EM TERRA DE CEGOS, QUEM TEM UM OLHO É REI
por Heitor Jorge Lau
O provérbio da imagem permite uma analogia bastante forte com a conjuntura política brasileira atual, justamente porque ele não precisa ser usado para defender um lado contra o outro. A questão central é outra: o que acontece quando uma sociedade mergulha em um ambiente de radicalização no qual a capacidade de enxergar criticamente diminui?
O Brasil atravessa novamente um período de intensa polarização política, em que o debate público vem sendo marcado por disputas cada vez mais rígidas, pelo confronto entre campos ideológicos e pela transformação das redes sociais em espaços de mobilização e conflito. A própria cobertura das eleições de 2026 já registra preocupações com a “tiktokização” da política e com a redução do espaço para propostas diante da lógica de confronto e circulação acelerada de conteúdos.
Nesse contexto, “Em terra de cegos, quem tem um olho é rei” ganha uma dimensão política particularmente interessante. Em uma sociedade tomada por certezas absolutas, aquele que enxerga apenas um pouco mais do que os demais pode parecer extraordinariamente lúcido. Não porque possua uma visão completa da realidade, mas porque, diante de uma multidão que deixou de questionar, qualquer percepção parcial adquire aparência de verdade absoluta.
É justamente aí que mora o perigo. O extremismo político transforma adversários em inimigos, opiniões em identidades e divergências em provas de corrupção moral. Cada grupo passa a enxergar com nitidez aquilo que confirma suas próprias convicções, enquanto desenvolve uma espécie de cegueira seletiva diante dos erros do próprio campo. O resultado é uma curiosa inversão: quanto mais estreito se torna o campo de visão, maior pode parecer a certeza de quem está dentro dele.
O “rei” do provérbio contemporâneo não precisa ser aquele que possui conhecimento, equilíbrio ou capacidade de compreender a complexidade. Pode ser simplesmente aquele que consegue oferecer uma narrativa suficientemente simples para uma multidão que perdeu a disposição de olhar além dela. Em ambientes politicamente radicalizados, quem grita mais alto, simplifica melhor ou identifica um inimigo com maior eficiência pode conquistar uma autoridade que não corresponde necessariamente à sua capacidade de compreender a realidade.
E existe uma ironia ainda maior. Quando todos acreditam possuir o único olho capaz de enxergar, ninguém percebe que continua vendo apenas uma parte do mundo. Essa seria, para mim, a melhor ligação entre o antigo provérbio e a política brasileira contemporânea: o problema não está apenas em haver cegos, mas em uma sociedade na qual cada grupo acredita ser o único possuidor da visão.

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