terça-feira, 9 de dezembro de 2025

A FOTOGRAFIA KIRLIAN, A AURA E OS EFEITOS DA MENTE. UM OLHAR CIENTÍFICO SEM JARGÕES.

 

A FOTOGRAFIA KIRLIAN, A AURA E OS EFEITOS DA MENTE

UM OLHAR CIENTÍFICO SEM JARGÕES

Por Heitor Jorge Lau

            A história da fotografia Kirlian é um exemplo fascinante de como descobertas físicas podem ser interpretadas de maneiras muito diferentes, dependendo do olhar que se lança sobre elas. Quando Semyon Kirlian e sua esposa Valentina observaram que objetos submetidos a alta voltagem produziam halos luminosos em filmes fotográficos, parecia que estavam diante de uma revelação sobre a energia vital. As imagens dos dedos humanos, com padrões constantes de luz e cor, foram rapidamente associadas à ideia de uma aura invisível, capaz de revelar estados de saúde e emoção. Essa interpretação ganhou força porque se apoiava em tradições antigas, como a medicina chinesa e a reflexologia, que já relacionavam partes do corpo a funções internas e estados emocionais. Mas o que parecia diagnóstico certeiro pode ser explicado por mecanismos bem conhecidos da mente humana, como o Efeito Forer, a Bolha de Validação e a Confirmação Subjetiva.

            A saber, Semyon Kirlian foi um inventor e pesquisador russo que, junto com sua esposa Valentina, desenvolveu a técnica conhecida como fotografia Kirlian, capaz de registrar descargas elétricas ao redor de objetos e seres vivos. Semyon Davidovich Kirlian nasceu em 20 de fevereiro de 1898, em Krasnodar, na Rússia, e faleceu em 4 de abril de 1978. Desde jovem demonstrou interesse por eletricidade e chegou a assistir palestras de Nikola Tesla, que já estudava fenômenos de descargas elétricas. Trabalhando como eletricista, Kirlian descobriu que, ao aplicar alta voltagem em objetos colocados sobre uma placa fotográfica, surgiam imagens com halos luminosos, resultado da ionização do ar. Essa técnica, chamada de Bioeletrografia ou Kirliangrafia, ficou popularmente conhecida como Fotografia Kirlian. Embora cientificamente explicada como Efeito Corona, muitos a interpretaram como registro da “aura” dos seres vivos, o que deu origem a debates entre ciência, espiritualidade e terapias alternativas.

            O Efeito Forer, também chamado de Efeito Barnum, é um fenômeno psicológico em que descrições vagas e universais são percebidas como altamente pessoais e precisas. Quando alguém lê que “você às vezes se preocupa demais, mas também é capaz de ser confiante”, tende a acreditar que essa frase foi feita sob medida para si, mesmo que ela se aplique a praticamente qualquer pessoa. As tabelas usadas na interpretação das fotos Kirlian funcionavam de maneira semelhante. Ao associar o polegar ao sistema respiratório e à vitalidade, ou o dedo indicador ao sistema digestivo e à ansiedade, criavam descrições suficientemente amplas para que qualquer indivíduo pudesse se reconhecer nelas. Assim, quando o halo luminoso do dedo indicador parecia mais intenso ou irregular, a interpretação de “preocupação” ou “problemas digestivos” soava incrivelmente certeira, mesmo que fosse apenas uma leitura genérica.

            A Bolha de Validação entra em cena quando a pessoa já acredita em algo e recebe uma informação que confirma essa crença. Imagine alguém que sente desconforto estomacal e vê na foto Kirlian do dedo indicador um padrão diferente. Ao ouvir que isso está ligado ao sistema digestivo, a pessoa imediatamente valida a leitura, reforçando a sensação de que o diagnóstico é verdadeiro. Esse processo cria uma bolha em que apenas as informações que confirmam a crença são percebidas e valorizadas, enquanto outras são ignoradas. É como olhar para o céu em busca de constelações: os pontos de luz estão lá, mas o desenho que enxergamos depende da nossa predisposição a conectar estrelas específicas. A Confirmação Subjetiva completa esse quadro. Ela ocorre quando selecionamos e lembramos apenas os acertos de uma leitura, esquecendo os erros ou contradições. Se uma interpretação baseada na foto Kirlian sugere que a pessoa é ansiosa e ela realmente se reconhece assim, esse acerto fica gravado. Se em outro momento a mesma técnica sugere algo que não faz sentido, essa informação é descartada ou racionalizada. O resultado é uma memória seletiva que reforça a ideia de que o método é confiável. É como um mágico que acerta uma previsão em um truque: o público lembra do acerto espetacular e esquece das vezes em que a previsão foi vaga ou imprecisa.

            Esses três mecanismos - Efeito Forer, Bolha de Validação e Confirmação Subjetiva - explicam por que práticas como a fotografia Kirlian, a Cromoterapia ou outras terapias alternativas parecem tão convincentes. Elas oferecem imagens ou descrições que se encaixam em experiências comuns, confirmam crenças prévias e são lembradas seletivamente. O resultado é uma sensação de precisão que não vem de uma leitura objetiva da realidade, mas da forma como nossa mente processa informações. A analogia com espelhos pode ajudar a entender. A fotografia Kirlian funciona como um espelho elétrico: mostra padrões luminosos que refletem propriedades físicas da pele, como umidade e condutividade. Mas quando olhamos para esse espelho, não percebemos apenas o reflexo físico, percebemos também as nossas crenças, expectativas e emoções. É como se o espelho devolvesse não apenas a imagem, mas também o que queremos enxergar. O Efeito Forer é o polimento que faz o espelho parecer mais nítido, a Bolha de Validação é o filtro que destaca apenas certas partes da imagem, e a Confirmação Subjetiva é a memória que guarda apenas os reflexos que nos agradam ou fazem sentido.

            Outro paralelo interessante é com a Astrologia. Assim como os horóscopos oferecem descrições amplas que parecem pessoais, as tabelas da Bioeletrografia atribuíam significados aos dedos e seus halos. Ambos funcionam porque exploram a tendência humana de buscar sentido e padrões em fenômenos complexos. Essa busca é legítima e faz parte da nossa natureza, mas pode nos levar a acreditar em conexões que não têm base científica. A fotografia Kirlian, nesse sentido, é uma constelação elétrica: os halos são as estrelas, e os diagnósticos são os desenhos que traçamos entre elas. Isso não significa que não haja valor nessas práticas. Elas podem oferecer conforto, estimular a reflexão e até promover bem-estar, especialmente quando usadas em contextos de cuidado alternativo. O problema surge quando são apresentadas como diagnósticos médicos ou como provas de uma energia vital invisível. A ciência explica os halos como descargas elétricas previsíveis, e até hoje não há evidência de que revelem estados de saúde ou emoção. Mas o fato de parecerem certeiros mostra o poder da mente em criar sentido e validar experiências.

            A Cromoterapia, que associa cores a estados de equilíbrio, funciona de maneira semelhante. As cores realmente influenciam nosso humor e percepção, mas não há provas de que curem doenças. Ainda assim, quando alguém se sente mais calmo em um ambiente azul ou mais energizado em um ambiente vermelho, essa experiência é real e significativa. O que acontece é que confundimos influência psicológica com efeito terapêutico. A fotografia Kirlian também confunde fenômeno físico com diagnóstico. Em ambos os casos, a mente completa as lacunas e cria a sensação de precisão. Podemos pensar nisso como uma dança entre o mundo físico e o mundo psicológico. O físico fornece o palco: descargas elétricas, cores e padrões luminosos. O psicológico fornece a coreografia: crenças, expectativas e interpretações. Juntos, criam um espetáculo que parece revelar segredos ocultos, mas que na verdade é uma combinação de reflexos e percepções. O público, que somos nós, se encanta porque reconhece a si mesmo na dança. E esse reconhecimento é poderoso, mesmo que não seja científico.

            A relevância histórica da fotografia Kirlian está justamente nesse ponto. Ela mostra como uma descoberta física pode ser interpretada culturalmente como prova de algo maior. É um exemplo de como ciência e crença se entrelaçam, e de como a mente humana busca sentido em padrões. O que parecia diagnóstico certeiro era, na verdade, uma combinação de fenômeno físico repetitivo e mecanismos psicológicos de validação. Isso não diminui o valor cultural da prática, mas coloca em perspectiva sua natureza. Enfim, o debate sobre a fotografia Kirlian, a Cromoterapia e as tabelas referenciais é um convite a refletir sobre como construímos verdades. A ciência busca verdades baseadas em evidências, reprodutibilidade e causalidade. As práticas alternativas oferecem verdades simbólicas, emocionais e culturais. Ambas têm seu lugar, mas é importante distinguir entre elas. Quando entendemos que os diagnósticos certeiros da foto Kirlian eram resultado de Bolhas de Validação e efeitos cognitivos, não estamos negando a experiência, mas reconhecendo sua origem.

            Assim, podemos concluir que a fotografia Kirlian é um espelho da mente tanto quanto da pele. Ela mostra descargas elétricas, mas também revela como interpretamos e validamos informações. O Efeito Forer, a Bolha de Validação e a Confirmação Subjetiva são os pincéis que pintam a aura que acreditamos ver. O quadro final é belo e convincente, mas é uma obra da mente, não da biologia. Reconhecer isso nos ajuda a valorizar a experiência sem confundir crença com ciência. E talvez esse seja o maior ensinamento: não sabemos tudo que a mente diz, mas sabemos que ela tem um poder extraordinário de criar sentido onde há apenas luz e sombra.


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