quinta-feira, 30 de outubro de 2025

AUTONOMIA NEURAL: TEMOS NEURÔNIOS "FORA DA CABEÇA"? A REDEFINIÇÃO DA NEUROFISIOLOGIA.


 

Autonomia Neural e o Poder de Decisão nos Órgãos Periféricos

Por Heitor Jorge Lau

            A concepção tradicional da neurofisiologia humana frequentemente postula uma hierarquia rígida, na qual o Sistema Nervoso Central (SNC), composto pelo encéfalo e pela medula espinhal, detém o monopólio do processamento de informações complexas, da elaboração de comandos motores e, primariamente, da capacidade de "tomar decisões". No entanto, uma análise mais aprofundada da biologia neural revela a existência de redes neuronais substanciais em órgãos extra-cerebrais, que não apenas executam ordens, mas também manifestam uma notável autonomia, operando reflexos e circuitos integrativos de forma local e, por vezes, independente da intervenção imediata do cérebro. Este fenômeno exige uma reavaliação do que se entende por "comando" e "decisão" no contexto biológico, deslocando o centro da neurocomputação de um único ponto central para uma rede distribuída pelo organismo.

            O principal e mais eloquente exemplo dessa autonomia neural periférica reside no Sistema Nervoso Entérico (SNE), frequentemente apelidado de "o segundo cérebro". Localizado no trato gastrointestinal, ou seja, no tubo que se estende do esôfago ao reto, o SNE é uma das maiores e mais complexas coleções de neurônios fora do SNC, abrigando uma população celular estimada em cerca de 100 milhões de neurônios. Essa vasta rede é organizada em dois plexos principais: o Plexo Mioentérico, situado entre as camadas musculares (camada longitudinal e circular) do intestino, responsável principalmente pelo controle da motilidade, o movimento muscular que impulsiona o alimento (peristalse); e o plexo submucoso, localizado na camada submucosa da parede intestinal, que regula a secreção de fluidos e o fluxo sanguíneo local.

            A importância central do SNE reside na sua capacidade de exercer as três funções primárias do sistema nervoso - sensitiva, integrativa e motora - de maneira intrínseca, ou seja, dentro de si mesmo. Os neurônios sensoriais do SNE monitoram o ambiente interno, como o grau de estiramento da parede intestinal devido à presença de alimento (estímulo mecânico) e a composição química do conteúdo luminal (estímulo químico). Essa informação é, então, processada pelos interneurônios do SNE, que agem como centros de processamento local. É aqui que reside a capacidade de "tomada de decisão" autônoma: o SNE integra esses sinais, avaliando o volume, a acidez e a natureza do quimo (a massa de alimento parcialmente digerido) e determina a resposta mais apropriada.

            Essa decisão local se manifesta através dos neurônios motores do SNE, que enviam comandos eferentes (de saída) para as células efetoras. As células efetoras são um tipo de célula do sistema imunológico que desempenham um papel crucial na resposta imune adaptativa. Elas são derivadas de células T e B ativadas e são responsáveis por eliminar patógenos, como vírus e bactérias, que invadem o organismo. O reflexo da peristalse é o mecanismo clássico dessa autonomia. Quando o SNE detecta quimo em um segmento do intestino, ele decide iniciar um reflexo curto: estimula os músculos circulares a se contraírem no segmento anterior (oral) ao bolo alimentar e, simultaneamente, estimula o relaxamento dos músculos no segmento posterior (anal), gerando a onda propulsora. Crucialmente, esse reflexo pode ocorrer mesmo que todas as conexões nervosas extrínsecas (os nervos que o ligam ao cérebro e à medula espinhal) sejam seccionadas, evidenciando uma verdadeira autonomia funcional. Portanto, o SNE decide a velocidade, a força e a coordenação dos movimentos intestinais sem a necessidade de um comando direto do encéfalo.

            Embora o SNE seja o exemplo mais proeminente, a autonomia neural estende-se a outros órgãos vitais. O coração, por exemplo, possui seu próprio Sistema Nervoso Cardíaco Intrínseco, uma rede neural que compreende gânglios (agrupamentos de corpos celulares de neurônios) localizados principalmente na base do coração. Esta rede não é o motor primário do batimento (função exercida pelo nó sinoatrial, que é miogênico, ou seja, gerado pelo próprio músculo), mas é fundamental para modular o ritmo cardíaco. Os neurônios intrínsecos recebem informações sensoriais sobre a pressão e o fluxo sanguíneo local e agem como um centro integrativo para ajustar finamente a frequência e a força de contração.

            Enquanto o SNC, através do Sistema Nervoso Autônomo (SNA), envia comandos moduladores de aceleração (via divisão simpática, ligada à "luta ou fuga") ou de desaceleração (via divisão parassimpática, ligada ao "repouso e digestão"), o sistema intrínseco do coração interpreta e refina esses comandos em tempo real, baseando-se nas necessidades momentâneas do músculo cardíaco. Em um cenário de intensa demanda física, o cérebro envia o sinal de "acelerar", mas a rede neural do coração garante que o ajuste seja feito de maneira otimizada e coordenada em todas as câmaras do órgão. Assim, podemos dizer que a decisão de como o músculo cardíaco deve responder ao comando central é integrada e refinada localmente.

            A distinção entre os neurônios do SNE e de outros gânglios autônomos e os neurônios do cérebro reside na natureza de suas decisões. No encéfalo, a integração complexa de informações leva à cognição, consciência e intenção. As decisões do cérebro são de natureza estratégica, como "mover o braço" ou "interpretar um poema". Em contraste, as decisões dos neurônios periféricos são de natureza homeostática e reflexa. Elas são comandos táticos, focados na manutenção do ambiente interno (homeostase), como "aumentar a secreção de ácido gástrico" ou "contrair o esfíncter".

            O SNE, em particular, demonstra essa sofisticação tática ao lidar com desafios como a defesa imunológica. Cerca de 70% do sistema imunológico do corpo está localizado em torno do trato gastrointestinal. O SNE não só controla a motilidade e a secreção, mas também interage intensamente com as células imunes. Quando uma toxina ou patógeno é detectado, os neurônios entéricos podem iniciar reflexos extremos de "decisão" local, como o vômito ou a diarreia rápida, para expulsar a ameaça. Essa reação é um circuito de comando rápido, integrado no SNE, que muitas vezes precede ou atua em paralelo com o reconhecimento pelo SNC, ilustrando uma prioridade de comando de sobrevivência implementada localmente.

            Essa relação entre o sistema nervoso central e o periférico não é de mestre e servo, mas sim de uma colaboração moduladora, conhecida como o eixo intestino-cérebro. Os neurônios entéricos produzem a maioria da serotonina corporal (um neurotransmissor, substância química que transmite sinais entre os neurônios), que afeta tanto o movimento intestinal (motilidade) quanto o bem-estar emocional (humor), ligando fisiologicamente a saúde digestiva ao estado mental. O nervo vago, um grande nervo parassimpático, atua como a principal "rodovia" de informação, enviando sinais aferentes (sensoriais, de entrada) do SNE para o tronco encefálico (a parte do cérebro que se conecta à medula) e sinais eferentes (motores, de saída) do cérebro para o SNE.

            Portanto, a presença de neurônios em órgãos como o intestino e o coração redefine o conceito de sistema nervoso. O organismo humano não é regido por uma única central de comando, mas por múltiplos centros de processamento que variam em complexidade e grau de consciência. A capacidade desses neurônios periféricos de integrar informações sensoriais, processar a resposta mais adequada e emitir comandos para células efetoras (como músculos e glândulas) confere-lhes uma forma de "tomada de decisão" essencial para a sobrevivência. Essa autonomia neural garante que funções vitais e incessantes, como a digestão e a regulação cardíaca, possam prosseguir de forma eficiente e adaptativa, sem a necessidade de um engajamento consciente e constante do cérebro. A neurociência moderna, ao reconhecer e estudar essa rede distribuída, avança para uma visão mais holística e integrada do controle fisiológico. Enfim, é possível afirmar que o ser humano possuí apenas uma cabeça...contudo, muitos “cérebros”.

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