quarta-feira, 25 de abril de 2012

BREVE CONSIDERAÇÃO SOBRE A IMPORTÂNCIA DO LIVRO DIDÁTICO

Por Heitor Jorge Lau
Tutor da Disciplina Processos Gerenciais da Uninter Pólo Santa Cruz do Sul
Empresário e Mestrando em Educação
Pós-Graduado em Gestão de Recursos Humanos
Bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas

   Um antigo dito popular cita: “tudo possui um lado positivo e um negativo na vida”.

   Ao optarmos por visualizar o livro didático como uma bússola do processo educacional teremos o lado positivo. Em contrapartida, ao optarmos por considerá-lo como peça única em sala de aula, eis o lado negativo. Afinal, um livro didático por mais gabaritado que possa ser não distingue o fator preponderante que é a heterogeneidade, e muito menos revoga o papel maior do educador que é ser mediador (insubstituível) do processo ensino-aprendizagem.

    O livro didático é, acima de tudo, um valioso instrumento configurado com propostas e conteúdos sistematicamente organizado. Talvez, seja mais interessante empreender esforços em compreender como ele é percebido e utilizado ao invés de tentar percebê-lo como algo completo e acabado. O livro didático está longe de ser personificado como um professor e o educando, por si só, está longe de absorver conteúdos e desenvolver conhecimentos.

    É notória a sobrecarga de horas-aula que cada educador carrega consigo, portanto, o livro didático também economiza tempo na configuração das aulas. Acredito que o pior livro poderá transformar-se em satisfatório nas mãos de um excelente educador, bem como, um livro excelente perderá a sua validade e riqueza de informações diante de um professor medíocre.

    Livros didáticos norteiam, não engessam! Portanto, a eficiência do livro didático está particularmente relacionada a maneira de como ele será interpretado e utilizado pelo professor no ano letivo.

ENSAIO SOBRE A IMPORTÂNCIA DA ATENÇÃO DURANTE O APRENDIZADO

* Os textos inseridos nesta postagem foram replicados de um fórum sobre Neurociência versus Educação, do curso Master en Educación da Universidad de Jaén, no qual o autor deste blog é integrante na categoria de mestrando.

Por Heitor Jorge Lau
Tutor da Disciplina Processos Gerenciais da Uninter Pólo Santa Cruz do Sul
Empresário e Mestrando em Educação
Pós-Graduado em Gestão de Recursos Humanos
Bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas

    Recorte de uma postagem: “[...] a motivação é a porta do aprendizado e a grande porta do aprendizado é atenção [...]”. * Grifo meu!

    Ouvi em vários momentos distintos uma afirmação (totalmente errônea) sobre a capacidade das gerações atuais de conseguirem a façanha de processar muitas informações simultaneamente, como por exemplo: conversar no celular, escrever um texto, ouvir música e algo mais se for necessário. Tudo isto com muita naturalidade e controle absoluto.

    Também fiz um recorte de um site, onde existe tal consideração: "Eles [...] fazem outras dez coisas ao mesmo tempo”. * Eles = os jovens.

    Ao ler esta última postagem fico me perguntando como o cérebro humano (que se mantêm o mesmo desde que o “homem virou homem”) pode processar mais de uma informação ao mesmo tempo, diferentemente de fazer duas coisas ao mesmo tempo (cantar e correr). Nem o computador mais moderno consegue tal façanha (não que a máquina supere a mente humana, longe disto).

    Por isso achei muito pertinente e importante o recorte que enfatiza a atenção como porta de entrada para o aprendizado. A ciência já comprovou incontáveis vezes que os indivíduos concentrados, em ambientes propícios, com a atenção focada, executam com esmero uma tarefa.

    A pesquisadora Etienne Koechlin - Instituto Nacional de Saúde e Investigação Médica de Paris -, afirma que o ser humano, não enfrenta problemas ao compartilhar duas tarefas no cotidiano. Por exemplo, falar ao telefone e cozinhar simultaneamente. Todavia, os problemas surgem na medida em que o indivíduo busca atingir mais do que dois objetivos ao mesmo tempo. Os lóbulos frontais, que funcionam conjuntamente frente a uma tarefa, se dividem na execução de uma tarefa dupla. Mas, no caso de três tarefas eles irão ignorar um dos objetivos.

    Este tipo de conhecimento, muito bem fundamentado, deve servir como subsídio de argumentação na hora de conversar com discentes e principalmente com os pais dos alunos, sobre a importância da concentração no momento da execução das tarefas relacionados a escola ou na hora do estudo nas dependências do lar (principalmente). Percebemos que no “refúgio dos filhos – o quarto –“ a presença da internet, televisão ou música é uma constante. Portanto, nosso papel também é esclarecer o prejuízo da falta de atenção e da falsa atenção “multi-partilhada”.

ENSAIOS SOBRE NEUROCIÊNCIA

* Os textos inseridos nesta postagem foram replicados de um fórum sobre Neurociência versus Educação, do curso Master en Educación da Universidad de Jaén, no qual o autor deste blog é integrante na categoria de mestrando.

Por Heitor Jorge Lau
Tutor da Disciplina Processos Gerenciais da Uninter Pólo Santa Cruz do Sul
Empresário e Mestrando em Educação
Pós-Graduado em Gestão de Recursos Humanos
Bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas

    A neurociência relacionada à educação ainda é relativamente recente no Brasil. Porém, a partir da grande quantidade de material vinculado ao assunto, sem dúvida, ela é de imensa importância, uma vez que o objeto principal da tríade neurociência-educação-aprendizagem é o mesmo: o cérebro. E indubitavelmente, o aprender está diretamente relacionado ao desenvolvimento do cérebro, em amplo sentido (serve tanto para o corpo docente quanto para o discente). Deter competências suficientes para colocar em prática as habilidades e gerar conhecimento de forma ininterrupta não é tarefa fácil. Isto somente torna-se possível, não pelo aumento das sinapses, mas pela intensidade de sinapses pertinentes aos objetivos previamente determinados. O conhecimento mais aprofundado da neurociência é que possibilita a construção de artifícios para o aprendizado, retenção de informações e lembrança de “memórias arquivadas”. É sempre relevante ter em mente que apesar do cérebro ser dotado de imensa plasticidade neuronal, o aumento da intensidade sináptica não antevê acréscimo da capacidade de aprender generalizadamente. Portanto, a neurociência é importante, mas precisa ser apreendida com muita cautela.

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    Ao que tudo indica, um ambiente estimulante leva a formação de novas sinapses. Por isso, tão relevante quanto compreender sobre o complexo funcionamento do cérebro (neurociência) é saber como criar a melhor forma de provocar o pleno aprendizado. O aumento gradual das taxas sinápticas e a conseqüente aprendizagem são reflexos oriundos das capacidades (habilidades, competências e conhecimentos) do docente/discente versus metodologia de ensino versus ambientes educacionais. Por este prisma é perceptível que o estudo e concepções sobre a neurociência não comportam, por si só, novos estratagemas educacionais por não serem suficientes para propiciar melhores resultados em sala de aula. Talvez, o maior desafio do professor seja: criar as “ferramentas” apropriadas e o ambiente propício, a fim de contemplar os diversos modelos mentais existentes no contexto escolar. A neurociência trata do assunto de forma não especulativa, e faz emergir significados sobre a eficiência mais acentuada de algumas abordagens sobre outras em sala de aula. Portanto, não se pode negligenciar e desassociar este conhecimento, das outras ciências que abarcam a cognição e educação. Por outro lado, precisam ser percebidas como aliados.

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     A observação (breve e superficial) de uma escola que adotou o modelo cognitivista-construtivista há vários anos, aliás, considerada uma aberração por aquela comunidade local, que na época somente conhecia e admitia o modelo de ensino da Aprendizagem por Transmissão, demonstrou o seguinte: Anos transcorreram e o modelo permanece. Todavia, durante os contatos com alguns profissionais da educação, comentários sobre os problemas decorrentes do modelo praticado por aquela escola não foram promissores. A falta ou carência de noções suficientes para a resolução de questões matemáticas e de português foram as que encabeçam a lista de falhas. Um docente que incrementa a renda através de aulas particulares cita: - Eu adoro a Escola Xxxxxx porque meus alunos são todos de lá (risos). * Nome da escola não será revelada. Não seria razoável declinar ou criticar ferrenhamente o modelo por resultados não alentadores, outrossim, seria sensato considerar (neste caso, sem estudos mais aprofundados) alguma carência no currículo do docente, nas metodologias aplicadas ou ambientes configurados, fatores que poderiam perfeitamente ser ajustados. 

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      É possível afirmar que quando os desafios propostos são altos e as habilidades do corpo discente são baixas o resultado resume-se em ansiedade, preocupação e frustração. Em contrapartida, se as habilidades são altas e os desafios são baixos, o resultado resume-se em tédio e relaxamento. Desta forma, a dosagem correta entre desafios e habilidades converte o aprendizado em experiências do saber. Tal fluxo tende a acontecer no momento que as habilidades de um docente/discente estão completamente dedicadas em superar o desafio que está no limiar da capacidade de controle.
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    Seres humanos comportam uma espécie de organização interna cognitiva fundamentada em informações e conhecimentos singularmente de caráter conceitual, e o grau de complexão se perfaz por intermédio dos links que esses conceitos constroem. Este interessante processo se constitui ininterruptamente através da abstração e da generalização de informações na rede neurônica.

     Ausubel afirmou em seus estudos que a aprendizagem significativa ocorre a partir de duas condições básicas: da disposição para o aprendizado; e da existência de conteúdos significativos. A primeira depende, em parte, da disposição do aluno em desejar aprender, em querer absorver conteúdos, o que é diferente de memorizar arbitrária e literalmente conteúdos ministrados em sala de aula. Neste caso, a aprendizagem significativa cede espaço para a aprendizagem mecânica, que não deixa de ser o processo cartesiano amplamente difundido e utilizado em grande quantidade de escolas.

     Desenhar conteúdos potencialmente significativos exige do educador uma visão sistêmico-analítica aguçada, preparada para tal, a fim de determinar o que possui significado lógico e o que possui significado psicológico. A diferença entre os significados é que o primeiro depende estritamente da natureza do conteúdo enquanto o segundo está intimamente relacionado às experiências que cada educando acumulou durante a vida.

    Portanto, é interessante prever que o aluno efetua, dinamicamente, aquilo que se pode conceber como uma “filtragem" de todo e qualquer conteúdo que chega ao seu conhecimento, separando tudo o que têm ou não, relativo significado para si. Ser educador não é fácil mas ser educando também não. Lembremo-nos disso!

quinta-feira, 22 de março de 2012

FALANDO SOBRE EDUCAÇÃO


Por Heitor Jorge Lau
Empresário e Mestrando em Educação
Pós-Graduado em Gestão de Recursos Humanos
Bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas
_____  Introdução
            No ano de 1988 foi promulgada a Constituição da República Federativa do Brasil, fato histórico marcado pela manifestação explícita dos fundamentos básicos dos direitos civis, políticos e sociais dos cidadãos do Estado brasileiro. Os princípios sabiamente redigidos não são realidades integralmente vigentes porque foram pautados sob o prisma de metas e objetivos a serem constituídos e alcançados. A construção do cenário ideal da educação, de um projeto político pedagógico pleno e da formação docente não poderia ser diferente. Todo e qualquer projeto de construção nasce do imaginário para o concreto e isto não significa que durante a trajetória caminhos alternativos e desvios não possam perfeita e harmonicamente acontecer. Aliás, são vieses naturais e necessários e qualquer atalho milagroso que evitasse este percurso resultaria, de certa forma, em trabalho duvidoso. A humanidade sempre evoluiu em decorrência das rupturas, adaptações e transformações das normativas momentaneamente em vigor, e configurar uma expectativa contrária seria perda de tempo. O mundo contemporâneo trouxe novas tendências e anseios, transformou a visão das organizações e a escola não poderia deixar de ser inclusa na reconfiguração e reconstrução de suas práticas educacionais. O espaço escola e o cidadão professor ficaram igualmente expostos e sujeitos aos olhares críticos e ávidos da sociedade, por adaptações e respostas aos novos tempos. Talvez, nem todas as dúvidas fossem claras, ou nem todas as cobranças fossem coerentes, mas o certo que elas estavam presentes e figuram até hoje. Atualmente, tratar de assuntos relacionados a educação deveria ser tão corriqueiro quanto discorrer sobre matérias de outras áreas de atuação profissional. Mas parece não ser. Talvez, pelas complexidades que envolvem e caracterizam o processo ensino-aprendizagem, permeados de dimensões conceituais, normativas e estruturais. Independentemente de ser uma discussão de categoria habitual ou não, o fato é que a escola representa o ponto de partida - depois da educação familiar - para a construção do conhecimento formativo do aluno-cidadão.

____    Escola x Educador x Educando
            É relevante ressaltar que as instituições de ensino lidam diariamente com a diversidade humana (em formação) e em contrapartida com conteúdos rigorosamente normatizados. Lecionar significa encarar um desafio diário, intenso e ininterrupto. Assim, a conseqüência específica e direta desta dinâmica é que o educador precisa manter-se atualizado, reciclando teorias e técnicas de docência. No que dizem respeito às técnicas empreendidas, os horizontes são infinitamente fecundos e abrangentes. O docente deve navegar pelos campos do saber de forma multidisciplinar, absorvendo conteúdos da sociologia, filosofia, antropologia, psicologia, enfim, de várias disciplinas. Tudo porque o educando dos dias de hoje, principalmente do ensino médio, além do pouco interesse pelos conteúdos ministrados (tipicamente natural em decorrência da faixa etária), participa ativamente de um mundo recheado de informação cuja velocidade e acessibilidade é algo nunca presenciado antes. Esta mecânica prática-virtual categoriza o aluno como exigente máximo, e paradoxalmente desinteressado no ambiente escolar. Exigente porque ele ignora conteúdos “estáticos” transmitidos de forma linear, ou seja, sem o movimento da dinâmica virtual. Por outro lado, desinteressado porque o aprendizado deve acontecer quase instantaneamente, sem muito esforço e se possível sem avaliação. Estes panoramas são reflexos da virtualidade impingida pelo advento da internet e principalmente das redes sociais, onde as fronteiras e regras rígidas de convivência praticamente inexistem. Em decorrência disto, o professor, outrora reconhecido como exigente e disciplinador, está perdendo o fôlego, a paciência e o ânimo pela profissão. Ora, qual o fator que fomenta o ímpeto de qualquer ocupação? A resposta é simples: o desafio. Se, atualmente os desafios são tantos, sejam eles de ordem financeira, humana ou de recursos materiais, desanimar e “jogar a toalha” simplesmente não resolve a questão ou “recalibra” as intenções. A lista de motivos apresentados para justificar a queda de rendimento dos educadores é encabeçada pela baixa remuneração e pela falta de condições oferecidas pelos órgãos competentes das esferas municipais, estaduais e federais. Lógico, ignorar esta realidade seria insensato, todavia, não pode ser incentivo para o desgosto pela profissão. Um professor, acima de tudo, precisa estar diariamente munido de infindável resiliência e de eterna sede pelo saber. A convicção pelo exercício da docência, a vontade pela busca do conhecimento e a persistência são temperos que alimentam sua “alma profissional”. Outro detalhe reside no fato de que o processo de ensino-aprendizagem não deve ser concebido como um evento unilateral ou de via única. Ele acontece bilateralmente, em via de mão dupla, ou seja, o educando aprende, o educador também (“feliz aquele que ensina o que sabe e aprende o que ensina”). O educando não pode ser reconhecido como um observador passivo que aprende tudo que lhe é dito e ensinado, pelo contrário, ele deve ser percebido como personagem ativo do imenso cipoal de métodos e práticas educacionais.

____    Tecnologia
            Também é proeminente reconhecer que as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) em sala de aula acabam se tornando aliadas dos educadores neste festival de interações. Mas, não esqueçamos que as TIC não comportam soluções e conteúdos completos para o aprendizado, mesmo que aproximem o aluno da escola e do professor por harmonizar a relação ensinar versus aprender. Trata-se de um meio de comunicação mais próximo da realidade do educando. Mas, dominar as tecnologias da informação é mister, pois o direcionamento correto e a imposição de limites, tanto da utilização como do acesso a conteúdos pertinentes, é absolutamente necessário no processo ensino-aprendizagem.

____    Papel do Educador
            O papel do professor não apenas diante do uso das TIC em sala de aula, mas num contexto mais amplo, é postar-se como mestre e mentor sempre disposto e disponível. Afinal, como dito anteriormente, o cerne das questões de relacionamento são, quase na totalidade, de caráter subjetivo e individual. O educando, ao procurar o educador espera reação imediata, e deixar qualquer questão, por menos relevante que possa parecer, sem a devida atenção e resposta, é semear o descrédito em ambas as partes – o educando desacredita o professor por ter sido negligenciado. O educador é protagonista do cenário da educação e o educando é coadjuvante (mas, personagem ativo e indispensável na construção do processo). Talvez, aqui esteja a grande questão e carência técnica do educador diante do desafio de tentar manter-se sempre no ápice das atenções dentro da sala de aula: ser protagonista. Não é tarefa fácil, pois exige uma performance espetacular e três noções fundamentais: consciência de si, dos outros e da existência das diferenças; controle absoluto dos desejos e impulsos pessoais; e responsabilidade por suas ações e conseqüências.

____    Relações Sociais
            A visão de Vygotsky sustentava que o homem somente alcança funções psicológicas superiores às básicas por intermédio das relações sociais. Mas tais relações possuem sua gênese no âmbito familiar, centro de toda iniciação e fundamentação sólida do sujeito-humano. Ainda que as famílias personifiquem o professor como sendo o centro transmissor do conhecimento, o aluno como sendo o receptor passivo do conhecimento, e finalmente, a escola como sendo o local que ocorre a transmissão deste conhecimento. Diante de tantas personificações e expectativas equivocadas, o processo ensino-aprendizagem tornar-se palco diário de desentendimentos. O resultado disto tudo pode ser percebido pela visão distorcida de um do “professor despreparado e ineficaz”. Indubitavelmente, os estímulos recebidos no lar são responsáveis diretos por todo desenvolvimento das competências necessárias para a aprendizagem.

____    Ambiente Formativo do Docente
            Diante de tantas concepções e questões relacionadas ao processo ensino-aprendizagem, existe um lado positivo disto tudo. O ambiente escolar continua sendo o cenário ideal para a formação plena do docente. Todas as instituições de ensino comportavam problemas antes das reformas educacionais e continuam contendo, mesmo depois terem sido implementadas. Lógico, determinadas carências que independem de reformas, precisam ser corrigidas como ausência de bibliotecas quantitativamente e qualitativamente satisfatórias, ambientes tecnológicos mais modernos, acesso a cursos de gabarito voltados à reciclagem de conhecimentos prático-teóricos, entre outras. Os processos de ensino sofreram, no decorrer da sua história, várias reformulações justificadas por uma democratização sócio-cultural mais eficaz e mais recentemente pela necessidade de ajuste aos desafios que a globalização fez insurgir. Concernente ao ensino médio, a “antiga escola” que era objetivamente pautada pela propedêutica tornou-se obsoleta e inaceitável nos dias atuais porque o educando não é efetivamente preparado para o mercado de trabalho. Em contrapartida, paralelamente os cursos profissionalizantes atendem este quesito em detrimento de uma formação mais abrangente. Portanto, nenhuma das duas atende plenamente o modelo de mundo existente. Parece que há uma tentativa de congregar os dois perfis educacionais de forma a preparar o aluno para “a vida” ao invés de somente para uma provável graduação. Estar preparado para a vida transcende a simples idéia de construir um saber voltado à mera reprodução de dados, pelo contrário, significa saber se informar e argumentar, ser crítico e “inventor” de novas propostas, e acima de tudo, ser um eterno aprendiz.

____    A Escola do Mundo Contemporâneo
            As exigências formativas do mundo moderno evocam da educação um enfoque contextual mais amplo. Todas as reformas educacionais promovidas intentaram uma adaptação as novas demandas, e às instituições de ensino e aos professores, resta a incumbência de formular projetos pedagógicos que contemplem as diretrizes propostas concomitantemente às propostas transversais da própria escola. Os parâmetros curriculares sugeridos na última década parecem coerentes e viáveis, e a prova disto está no fato de que as orientações educacionais sugerem uma articulação inter-áreas, desbancando a concepção errônea de que cada disciplina possui caráter estritamente individual e “sacrário”, ou seja, a interdisciplinaridade é possível e necessária. O processo ensino-aprendizagem é complexo pela natureza da sua matéria prima básica: pessoas; e, é intricado pela quantidade de modelos mentais, cada um forjado por culturas e contextos pessoais dos mais diversos. Esta característica deveria incentivar a possibilidade do ensino via interdisciplinaridade, todavia, com o cuidado extremo de várias disciplinas do currículo não tratarem do mesmo tema no decorrer do mesmo período letivo. A interdisciplinaridade não pode ser compreendida como uma simples integração de diversas disciplinas no contexto de algum projeto curricular, deveria, sim, garantir uma unidade das práticas pedagógicas.

____    Consideração final
            Um profissional da educação deve, obrigatoriamente, saber o que faz em sala de aula e porque esta realizando de uma forma ao invés de outra. O professor detentor da capacidade de buscar conhecimento ininterruptamente e de se auto-reinventar (condições sine qua non) é o agente de mudanças que toda escola precisa.

segunda-feira, 5 de março de 2012

A DIFÍCIL ARTE DE COACHING


   
Por Heitor Jorge Lau
Empresário e Mestrando em Educação
Pós-Graduado em Gestão de Recursos Humanos
Bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas

    O mundo contemporâneo atingiu um dinamismo antes nunca percebido, provocando mudanças de hábitos e convertendo identidades, até então ditas como ideais, em “identidades ultrapassadas”. O homem moderno tornou-se um indivíduo fragmentado, multifacetado. Esta nova ótica retirou de todo cidadão a estabilidade do ser e agir conforme paradigmas instituídos e aceitos como únicos, acertados e perpétuos. Portanto, o homem-família, o homem-social, o homem-trabalho, acaba sentindo despreparo e desconforto por ter que administrar simultaneamente um cabedal de perfis e personalidades de grupos heterogêneos. Naquilo que concerne às relações de trabalho, que é o foco principal deste texto, o novo paradigma das interrelações pessoais é infinitamente mais delicado e compassivo. A questão é: como lidar com tanta diversidade cultural, intelectual e social ao mesmo tempo, e sob intensa e constante pressão? Neste cenário extremamente diversificado o profissional de coaching desenvolve um verdadeiro e difícil “trabalho de arte”. Justamente porque o seu papel está na façanha de influenciar o coachee sem apresentar soluções prontas sejam elas práticas ou teóricas, sem subjugar. A influência deve ser sutil, porém, alicerçada por conhecimento prático-teórico suficientes para motivar a busca por novos saberes e soluções. É importante ressaltar que, quando a necessidade presencial do profissional de coaching é reconhecida pelo próprio coachee a mecânica de todo processo flui de forma mais espontânea. No entanto, quando percebida por alguém de grau mais elevado na escala hierárquica do coachee, a relutância é natural e provável, afinal, “outro” estará apontando uma carência talvez não admitida. Diante do exposto é notório o fato de que o maior entrave nas relações coach versus coachee não ancora nos problemas propriamente ditos, mas sim, no administrar o subjetivo. E, é relevante evidenciar que o subjetivo é tempero indissociável da pluralidade de interpretações. Cada coachee traz consigo uma personalidade construída por diferentes pessoas e ambientes pelos quais manteve contato por sua vida, e isto, não está registrado em algum diário ou manual operacional. Todo seu conhecimento prático-teórico também. Este capital intangível possui um valor inquestionável para aquele que o detém e resume-se, na maioria das vezes, em sinônimo de algo intransferível e imutável. Esta imutabilidade, muitas vezes inconsciente, é que determina radicalmente a resistência contra as modificações das bases de valores pessoais. O ser humano ressente-se em abrir mão de tudo que lhe custou tempo e dinheiro. Por isso, e acima de tudo, o coach precisa deter a prática das relações interpessoais e conhecer tudo que for possível sobre as variáveis que moldam e conduzem o comportamento humano. O homem é um ser cognitivo inato e permanecerá num sistema organizacional recheado de complexidades por grande parte de sua vida, ora sendo influenciado, ora influenciando, ou seja, ele será produto e produtor do meio que vive. O ser humano visto como peça fundamental de todo e qualquer sistema de produção, precisa adequar suas características pessoais, especificamente suas potencialidades e limitações. O profissional de coaching terá a incumbência árdua de buscar compreender o incompreendido pelo coachee, e de fazê-lo expressar o compreendido, porém não expresso. Assim, cabe à relação coach x coachee identificar e ajustar modelos que influenciam diretamente aspectos psicológicos e sociais decorrentes das relações de trabalho. Portanto, o processo de coaching, além de reformular e corrigir práticas e relações de trabalho, sejam elas pessoais ou operacionais, resulta em acréscimo de conhecimentos multidisciplinares a todos os envolvidos.


Referências:
ARAÚJO, A. Coach. Um Parceiro para o seu Sucesso. São Paulo: Gente, 1999.

CHIAVENATO, I. Administração de Recursos Humanos. São Paulo: Atlas, 1980.

KRAUSZ, R.R. Coaching Executivo: A conquista da Liderança. São Paulo: Nobel, 2007.

SIMÕES, J.J. Psicologia e Dinâmica da Vida em Grupo. São Paulo: Loyola, 1980.

SOUZA, P. R. M de. A Nova Visão do Coaching na Gestão por Competências: A Integração da Estratégia. São Paulo: Qualitymark, 2007.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

HERANÇAS DE NOSSA NATUREZA PRIMITIVA

Por Heitor Jorge Lau
Relações Públicas, Pós-Graduado em Gestão de Pessoas
Mestrando em Educação

Ensaio do filme: O Senhor das Moscas

Os comentários redigidos a seguir são oriundos da observação e interpretação de um filme bastante antigo: O Senhor das Moscas. O olhar crítico sobre as particularidades exibidas foi associado fundamentalmente aos aspectos filosóficos do enredo. Porém, a análise dessas particularidades também encontrou ancoradouro nos universos da psicologia, sociologia e antropologia. Por que este passeio por diversas linhas de estudo? Justamente pela riqueza de situações verificadas através de atitudes individuais e grupais, pró-ativas e reativas, racionais e irracionais. Enfim, a diversidade de detalhes comportamentais é tão abrangente que se tornou praticamente impossível uma visão limitada aos aspectos filosóficos fortemente percebidos.

    O filme expõe os instintos mais primitivos da natureza humana. A desordem social, a disputa pelo poder, o controle do fogo, o instinto de caçar, o instinto de sobrevivência... Não seria exagero compará-lo a uma versão do filme Guerra do Fogo vivenciado em tempos modernos. Aspectos do elenco, caracterizados pela figura masculina pré-adolescente e militarizados, foram desconsiderados, levando-se em conta somente atitudes e aprendizado.

    Uma sociedade doutrinada
Virtualmente, todas as sociedades desenvolvem estruturas hierárquicas nas quais certas pessoas são investidas de poder e autoridade sobre as outras. Em nossa sociedade, por exemplo, pais, diretores de escola, gerentes, etc., são investidos de vários graus de autoridade. O relacionamento entre figuras de autoridade e seus subordinados quase sempre provoca conflitos morais. Isto pode ser ilustrado de maneira vigorosa pela história de Abraão, a quem Deus ordenou que matasse seu filho Isaac. O dilema de Abraão é que ele sentia amor por Deus e pelo seu filho, mas havia sido colocado numa posição em que era aparentemente solicitado a trair um ou outro. Até que ponto deveria ir sua obediência a Deus?

    Um conflito semelhante ocorre quando, numa guerra, soldados recebem ordens de matar civis indefesos, como aconteceu durante a Guerra do Vietnã, quando o tenente Calley ordenou o massacre de civis em My Lai. A defesa de Calley fundamentou-se na afirmação de que estava obedecendo a ordens dos seus superiores – em outras palavras simplesmente “cumprindo o seu dever”. Aqui ocorre o conflito entre os requisitos da disciplina do exército e o respeito à vida humana.

    No exemplo citado, é nítida a disposição das pessoas de irem a extremos a fim de serem obedientes às ordens de uma autoridade. Vale a pena lembrar como colaboradores agem no trabalho em relação aos seus superiores. Pessoas em posição de autoridade dizem e fazem coisas obviamente erradas ou inadequadas, mas mesmo assim existe uma relutância generalizada entre os subordinados em desafiar suas decisões.

    Culturalmente coloca-se uma ênfase muito grande na necessidade de se obedecer à autoridade, sob o argumento de que uma sociedade eficiente e bem organizada só pode existir quando há uma hierarquia razoavelmente estável na qual algumas pessoas são investidas de poder sobre as outras. E, a maioria das sociedades tenta garantir a obediência fazendo com que o indivíduo obediente ocupe um lugar na hierarquia.

    Na vida diária, colocamos a responsabilidade pela nossa saúde nas mãos do nosso médico, procuramos um contador quando precisamos de orientação financeira, etc. Temos a necessidade de confiar nas opiniões de várias figuras de autoridade e isto é exatamente o que os participantes da experiência fictícia do filme retratam. Um impulso incontrolável, uma necessidade inconsciente de prestar obediência a uma autoridade.

    Também não podemos ignorar o fato de que toda trama acontece num ambiente hostil, totalmente desprovido de leis sociais que regem a conduta moral, ética e dos bons costumes. Pode não parecer óbvio, mas o contexto geográfico pode validar ou rejeitar determinadas ações. Por exemplo, qualquer homem é capaz de expor o pescoço a alguém munido de uma navalha numa barbearia, mas não numa sapataria.

    O lado primitivo do humano
Bem, misturando o ambiente errado com a influência inadequada, teremos inevitavelmente, a receita da capacidade do homem de abandonar sua humanidade na medida em que ele funde sua personalidade única nas estruturas institucionais defeituosas. Talvez esse seja o defeito fatal com que a natureza nos dotou e que em longo prazo dá a nossa espécie apenas uma modesta chance de sobrevivência.

    Pessimismo ou não, basta resgatar a teoria da evolução de Charles Darwin que afirma que os seres humanos compartilham uma descendência comum com os mais primitivos dos animais. Esta herança aplica-se tanto ao cérebro humano, o berço da razão e da sensação, quanto a qualquer outra parte de nossa estrutura física e psicológica. Mas como estamos analisando comportamento ignoremos do “pescoço para baixo”.

    A ciência comprovou a existência de duas partes importantes do nosso cérebro: o paleocórtex e neocórtex. O paleocórtex ou sistema límbico é uma estrutura cerebral que se desenvolveu posteriormente e que governa a expressão das emoções. O neocórtex ou massa cinzenta é que distingue o homem dos outros animais. É justamente o neocórtex que permite o raciocínio lógico, o uso da linguagem complexa e a quebra das barreiras da evolução biológica.

    O homem herda algo mais do que genes, ele herda também as culturas complexas que ele mesmo cria. Naturalmente, existe certo grau de intercomunicação entre as duas partes, mesmo assim todas elas têm suas funções separadas e nenhuma tentativa de explicar a natureza humana pode ser bem-sucedida se não levarmos em conta essas diferenças.

    O desenvolvimento do neocórtex tornou possíveis as funções inter-relacionadas do raciocínio e da linguagem, mas como derivam de uma estrutura posterior, separada, o raciocínio e a linguagem têm pouco poder sobre o sistema límbico do paleocórtex e as emoções que ele governa. Esta pode ser a causa mais provável de nosso elenco desesperado ter migrado do imaginário moral e eticamente correto para um mundo onde a luta pela sobrevivência era mister.

   Considerações finais
   Conflitos extremamente poderosos podem ocorrer quando as pessoas são levadas a cometer atos imorais por uma figura de autoridade, e esses conflitos podem produzir níveis de tensão quase intoleráveis. A obediência é mais provável quando o indivíduo está mais envolvido com a figura de autoridade do que com a vítima e a desobediência quando o indivíduo testemunha o sofrimento da vítima.

   Questões como: Somente situações extremas fazem aflorar nossos instintos mais primitivos? - ou - Será que somos selvagens em nosso cotidiano de forma institucionalizada? Resta refletir sobre estas e outras tantas situações que assolam nosso desenvolvimento social. Quem sabe um dia as pessoas passem de candidatos à categoria efetiva de seres humanos, na verdadeira concepção da palavra.


“Não existe arte mais difícil que a de viver. Porque para as demais artes e ciências há mestres por toda parte. Até os jovens acreditam haver aprendido essas artes de tal maneira que podem ensiná-las a outros: durante a vida inteira a criatura tem que continuar aprendendo a viver e, coisa que surpreenderá ainda mais, tem , durante a vida inteira, que aprender a morrer.”
Sênega

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O SEGREDO DE UM AMOR PROIBIDO




Por Heitor Jorge Lau
Relações Públicas, Pós-Graduado em Gestão de Pessoas
Mestrando em Educação

              Resenha do livro O Pintor que escrevia

           WIERZCHOWSKI, Leticia. O pintor que escrevia: amor e pecado. 1. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003. 142p. 14 x 21 cm.

Leticia Wierzchowski é gaúcha e vive na cidade de Porto Alegre. Escritora desde 1997, a obra O pintor que escrevia é seu sexto livro. Ela compôs o romance A casa das sete mulheres cujo livro obteve tamanho sucesso que foi adaptado pela Rede Globo para uma minissérie de televisão. Graças ao excelente trabalho realizado, a autora conquistou prestigio e foi considerada uma grande revelação dos últimos anos no meio literário nacional.

O romance resenhado faz parte da coleção Amores Extremos que reúne composições de escritoras da literatura brasileira. Através do vidro, de Heloisa Seixas; Obsceno abandono, de Marilene Felinto; Para sempre, de Ana Maria Machado; Recados da lua, de Helena Jobim e Solo feminino, de Lívia Garcia-Roza também fazem parte da coletânea. São contextualizações de cenários recheados de amor, de paixão, de desejo e romantismo.

A narrativa, O pintor que escrevia, conta a história do pintor italiano, Marco Belluci, que encontrou guarida no Brasil no decorrer da Segunda Grande Guerra. Ele, inexplicavelmente, suicidou-se, deixando vários quadros encaixotados, sendo descobertos somente duas décadas após sua morte por um conhecido marchand, durante uma avaliação de suas pinturas. Surpreendentemente, atrás de cada tela foram encontrados textos redigidos pelo artista que revelavam um amor proibido.

     A história configura-se em uma pequena localidade da Serra Gaúcha, na década de cinqüenta, minuciosamente retratada pela escritora através da descrição de cenários, representados por sensações, por cores, por ruídos e até mesmo por aromas, expressões difíceis de causar a impressão de realidade. Tudo isso contado por orações curtas, sem expressões rebuscadas.

          O romance recheado de mistério do início ao fim, tem como protagonistas o pintor Marco Belucci e sua esposa Amapola, ambos naturais da Itália. Como coadjuvante aparece a genitora dela, Antônia Maestro, proprietária das terras onde os acontecimentos se sucedem. Todos fugidos da pátria mãe antes do começo do conflito que assolou a Europa e que repercutiu no restante do mundo.

        O artista era loucamente apaixonado pela esposa, Amapola, e manifestava tal sentimento em alguns quadros cujas pinceladas eram inspiradas por um amor inimaginável e que jamais alguém vira igual. Porém, por trás daquelas telas cheias de cor e vida existia algo mais do que apenas imagens coloridas por mãos talentosas, engendradas por uma mente brilhante e eternamente enamorada.

Apesar de todo talento e brilhantismo, Belucci era considerado um homem estranho e retraído, características que alguns atribuíam ao fato dele ter abandonado sua família às barbáries da guerra ao rumar para o Brasil. Ele transformou suas obras no repositório dos seus segredos e pecados. E foi neste começo de mistério e encantamento que este protagonista comete, misteriosamente, o suicídio.

          Aconteceu numa primavera. Enquanto sua amada ainda repousava no seu leito de amor, o apaixonado e devotado Marco Belucci, aos quarenta anos de idade, jogou-se pela janela de seu ateliê, esparramando-se sobre um canteiro de margaridas do jardim cuidadosamente ornamentado. A cena, tão surpreendente quanto assustadora, faz Amapola cair em desgraça pelo episódio macabro que acabara de vivenciar.

Por opção, a viúva decidiu partir deixando para trás todas as pinturas que o finado havia feito ao longo dos anos, pois elas a lembravam de momentos felizes que vivera ao lado dele. Resolvera embalá-las, com as técnicas que aprendera com o especialista, e deixá-las no seu recanto que por vários anos serviu de estúdio. E todos os quadros permaneceram lá, quietos, intocados, livres dos olhares da humanidade.

            Transcorridos vinte longos anos, Augusto Seara, marchand conhecidíssimo em São Paulo, é chamado para catalogar as obras de Belucci, mais de quarenta. Lisonjeado por ter sido designado para inventariar as obras que o mundo jamais vira o perito acompanhado de seu auxiliar, Zeca, rumou em direção à propriedade que durante duas décadas alojou, silenciosamente, os quadros do pintor. Mal sabiam eles sobre a surpresa que lhes aguardava.

E após longa viagem de São Paulo até ao sul do País, foram gentilmente recebidos por Ana, antiga empregada da família, e seu marido, remanescentes do local, incumbidos de resguardar e preservar a decrépita propriedade. Após uma noite de descanso, o dia seguinte foi dedicado à limpeza do sótão no qual Belucci trabalhara anos afins, afinal, depois de tanto tempo a poeira reinava soberana no ambiente, mesmo porque naquele local jamais alguém pisara depois do incidente fatídico.

          Seara escolhera um quadro, limpou-o, apontou as proporções da moldura e da tela, observou texturas e cores, e ao visualizar a parte posterior da pintura, uma exclamação pairou pelo ar: “Um pintor que escrevia – gemeu Augusto – emocionado. – A tela era a sua página.” (pg. 47). Foi neste momento que o marchand encontrou um texto sob o quadro, redigido na língua mãe do autor, o primeiro de uma série.

Seara sabia ler fluentemente italiano porque fora o idioma no qual havia sido alfabetizado. No primeiro quadro que ele examinou encontrou no verso a narrativa da época e o momento em que o pintor havia visto sua futura esposa, Amapola, pela primeira vez. Perplexo e entusiasmado pela descoberta, não via a hora de averiguar as demais obras, pois tinha a sensação de que encontraria mais inscrições.

Um estranho diário secreto, que até então somente Belucci tinha conhecimento, tinha finalmente sido descoberto. Os quadros seguintes revelavam certa aflição e sofrimento, deixando o marchand confuso por não compreender a angústia do pintor ao relembrar através das palavras redigidas, o seu amor por Amapola. Por que um amor tão intenso e verdadeiro causava simultaneamente prazer e sofrimento?

A cada nova descoberta Seara envolvia-se mais e mais com tudo aquilo, a ponto do seu imaginário sofrer influência das palavras e sentimentos expressos em cada linha escrita. havia uma pergunta que continuava sem resposta e fazia latejar sua a mente de tanta curiosidade: por que sofrer exacerbadamente possuindo uma esposa tão bela e apaixonada? A procura pela resposta tinha se tornado obsessão.

Foi neste mar de tormentos que o caseiro, esposo de Ana, sofreu um enfarte fulminante e veio a falecer. Desgraça para a empregada, oportunidade para Seara. Ela carregava consigo um molho de chaves e uma delas, muito antiga, chamava atenção do personagem obcecado por respostas. Havia uma sala na residência com a porta constantemente trancafiada e uma daquelas poderia ser da fechadura que daria acesso às informações que elucidariam o mistério.
Talvez ali estivessem as explicações para o segredo que rodeava aquela história de amor. E foi no momento de descuido e sofrimento da viúva, que Seara decidiu tomar-lhe “emprestada” a chave. Era uma oportunidade arriscada, porém, única e momentânea, que foi acertadamente aproveitada, porque naquela peça da casa estava o desfecho do mistério que tanto importunou o marchand, Augusto Seara.

Contudo, o enigma que perseguiu o especialista durante toda a sua estada na residência de Antônia Maestro continuará ao final desta resenha, pois a curiosidade que o instigou, e que estimulou esse resenhista, certamente irá excitar o leitor desta resenha a deleitar-se com a obra original. E nada mais justo do que reservar a maior surpresa, o grande finale, a quem dedicar-se a apreciar o livro O pintor que escrevia.

Leticia Wierzchowski conduz sua obra com muita concisão e simplicidade, alternando o emprego da linguagem narrativa e descritiva. Os diálogos são utilizados sutilmente e a estrutura alinear do texto a transforma em uma verdadeira viagem pelo tempo e espaço. Assim, ela consegue conduzir o leitor para dentro do cenário imaginário devido à minúcia dos detalhes, tornando a história mais realista.

Porém, o que faz a leitura mais instigante é a forma como o interesse pelo alheio é aguçado. O misterioso amor proibido, inserido no contexto, é o ingrediente essencial porque lida diretamente com o sentimento mais saliente do ser humano: a curiosidade. Detalhes de um diário secreto, estranhamente constituídos no verso de quarenta obras de arte, há vinte anos, já seriam suficientemente estimulantes.

É justamente esta sensibilidade que torna Augusto Seara um personagem muito importante porque demonstra nitidamente a determinação pela busca de respostas a partir de um interesse perseverante. Ele também manifesta uma mensagem de valor muito valiosa ao descobrir o segredo do pintor: integridade e ética. Sua descoberta é mantida em segredo, não revelada sequer ao seu auxiliar.

Trata-se de um excelente romance. Congrega sentimentos de amor verdadeiro, de amor sem limites; expõe manifestações de confiança e obstinação; expressa valores morais e imorais. É uma obra literária que revela a qualidade e a capacidade dos escritores brasileiros de produzir excelentes conteúdos. Qualifica o meio literário nacional e amplia os conhecimentos intelectuais e culturais daquele que a lê. Portanto, é um livro a ser recomendado por sua forma e teor.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

METODOLOGIA E TÉCNICAS DE PESQUISA EM RELAÇÕES PÚBLICAS

Por Heitor Jorge Lau
Relações Públicas, Pós-Graduado em Gestão de Pessoas
Mestrando em Educação 

            Pesquisar, sempre tem por objetivo, investigar algum aspecto do cotidiano a fim de propiciar um posicionamento frente a ele. Mas como ter certeza de qual desses pontos de vista são, de fato, verdadeiros? Quando este fenômeno ocorre, o pesquisador ao questionar sobre o conhecimento adquirido, está lidando com um problema: o da verdade. Aliás, a história da busca do conhecimento é nada mais do que a história da busca pela verdade, mesmo que ela não seja absoluta.

            Assim, o conhecimento é a relação instituída entre o pesquisador e o contexto investigado. Com esta relação estabelecida não há como negar que sempre existirão dois componentes: o sujeito que ânsia ou precisa conhecer, e o contexto a ser investigado, face-a-face, inseridos na mesma situação. Nessa interpretação, é aceitável definir o conhecimento como produto dessa relação, um produto que possui valor imenso porque pode ser difundido.

Toro (2005, p. 96) certifica a importância do conhecimento adquirido e disseminado através da pesquisa ao afirmar que,
quando o saber está incorporado nas pessoas, é necessário ir até elas para usufruir dele, compartilhar seu tempo e seu espaço. Se uma pessoa não transfere seu saber a outras pessoas ou não coloca em um objeto (livros, notas, textos, gravações etc.), ele se perde para a sociedade.
           
            Normalmente o questionário é reconhecido como instrumento de pesquisa avaliativa ideal por se configurar como um dispositivo que segue normas e padrões. Este perfil permite mensurar, considerar, catalogar e formular juízos de valor a respeito de pessoas, processos e objetos. Trata-se de um conjunto de procedimentos técnicos e sistemáticos que denotam os níveis de desempenho em relação às metas e objetivos pré-estabelecidos. As outras modalidades de pesquisa são tão interessantes e importantes quanto esta, porém, fundamental é conhecer e optar pela melhor alternativa segundo o contexto a ser investigado, senão as informações obtidas não serão concernentes e pertinentes. Desta forma, partindo da premissa que todo trabalho possui objetivos claros e dignos, ignorar tais aspectos resulta inevitavelmente em re-trabalho.

Esta é a principal tarefa que devem realizar em conjunto os que encomendam o trabalho e a equipe técnica. A delimitação conceitual consiste em estabelecer, de maneira mais precisa possível, quais são os alcances e os propósitos da avaliação e quais são os componentes ou aspectos que serão avaliados. Não se trata de uma formulação acabada, mas de uma proposta mais completa possível. (CANO, 2006, p. 90)

A escolha pelo emprego do questionário requer a determinação do tipo de perguntas que irão compô-lo: questões fechadas, abertas ou mistas. O fator preponderante no momento da escolha deve necessariamente considerar as vantagens e desvantagens de cada modalidade. Contudo a escolha por uma não desmerece ou descarta outra, sendo que comumente os questionários são constituídos por mais de um feitio.

Nas questões fechadas – ou de múltipla escolha -, cada pergunta deve conter o máximo de respostas possíveis a ponto de esgotar qualquer possibilidade existente fora do contexto analisado. Uma dedicação especial a fim de incompatibilizar as alternativas disponíveis também é necessária, ou seja, uma resposta não pode ser conciliável com outra.

As perguntas fechadas, ao apresentar uma lista de opções de respostas, prestam-se melhor à comparação entre as respostas dos entrevistados. Caso este não compreenda de imediato a pergunta, a seleção de respostas apresentadas pode colaborar para o seu entendimento. Elas permitem, também, a pré-codificação, facilitando a digitação das respostas na base de dados. (NOVELLI, 2005, p. 173)

Na múltipla escolha, como a própria denominação expressa, o respondente pode selecionar diversas respostas ou arranjá-las de acordo com sua interpretação pessoal, que consiste em predileção e significância. Isto não quer dizer que o respondente não possa deliberadamente optar apenas por uma.

            No quadro abaixo se apresentam as vantagens e desvantagens das questões fechadas.
Quadro 1 – vantagens e desvantagens das questões fechadas

VANTAGENS
DESVANTAGENS
Apresentam facilidade e rapidez no ato de responder.
Exige muito cuidado e tempo de preparação para garantir que todas as opções de respostas sejam oferecidas.
Apresentam pouca possibilidade de erros.
O respondente pode ser influenciado pelas alternativas apresentadas.
São altamente objetivas.
Se alguma alternativa importante não foi previamente incluída, fortes vieses podem ocorrer.
São de fácil aplicação, processamento e análise.
Por vezes a informação das respostas é reducionista, conduzindo a conclusões simples demais.
Permitem análise de dados de maneira sofisticada.
Às vezes requerem conhecimentos e equipamentos de informática para análise nem sempre disponíveis.

Fonte: SOUZA, Edinilsa Ramos et al. Construção dos instrumentos qualitativos e quantitativos. In: MINAYO, Maria Cecília Souza; ASSIS, Simone Gonçalves; SOUZA, Edinilsa Ramos (Org.). Avaliação por triangulação de métodos: abordagem de programas sociais. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005. p. 146.

As questões abertas são facilmente percebíveis por não portarem lista de alternativas. Por este motivo, o respondente tem a liberdade de constituir a resposta que lhe parecer a mais apropriada com suas próprias palavras. Apesar de propiciar independência a quem responde o questionário, esta modalidade é utilizada com determinada cautela por ser de difícil interpretação.

            No quadro abaixo se apresentam as vantagens e desvantagens das questões abertas.
Quadro 2 – vantagens e desvantagens das questões abertas

VANTAGENS
DESVANTAGENS
Exigem menor tempo de elaboração.
Quando aplicadas em forma de entrevistas, podem levar a vieses dos entrevistadores.
Cobrem pontos além das questões fechadas.
São mais trabalhosas para responder.
Podem dar mais informação, proporcionando comentários, explicações e esclarecimentos significativos para se interpretar e analisar as respostas.
Dão margem à parcialidade do entrevistador na compilação das respostas.
Evita-se o perigo do pesquisador deixar de relacionar alguma alternativa significativa no rol de opções.
Apresentam dificuldade para codificação, pois, possibilitam interpretação subjetiva de cada decodificador.
Por vezes possibilitam o surgimento de informação inesperada.
São menos objetivas para se aferir magnitude, já que o respondente pode divagar e até mesmo fugir do assunto.
Têm menor poder de influência nos respondentes do que as perguntas com alternativas previamente estabelecidas.
São mais onerosas e mais demoradas para serem analisadas.

Fonte: SOUZA, Edinilsa Ramos et al. Construção dos instrumentos qualitativos e quantitativos. In: MINAYO, Maria Cecília Souza; ASSIS, Simone Gonçalves; SOUZA, Edinilsa Ramos (Org.). Avaliação por triangulação de métodos: abordagem de programas sociais. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005. p. 147.

Segundo Novelli (2005, p. 172)
as questões abertas possibilitam conhecer de forma mais profunda e espontânea a opinião do entrevistado sobre o assunto abordado, permitindo variedade maior de respostas. No entanto, perguntas abertas devem ser usadas com muita cautela nos questionários. É freqüente a obtenção de respostas irrelevantes ou repetidas neste tipo de pergunta, pois sua eficácia depende muito da capacidade comunicativa do entrevistado, que pode não saber expressar exatamente qual sua opinião sobre o tema.

Quando o profissional que formula uma pergunta fechada, não consegue por qualquer motivo, exaurir todo repertório de alternativas possíveis e incompatíveis, surge a necessidade da questão mista. Usualmente observada na última opção, imediatamente após uma seqüência de respostas pré-definidas. Por exemplo: “Outra alternativa. Qual?”. A vantagem sobre as outras modalidades está justamente na possibilidade de fornecer uma alternativa não engendrada.

Não basta escolher o melhor instrumento e compô-lo, é significante decidir também, como será aplicado. Ele pode ser operacionalizado através de entrevista ou por autopreenchimento. Pode parecer reles tal observação, mas comprovadamente, o teor das respostas pode sofrer influência do ânimo do respondente na hora de preencher o questionário.

A partir de análises e considerações sobre as metas da pesquisa, os prazos de aplicação e o custo, pode-se escolher entre a aplicação da entrevista pessoal, por telefone ou correio, com algumas variações possíveis. Cada um desses métodos possui características próprias com vantagens e desvantagens. A partir da análise e da seleção da técnica que mais se adapta à pesquisa proposta, é preciso potencializar os aspectos positivos de cada método e tentar neutralizar os efeitos negativos. (NOVELLI, 2005, p. 165)

Na primeira modalidade o pesquisador perfaz o questionário conforme vai formulando as perguntas e o contato entre ele e o respondente é pessoal e direto. Apesar de a regra ditar que deve existir mínima ou nenhuma interferência do investigador, neste caso quem o estiver aplicando pode elucidar qualquer dúvida com relação a perguntas não entendidas.
Assis, Minayo e Souza (2005) apontam como principal desvantagem o tempo consumido neste processo, muito elevado. Um bom profissional deve estar preparado para dirigir e guiar o trocadilho de perguntas e respostas, porém, eventuais desvios de rumo são quase inevitáveis. Tais fugas são caracterizadas por comentários a respeito do assunto em questão ou amenidades, típicas de um bate-papo.

A segunda modalidade pode ser conduzida pelo profissional investigador ou não. Quando acompanhada, a prática recomenda a reunião de um pequeno grupo de respondentes em local apropriado, a fim de solucionar qualquer problema ou esclarecer dúvidas. Ao contrário da primeira forma – entrevista – esta abrevia o tempo empregado. A dificuldade está em conciliar várias pessoas em um único momento e lugar.

            No quadro abaixo se apresentam os aspectos positivos e negativos da coleta de dados por entrevista pessoal.
Quadro 3 - Técnica de coleta de dados

Técnica de coleta de dados
Aspectos positivos
Aspectos negativos
Entrevista pessoal
- possibilidade de explicação de perguntas complexas e uso de recursos visuais para auxiliar a resposta, como gráficos ou fotos.
- maior cooperação do entrevistado devido a procedimentos de aproximação e obtenção de respostas por escrito, caso a pergunta seja delicada.
- alcance de amostras que estão inacessíveis por outros métodos, como, por exemplo, com moradores de rua.
- possibilidade de aplicar entrevistas mais longas.
- segurança de que as instruções de preenchimento do questionário serão observadas.
- índice elevado de respostas, pois é difícil que a entrevista seja interrompida antes de ter chegado ao final.
- o custo das entrevistas pessoais é o mais alto dentre todos os métodos.
- o tempo de aplicação em campo pode ser grande se comparado ao telefone.
- o entrevistador pode introduzir algum viés na entrevista, mesmo sem querer. Pode demonstrar qualquer reação ao invés de se manter neutro diante das respostas.
- a infra-estrutura para aplicação dos questionários é maior, pois se devem prever o treinamento dos entrevistados, o seu deslocamento até as áreas selecionadas, o possível uso de supervisores, dentre outras medidas.
NOVELLI, Ana Lucia Romero. Pesquisa de opinião. In: DUARTE, Jorge; BARROS, Antonio (Org.). Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação. São Paulo: Atlas, 2005. p. 164.

Aparentemente as pessoas não gostam de responder a perguntas de questionários de pesquisa. Por isto a justificativa e os objetivos do trabalho necessariamente precisam estar presentes em uma folha de rosto do questionário. Este pormenor influi na análise decisória do respondente em colaborar ou não com o processo. Os esclarecimentos iniciais são cruciais para a continuidade do trabalho.

Mas um cuidado todo especial deve ser observado. A identificação do respondente não deve ser solicitada salvo quando tal dado for indispensável. Comumente ela é requerida conjuntamente com endereço, telefone e e-mail, com o objetivo de proporcionar feedback[1] relacionado aos resultados finais obtidos na investigação. É recomendada muita cautela por se tratar de opção intimidadora.

O questionário deve ser apresentado ao entrevistado com um texto introdutório, que deve variar de acordo com o tipo de método de coleta selecionado [...]. A introdução é importante, pois esclarece ao entrevistado quais são os propósitos da pesquisa e busca sua cooperação nas respostas. Algumas informações devem fazer parte do texto, como a indicação [...] de que as respostas são confidenciais e anônimas. (NOVELLI, 2005, p. 169)

E mesmo que não ocorra a solicitação da identificação, o comprometimento com o anonimato deve estar nitidamente formalizado na folha de rosto. Isto serve para salientar que os dados coletados serão trabalhados em caráter confidencial. O sigilo é essencial para obtenção de respostas de questões que requeiram opiniões sinceras. A inobservância deste detalhe acarreta sérios prejuízos à pesquisa.

A aplicação de qualquer questionário é precedida por um procedimento técnico denominado pré-teste. Esta etapa é fundamental para validar todo o conteúdo do instrumento de avaliação desde as perguntas a disposição delas. Também designada de consistência interna, ela intenta reduzir ao máximo, se possível eliminar, toda e qualquer dúvida relacionada às questões formuladas.

Conforme Souza et al. (2005, p. 153)
o pré-teste é um ensaio geral. Cada parte do procedimento deve ser planejada e implementada exatamente como se prevê para o momento da coleta efetiva dos dados. As instruções devem estar na formulação final e ser obedecidas rigorosamente, buscando-se averiguar sua adequação. Ao questionário, apresentado como se fosse na sua forma definitiva, devem responder pessoas com as mesmas características básicas do público-alvo da pesquisa, preferencialmente, pertencentes ao próprio público-alvo.

O pré-teste denota características incongruentes na estrutura do questionário através de respostas duvidosas ou até mesmo por observações redigidas pelo próprio respondente. Esta etapa deve ser repetida sucessivamente enquanto coexistirem incertezas no questionário. Normalmente as respostas provenientes de questões abertas e mistas podem, na fase de pré-teste, conter explanações fora de contexto ou insensatas.

Munido de dados consistentes, o pesquisador está em condições de sistematizar e constituir um banco de dados. Esta etapa necessariamente consiste na tabulação e digitação. A tabulação ou codificação, ao contrário da digitação, pode ser eletrônica ou manual. Codificar significa agrupar e tornar os dados obtidos perceptíveis aos digitadores de forma a produzir tabelas e gráficos para análise e avaliação.

Segundo Minayo (2005, p. 23) o processo de avaliação “pode ser compreendido como um conjunto de atividades técnico-científicas ou técnico-operacionais que buscam atribuir valor de eficiência, eficácia e efetividade a processos de intervenção em sua implantação, implementação e resultados”. Por isto ele é considerado uma ferramenta sistemática de investigação.

A prática da mensuração exige quatro sensos: utilidade; viabilidade; ética; e precisão técnica. A utilidade parte do princípio que toda avaliação tem serventia enquanto a viabilidade não concerne somente aos aspectos financeiros como também práticos e políticos. A ética deve cerzir a conduta dos avaliadores e respeitar os valores dos beneficiados ao passo que a precisão técnica garante o sucesso de cada etapa.

Do ponto de vista de Minayo (2005, p. 19)
uma boa avaliação visa a reduzir incertezas, a melhorar a efetividade das ações e a propiciar a tomada de decisões relevantes. Guia-se por quatro objetivos: oferecer informações aos beneficiários, à sociedade e ao governo sobre o emprego dos recursos públicos; orientar os investidores sobre os frutos de sua aplicação; responder aos interesses das instituições, de seus gestores e de seus técnicos; buscar sempre uma melhor adequação de suas atividades.

Avaliações fundamentadas pela utilidade, por princípios éticos claros e definidos, e por metodologia técnica apropriada, conduz a resultados ideais para correção de rumos e reorientação de determinadas estratégias. A última característica serve como processo de aprendizagem porque a desconstrução e alinhamento de conceitos induz à procura de novas perspectivas e idéias, provocando assim, uma práxis constante de reflexão.

O exercício da avaliação de resultados é recomendado como etapa constante do planejamento e da gestão ao invés de ser adotada como atividade isolada e eventual. A finalidade desta proposta é estimular uma abordagem dedutiva. Traduzindo, consiste em aliar teoria a observação, a fim de predizer situações e até mesmo provocar hipóteses. Este cenário vislumbra controle, mesmo que parcial, sobre as situações.

Novelli (2005, p. 164) afirma que a pesquisa
tem se mostrado instrumento tão valioso para a sociedade contemporânea, que, muitas vezes, deixa de ser compreendida como técnica de medição de opinião pública para tornar-se a própria expressão desta. Sua aplicação extrapolou os limites do campo político, no qual despontou com maior intensidade, e, hoje, tornou-se método de investigação científica para a maioria dos campos de conhecimento, inclusive para a Comunicação Social

A pesquisa somente obtém resultados satisfatórios quando desenvolvida de forma planejada e aplicada de acordo com a metodologia definida. Por isto, a questão do método é excepcionalmente essencial, na medida em que sua definição afeta diretamente a eficácia dos resultados.

REFERÊNCIAS

CANO, Ignácio. Introdução à avaliação de programas sociais. 3. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2006. 120 p.
CHIANCA, Thomaz; MARINO, Eduardo; SCHIESARI, Laura. Desenvolvendo a cultura de avaliação em organizações da sociedade civil. São Paulo: Global, 2001. 133 p.
DICIONÁRIO Eletrônico Michaelis. São Paulo: Amigo Mouse Software Ltda, [2004?]. 1 CD-ROM.
DICIONÁRIO Enciclopédico Koogan Larousse. Rio de Janeiro: Enciclopédia Koogan-Larousse-Seleções, 1979. 2 volumes.
EPSTEIN, Isaac. Teoria da informação. 2. ed. São Paulo: Ática, 1988. 77 p.
IANHEZ, João Alberto. Relações Públicas nas organizações. In: KUNSCH, Margarida Maria Krohling (Org.). Obtendo resultados com Relações Públicas: como utilizar adequadamente as relações públicas em benefício das organizações e da sociedade em geral. 1. ed. São Paulo: Pioneira, 1997. p. 155-162.
LESLY, Philip. Os fundamentos de Relações Públicas e da comunicação. 1. ed. São Paulo: Pioneira, 1995. 256 p.
LOPES, Valéria de Siqueira Castro. As Relações Públicas como gestor da imagem e a importância da mensuração dos resultados em comunicação corporativa. In: XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, NP 05 – Relações Públicas e Comunicação Organizacional da Intercom. São Paulo: 2005. 15 p.
MARINO, Eduardo. Manual de avaliação de projetos sociais. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2003. 110 p.
MINAYO, Maria Cecília Souza. Conceito de avaliação por triangulação de métodos. In: MINAYO, Maria Cecília Souza; ASSIS, Simone Gonçalves; SOUZA, Edinilsa Ramos (Org.). Avaliação por triangulação de métodos: abordagem de programas sociais. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005. p. 19-52.
MINAYO, Maria Cecília Souza et al. Métodos, técnicas e relações em triangulação. In: MINAYO, Maria Cecília Souza; ASSIS, Simone Gonçalves; SOUZA, Edinilsa Ramos (Org.). Avaliação por triangulação de métodos: abordagem de programas sociais. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005. p. 71-104.
NOVELLI, Ana Lucia Romero. Pesquisa de opinião. In: DUARTE, Jorge; BARROS, Antonio (Org.). Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação. São Paulo: Atlas, 2005. p. 164-179.
PIROLO, Maria Amélia Miranda; FOCHI, Marcos Alexandre Bazeia. Pesquisa de opinião: o “ver” e o “fazer” do relações públicas. Brasil. Disponível em: <http://www.portal-rp.com.br/  bibliotecavirtual/ relaçoespublicas/ funcoestecnicas/ 0157.html>. Acesso em: 10 abr. 2006.
REZENDE, Denis Alcides. Sistemas de informações organizacionais: guia prático para projetos em cursos de administração, contabilidade e informática. São Paulo: Atlas, 2005. 110 p.
SOUZA, Edinilsa Ramos et al. Construção dos instrumentos qualitativos e quantitativos. In: MINAYO, Maria Cecília Souza; ASSIS, Simone Gonçalves; SOUZA, Edinilsa Ramos (Org.). Avaliação por triangulação de métodos: abordagem de programas sociais. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005. p. 133-156.
SOARES, Valéria Deluca. Informação como fonte para a gestão do conhecimento nas organizações. In: XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, NP 05 – Relações Públicas e Comunicação Organizacional da Intercom. São Paulo: 2005. 15 p.
TORO, Jose Bernardo. A construção do público: cidadania, democracia e participação. Rio de Janeiro: Senac Rio, 2005. 112 p.



[1] Feedback – comentários e informações sobre algo que já foi feito com o objetivo de avaliação. DICIONÁRIO Eletrônico Michaelis. São Paulo: Amigo Mouse Software Ltda, [2004?].