quarta-feira, 19 de novembro de 2025

INTELIGÊNCIA versus BURRICE - A RELATIVIDADE ENTRE A CAPACIDADE DE PENSAR E NÃO PENSAR

 

A LINHA TÊNUE QUE SEPARA ESSES UNIVERSOS PARALELOS

Por Heitor Jorge Lau

            A inteligência sempre foi vista como um dos maiores atributos humanos. Desde a antiguidade, filósofos, cientistas e pensadores tentam compreender o que significa ser inteligente e como essa qualidade se manifesta na vida prática. No entanto, há um detalhe curioso que chama a atenção de qualquer observador atento: pessoas consideradas brilhantes, com alto nível de escolaridade ou grande capacidade de raciocínio, frequentemente tomam decisões que parecem tolas, irracionais ou até mesmo desastrosas. Por outro lado, indivíduos que não se destacam por diplomas ou habilidades cognitivas complexas, muitas vezes demonstram uma sabedoria prática, uma intuição certeira ou uma clareza de julgamento que surpreende. Esse paradoxo nos leva a refletir sobre o que realmente significa agir de forma inteligente e por que, em certas ocasiões, o oposto acontece.

            Para começar, é importante entender que inteligência não é um bloco único e homogêneo. Durante muito tempo, acreditou-se que o famoso “QI” era a medida definitiva da capacidade intelectual de uma pessoa. Quem tinha um QI elevado era considerado mais apto para resolver problemas, tomar boas decisões e se destacar na vida. Mas a realidade mostrou-se bem mais complexa. Hoje sabemos que existem diferentes tipos de inteligência: a lógica, a emocional, a social, a criativa, a prática, dentre outras. Uma pessoa pode ser excelente em cálculos matemáticos, mas desastrosa em lidar com emoções próprias ou alheias. Outra pode não ter facilidade com números, mas possuir uma habilidade extraordinária de compreender pessoas e situações. Isso significa que, quando falamos em “agir de forma burra” ou “agir de forma sábia”, muitas vezes estamos nos referindo a diferentes dimensões da inteligência que se manifestam de maneira desigual.

            Um dos fatores que explicam por que pessoas inteligentes podem agir de forma aparentemente tola é o excesso de confiança. Quem tem histórico de acertos, quem já foi reconhecido como brilhante em sua área, tende a acreditar que suas conclusões são sempre corretas. Esse excesso de confiança pode levar a decisões precipitadas, sem considerar todos os aspectos da situação. É como o motorista experiente que, por se achar habilidoso, ignora regras básicas de segurança e acaba se envolvendo em acidentes. A inteligência, nesse caso, cria uma armadilha: a pessoa acredita tanto em sua capacidade que deixa de questionar suas próprias escolhas.

            Outro ponto importante é que o raciocínio lógico nem sempre anda de mãos dadas com o bom senso. Há situações em que a vida exige uma leitura emocional ou intuitiva, e não apenas uma análise racional. Imagine alguém que, diante de um conflito familiar, tenta resolver tudo como se fosse uma equação matemática. Essa pessoa pode ser brilhante em cálculos, mas incapaz de perceber nuances emocionais, ferindo sentimentos e piorando a situação. Nesse caso, a inteligência lógica não garante uma ação sábia. O contrário também acontece: pessoas simples, sem formação acadêmica, podem ter uma sensibilidade emocional tão aguçada que conseguem mediar conflitos com delicadeza e eficácia, demonstrando uma sabedoria prática que impressiona.

            Além disso, há o fator das emoções. A psicologia mostra que, quando estamos sob forte influência emocional - seja raiva, medo, paixão ou ansiedade - nossa capacidade de julgamento racional diminui. Mesmo indivíduos altamente inteligentes podem tomar decisões desastrosas quando dominados por sentimentos intensos. É o cientista brilhante que perde a cabeça numa discussão e diz coisas que não deveria, ou o empresário genial que, tomado pela ganância, arrisca tudo em um investimento imprudente. Nessas horas, não é a inteligência que guia a ação, mas sim a emoção. E como as emoções são universais, todos estamos sujeitos a agir de forma “burra” em algum momento.

            Curiosamente, pessoas consideradas menos inteligentes ou com menos instrução formal muitas vezes desenvolvem estratégias de sobrevivência que lhes dão uma sabedoria prática. Quem cresce em ambientes desafiadores aprende a lidar com dificuldades de forma criativa, a improvisar soluções, a perceber sinais sutis do comportamento humano. Essa experiência prática pode se traduzir em decisões acertadas em situações da vida real. É o caso do agricultor que, sem nunca ter estudado meteorologia, sabe prever a chuva observando o comportamento dos animais ou o cheiro do vento. Ou da avó que, sem ter lido livros de psicologia, entende profundamente os netos e sabe quando uma palavra de carinho vale mais do que uma bronca. Essas pessoas podem não ser “inteligentes” segundo critérios acadêmicos, mas demonstram uma sabedoria que muitas vezes falta aos eruditos.

            Outro aspecto que merece atenção é o viés cognitivo. Todos nós temos atalhos mentais que usamos para tomar decisões rápidas. Esses atalhos, chamados de heurísticas, são úteis na maior parte do tempo, mas podem nos levar a erros. Pessoas inteligentes não estão imunes a esses vieses. Pelo contrário, às vezes sua capacidade de argumentação serve para justificar escolhas equivocadas. É o que os psicólogos chamam de “racionalização”: em vez de admitir que erraram, indivíduos inteligentes criam explicações sofisticadas para sustentar decisões ruins. Isso pode dar a impressão de que estão agindo de forma tola, porque insistem em erros que poderiam ser corrigidos com humildade.

            Há também a questão cultural. Em diferentes sociedades, o que é considerado “inteligente” ou “burro” varia. Uma decisão que parece irracional em um contexto pode ser perfeitamente lógica em outro. Por exemplo, alguém pode achar estranho que uma pessoa recuse uma oportunidade de trabalho melhor para ficar perto da família. Para alguns, isso é “burrice”, porque significa perder dinheiro e status. Para outros, é sábio, porque valoriza vínculos afetivos e qualidade de vida. Nesse sentido, a avaliação sobre inteligência ou burrice depende muito dos valores que cada cultura ou indivíduo considera importantes.

            Não podemos esquecer ainda da influência do acaso. Muitas vezes, uma decisão acertada ou equivocada não depende apenas da inteligência, mas de fatores externos imprevisíveis. Uma pessoa pode tomar uma decisão lógica e bem fundamentada, mas ser surpreendida por uma crise econômica, uma mudança política ou um evento inesperado. O resultado pode parecer “burro”, mesmo que o raciocínio tenha sido correto. Da mesma forma, alguém pode tomar uma decisão sem grande reflexão e, por sorte, acertar em cheio. Isso reforça a ideia de que inteligência não garante sucesso absoluto, e que a vida é cheia de variáveis fora do nosso controle.

            O paradoxo entre inteligência e burrice também se manifesta em situações sociais. Pessoas inteligentes podem se sentir pressionadas a mostrar sua superioridade, e isso as leva a comportamentos arrogantes ou desconectados da realidade. Já indivíduos mais simples, por não carregarem esse peso, podem agir com naturalidade e espontaneidade, conquistando simpatia e confiança. Em muitos casos, essa confiança abre portas e gera oportunidades que a inteligência, sozinha, não conseguiria. É como o vendedor que não domina técnicas sofisticadas de marketing, mas conquista clientes pela simpatia e honestidade. Sua atitude pode ser mais eficaz do que a de um especialista que tenta impressionar com termos técnicos.

            Outro ponto fascinante é que a inteligência pode ser usada para justificar comportamentos irracionais. Pessoas brilhantes têm a capacidade de construir argumentos complexos para defender ideias que, no fundo, não fazem sentido. Isso é visível em debates políticos, religiosos ou ideológicos, onde indivíduos altamente inteligentes defendem posições extremas com grande eloquência. Para quem observa de fora, isso pode parecer burrice, porque o argumento é sofisticado, mas desconectado da realidade prática. Nesse caso, a inteligência se torna uma ferramenta para reforçar crenças, em vez de questioná-las.

            Por outro lado, a chamada “sabedoria popular” mostra que muitas vezes o conhecimento acumulado por gerações oferece respostas mais eficazes do que teorias complexas. Ditados, conselhos e práticas tradicionais podem parecer simplórios, mas carregam uma lógica prática que resiste ao tempo. Quando alguém segue esses ensinamentos, pode parecer menos sofisticado, mas na prática está agindo de forma sábia. Isso mostra que inteligência não é apenas a capacidade de criar novas ideias, mas também de reconhecer o valor do conhecimento coletivo.

            Vale lembrar que o cérebro humano não funciona como uma máquina perfeita. Ele está sujeito a falhas, distrações, lapsos de memória e ilusões. Pessoas inteligentes não estão livres desses erros. Às vezes, o simples cansaço ou estresse faz com que alguém tome uma decisão equivocada. Isso não significa falta de inteligência, mas sim uma limitação natural da mente humana. Reconhecer essa vulnerabilidade é um sinal de sabedoria, porque nos lembra que ninguém é infalível.

            No fim das contas, o que chamamos de “agir de forma burra” ou “agir de forma sábia” depende muito do contexto, das expectativas e dos valores envolvidos. A inteligência é uma ferramenta poderosa, mas não é garantia de acertos. Ela precisa ser acompanhada de humildade, sensibilidade emocional, consciência dos próprios limites e abertura para aprender com os outros. Da mesma forma, a simplicidade pode esconder uma sabedoria prática que não deve ser subestimada. O paradoxo entre inteligência e burrice nos ensina que todos somos capazes de errar e acertar, independentemente de diplomas ou títulos.

            Talvez a maior lição seja que a verdadeira sabedoria não está apenas em pensar de forma brilhante, mas em viver de forma íntegra. É reconhecer que a mente pode nos iludir, que o orgulho pode nos trair e que a aparência de inteligência não vale nada sem a capacidade de ouvir, observar e ajustar o rumo quando necessário. A pessoa sábia não é aquela que nunca erra, mas a que aprende com o erro, pede desculpas quando exagera, muda de opinião quando encontra evidências melhores e tem coragem de admitir que não sabe quando não sabe. Isso exige humildade - uma qualidade que, ironicamente, muitos confundem com fraqueza, quando na verdade é força.

            Se olharmos de perto, veremos que nossas histórias pessoais estão cheias de momentos pessoais brilhantes e momentos pessoais tolos. Às vezes, num dia, fazemos as duas coisas. Tomamos uma decisão excelente de manhã e, à tarde, tropeçamos no próprio ego. É humano, real e comum. O que diferencia quem cresce de quem repete os mesmos erros é a capacidade de refletir sem se punir, de olhar para trás com honestidade e dizer: “Eu poderia ter feito diferente.” Essa frase, simples e difícil, é um marco de maturidade.

            E há um aspecto bonito nessa reflexão: ela nos convida à empatia. Quando entendemos que gente inteligente pode fazer bobagem e que gente simples pode ter lampejos de genialidade, passamos a julgar menos e a ouvir mais. O colega que você considera brilhante pode estar passando por um dia ruim, dominado por emoções que você não vê. A vizinha que você acha “sem estudo” talvez carregue uma sabedoria que vem da vida, das perdas, das observações silenciosas que ninguém ensinou, mas ela aprendeu. Relacionar-se com pessoas a partir desse lugar de curiosidade e respeito é, por si só, um sinal de inteligência emocional.

            No cotidiano, algumas pequenas práticas ajudam a equilibrar inteligência e sabedoria. Pausar antes de decidir, pedir uma opinião sincera, aceitar críticas sem se defender automaticamente, checar se não estamos apenas usando argumentos para proteger o próprio orgulho. Também vale cultivar o hábito de perguntar: “Que evidência eu tenho?” e “Que possibilidade eu não considerei?”. São perguntas simples que desmontam a armadilha do excesso de confiança e nos abrem para ver o que estava invisível.

            Enfim, talvez devamos abandonar a tentação de dividir o mundo entre “inteligentes” e “burros”. Essa classificação é pobre, cruel e quase sempre enganosa. Melhor pensar em pessoas em movimento: aprendendo, errando, acertando, revendo crenças, refinando intuições. A mesma pessoa que hoje parece ter agido de forma tola pode, amanhã, mostrar uma lucidez que muda tudo. E a que hoje brilha pode, se não cuidar, tropeçar no próprio brilho. A vida é dinâmica, e nossa mente também. No fundo, o que buscamos não é a perfeição intelectual, mas uma inteligência que sirva à vida. Uma inteligência que saiba quando recuar, quando avançar, quando silenciar e quando falar. Que reconheça que números, teorias e argumentos são ferramentas valiosas, mas que sentimentos, vínculos e experiências também são formas legítimas de conhecimento. Quando colocamos essas peças para trabalhar juntas, o paradoxo começa a perder a força. A pessoa tida como “inteligente” fica menos propensa a agir de forma burra, e a pessoa vista como “simples” revela talentos que estavam escondidos na pressa dos rótulos.

            Se existe uma chave para esse equilíbrio, talvez seja a coragem de olhar para dentro. Coragem para admitir que não sabemos tudo, que podemos mudar, que podemos aprender com quem é diferente de nós. Coragem para aceitar que não somos só nossas qualidades brilhantes, nem nossos piores momentos. Somos o caminho entre um e outro. E ao caminhar, errando e acertando, vamos aprendendo que a inteligência que realmente importa é aquela que melhora a vida: nossa e a dos outros. Essa, no fim, é a sabedoria que vale a pena.


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