Sociologia acessível, filosofia existencial, antropologia cultural, psicologia simbólica
domingo, 11 de outubro de 2026
sábado, 10 de outubro de 2026
POR QUE ACREDITAMOS EM COISAS ESTRANHAS?
POR QUE
ACREDITAMOS EM COISAS ESTRANHAS?
por Heitor Jorge Lau
Conheço
quem deixe o registro da água meio aberto "para poupar água". Conheço
quem coloque garrafas PET no medidor de energia elétrica "para economizar
luz". Já vi garrafas com água espalhadas pelo pátio, e nem perguntei por
quê. E conheço quem lave o cabelo o mínimo possível porque "estraga os
fios". Todas essas pessoas têm algo em comum: acreditam de verdade no que
fazem.
A lista é
longa. Tem gente que desliga a geladeira à noite para gastar menos, enquanto o
motor trabalha mais para esfriar tudo de novo. Tem quem passe pasta de dente na
queimadura, pó de café na ferida ou coloque uma faca embaixo do travesseiro.
Tem quem jure que manga com leite faz mal e que deixar o celular carregando a
noite toda estraga a bateria (o que valia para aparelhos antigos, não para os
de hoje).
Por que
isso pega? Quase nunca é falta de inteligência. É uma lógica intuitiva
incompleta. Se passa menos água pelo registro, gasta-se menos, parece óbvio. Só
que o hidrômetro mede volume: para encher o mesmo balde, a conta será a mesma,
mais devagar ou mais depressa. A garrafa no medidor também ilude, porque ele
apenas mede a corrente que passa pelos fios, e nenhuma garrafa muda isso.
Há ainda a
prova que parece prova. A pessoa pôs a garrafa, a conta veio mais baixa e
pronto, funcionou. Ela não considera o clima, a viagem da família, o chuveiro
desligado. E se a conta sobe, a culpa é de outra coisa. Quando dá certo, o
mérito é da crença; quando dá errado, nunca é dela. Muitas dessas ideias também
carregam um grão de verdade. Xampu em excesso pode ressecar o cabelo, e daí a
crença exagera até "lavar estraga". É esse pedaço de verdade que a
torna tão difícil de derrubar.
E o mais
curioso: se alguém que entende do assunto explica o contrário, a pessoa muitas
vezes nem ouve. A crença deixou de ser opinião e virou identidade. Ela é
"aquela que economiza", "aquele que entende de cabelo".
Admitir o erro é admitir que passou anos enganada, e ninguém gosta disso. Além
do mais, o "eu vi com meus olhos" pesa mais do que qualquer estudo. E
o especialista, às vezes, fala de cima para baixo, com arrogância e jargão, o
que faz a pessoa defender o território em vez de pensar no argumento. Acreditar
na bobagem não custa nada. Rever a crença custa reconhecer o erro e recomeçar.
Mas antes
que alguém ria dos outros, vale a pergunta: e as minhas crenças? Quem nunca
colocou garrafa em medidor também carrega as suas, do seu jeito. Aquela certeza
que nunca testou, aquela verdade herdada de alguém confiável, aquela convicção
da qual não abre mão nem diante de bons argumentos... e isso vale para crenças
de todo tipo, das domésticas às ideológicas. As nossas sempre nos parecem
razoáveis, por definição.
No fim, o
que separa quem muda de ideia de quem não muda não é a inteligência. É a
disposição de testar e de aceitar ser corrigido sem se sentir humilhado ou
desmerecido.
A CURIOSIDADE DA CRIANÇA DE HOJE, É O PENSAMENTO CRÍTICO DO ADULTO DE AMANHÃ.
A CURIOSIDADE DA CRIANÇA DE HOJE,
É O PENSAMENTO CRÍTICO DO ADULTO DE AMANHÃ.
por Heitor Jorge Lau
Há iniciativas educacionais que
merecem ser observadas para além dos resultados imediatos que apresentam, pois
seus maiores efeitos não aparecem necessariamente nas avaliações escolares, nos
certificados recebidos ou nos números divulgados pelas instituições. Seus
frutos se manifestam silenciosamente, ao longo dos anos, na maneira como uma
criança aprende a observar o mundo, formular perguntas, lidar com as próprias
dúvidas e construir explicações para aquilo que ainda não compreende. A Feira
de Ciências — Inovação e Sustentabilidade da Universidade de Santa Cruz do Sul
(Unisc), ao selecionar 120 trabalhos desenvolvidos por estudantes de diferentes
etapas da educação, representa uma oportunidade de refletir sobre a importância
dessas experiências para a formação intelectual e humana das novas gerações.
Quando uma criança começa a
investigar um fenômeno, seja ele relacionado à natureza, à tecnologia ou aos
desafios da vida cotidiana, alguma coisa importante acontece em sua maneira de
pensar. O mundo deixa de ser apenas um conjunto de coisas prontas, cujos
significados são apresentados pelos adultos, e passa a se transformar em um
território de descobertas. Uma planta que cresce em determinadas condições, a
água que se modifica conforme a temperatura, o comportamento de pequenos
animais ou o funcionamento de um objeto comum podem despertar perguntas que
conduzem a novas observações. Nesse movimento, a criança começa a compreender
que conhecer não significa apenas receber informações, mas também investigar,
comparar, experimentar e procurar explicações consistentes para aquilo que
desperta sua curiosidade.
Esse processo guarda uma analogia
interessante com o próprio desenvolvimento infantil. Assim como o corpo cresce
por meio de transformações sucessivas, a mente também amplia suas capacidades à
medida que encontra experiências que a desafiam. Uma criança que recebe
respostas prontas para todas as perguntas pode acumular informações sem
necessariamente aprender a examiná-las. Em contrapartida, aquela que é
estimulada a investigar desenvolve uma relação mais ativa com o conhecimento.
Aprende que uma dúvida não representa uma deficiência, mas o ponto de partida
de uma descoberta... que uma hipótese pode ser modificada diante de novas
evidências... e que reconhecer um erro constitui uma oportunidade de
aprendizagem, não um motivo para constrangimento.
É exatamente nessa passagem entre a
curiosidade espontânea e a investigação organizada que iniciativas como as
feiras de ciências adquirem um valor extraordinário. Ao transformar uma
pergunta em um projeto, o estudante precisa organizar ideias, estabelecer
objetivos, selecionar materiais, observar resultados e encontrar uma maneira de
comunicar aquilo que descobriu. Mesmo quando o trabalho é simples, essas etapas
mobilizam capacidades que ultrapassam os limites de uma disciplina escolar. A
criança exercita a atenção, a memória, o raciocínio lógico, a criatividade e a
persistência, enquanto aprende a estabelecer relações entre diferentes
informações. Mais do que reproduzir um conteúdo apresentado em sala de aula,
ela começa a experimentar o significado de produzir conhecimento.
Existe ainda uma dimensão
particularmente relevante nessa experiência: a necessidade de explicar o
próprio trabalho a outras pessoas. Quando um estudante apresenta sua pesquisa
diante de colegas, professores, avaliadores ou visitantes, precisa organizar o
pensamento para torná-lo compreensível. É nesse momento que a aprendizagem
individual encontra a dimensão social do conhecimento. Ao ouvir perguntas,
receber observações e confrontar interpretações diferentes, a criança descobre
que suas ideias podem ser examinadas, aperfeiçoadas e enriquecidas pelo
diálogo. Desenvolve, assim, não apenas a capacidade de argumentar, mas também a
disposição para escutar, reconhecer limites e considerar perspectivas que não
havia percebido anteriormente.
Essas experiências são especialmente
importantes durante a pré-adolescência, período em que o jovem amplia
progressivamente sua capacidade de abstração, começa a questionar explicações
antes aceitas sem resistência e procura compreender melhor o próprio lugar no
mundo. O pensamento crítico não surge automaticamente com a idade, assim como a
maturidade intelectual não decorre exclusivamente da quantidade de informações
acumuladas. Ambos dependem, em boa medida, das oportunidades de exercitar o
raciocínio, enfrentar problemas, sustentar argumentos e rever conclusões. Uma
escola que abre espaço para a investigação oferece ao estudante condições para
experimentar essas capacidades em desenvolvimento, respeitando seu ritmo e
incentivando sua autonomia.
Há também uma contribuição
importante para a formação emocional. Desenvolver um projeto exige lidar com
dificuldades, resultados inesperados, limitações de materiais e momentos em que
as coisas não funcionam como foram planejadas. A criança aprende, na prática,
que nem todo esforço produz imediatamente o resultado esperado e que a
persistência precisa caminhar junto com a capacidade de modificar estratégias.
Essa aprendizagem fortalece a confiança baseada na experiência, diferente
daquela sustentada apenas por elogios. O estudante passa a reconhecer que é
capaz de enfrentar desafios, procurar alternativas e continuar aprendendo mesmo
quando o caminho se mostra mais difícil do que imaginava.
No atual modelo de sociedade, marcada
pela circulação acelerada de informações, essa formação assume uma importância
ainda maior. Crianças e adolescentes entram em contato diariamente com
afirmações, imagens, vídeos e explicações que disputam sua atenção, nem sempre
acompanhados de evidências confiáveis. Aprender a pensar criticamente significa
desenvolver a capacidade de perguntar de onde vem uma informação, quais
elementos sustentam determinada afirmação, se existem explicações alternativas
e quais interesses podem estar envolvidos em sua divulgação. Uma feira de
ciências, evidentemente, não resolve sozinha os desafios da desinformação, mas
contribui para construir uma disposição intelectual indispensável: a de não
confundir uma afirmação convincente com uma afirmação comprovada.
A sustentabilidade, presente no nome
da iniciativa da Unisc, acrescenta outra dimensão a essa reflexão. Investigar
questões ambientais pode ajudar o estudante a compreender que os fenômenos
naturais não existem isoladamente e que as ações humanas produzem consequências
que ultrapassam o momento e o lugar em que ocorrem. Ao estudar o solo, a água,
a vegetação, os resíduos ou as relações entre os seres vivos, a criança
encontra oportunidades de relacionar conhecimento científico e responsabilidade
coletiva. A natureza deixa de ser apenas um cenário observado à distância e
passa a ser compreendida como um sistema do qual fazemos parte, cuja
preservação depende de escolhas fundamentadas e de uma percepção mais ampla das
relações entre sociedade e ambiente.
Naturalmente, não se deve esperar
que toda criança participante de uma feira científica se transforme em
pesquisadora ou cientista. O valor dessas experiências não está em antecipar
uma profissão, mas em ampliar as possibilidades de desenvolvimento de cada
estudante. Mesmo aquele que seguirá caminhos inteiramente diferentes poderá
levar consigo a capacidade de investigar problemas, avaliar argumentos,
reconhecer informações frágeis e tomar decisões com maior consciência. São
habilidades que encontram aplicação na vida profissional, nas relações sociais,
no exercício da cidadania e na maneira como cada pessoa interpreta a realidade.
Portanto, os 120 trabalhos
selecionados pela Feira de Ciências — Inovação e Sustentabilidade não
representam meramente uma coleção de pesquisas escolares. Representam também
120 oportunidades de exercitar a curiosidade, estimular a autonomia intelectual
e mostrar às novas gerações que o conhecimento é uma construção permanente.
Naturalmente, os resultados mais profundos desse processo não podem ser medidos
apenas pelo número de projetos apresentados ou pelas classificações obtidas.
Eles dependem da continuidade dessas experiências, da qualidade da orientação
oferecida e da disposição das instituições educacionais para preservar espaços
nos quais perguntar, experimentar e pensar sejam atividades tão valorizadas
quanto memorizar conteúdos.
Uma sociedade que deseja cidadãos
mais conscientes, críticos e reflexivos deveria estimular mentes pensantes muito
antes da idade adulta. Precisa oferecer às crianças oportunidades para
descobrir que a realidade pode ser examinada, que as ideias podem ser
questionadas e que compreender um problema exige mais do que aceitar a primeira
resposta disponível. A mente crítica não nasce pronta: desenvolve-se por meio
de estímulos, experiências, diálogos e desafios que ensinam o indivíduo a
pensar por conta própria sem desprezar o conhecimento construído pelos outros.
O maior mérito de uma iniciativa
como essa está naquilo que não aparece nas fotografias, nos painéis ou nas
apresentações: a transformação silenciosa que ocorre quando uma criança percebe
que é capaz de formular uma pergunta relevante e procurar, com os próprios
recursos e a orientação necessária, uma resposta fundamentada. Nesse instante,
não está apenas aprendendo ciências. Está descobrindo uma maneira de se
relacionar com o mundo, com as outras pessoas e consigo mesma.
Investir na curiosidade infantil
é investir na qualidade do pensamento que acompanhará essa criança durante toda
a vida. E uma educação que ensina a perguntar, investigar e refletir oferece
algo que ultrapassa qualquer resultado escolar imediato: as condições para que
o conhecimento deixe de ser uma coleção de respostas decoradas e se transforme
em instrumento de compreensão, autonomia e liberdade intelectual.
quinta-feira, 8 de outubro de 2026
QUANTA INFORMAÇÃO A MENTE CONSEGUE ARMAZENAR?
"O
SENHOR ACHA QUE SABE TUDO?"
A RESPOSTA HONESTA
É: QUASE NADA
por Heitor Jorge Lau
Numa certa
noite, durante uma palestra que eu ministrava para acadêmicos de um curso
superior, uma aluna me interrompeu com uma pergunta em tom provocativo. Ela
claramente não estava gostando da minha fala. Perguntou: "O senhor acha
que sabe tudo?" Respondi: "Eu praticamente sei quase nada."
Pode
parecer modéstia, ou até uma resposta para encerrar a discussão. Não era! Era
uma constatação, e hoje a ciência ajuda a mostrar o quanto ela é verdadeira,
para mim, para você e para qualquer ser humano que já passou por este planeta.
Para
entender o tamanho dessa conta, precisamos de uma régua. Os computadores medem
informação em bytes, e dá para imaginar essas medidas como uma grande
biblioteca. Um byte é uma única letra de um texto. Mil letras, mais ou menos
uma página, formam um kilobyte. Mil páginas, o equivalente a um livro inteiro,
formam um megabyte. Mil livros, o acervo de uma boa biblioteca de escola,
formam um gigabyte. Mil gigabytes, ou um milhão de livros, formam um terabyte,
o tamanho de uma grande biblioteca pública. E mil dessas grandes bibliotecas
formam um petabyte.
Agora vem o
salto. Mil petabytes formam um exabyte, e mil exabytes formam um zettabyte. Ou
seja, um zettabyte equivale a um milhão de petabytes, algo como um bilhão de
grandes bibliotecas. É uma quantidade tão grande que o nosso cérebro,
acostumado a contar o que cabe numa mesa ou numa estante, simplesmente não
consegue imaginar.
Agora, os
números. Os pesquisadores ainda discutem quanto o cérebro humano consegue
armazenar. Algumas estimativas falam em capacidade teórica de 1 a 2,5
petabytes: seria como carregar dentro da cabeça mil ou duas mil e quinhentas
dessas bibliotecas gigantes. Já estudos de psicologia que medem o que uma
pessoa realmente retém ao longo da vida chegam a valores muito menores, algo
como a informação de algumas centenas de livros. A diferença está entre o que o
cérebro poderia guardar e o que ele de fato guarda.
Agora olhe
para o outro lado da balança. A humanidade já produziu algumas centenas de
zettabytes de dados, e a conta cresce a cada dia. Em bibliotecas, seriam
centenas de bilhões. Mesmo na hipótese mais generosa, aquela em que o cérebro
estivesse completamente cheio, tudo o que um ser humano consegue saber
representa cerca de 0,0000005% de tudo o que existe, ou menos. É como levar
algumas gotas d'água até uma piscina enorme e dizer que conhece a piscina.
E tem mais
um detalhe: nem tudo o que guardamos está guardado direito. A memória não
funciona como um arquivo de computador. Ela é reconstruída a cada vez que a
acessamos, e por isso muda, se mistura e, às vezes, falha. Guardamos o que tem
emoção, repetição ou utilidade, e o resto se perde pelo caminho. Esquecer,
afinal, faz parte do funcionamento normal do cérebro.
Isso me faz
lembrar de uma frase atribuída a Sócrates: "Só sei que nada sei." Ele
não estava dizendo que era ignorante. Estava dizendo que quem enxerga o tamanho
do que não sabe fica livre para continuar aprendendo. Quem acha que já sabe
tudo para de perguntar, e quem para de perguntar para de crescer (para não
dizer outra coisa).
Talvez seja
por isso que o conhecimento de verdade não se mede em quantidade. O que faz
diferença é a qualidade das conexões que fazemos entre as poucas coisas que
sabemos: a capacidade de comparar, duvidar, ligar um assunto a outro e mudar de
ideia quando aparecem bons argumentos. É daí que nascem a compreensão, o bom
senso e a criatividade. Saber muito importa menos do que saber o que fazer com
o que se sabe.
Aquela
aluna me fez uma pergunta provocativa, e eu agradeço a ela até hoje, porque me
obrigou a dizer em voz alta algo que todos nós deveríamos lembrar com mais
frequência: diante do tamanho do mundo, somos eternos aprendizes, e não há
vergonha nenhuma nisso.
E você,
quanto acha que sabe?
HIPERTIMESIA - O DRAMA DE QUEM NÃO CONSEGUE ESQUECER
LEMBRAR DE TUDO:
DOM OU MALDIÇÃO?
O DRAMA DE QUEM
NÃO CONSEGUE ESQUECER
Por Heitor Jorge Lau
Imagine
acordar e saber, sem esforço, o que você almoçou em 14 de março de 2009, como
estava o clima naquele dia, qual música tocava no rádio e o que você sentiu
durante a tarde. Para a maioria de nós, isso soa como superpoder. Para quem
vive com HIPERTIMESIA, é só o funcionamento normal da própria cabeça.
O termo
surgiu em 2006, quando pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Irvine,
estudaram o caso de uma mulher que se tornou conhecida como Jill Price. Ela
procurou os cientistas porque se lembrava de praticamente todos os dias da vida
adulta, e essa lembrança vinha em forma de cena, como um filme que nunca para
de rodar ao fundo. Daí o nome, que une o prefixo grego que indica excesso à
palavra que significa "lembrar". Anos depois, a ciência passou a
chamar o fenômeno também de Memória Autobiográfica Altamente Superior. É
uma condição rara, com poucas dezenas de casos confirmados no mundo, entre eles
o da atriz norte-americana Marilu Henner.
Aqui vale
desfazer um mal-entendido comum. Hipertimesia não é memória fotográfica. Essas
pessoas não decoram uma lista de compras, um número de telefone ou um capítulo
de livro com mais facilidade que ninguém. Em testes de laboratório com listas
de palavras, por exemplo, costumam ir tão bem quanto qualquer pessoa. O que
elas têm de extraordinário é a memória da própria vida: datas, lugares,
conversas, acontecimentos e, principalmente, a sensação de ter estado ali. Se
você perguntar o que aconteceu em uma data qualquer de anos atrás, a resposta
vem quase instantânea e com uma riqueza de detalhes que parece inventada.
Os estudos
de imagem cerebral mostram diferenças em regiões ligadas à memória e à
organização das lembranças, além de uma comunicação mais intensa entre elas.
Mas ninguém sabe ao certo por que isso acontece. Alguns pesquisadores observam
que muitas dessas pessoas têm o hábito de revisitar o próprio passado o tempo
todo, e isso levanta uma pergunta curiosa: elas lembram mais porque o cérebro é
diferente, ou o cérebro é diferente porque elas lembram o tempo todo? A
resposta ainda está em aberto.
Então, o
que há de bom nisso? Muita coisa, para começar pelo lado humano. Quem tem Hipertimesia
carrega uma biografia viva. Os momentos felizes, como um aniversário, uma
viagem, o rosto de alguém querido, podem ser revividos com uma nitidez que a
maioria de nós só encontra em fotografias desbotadas. Nomes, datas e conversas
importantes dificilmente se perdem, e isso cria uma sensação rara de
continuidade: a vida inteira ao alcance, sem lacunas. Para a ciência, esses
casos são um tesouro. Entender como alguns cérebros guardam o passado com tanta
precisão pode ajudar a compreender melhor a memória humana e, quem sabe, abrir
caminhos para pesquisas sobre doenças como o Alzheimer, em que justamente a
memória se desfaz.
Só que a
mesma moeda tem outro lado, e é ele que costuma pesar mais. Quem lembra de tudo
lembra de tudo, inclusive do que gostaria de esquecer. Os vexames, as perdas,
as despedidas, as palavras duras ditas ou ouvidas ficam guardados com a mesma
clareza das alegrias. Os relatos dessas pessoas apontam uma dificuldade real de
virar a página, porque o passado não esmaece com o tempo: ele volta como se
fosse hoje. As lembranças surgem sozinhas, sem convite, e o cansaço mental pode
ser grande. Pessoas com essa condição contam que a memória é, ao mesmo tempo, o
maior tesouro e o maior fardo que carregam.
E há um
detalhe que desmonta a ideia de infalibilidade: a memória delas também pode
errar. Pesquisas indicam que pessoas com Hipertimesia continuam suscetíveis a
falsas memórias, assim como todos nós. Lembrar com muita convicção e muita
riqueza de detalhes não significa lembrar de forma correta. A lembrança
continua sendo uma reconstrução do cérebro, e não um arquivo de vídeo guardado
intacto.
Essa
história lembra um conto famoso do escritor argentino Jorge Luis Borges, “Funes,
o Memorioso”, sobre um homem que, depois de um acidente, passa a lembrar
absolutamente tudo. Funes recorda cada folha de cada árvore, cada nuvem em cada
instante, e justamente por isso não consegue pensar. Pensar, dizia Borges, é
esquecer diferenças, generalizar, abstrair... Sem esquecer, não há ideias, só
lembranças soltas, infinitas e esmagadoras. A ficção exagera, claro, mas a
intuição é poderosa.
No fundo, a
Hipertimesia nos obriga a rever o que pensamos sobre o esquecimento. Costumamos
tratá-lo como falha, como o defeito do cérebro que nos faz perder a chave ou o
nome daquela pessoa. Mas o esquecimento também é uma função. É ele que suaviza
a dor, que nos permite perdoar, que dá espaço ao novo e que transforma o que
vivemos em aprendizado, em vez de arquivo morto. Esquecer é, em muitos
sentidos, uma forma de cuidar de si. Enfim... a pergunta mais importante na
vida pode não ser: "como lembrar mais?", mas "o que vale a pena
guardar?".
E você? Se
pudesse escolher, trocaria a sua memória pela de quem não esquece nada, ou
agradeceria por poder esquecer?
quarta-feira, 7 de outubro de 2026
ATINGIR A META NÃO É PRODUZIR RESULTADO
ATINGIR A META NÃO
É PRODUZIR RESULTADO
por Heitor Jorge Lau
Há uma
ideia bastante difundida no mundo corporativo de que toda organização precisa
estabelecer metas para que seus profissionais saibam exatamente o que se espera
deles. A afirmação parece tão lógica que raramente alguém se dispõe a
questioná-la. Afinal, como administrar uma empresa sem objetivos, sem
indicadores e sem saber onde se pretende chegar? O problema começa quando
confundimos a necessidade de uma organização possuir uma direção com a
necessidade de transformar cada trabalhador em responsável por atingir números
individualizados. Uma empresa precisa saber para onde está indo. Outra coisa,
completamente diferente, é fazer com que cada pessoa passe a enxergar o próprio
trabalho como uma corrida permanente contra um indicador.
Durante
minha experiência profissional, presenciei situações que demonstram como esse
mecanismo pode produzir resultados completamente diferentes daqueles imaginados
por quem criou a meta. Trabalhadores inventando vendas para alcançar
determinado número, gerentes de conta solicitando a contratação de seguros que
seriam cancelados poucos dias depois, vendedores combinando com clientes a
aquisição de quantidades de produtos no último dia do período de apuração,
sabendo que os pedidos seriam cancelados no dia seguinte. Na aparência, os
indicadores apresentavam um excelente resultado. No mundo real, porém, parte
daquele resultado simplesmente não existia.
É
importante perceber que o problema não está necessariamente no trabalhador.
Quando uma organização estabelece que determinada remuneração, reconhecimento
ou permanência está condicionada ao atingimento de um número, ela cria um
poderoso incentivo para que o profissional concentre sua inteligência na
obtenção daquele número. Se o sistema permite que uma venda fictícia, uma
contratação temporária ou um pedido que será posteriormente cancelado produza o
mesmo efeito, para fins de avaliação, que uma venda verdadeira, sustentável e
economicamente saudável, o próprio sistema está ensinando as pessoas a
procurarem o caminho mais conveniente para alcançar a recompensa.
Nesse
momento acontece uma inversão silenciosa. A empresa imaginava que estava
utilizando a meta para estimular resultados, mas a meta começa a determinar o
comportamento. O trabalhador deixa de perguntar qual é a melhor maneira de
atender o cliente, ampliar o mercado ou contribuir para o crescimento da
organização. A pergunta passa a ser outra: o que preciso fazer para chegar ao
número antes do fechamento do período? E quando essa segunda pergunta se torna
mais importante do que a primeira, a criatividade deixa de trabalhar a favor da
organização e passa a trabalhar a favor do indicador.
Existe uma
diferença enorme entre perseguir um objetivo empresarial e perseguir uma meta
individual. O primeiro pressupõe um projeto coletivo. A empresa estabelece onde
deseja chegar e reúne pessoas, competências, conhecimentos e esforços
diferentes para alcançar esse destino. O segundo pode transformar colegas em
concorrentes, estimular a retenção de informações, provocar ansiedade e fazer
com que profissionais passem a administrar a própria imagem de desempenho em
vez de administrar o resultado real do trabalho. A organização pretende obter
cooperação, mas cria mecanismos que incentivam competição permanente.
O problema
se torna ainda mais grave quando o indicador escolhido é considerado uma
representação perfeita da realidade. Uma venda registrada no sistema é tratada
como resultado, mesmo quando o produto retorna. Um contrato assinado é
contabilizado como negócio, mesmo quando será cancelado. Uma determinada
quantidade comercializada aparece como crescimento, mesmo quando foi adquirida
apenas para permitir que alguém alcance uma bonificação. O sistema registra o
acontecimento, o relatório apresenta o número e todos podem comemorar. Só
depois aparece a realidade que o indicador não conseguiu enxergar.
Há ainda
uma ilusão gerencial particularmente perigosa: acreditar que o atingimento de
uma meta permite determinar quem é um profissional “bom” e quem é um
profissional “ruim”. O número passa a funcionar como uma espécie de termômetro
da competência humana. Quem supera a meta é considerado competente,
comprometido e produtivo; quem não alcança o número é rapidamente classificado
como alguém que precisa melhorar (ou ser demitido). O problema é que esse
raciocínio confunde desempenho mensurado com competência real. Uma pessoa pode
atingir sistematicamente suas metas porque trabalha em uma carteira de clientes
favorável, dispõe de melhores condições, recebe oportunidades que outros não
recebem ou simplesmente aprendeu a explorar as regras do sistema. Da mesma
forma, um profissional altamente competente pode apresentar resultados
inferiores em determinado período por atuar em condições mais difíceis,
desenvolver atividades cujo valor não aparece imediatamente nos indicadores ou
dedicar seu tempo a problemas que não cabem na planilha de avaliação.
Transformar
a meta em instrumento de medição da competência revela, em muitos casos, mais
sobre a pobreza dos mecanismos de avaliação da empresa do que sobre a
capacidade do trabalhador. Quando uma organização precisa de um único número
para decidir quem é bom ou ruim, produtivo ou improdutivo, competente ou
incompetente, ela pode estar apenas confessando que não desenvolveu
instrumentos suficientemente inteligentes para compreender o trabalho humano. É
mais fácil medir uma venda do que compreender a qualidade da relação construída
com o cliente; mais fácil contar contratos do que avaliar a capacidade de
resolver problemas; mais fácil comparar números do que compreender contextos. A
simplicidade do indicador cria a ilusão de precisão.
No fundo,
transformar metas individuais em termômetro de competência pode representar uma
forma de ineficácia gerencial. Em vez de compreender as diferentes
circunstâncias nas quais as pessoas trabalham, a organização escolhe um número,
coloca todos diante dele e chama isso de avaliação de desempenho. Depois se
surpreende quando os profissionais aprendem a trabalhar para o número.
Há
situações ainda mais perversas nessa lógica. Em determinada empresa, o
profissional realizava a venda, atingia a meta e, mesmo assim, não recebia
imediatamente a comissão correspondente. O pagamento somente era liberado depois
que a empresa tivesse certeza de que o cliente havia quitado a dívida, o que
poderia ocorrer 30, 60 ou 90 dias após. Na prática, o trabalhador realizava a
venda, cumpria aquilo que a organização havia estabelecido como objetivo e
ainda permanecia responsável pelo risco financeiro da operação. A empresa
transferia para o funcionário uma parcela de um risco que pertencia à própria
atividade empresarial. A meta era individual, a cobrança era individual, a
responsabilidade era individual, mas o risco era da empresa — até o momento em
que a empresa decidiu dividi-lo com o trabalhador. E pior: a empresa ainda ovacionou
o “cara” que criou essa barbaridade.
É
justamente aí que precisamos discutir uma das maiores ilusões da administração
contemporânea: acreditar que aquilo que pode ser medido necessariamente
representa aquilo que possui valor. Nem sempre representa. Existem resultados
que podem ser expressos em números com enorme facilidade e outros que são
fundamentais para uma organização, mas resistem à simplificação matemática.
Confiança do cliente, conhecimento acumulado, qualidade do relacionamento,
capacidade de solucionar problemas, cooperação entre profissionais,
criatividade, reputação e aprendizado organizacional dificilmente cabem em uma
planilha com a mesma precisão de uma quantidade vendida.
Quando a
remuneração passa a depender excessivamente de indicadores individuais, o
profissional também aprende uma lição bastante objetiva sobre o funcionamento
da empresa: aquilo que não entra na avaliação possui menor importância. E as
pessoas são extremamente capazes de compreender rapidamente quais
comportamentos são realmente recompensados, independentemente daquilo que
aparece nos discursos institucionais. A empresa pode falar em qualidade, ética,
relacionamento e sustentabilidade, mas, se o reconhecimento financeiro depende
exclusivamente de determinado número, será esse número que ocupará o centro da
atenção.
Isso
explica por que algumas metas aparentemente bem-intencionadas produzem
comportamentos que seus próprios gestores considerariam inadequados. Não é
necessário imaginar trabalhadores desonestos ou descomprometidos. Basta
compreender que pessoas respondem aos incentivos existentes no ambiente em que
trabalham. Se o sistema recompensa o número e não verifica adequadamente a
qualidade do resultado que produziu esse número, algumas pessoas encontrarão
maneiras de alcançar o indicador. E, quanto mais rígida for a cobrança, maior
será a pressão para encontrar essas maneiras.
Existe,
portanto, uma pergunta que todo gestor deveria fazer antes de estabelecer uma
meta individual: “Que comportamento estou incentivando ao criar esta regra?”. A
pergunta é muito mais importante do que simplesmente perguntar quanto cada
profissional deverá vender, produzir ou entregar. Porque uma meta não determina
apenas um resultado esperado. Ela também pode determinar comportamentos. E,
quando esses comportamentos são inadequados, a empresa acaba pagando duas
vezes: primeiro para incentivar o resultado artificial e depois para corrigir
os problemas provocados por ele.
Isso não
significa abandonar indicadores, planejamento ou objetivos. Uma organização sem
direção também produz desperdício. O ponto está em compreender que metas devem
servir à estratégia, e não substituir a estratégia. A empresa precisa saber
onde quer chegar, quais resultados pretende construir e como avaliar sua
evolução. Mas isso não exige necessariamente transformar cada trabalhador em
uma unidade isolada de produção, permanentemente comparada com os demais.
Talvez a
melhor pergunta não seja “quanto cada funcionário precisa entregar?”, mas “como
podemos fazer com que diferentes pessoas contribuam para que a organização
alcance aquilo que realmente importa?”. A diferença parece pequena, mas muda
completamente a lógica da gestão. Na primeira pergunta, o indivíduo está diante
de um número. Na segunda, está diante de um propósito coletivo. Quando o
indicador se torna o objetivo, o sistema começa a produzir pessoas
especialistas em atingir indicadores. Quando o objetivo permanece maior que o
indicador, o número volta a ocupar o lugar que deveria ter: o de instrumento de
acompanhamento.
Uma
organização inteligente não deveria comemorar apenas porque uma meta foi
atingida. Deveria perguntar o que aquele número representa quando retiramos
dele os pedidos cancelados, as vendas artificiais, os contratos que não
permaneceram, os comportamentos estimulados apenas pela bonificação e tudo
aquilo que existiu no relatório, mas não existiu verdadeiramente no resultado. Porque
existe uma diferença fundamental entre alcançar uma meta e produzir um
resultado. E uma empresa que não consegue distinguir as duas coisas corre o
risco de transformar seus melhores profissionais em excelentes fabricantes de
números.
terça-feira, 6 de outubro de 2026
QUANDO O VOTO DEIXA DE SER UMA ESCOLHA
QUANDO O VOTO
DEIXA DE SER UMA ESCOLHA
Estamos
elegendo um presidente
ou apenas elegendo
quem queremos que o outro lado não seja?
por Heitor Jorge Lau
A atual
conjuntura política brasileira produz uma situação que merece mais reflexão do
que paixão. De um lado, temos dois candidatos que concentram enorme parcela das
atenções e carregam, cada um à sua maneira, problemas, controvérsias e
questionamentos que deveriam ser considerados seriamente por qualquer eleitor.
De outro, existem candidatos que, embora disponham de menor força eleitoral,
poderiam merecer uma análise mais cuidadosa, inclusive como alternativas
capazes de romper a lógica de uma disputa transformada em confronto permanente
entre dois grupos. Há ainda outros nomes, mas com limitações evidentes quando
se considera a capacidade de governança de um país das dimensões e da
complexidade do Brasil.
O mais
curioso é que uma parcela enorme da população declara não gostar de nenhum dos
dois candidatos principais e, ainda assim, acaba escolhendo um deles. E aqui
aparece uma pergunta incômoda: essa pessoa está realmente votando naquele
candidato ou está simplesmente votando contra o outro? Existe uma diferença
enorme entre escolher alguém por acreditar que seja a melhor alternativa e
escolhê-lo porque sua principal virtude, aos olhos do eleitor, é impedir que o
adversário chegue ao poder. No primeiro caso, existe uma escolha. No segundo,
existe uma rejeição transformada em voto.
Esse
fenômeno produz uma das situações mais estranhas da política contemporânea
brasileira: pessoas que não defendem propriamente o candidato em quem votam,
mas que estão dispostas a fazer qualquer coisa para impedir a vitória daquele
que consideram intolerável. O voto deixa de representar uma aprovação e passa a
representar uma barreira. Não se vota necessariamente em alguém... vota-se
contra alguém. E, quando isso acontece em grande escala, a eleição deixa de ser
uma comparação entre projetos e passa a funcionar como um mecanismo de
sobrevivência política de dois grupos que precisam manter o outro
permanentemente sob ameaça.
Há ainda
uma questão mais delicada. Quando existem questionamentos sérios, fatos
controversos ou episódios que colocam em dúvida a conduta de um candidato, por
que isso deixa de ser suficiente para que seu eleitor reavalie a escolha? Não
estou afirmando aqui que toda acusação corresponde a culpa, nem que qualquer
candidato submetido a controvérsia deva ser automaticamente considerado inapto.
A questão é outra: por que determinados eleitores abandonam completamente a
disposição de examinar criticamente aquilo que existe contra o candidato que
escolheram?
E surge
então a pergunta que considero mais perturbadora: se existem outras opções,
inclusive algumas que não carregam o mesmo conjunto de controvérsias, por que
elas são frequentemente descartadas antes mesmo de serem examinadas? Por que o
eleitor aceita a ideia de que precisa escolher obrigatoriamente entre dois
nomes, como se qualquer terceira possibilidade fosse uma espécie de desperdício
de voto? Será que o voto útil se transformou em uma prisão mental na qual o
eleitor passa a considerar impossível qualquer alternativa que não pertença aos
dois polos dominantes?
É nesse
ponto que a palavra fundamentalismo começa a fazer sentido. Não necessariamente
fundamentalismo religioso, mas fundamentalismo político. O fundamentalista não
precisa conhecer profundamente aquilo que defende, precisa apenas acreditar que
aquilo que defende não pode ser questionado. Os fatos deixam de funcionar como
elementos para reflexão e passam a ser classificados conforme favoreçam ou
prejudiquem o lado escolhido. O mesmo acontecimento pode ser considerado
gravíssimo quando envolve o adversário e irrelevante quando envolve o próprio
candidato.
Nesse
ambiente, o eleitor não pergunta mais “isso é verdadeiro?”. Pergunta “isso
prejudica o meu lado?”. Não pergunta “esse candidato está preparado para
governar?”. Pergunta “quem ele vai derrotar?”. Não pergunta “eu realmente
confio nessa pessoa?”. Pergunta “quem seria pior?”. E essa última pergunta,
quando se transforma no único critério de escolha, produz uma consequência
perigosa: o eleitor passa a aceitar quase qualquer coisa do seu candidato desde
que o adversário seja considerado pior.
É assim que
a política pode se transformar em uma disputa de torcidas. O candidato deixa de
ser avaliado pelo que faz e passa a ser protegido pelo que representa. Seus
erros são relativizados, suas contradições são justificadas e suas
controvérsias são imediatamente comparadas às do adversário. A pergunta deixa
de ser “ele merece meu voto?” e passa a ser “o outro merece menos?”. Parece uma
diferença pequena, mas não é. Uma pergunta procura escolher um governante, a
outra procura derrotar um inimigo.
O problema
é que um país não é governado pela simples derrota do adversário. O Brasil
precisa de alguém capaz de administrar uma máquina pública gigantesca,
respeitar instituições, tomar decisões difíceis, enfrentar problemas econômicos
e sociais, negociar com o Congresso, preservar direitos, lidar com conflitos e,
sobretudo, compreender que o cargo de presidente não pertence a uma torcida.
Pertence ao país.
Por isso,
considero saudável recuperar uma pergunta que parece ter desaparecido do debate
eleitoral: se nenhum dos dois candidatos principais merece nossa confiança
integral, por que somos obrigados a escolher entre eles como se fossem as
únicas possibilidades existentes? E, se existem outras alternativas que
apresentam condições razoáveis de governabilidade, por que não as examinar com
a mesma seriedade?
Uma
democracia madura não deveria produzir eleitores que defendem cegamente seus
candidatos. Deveria produzir cidadãos capazes de abandonar uma preferência
quando os fatos demonstram que ela deixou de ser justificável. O voto não
deveria ser um ato de fidelidade. Deveria ser um ato de julgamento. Assim, o
maior problema da política brasileira não esteja apenas nos candidatos. Ele
também está na incapacidade de uma parte do eleitorado de admitir que o próprio
candidato pode estar errado. Quando isso acontece, a política deixa de ser uma
escolha racional entre possibilidades e começa a adquirir características de
fundamentalismo: nada que venha do outro lado merece consideração e nada que
venha do próprio lado merece condenação.
Um país
governado por esse tipo de lógica corre o risco de passar anos escolhendo não o
melhor, mas simplesmente aquele que consegue derrotar o pior (e já faz algum
tempo que é assim). Essa é uma escolha? Ou é apenas uma forma sofisticada de
fundamentalismo político?
UM MUNDO EM DESTRUIÇÃO
TERRA DEVASTADA
por Heitor Jorge Lau
Há algo
profundamente contraditório na maneira como algumas pessoas (os pseudo
agricultores) utilizam a terra. Enquanto diversos pequenos agricultores
conseguem produzir uma grande diversidade de alimentos em áreas reduzidas,
utilizando cada espaço com inteligência e aproveitando diferentes cultivos,
ainda existem pessoas (muitas) que devastam hectares para plantar, pasmem,
culturas que sequer chegam diretamente à mesa humana.
A
contradição fica ainda maior quando percebemos que, depois de destruir sua
própria terra, essas mesmas pessoas precisam comprar verduras e hortaliças de
pequenos produtores oriundos de outras regiões, carne no açougue e outros
alimentos que poderiam ser produzidos de maneira muito mais racional e
diversificada. E quando uma grande enchente acontece, levando solo, árvores,
estradas e construções, a resposta deveria ser preservar o que restou,
recuperar as áreas degradadas e respeitar as encostas (aliás, as encostas estão
cada vez mais devastadas). Em vez disso, ainda vemos a continuidade da
devastação, como se a natureza fosse um estoque inesgotável de recursos à
disposição do ser humano.
Não se
trata de produzir menos. Trata-se de produzir melhor. De compreender que terra
fértil não é simplesmente espaço vazio esperando uma máquina passar. É um
patrimônio vivo, construído durante milhares de anos. Destruir hectares para
produzir aquilo que pode ser produzido em áreas muito menores, enquanto compram
de outros aquilo que deixam de produzir, não é progresso. É desperdício. E
continuar fazendo isso depois de tantas tragédias ambientais não é apenas
irracional: é inadmissível.
Que lógica
é essa?
Não é
preciso, necessariamente, produzir menos. É preciso aprender a produzir sem
transformar a terra em matéria descartável. Solo fértil não é simplesmente um
pedaço de chão disponível para ser explorado até perder sua capacidade de
sustentar a vida. Quando se destrói hectares para produzir aquilo que poderia
ser cultivado em uma fração dessa área, dependendo de terceiros para comprar
aquilo que realmente se come, não se trata de eficiência. Estamos diante de
desperdício. E insistir nisso depois de tantas tragédias ambientais já não é
apenas falta de consciência. É uma escolha.
segunda-feira, 5 de outubro de 2026
A NATUREZA APRENDE? QUEM ENSINOU A NATUREZA A APRENDER?
A NATUREZA
APRENDE?
QUEM ENSINOU A NATUREZA A APRENDER?
por Heitor Jorge Lau
Há
histórias científicas que se tornam tão populares que acabam adquirindo uma
vida própria, afastando-se lentamente dos fatos que lhes deram origem. Uma das
mais curiosas envolve macacos, bananas, batatas e uma suposta transmissão
misteriosa de conhecimento entre animais que nunca tiveram contato. A história
ficou conhecida como o “centésimo macaco” e passou a ser utilizada como
argumento para defender a existência de uma espécie de consciência coletiva
capaz de transportar informações à distância. A ciência, entretanto, não
encontrou evidências que sustentem essa conclusão. O curioso é que, quando
retiramos a parte fantasiosa da história, sobra algo ainda mais interessante:
animais realmente aprendem uns com os outros, determinados comportamentos podem
se espalhar por uma população, algumas práticas atravessam gerações e
diferentes grupos da mesma espécie podem desenvolver costumes próprios. A
questão, portanto, não desaparece quando abandonamos o mito. Ela se torna muito
mais interessante: quando um comportamento aprendido por um indivíduo passa
para outros e permanece através das gerações, estamos diante de alguma forma de
cultura?
Tudo
começou, nesse caso, com algo aparentemente banal. Em uma ilha japonesa, uma
jovem macaca descobriu uma maneira diferente de preparar seu alimento. Em vez
de simplesmente comer batatas-doces cobertas de areia, passou a lavá-las antes
de consumi-las. Outros animais observaram o comportamento e começaram a fazer o
mesmo. Com o passar do tempo, a prática se espalhou pelo grupo. Não houve
transmissão telepática, nenhum misterioso salto de consciência e nenhum
acontecimento sobrenatural. Houve observação, repetição, convivência e
aprendizagem social. O episódio é importante justamente porque demonstra que
determinados comportamentos não precisam surgir novamente do zero em cada
indivíduo. Um animal pode observar outro, incorporar uma determinada estratégia
e transmiti-la posteriormente a outro membro do grupo. A informação, nesse
caso, deixa de estar confinada ao indivíduo que a descobriu e passa a circular
socialmente.
É nesse
ponto que a história começa a ficar desconfortável para aquela velha ideia de
que a cultura seria uma propriedade exclusivamente humana. Durante muito tempo,
cultura foi associada à linguagem, à escrita, à religião, às instituições, às
artes e à capacidade humana de acumular conhecimentos durante gerações. Quando
observamos outros animais com mais atenção, porém, encontramos comportamentos
que não parecem ser explicados apenas por instinto. Diferentes populações podem
desenvolver maneiras distintas de obter alimento, utilizar objetos, emitir sons
ou enfrentar determinados problemas. Baleias, por exemplo, podem desenvolver
técnicas específicas de alimentação que se espalham entre indivíduos. Aves
aprendem vocalizações observando outras aves. Primatas utilizam ferramentas e
diferentes grupos podem apresentar técnicas próprias para resolver problemas
semelhantes. Não estamos diante de uma cultura equivalente à humana,
evidentemente, mas estamos diante de algo que merece ser levado a sério:
informação adquirida durante a vida de um indivíduo pode tornar-se parte do
repertório de outros.
Isso muda
profundamente a pergunta. Em vez de perguntar se um animal possui inteligência
suficiente para ser comparado ao ser humano, deveríamos perguntar como a
informação circula dentro de uma comunidade de seres vivos. A pergunta deixa de
ser “eles pensam como nós?” e passa a ser “o que eles conseguem aprender uns
com os outros?”. Essa mudança é importante porque evita um erro bastante comum:
medir todas as formas de inteligência usando exclusivamente a inteligência
humana como régua. Uma baleia não precisa escrever um livro para demonstrar que
consegue adquirir e transmitir informação. Uma ave não precisa construir uma
biblioteca para conservar um comportamento aprendido. Um macaco não precisa
compreender filosofia para descobrir uma solução que outros integrantes de seu
grupo poderão posteriormente reproduzir. A natureza não precisa repetir nossa
maneira de pensar para demonstrar que possui outras maneiras de resolver
problemas.
E então
surge uma questão ainda mais surpreendente: se um comportamento pode ser
aprendido por um indivíduo, observado por outro e transmitido sucessivamente
dentro de uma população, onde exatamente termina o indivíduo e começa o grupo?
A informação pertence ao primeiro animal que descobriu determinada estratégia
ou passa a pertencer, de alguma maneira, à comunidade que a conserva? Uma
tradição não precisa de palavras para existir. Ela pode estar contida em um
gesto, em uma rota, em uma vocalização, em uma técnica de alimentação ou em uma
maneira específica de utilizar um objeto. O que chamamos de conhecimento pode
assumir formas muito diferentes daquela que encontramos nos livros. Em algumas
espécies, uma geração recebe da anterior algo que não estava inscrito
diretamente em seus genes, mas que foi adquirido através da convivência.
Isso nos
aproxima de uma ideia fascinante: a existência de uma espécie de memória
social. Não se trata de uma memória armazenada em um único cérebro e
consultada conscientemente quando necessário. É uma memória distribuída entre
indivíduos, comportamentos e relações. Um animal aprende algo, outro observa,
um terceiro reproduz, e o comportamento permanece enquanto houver indivíduos
capazes de transmiti-lo. Quando uma determinada geração desaparece, parte do
repertório pode desaparecer com ela. Quando o comportamento permanece, uma
espécie de continuidade é estabelecida. A natureza, nesse sentido, não guarda
apenas informações em moléculas e genes. Ela também pode conservá-las em
comportamentos.
Mas é
justamente aqui que precisamos abandonar uma tentação: a de transformar
qualquer fenômeno curioso em prova de uma consciência universal. A história do
“centésimo macaco” é um bom exemplo de como uma observação legítima pode ganhar
uma interpretação que a ciência nunca demonstrou. Não existe evidência de que
um número específico de macacos tenha atingido uma espécie de massa crítica e,
a partir daí, transmitido mentalmente uma informação para animais separados por
grandes distâncias. A verdadeira história é menos fantástica e, ao mesmo tempo,
muito mais importante. Animais observam, imitam, experimentam, modificam
comportamentos e transmitem determinadas soluções. Não precisamos acrescentar
telepatia à natureza para torná-la extraordinária.
E quando
pensamos que já chegamos ao limite dessa discussão, aparecem as plantas. Durante
muito tempo, a planta ocupou um lugar quase decorativo em nossa visão do mundo.
Ela crescia, florescia, produzia sementes e permanecia imóvel enquanto os
animais faziam aquilo que costumamos chamar de vida. Essa imagem começou a
perder força à medida que a biologia passou a revelar uma complexidade
extraordinária nos sistemas vegetais. Plantas percebem alterações no ambiente,
respondem à presença de determinados organismos, modificam seu metabolismo
diante de ameaças, utilizam sinais químicos e podem alterar respostas futuras
de acordo com experiências anteriores. Algumas dessas respostas são descritas
pela ciência utilizando conceitos como memória e aprendizagem, embora esses
termos precisem ser utilizados com cuidado para não projetarmos sobre as
plantas uma psicologia humana que elas evidentemente não possuem.
Uma planta
não precisa ter cérebro para registrar uma diferença entre o que aconteceu
antes e o que está acontecendo agora. Ela precisa apenas possuir mecanismos
capazes de alterar seu comportamento biológico diante das condições
encontradas. Essa constatação parece simples, mas possui uma consequência
filosófica enorme. Durante séculos, associamos memória à existência de um
cérebro. A biologia mostra que a capacidade de conservar efeitos de
experiências anteriores pode existir de maneiras muito mais antigas e
diversificadas. A memória, entendida em sentido amplo como a capacidade de uma
experiência passada modificar uma resposta futura, não começou com o ser
humano. Ela está profundamente inserida na própria história da vida.
Isso nos
leva a outro território ainda mais curioso. Se uma planta consegue modificar
sua resposta futura em função de uma experiência anterior, se uma ave aprende
vocalizações observando outras aves, se baleias transmitem técnicas de
alimentação, se primatas aprendem comportamentos uns com os outros e se
determinados conhecimentos permanecem dentro de populações durante gerações, o
que exatamente estamos chamando de aprendizagem? Estamos falando de uma
capacidade exclusivamente mental ou de algo muito mais antigo, que adquiriu
formas cada vez mais sofisticadas ao longo da evolução?
Uma das
maiores dificuldades está em nossa tendência de confundir a forma como
aprendemos com a própria essência da aprendizagem. O ser humano aprende através
da linguagem, observação, experiência, escola, dos livros, das relações sociais
e de uma extraordinária capacidade de acumular informações. Construímos
conhecimentos sobre conhecimentos anteriores e transmitimos tudo isso através
das gerações. Nossa capacidade de acumulação cultural atingiu uma dimensão
incomparável entre os organismos conhecidos. Mas isso não significa que o
princípio fundamental da aprendizagem tenha surgido conosco. Significa que uma
capacidade muito mais antiga encontrou em nossa espécie uma forma
extraordinariamente sofisticada de expressão.
A própria
evolução pode ser observada como uma gigantesca história de informação. O DNA
conserva registros da história biológica de cada organismo. As estruturas
celulares carregam mecanismos desenvolvidos ao longo de bilhões de anos. Os
organismos respondem às condições ambientais. Populações mudam. Comportamentos
são selecionados, modificados e transmitidos. Em determinado momento dessa
história surgiu um animal capaz não apenas de aprender com o ambiente, mas de
transformar aquilo que aprendeu em linguagem, memória coletiva, tecnologia,
arte, ciência e instituições. A partir daí, a informação deixou de circular
apenas através dos mecanismos biológicos e passou a circular também por
símbolos.
Foi nesse
momento que a aprendizagem adquiriu uma dimensão completamente nova. Um ser
humano pode aprender algo e ensinar a outro. O segundo pode modificar aquilo
que recebeu e ensinar a um terceiro. O terceiro pode registrar a informação em
um livro, outra pessoa pode lê-la séculos depois, corrigir seu conteúdo,
acrescentar uma nova descoberta e transmitir novamente aquele conhecimento.
Assim, uma informação pode sobreviver à morte de todos aqueles que participaram
de sua descoberta. Nenhum indivíduo precisa carregar sozinho a totalidade do
conhecimento de uma espécie. A sociedade passa a funcionar como uma gigantesca
memória externa, e esta é uma das maiores singularidades humanas.
Não somos
os únicos seres capazes de aprender. Não somos os únicos capazes de observar.
Não somos os únicos capazes de modificar comportamentos a partir da
experiência. Também não somos os únicos capazes de transmitir informações. O
que nos diferencia é a dimensão cumulativa que conseguimos dar a tudo isso. Uma
descoberta humana pode ser incorporada por outra pessoa, aperfeiçoada,
registrada, ensinada, contestada e novamente transformada. Cada geração pode
receber uma quantidade extraordinária de conhecimento produzida pelas
anteriores e acrescentar algo ao que recebeu.
Isso não
diminui a distância entre nós e os demais animais. Pelo contrário. Torna essa
diferença ainda mais interessante, porque nos obriga a reconhecer que ela não
surgiu do nada. A capacidade humana de produzir cultura parece ter raízes em
capacidades muito mais antigas de aprendizagem social, comunicação, memória e
adaptação. A natureza não precisou esperar pelo aparecimento do ser humano para
descobrir que informações podem ser conservadas e transmitidas. Nós apenas
levamos esse processo a uma dimensão que transformou completamente a relação
entre uma geração e a seguinte.
Então
voltamos à pergunta inicial: a natureza aprende? A resposta depende do
significado que damos à palavra aprender. Se aprender significa refletir
conscientemente sobre uma experiência, elaborar conceitos abstratos e
compreender aquilo que estamos fazendo, não podemos atribuir essa capacidade
indiscriminadamente aos demais seres vivos. Se aprender significa modificar
respostas futuras a partir de experiências anteriores e, em alguns casos,
transmitir comportamentos adquiridos para outros indivíduos, então a história
da aprendizagem é muito mais antiga do que a história humana.
A pergunta
seguinte é ainda mais interessante: quem ensinou a natureza a aprender? Ninguém.
A própria evolução produziu, ao longo de bilhões de anos, mecanismos capazes de
conservar informações, responder a experiências, reconhecer padrões, modificar
comportamentos e transmitir soluções. O aprendizado não apareceu de repente
quando o primeiro ser humano abriu um livro. Muito antes de existirem livros,
escolas ou professores, a vida já encontrava maneiras de conservar aquilo que
funcionava e abandonar aquilo que deixava de funcionar.
O macaco
que observa outro macaco, a baleia que aprende uma técnica de alimentação, a
ave que modifica seu canto, a planta que altera sua resposta diante de uma
experiência anterior e o ser humano que escreve uma descoberta em uma página
pertencem a capítulos muito diferentes da mesma história: a história da
informação atravessando o tempo. Enfim, eu creio que a pergunta mais
extraordinária não seja, portanto, se a natureza aprende. É perceber que a
natureza vem aprendendo há bilhões de anos — e nós somos uma de suas formas
mais recentes de memória.
domingo, 4 de outubro de 2026
TODA VEZ QUE APRENDEMOS ALGUMA COISA, ALGUMA COISA EM NÓS PRECISA DEIXAR DE SER EXATAMENTE COMO ERA.
TODA
VEZ QUE APRENDEMOS ALGUMA COISA,
ALGUMA COISA EM
NÓS PRECISA DEIXAR DE SER EXATAMENTE COMO ERA.
por Heitor Jorge Lau
Há uma
ideia fascinante na neurociência contemporânea que nos obriga a repensar uma
das imagens mais comuns que imaginamos do cérebro. Durante muito tempo, foi
conveniente imaginar a mente como uma espécie de computador biológico:
recebemos informações, armazenamos dados, recuperamos aquilo que precisamos e
seguimos funcionando como antes. A comparação é sedutora, mas o cérebro humano
é muito mais estranho, complexo e dinâmico do que qualquer máquina que tenhamos
construído. Quando aprendemos, não estamos simplesmente colocando uma
informação nova dentro de uma estrutura que permanece intacta. O próprio
sistema que aprende é modificado pela experiência. Redes neurais alteram seus
padrões de atividade, conexões são fortalecidas ou enfraquecidas, caminhos anteriormente
pouco utilizados passam a participar de novas associações. O cérebro não apenas
guarda aquilo que descobrimos, ele se reorganiza a partir daquilo que
descobrimos. E é justamente nesse ponto que uma constatação científica começa a
adquirir uma dimensão profundamente humana: depois que alguma coisa realmente
nos transforma, já não existe um caminho perfeitamente intacto de volta ao que
éramos antes.
Toda vez
que realmente aprendemos alguma coisa, alguma coisa em nós precisa deixar de
ser exatamente como era. A frase parece simples, mas contém uma consequência
que ultrapassa muito a ideia convencional de aprendizagem. Saber não significa
apenas possuir mais uma informação. Saber pode significar perceber de outra
maneira, estabelecer novas relações, desconfiar de antigas certezas e enxergar
aquilo que antes permanecia invisível. Uma pessoa que descobre determinado
aspecto da realidade não consegue mais olhar para essa realidade exatamente com
os mesmos olhos. Mesmo quando tenta esquecer, negar ou ignorar o que descobriu,
a experiência já aconteceu. O conhecimento atravessou sua história e passou a
fazer parte daquilo que ela é. Não se trata de afirmar que toda informação
produz uma transformação profunda, porque acumulamos diariamente uma quantidade
imensa de dados que desaparecem sem deixar marcas significativas. A
transformação acontece quando o conhecimento encontra alguma estrutura interior
capaz de acolhê-lo, confrontá-lo e integrá-lo. Nesse momento, aprender deixa de
ser acumulação e passa a ser metamorfose.
Por isso
que algumas leituras permanecem conosco durante décadas, enquanto centenas de
outras desaparecem pouco depois de fecharmos um livro. Não lembramos
necessariamente de todas as páginas que lemos, dos nomes dos personagens, das
datas ou das informações que encontramos ao longo do caminho. Entretanto,
determinadas ideias permanecem trabalhando silenciosamente dentro de nós. Uma
frase que lemos aos vinte anos pode adquirir um significado completamente
diferente aos quarenta. Um conceito que parecia insignificante na juventude
pode tornar-se essencial depois de uma perda, de uma mudança profissional ou de
uma experiência amorosa. Um livro esquecido na estante pode continuar existindo
dentro de nós mesmo quando já não conseguimos reproduzir uma única página dele.
A leitura profunda possui essa característica quase misteriosa: ela não termina
necessariamente quando chegamos à última página. Algumas leituras continuam
acontecendo durante anos, porque aquilo que encontramos nelas passa a dialogar
com acontecimentos que sequer nem haviam acontecido quando lemos o livro.
Isso também
explica por que envelhecer não significa apenas acumular anos. Envelhecer é
acumular versões de nós mesmos que foram sendo modificadas pelas experiências.
Há dentro de cada pessoa uma espécie de arqueologia particular, formada por
tudo aquilo que ela viveu, perdeu, descobriu, compreendeu e deixou de
compreender. Não somos apenas a pessoa que acordou nesta manhã... somos também,
em alguma medida, todas as pessoas que fomos obrigados a deixar para trás. O
adolescente que acreditava conhecer o mundo continua existindo em algum lugar
da memória, mas não possui mais o mesmo território dentro de nós. O jovem que
defendia determinadas certezas foi confrontado pela experiência. O adulto que
acreditava ter compreendido certas coisas descobriu posteriormente que ainda
havia muito a aprender. E assim seguimos, não como uma identidade perfeitamente
contínua, mas como uma espécie de construção permanente na qual cada
experiência importante acrescenta algo e, ao mesmo tempo, retira alguma coisa
que já não consegue permanecer intacta.
Há nisso
uma beleza que nem sempre percebemos quando somos jovens. Costumamos imaginar
que amadurecer significa finalmente chegar a uma versão definitiva de nós
mesmos. Como se em algum momento da vida pudéssemos dizer: agora sei quem sou,
agora compreendo como o mundo funciona, agora não preciso mais mudar. A
experiência costuma demonstrar justamente o contrário. Quanto mais conhecemos,
mais percebemos a dimensão daquilo que desconhecemos. Quanto mais lemos, mais
percebemos quantos livros ainda não lemos. Quanto mais observamos a natureza,
mais percebemos que nossa compreensão dela é pequena. Quanto mais convivemos
com outras pessoas, mais percebemos que nenhum ser humano cabe completamente
nas categorias que criamos para compreendê-lo. O conhecimento verdadeiro não
produz apenas respostas, ele modifica a qualidade das nossas perguntas. E uma
das marcas da maturidade intelectual é justamente essa capacidade de continuar
mudando sem sentir que cada mudança representa uma derrota daquilo que fomos
anteriormente.
A
experiência também possui esse poder. Há coisas que nenhum livro consegue
ensinar porque precisam atravessar o corpo, o tempo e a própria existência. Uma
pessoa pode estudar durante anos o significado da perda e ainda assim não
compreender o que significa perder alguém que ama. Pode ler sobre
envelhecimento e continuar imaginando que envelhecer é simplesmente possuir
mais idade. Pode estudar sobre solidão e descobrir posteriormente que a solidão
possui dimensões que nenhuma definição acadêmica consegue abarcar. A vida
introduz conhecimentos que não pedimos e para os quais muitas vezes não estamos
preparados. E, quando esses conhecimentos chegam, modificam a maneira como
interpretamos tudo aquilo que já sabíamos. Uma experiência posterior pode
reorganizar uma lembrança antiga, assim como uma nova compreensão pode alterar
o significado de algo que aconteceu muitos anos antes. O passado permanece
cronologicamente imóvel, mas sua interpretação continua se transformando dentro
de nós.
Por isso
que algumas pessoas envelhecem permanecendo intelectualmente jovens, enquanto
outras envelhecem muito antes de seus cabelos embranquecerem. A idade
cronológica não determina sozinha a vitalidade interior. Existe uma diferença
enorme entre acumular anos e continuar aprendendo. Quem deixou de aprender pode
permanecer biologicamente vivo, mas começa a viver dentro de um mundo cada vez
mais fechado, no qual as novas experiências precisam caber nas antigas
certezas. Quem continua aprendendo aceita, ainda que nem sempre
confortavelmente, que o mundo pode obrigá-lo a reorganizar aquilo que pensava
saber. Isso não significa abandonar princípios ou transformar toda convicção em
dúvida permanente. Significa reconhecer que uma mente viva não é uma sala onde
colocamos objetos e depois fechamos a porta. É um espaço em permanente
reorganização, no qual cada experiência significativa pode deslocar alguma
coisa de lugar.
É justamente
aí que a leitura adquire uma importância que ultrapassa o simples prazer de
ler. Ler é permitir que uma inteligência que existiu em outro tempo entre em
contato com a nossa própria inteligência e produza alguma alteração. Quando
abrimos um livro, colocamos nossa experiência diante da experiência de alguém
que viveu, pensou, imaginou ou pesquisou de outra maneira. Podemos concordar ou
discordar, aceitar ou rejeitar, mas alguma coisa acontece nesse encontro. Muitas
vezes o livro confirma aquilo que já pensávamos. Noutras vezes destrói uma
certeza. Ou... oferece uma pergunta que permanece conosco por anos. E, em
determinadas ocasiões, encontramos uma ideia que parece ter esperado por nós
durante toda a vida. É nesse momento que compreendemos que ler não é
simplesmente passar os olhos sobre palavras. Ler é permitir que palavras
produzam movimento dentro de nós.
No fim, a
grande aventura intelectual de uma vida não está em chegar a um ponto onde
finalmente sabemos tudo, mas em conservar a capacidade de sermos modificados
por aquilo que encontramos. Há uma espécie de pobreza interior em quem já não
admite nenhuma transformação, porque toda novidade passa a ser julgada imediatamente
pelas antigas certezas. Em contrapartida, existe uma forma de riqueza
silenciosa naquele que ainda consegue dizer: eu não havia pensado nisso dessa
maneira. Essa pequena frase representa uma das maiores demonstrações de
inteligência que um ser humano pode oferecer. Ela significa que ainda existe
espaço interior para que alguma coisa nova aconteça. Significa que o cérebro
continua aprendendo, mas significa também algo maior: que a pessoa ainda
permite que a vida participe da construção de quem ela é.
Envelhecer,
em parte, é compreender isso. Não podemos impedir que o tempo transforme nosso
corpo, nem podemos recuperar exatamente as pessoas que fomos em outras épocas.
Também não podemos voltar ao estado mental anterior a determinadas
experiências. Mas podemos continuar oferecendo à nossa existência aquilo que a
mantém intelectualmente viva: curiosidade, leitura, observação, diálogo,
contemplação e disposição para aprender. Cada nova compreensão modifica alguma
coisa em nós. Cada experiência importante desloca alguma peça do nosso mundo
interior. Cada livro que realmente nos alcança deixa alguma marca, ainda que
não consigamos identificá-la imediatamente. E assim vamos envelhecendo, não
como quem simplesmente acumula tempo, mas como quem atravessa sucessivas
transformações.
No fundo, esse
é o paradoxo mais valoroso da existência: passamos a vida tentando descobrir
quem somos, enquanto cada descoberta modifica aquele que está descobrindo.
Procuramos conhecer o mundo, mas o mundo também nos transforma enquanto o
conhecemos. Lemos para compreender a realidade, mas as melhores leituras acabam
modificando o leitor. Vivemos para acumular experiências, mas são as
experiências que acabam nos reconstruindo. E, quando percebemos isso,
compreendemos que não existe uma versão definitiva de nós mesmos esperando no
futuro. Existe apenas essa construção contínua, silenciosa e inevitável de
alguém que nunca permanece exatamente igual.
Toda vez
que realmente aprendemos alguma coisa, alguma coisa em nós precisa deixar de
ser exatamente como era. Isso não é uma perda. É precisamente a maneira que a
vida encontrou para impedir que nos tornemos estátuas de nós mesmos.
QUANDO UMA CULTURA PASSA A REPRESENTAR UMA CIDADE INTEIRA
QUANDO
UMA CULTURA PASSA A REPRESENTAR
UMA CIDADE INTEIRA
por Heitor Jorge Lau
Santa Cruz
do Sul tem uma história marcada pela imigração alemã. Isso é indiscutível. Os
primeiros imigrantes chegaram à região a partir de 1849 e deixaram marcas
profundas na arquitetura e gastronomia, nas festas e sociedades, nos costumes e
em diferentes aspectos da vida local. Preservar essa memória é legítimo e
necessário. O problema começa quando preservar uma parte da história passa a apresentar
essa parte como se fosse a própria história inteira.
Basta
observar a maneira como a cultura do município é frequentemente divulgada. A
palavra “alemã” aparece associada à identidade local com uma frequência
impressionante. Oktoberfest, grupos folclóricos, danças, trajes, culinária,
sociedades, monumentos, roteiros turísticos, intercâmbios e inúmeras
manifestações reforçam continuamente essa narrativa. Não se trata de negar a
importância de nenhuma delas. Trata-se de perguntar por que outras histórias,
outras origens e outras formas de cultura não recebem a mesma capacidade de
ocupar o imaginário coletivo.
E essa não
é apenas uma impressão pessoal. Um parecer do próprio Conselho Estadual de
Cultura do Rio Grande do Sul descreveu Santa Cruz do Sul como marcada por uma
“narrativa germânica” e chegou a identificar nessa construção um “mito de
origem” baseado na germanidade. O mesmo documento registra algo ainda mais
importante: pesquisas realizadas pela universidade local indicavam que, desde a
última década do século XX, a maioria da população residente no município já
não era de descendência germânica.
Isso
deveria provocar uma reflexão. Se a população mudou e novas famílias chegaram,
se diferentes grupos étnicos passaram a viver aqui e novas manifestações
culturais foram incorporadas à vida cotidiana, por que continuamos contando a
história do município como se ela tivesse parado no século XIX?
O próprio
Plano Decenal de Cultura de Santa Cruz do Sul reconhece que a cidade possui uma
“Aquarela Cultural”. O documento menciona, além da influência alemã, as
culturas italiana, afrodescendente, árabe, gaúcha e popular, incluindo o
carnaval. Reconhece também a diversidade gastronômica e iniciativas destinadas
a apresentar diferentes segmentos culturais da cidade.
A pergunta,
então, não é se devemos abandonar a cultura alemã. Não devemos. A pergunta é
outra: quanto espaço dedicamos às demais? Porque cultura brasileira não é uma
coisa abstrata que existe somente em outras cidades. Ela está aqui. Está na
música que nasceu nas periferias, no samba e carnaval, na literatura e cultura
negra, nas tradições indígenas, na cultura popular, nas manifestações
nordestinas trazidas por famílias que migraram para o Sul, na cultura gaúcha,
na produção artística contemporânea, no teatro, na fotografia, dança, música
urbana, culinária e em todas as formas de criação que foram surgindo depois da
chegada dos primeiros imigrantes.
E existe
uma diferença fundamental entre preservar uma herança e transformar uma herança
em hierarquia cultural. Quando uma cidade celebra durante décadas uma
determinada origem com grande visibilidade, grandes eventos, forte divulgação
turística e sucessivos projetos culturais, enquanto outras manifestações
aparecem de maneira episódica e secundária, cria-se uma percepção de que uma
cultura é mais representativa da cidade do que as demais.
Os próprios
documentos públicos oferecem elementos para essa discussão. Em 2024, por
exemplo, a prefeitura abriu editais específicos para fomento à cultura
germânica, à cultura italiana e às tradições gaúchas. Em 2026, a 41ª
Oktoberfest voltou a aparecer no sistema estadual de cultura como projeto de
grande dimensão, associado explicitamente à celebração da herança germânica. O
projeto aprovado registra R$ 1 milhão como valor da opção e R$ 200 mil como
valor total solicitado.
Nada disso
é uma acusação de irregularidade. São políticas culturais legítimas, dentro dos
mecanismos existentes. Mas políticas culturais também podem e devem ser
discutidas pela sociedade. Afinal, quem decide aquilo que merece ser lembrado
está, de certa maneira, decidindo aquilo que uma comunidade considera
importante sobre si mesma. E é justamente aí que reside minha inquietação.
Não tenho
absolutamente nada contra a cultura alemã. Tenho contra a ideia de que a
descendência de uma parcela dos habitantes possa continuar funcionando como uma
espécie de certificado de autenticidade cultural do município inteiro. Santa
Cruz do Sul não pertence aos descendentes dos imigrantes alemães. Também não
pertence aos descendentes de italianos, portugueses, africanos, indígenas ou de
qualquer outro grupo. Pertence às pessoas que vivem aqui.
A cidade de
hoje é resultado de tudo aquilo que aconteceu depois de 1849 também. São
gerações que nasceram aqui, pessoas que chegaram de outros lugares, famílias
que se misturaram, costumes que desapareceram, outros que surgiram, novas
linguagens artísticas, novas formas de pensar e uma população que já não pode
ser reduzida à fotografia dos seus primeiros colonizadores.
Uma cidade
madura não precisa apagar suas origens para reconhecer o presente. Pode
preservar a memória alemã sem transformá-la em pedestal. Pode celebrar a
Oktoberfest sem fazer dela uma síntese da identidade municipal. Pode contar a
história dos imigrantes sem esquecer daqueles que vieram depois. Pode admirar
seus antepassados sem transformar seus antepassados em donos simbólicos da
cidade.
A cultura
alemã faz parte da história de Santa Cruz do Sul. Mas Santa Cruz do Sul é maior
do que a cultura alemã. A pergunta mais relevante é exatamente esta: quando
olhamos para a cultura que promovemos, financiamos, divulgamos e ensinamos,
estamos mostrando a cidade que fomos ou a cidade que somos? Uma cidade não
deveria viver eternamente reverenciando quem chegou primeiro. Deveria também
aprender a enxergar quem chegou depois. E, sobretudo, deveria reconhecer
aqueles que estão construindo agora a cultura que será lembrada no futuro.
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