incisivo da nossa falha mais persistente. Em seu ensaio “Resposta à pergunta: o que é esclarecimento?” não celebra o avanço técnico de sua época, mas ataca o vício moral que impede a humanidade de colher os frutos da própria inteligência. A tese de Kant é, em essência, que a maior tragédia do ser humano não é a ignorância, mas a preguiça e a covardia que o impedem de pensar por conta própria. Kant define o “esclarecimento” como a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. Esta menoridade (Unmündigkeit, no original alemão, que significa literalmente "incapacidade de usar a própria voz" ou "tutela") não é causada pela ausência de entendimento, mas pela ausência de resolução e coragem para usá-lo sem a direção de outrem. O lema do esclarecimento, que ressoa como um ultimato moral, é "Sapere Aude!" (Ouse Saber! ou Ouse ser Sábio!), uma convocação dramática para o indivíduo assumir a responsabilidade pela sua própria razão.
A ressonância dessa crítica na mente humana contemporânea é esmagadora. Vivemos na era da informação e da tecnologia onipresente, uma época que Kant teria visto como o ápice das ferramentas para a autonomia intelectual. No entanto, o paradoxo moderno é que, quanto mais fácil se torna obter conhecimento, mais a mente humana parece recuar para a zona de conforto da tutela. O ser humano, por preguiça e covardia, prefere a menoridade voluntária. É cômodo ter um livro que pense por mim, um pastor que tenha consciência por mim, ou, nesse contexto, um algoritmo que me diga o que assistir, o que comprar e no que acreditar. A catástrofe que se desenha não é um evento externo, mas a autodegradação ética do indivíduo que, por conveniência, renuncia ao fardo da liberdade. A preguiça intelectual é o motor primário dessa reincidência nos erros, uma força centrípeta que puxa a mente de volta para o caminho mais fácil, mesmo que este se revele destrutivo no longo prazo. Tal como no livro “O Valor do Amanhã”, de autoria de Eduardo Giannetti, o indivíduo estabelece uma taxa de desconto temporal altíssima sobre o futuro, preferindo o conforto imediato do presente à exigência do esforço sustentado. A preguiça não é apenas a aversão ao trabalho físico; é, sobretudo, a aversão ao trabalho de pensar, de confrontar o contraditório, de realizar a autocrítica e de assumir as consequências de uma escolha verdadeiramente livre.
O ser humano é reincidente nos erros não por falta de dados - jamais tivemos tanto feedback sobre nossos hábitos - mas porque a superação do erro exige a ação no sentido arendtiano, um novo começo que quebra a inércia. Hannah Arendt, filósofa política alemã-americana, estabelece a distinção clássica entre três formas de vida ativa: trabalho de subsistência, criação de coisas duradouras e interação política e social. A catástrofe, neste contexto, seria a vitória do trabalho de subsistência e a extinção da interação política e social. É muito mais simples para a mente viciada na menoridade ceder à tentação do determinismo, ao vitimismo ou à busca por um bode expiatório externo, do que aceitar a responsabilidade kantiana por sua própria condição. O tabagista reincidente não falha por ignorar os malefícios, mas porque a covardia de enfrentar a dor da abstinência (o sacrifício do presente) o faz retornar ao prazer imediato, terceirizando o custo para seu futuro organismo. O caminho mais fácil é o caminho da reiteração, da familiaridade e da ausência de atrito cognitivo. A preguiça cria, então, um sistema de tutela autoimposta. Na sociedade contemporânea, esse sistema se manifesta de forma sofisticada através da automação do julgamento. A IA e os sistemas preditivos, que são ferramentas de extraordinário potencial, são frequentemente utilizados pela massa como muletas cognitivas. O motor de busca, que deveria ser a bússola do conhecimento, torna-se o oráculo da opinião, oferecendo respostas prontas que poupam o usuário do esforço de filtrar, sintetizar e, mais importante, duvidar. O resultado é a proliferação da opinião polarizada, onde o indivíduo não constrói sua crença através do raciocínio crítico, mas a importa pronta de sua bolha digital, porque é mais fácil pertencer do que questionar.
A persistência nos erros, que é a segunda face da indolência, é um tema que também se conecta profundamente com a crítica de Richard Sennett (sociólogo americano, cuja obra “O Artífice” enfatiza a ética do trabalho bem-feito). Sennett argumenta que a habilidade, o fazer bem-feito por amor à obra, só se desenvolve através da repetição ritualística e do confronto com a dificuldade do material. A mente preguiçosa, no entanto, busca a solução instantânea e a gratificação imediata, evitando a lenta e dolorosa capacitação que Giannetti e Sennett descrevem. O artífice representa a mente que escolheu a maioridade kantiana no domínio da técnica - a coragem de errar, repetir e, assim, dominar. A mente indolente, ao contrário, desiste ao primeiro atrito, trocando o domínio duradouro pela satisfação efêmera e frágil. No plano social e político, a preguiça e a covardia desmantelam a ação arendtiana (a interação discursiva que revela a identidade). Assumir uma posição pública, iniciar um novo começo, requer coragem moral para enfrentar a oposição e o risco do fracasso. A mente indolente e covarde prefere a invisibilidade segura das massas ou o anonimato vingativo das redes. A cultura do cancelamento, em sua forma mais tóxica, é a manifestação da aversão à ação genuína: é mais fácil destruir o caráter de alguém com a tutela da turba online do que construir um argumento lógico e sustentado que exija o trabalho árduo da persuasão racional. O resultado é um esvaziamento do espaço público, substituído por um palco de conformidade onde a liberdade de expressão é trocada pela segurança da opinião pré-digerida.
O caminho mais fácil se revela, assim, o caminho mais custoso para a humanidade. A facilidade do presente, comprada à vista pela indolência da razão, é paga a prazo com a dependência crônica e a obsolescência da autonomia. Um exemplo vivo da maioridade kantiana em ação trata da IA, como ferramenta, utilizada para facilitar a resolução e a coragem de estruturar o pensamento, e não para poupar do ato de conceber. A máquina agiliza o processo, mas a intenção e a crítica permanecem firmemente no domínio humano. A superação dessa tirania da indolência não virá de novas leis ou de avanços tecnológicos adicionais, mas de uma revolução na vontade moral. A humanidade precisa urgentemente internalizar o imperativo de Kant: Ouse Saber. O preço da liberdade é o esforço contínuo para utilizarmos nosso próprio entendimento. A tragédia persistente do ser humano é que, apesar de deter o potencial para a sabedoria e a autonomia, ele consistentemente escolhe o caminho da menoridade, preferindo a doce e perigosa ilusão de que alguém, ou algo, pensará por ele. A catástrofe moral está em perceber que, no auge da nossa capacidade tecnológica, escolhemos ser, por preguiça, menos do que poderíamos ser. O foco está na preguiça e na covardia como catalisadores da autodegradação humana na era da facilidade. Enfim, o ditado "faça amanhã o que poderia fazer hoje" foi substituído por "não use o cérebro porque um AI pode usar por você".

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