segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O QUE É INTRANET?


Por Heitor Jorge Lau
 Empresário e Mestrando em Educação
 Pós-Graduado em Gestão de Recursos Humanos
 Bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas
Analista de Sistemas da Informação

 Estimado leitor, na semana que passou, percebi que ainda perduram dúvidas relacionadas ao termo intranet. Sentado com alguns amigos, diversas questões relaciondas foram sucitadas. Portanto, resolvi publicar um pequeno artigo que redigi originalmente em 2007. Boa leitura!

* Artigo desenvolvido originalmente em 2007.

            Informação, termo com significado muito mais amplo do que seu sentido singular e literal encontrado no dicionário: ação de informar ou informar-se; notícia recebida ou comunicada etc. A palavra possui abrangência mais extensa e expressiva quando inserida no contexto de um sistema de informação organizacional seja ele informatizado ou não.

Rezende (2005) conceitua informação como um “recurso efetivo e inexorável para as organizações, principalmente quando planejada e disponibilizada de forma personalizada, com qualidade inquestionável e preferencialmente antecipada para facilitar as decisões.” Este conceito vem ao encontro dos propósitos da Intranet que basicamente disponibiliza subsídios para a tomada de decisões ou sob forma meramente informacional.

O grau de importância atribuído à informação lhe confere a denominação de recurso estratégico. Os sistemas tecnológicos responsáveis por gerá-la também passam a ter significância diferenciada porque o acúmulo de dados armazenados na organização somente possui valia quando transformados em informação.

Segundo Rezende (2005, p. 18-19),
o dado é um conjunto de letras, números ou dígitos que, tomado isoladamente, não transmite nenhum conhecimento, ou seja, não contém um significado claro. Pode ser entendido como um elemento da informação. Pode ser definido como algo depositado ou armazenado. [...] a informação é todo dado trabalhado ou tratado. Pode ser entendida como um dado com valor significativo atribuído ou agregado a ele e com um sentido natural e lógico para quem usa a informação.

Diferenças da empresa tradicional para a empresa baseada na informação.

Empresa Tradicional
Empresa Baseada na Informação
- burocracia
- padronização dos produtos e serviços
- padronização dos salários
- concenso
- massificação personalizada e qualidade
- salários baseados no conhecimento agregado
- estrutura hierárquica
- autoridade
- centralização
- descentralização e diluição da hierarquia
- gerência participativa e diluição da autoridade
- recursos descentralizados, sinergia, trabalho em equipe
- controle e centralização da informação
- processo decisório centralizado
- compartilhamento das informações
- decisões participativas, gerência por processos, gerenciamento por resultados
- planejamento centralizado
- controle centralizado
- pensar globalmente e agir localmente
- controle descentralizado

Modelo adaptado de ABREU E REZENDE, 2003, P.104.

Ciclo de vida dos sistemas de informação:
 Modelo adaptado de Abreu e Rezende, 2003, p.71.

Não existe um período preciso da origem do termo Intranet. Porém, a constatação de Benett (1997) foi que na década de 90 alguns provedores de serviços e produtos de redes de computadores passaram a utilizá-lo para referenciar o emprego particular das tecnologias direcionadas para a comunicação entre equipamentos nas organizações.

Resumidamente, a Intranet é uma rede de computadores interligados a uma conformação de hardware que facilita a comunicação interna. Através dela os usuários podem compartilhar das mesmas informações armazenados em um banco de dados centralizado. Isto proporciona o compartilhamento de informações pertinentes à organização.

Segundo Jamil (2001, p. 52),
seja no nível da estratégia, seja no nível da operação, seja no nível do controle, os fluxos associados de informações são necessários como verdadeiro nutriente que alimenta o processo empresarial. Os executivos modernos devem poder antever, participar, auxiliar no projeto, verificar, testar e agir nos termos destes fluxos e da qualidade da informação associada, garantindo o máximo de sucesso possível nos processos de tomadas de decisão.

A Intranet é uma rede de microcomputadores fundamentalmente baseada nos modelos de transmissão de dados da Internet. Para uma compreensão mais clara sobre o significado da Intranet basta imaginar uma Internet privada, que funciona no âmbito da organização. A diferença encontra-se no conteúdo veiculado e na restrição do acesso. Enquanto esta possui escopo global a outra local.


Acessibilidade
Público
Tipos de informação
Internet
Aberta
Mundial
Gerais
Intranet
Privada
Membros da organização
Proprietárias/Privadas

Tabela 1: diferenças básicas entre Internet e  Intranet

Conforme Potter, Rainer Jr e Turban (2003, p.207),
a Internet, que é a maior rede de computadores do mundo, é uma rede de redes. É um conjunto de 200 mil redes de computadores individuais pertencentes aos governos, universidades, grupos sem fins lucrativos e empresas. [...] Assim, a Internet forma uma sólida rede de comunicações eletrônicas entre empresas, consumidores, agências governamentais, escolas e outras organizações no mundo todo.

A Intranet armazena, administra e partilha informações pertinentes ou de interesse da organização, proporcionando destreza e eficácia aos seus usuários através da distribuição de dados e serviços. A automação das rotinas administrativas também é objetivo primordial da rede interna de microcomputadores. Estas finalidades tendem a facilitar, não somente o fluxo de informações, mas também, a comunicação entre a organização e público interno.

Segundo Potter, Rainer Jr e Turban (2003, p.228),
Uma Intranet é basicamente uma Internet privada, ou um grupo de segmentos privados da rede Internet pública, reservados para serem usados por pessoas com autoridade para utilizar a rede. As empresas estão usando cada vez mais as intranets – acionadas por servidores Web internos – para oferecer aos funcionários acesso fácil às informações da corporação.

            Rede é um conjunto de equipamentos e seus respectivos programas de microcomputador no qual trafegam informações eletrônicas. Em determinadas estruturas é possível verificar a existência de redes interligadas com o intuito de formar uma rede de portabilidade maior. A Internet é exemplo prático e conhecido. A Intranet pode ser considerada uma rede de menor proporção cuja abrangência limita-se à organização.

Segundo Benett (1997, p. 4),
uma intranet consiste em uma rede privativa de computadores que se baseia nos padrões de comunicação de dados da Internet pública. [...] é um protocolo de rede que permite que um computador enderece e envie dados de forma confiável a outro computador.

A estrutura física da Intranet configura-se inicialmente de uma rede de microcomputadores interligados entre si e simultaneamente a um microcomputador com o Servidor Web. Este hardware precisa obrigatoriamente ser dotado de grande capacidade de processamento e armazenamento de dados. Desta arquitetura depende a boa performance das conexões sincrônicas e o grau de perfeição dos conteúdos gráficos.

Figura 1:


Ilustração de uma rede
 

O equipamento com o Servidor Web é responsável pelo armazenamento dos diversos softwares de gerenciamento da Intranet bem como aplicativos designados especificamente para o uso dos usuários. Nele também são armazenados dados e informações de acordo com as determinações do planejamento de conteúdo previamente elaborado.

As atividades decorrentes da Intranet são processadas numa arquitetura denominada de cliente-servidor. Traduzindo, isto significa que os usuários ou clientes da rede solicitam alguma informação ou serviço ao Servidor Web e ele responde os enviando imediatamente.

Uma Intranet pode ser Estática, Dinâmica ou Colaborativa. A Estática consiste em disponibilizar informações, que na maioria das vezes já se encontram disponíveis na organização através de algum meio diferente deste. Elas são publicadas em Servidores Web sendo que o acesso torna-se possível com a utilização de Browsers.

A Intranet Dinâmica permite o acesso e a interação entre usuário e uma base de dados em tempo real. Isto significa que ao acessar um formulário, por exemplo, a inserção de dados e sua respectiva divulgação ocorrem instantaneamente. Assim, o acesso passa da categoria de Estático para Dinâmico por não se tratar apenas de uma mera consulta ou cópia de documento.

A Intranet Colaborativa é considerada uma evolução da Intranet Dinâmica por propiciar operações de modo seguro na rede. Além das características dinâmicas ela possibilita alto grau de workflow. Este modelo é considerado o responsável por ter disseminado e popularizado a Intranet nas organizações.

As informações comumente encontradas nela relacionam-se com políticas e procedimentos internos, formulários, manuais, avisos e informativos. São informações consideradas estáticas porque são codificadas em páginas HTML ou documentos PDF. Esta modalidade é considerada segura porque não sofre qualquer tipo de alteração por parte do usuário.

Conforme Potter, Rainer Jr e Turban (2003, p.229),
as aplicações mais comuns nas intranets corporativas são políticas e procedimentos pessoais; compartilhamento de documentos; catálogos telefônicos da corporação; formulários de recursos humanos; programas de treinamento; mecanismos de pesquisa; bancos de dados de clientes; catálogos de produtos e diversos manuais operacionais; groupware; organogramas; notícias e atualizações da TI; alerta sobre crises [...]; boletins eletrônicos [...]; depósito de dados e acesso para suporte de decisões.

A Intranet, quando utilizada como ferramenta de gestão, traz consigo ótimos resultados através da melhoria da comunicação. Tal fenômeno deve-se ao fato de que informações disponibilizadas em murais, jornais internos, circulares, memorandos e toda gama de formulários comumente utilizados na organização podem ser canalizados para a divulgação eletrônica.

Contudo, cabe ressaltar que mesmo com todas as facilidades e benefícios que o processo contenha, o uso dos instrumentos clássicos de comunicação interna não devem ser desprezados ou abandonados. Determinados departamentos da organização podem permanecer por algum tempo ou definitivamente sem acesso às novas tecnologias.

Existem duas formas de publicação das informações na rede: a centralizada e a distribuída. Na primeira, escolhida pela maioria das organizações, os usuários elaboram os conteúdos, porém, a publicação deles exige obrigatoriamente a participação do gestor da Intranet. O gestor administra a manutenção e publicação das informações na rede, assim, o usuário depende dele para publicar conteúdos.

O formato da publicação centralizada possui vantagens no gerenciamento porque os recursos tecnológicos compreendidos no processo são dimensionados tecnicamente. Isto evita a utilização do espaço disponível na rede de forma insensata e desordenada. Também proporciona um refinamento constante dos conteúdos que serão publicados.

O segundo formato é análogo ao padrão da Internet, ou seja, qualquer usuário está autorizado e habilitado a elaborar, gerir e publicar conteúdos na rede. Neste modelo o gestor da Intranet não participa da administração dos conteúdos. Ou seja, os colaboradores da organização são os responsáveis diretos pelo funcionamento do processo a partir de seus microcomputadores departamentais.

Independe do modelo adotado, o conteúdo publicado não pode, sob qualquer justificativa, perder o foco. O usuário deve ser incentivado ou encorajado a colaborar e a compartilhar seus saberes com o restante da organização. Mais do que apenas uma ferramenta de acesso às informações pertinentes as rotinas administrativas, a Intranet deve almejar ser um instrumento de gestão de conhecimento.

Conforme Benett (1997, p. 20),
a qualidade das decisões tomadas por uma pessoa depende diretamente da qualidade das informações de que ela dispõe. Os sistemas de informação têm utilidade porque a eficiência da empresa está muito associada à qualidade das informações a que as pessoas têm acesso.

Na medida em que os conteúdos publicados na rede forem minuciosamente selecionados e desenvolvidos apropriadamente, problemas de navegabilidade e até mesmo de design passam a ser pormenores. Conteúdo correto endereçado ao usuário interessado em quantidade adequada são princípios básicos que não podem ser ignorados.

Ainda, cuidados como qualidade do conteúdo, processos eficientes de análise e aprovação de conteúdos, processo eficiente de remoção de conteúdos com prazos expirados, tempo mínimo para publicação de conteúdos, e acesso facilitado ao gestor da rede, culmina na aceitação e utilização da Intranet por parte de toda a organização.

Segundo Benett (1997, p. 106),
para maximizar os benefícios proporcionados pela utilização de um sistema, você deve ter uma noção bem clara de quais benefícios pretende obter e de quem você espera que gere esses benefícios. [...] Você precisa planejar cuidadosamente a instalação, o gerenciamento da configuração, o treinamento dos usuários e programadores, a manutenção do conteúdo, a capacidade da rede e diversos outros aspectos desde o início para obter minimizar os custos inerentes a todas as fases do processo.

Tarefa que precede o desenvolvimento e implantação de uma Intranet diz respeito à predefinição da forma como os conteúdos deverão ser publicados na rede. Da mesma forma, não menos importante, o sistema de atualização deles também precisa necessariamente ser elaborado previamente. São processos de similar relevância, uma vez que, deles depende uma parcela da rapidez do fluxo de informações.

Não existe forma segura de comprovar a utilização eficaz dos recursos e possibilidades que uma Intranet oferece pelas organizações. Mas é possível reconhecer que ela tem trazido novas formas de gestão empresarial e da comunicação interna e os benefícios são percebíveis principalmente nas áreas de marketing e principalmente recursos humanos.

Conforme Potter, Rainer Jr e Turban (2003, p.229),
os departamentos de Recursos Humanos estão usando a Web para aplicações de RH de auto-atendimento, como verificar benefícios, atualizar informações de funcionários, anunciar requisições para cargos, treinamento e revisões salariais. [...] Atualmente, as intranets permitem que os funcionários tratem desses processos por conta própria. [...] os integrantes da equipe de RH não precisam circular formulários pela empresa, e cada processo ocorre muito mais suavemente.

Uma característica das páginas da Intranet diz respeito à padronização de estilo. Os conteúdos são organizados e publicados uniformemente, sob o mesmo design. Aparentemente, esta roupagem não agrada a todos, mas possui seu mérito por reforçar a identidade visual da organização e diminuir consideravelmente a curva de aprendizagem dos novos aplicativos incorporados pela organização.

Segundo Benett (1997, p.27)
vários fatores determinam a capacidade de uso de um software. Um dos mais importantes é a padronização da operação em todo o produto, ou melhor ainda, em toda uma família de produtos. [...] é mais fácil treinar usuários em um novo programa que tenha uma  aparência e um comportamento semelhantes aos de um programa que tenha uma apresentação radicalmente diferente.

Apesar da Intranet ser conceitualmente uma rede privada, existe a possibilidade de torná-la acessível fora dos limites físicos da organização por intermédio de uma conexão remota. Tal processo dá-se por meio de linha telefônica discada ou dedicada, possibilitando assim, que usuário navegue nas páginas da rede de sua residência, por exemplo.


Figura 2: Ilustração de uma configuração de acesso remoto a rede

Alternativa é estabelecer uma comunicação da Intranet com a Internet. Neste caso surge uma tecnologia, não muito difundida entre as organizações, chamada de Extranet. Nesta modalidade são disponibilizados conteúdos direcionados, principalmente, aos parceiros comerciais.

Para Potter, Rainer Jr e Turban (2003, p.231),
uma extranet é um tipo de sistema de informação interorganizacional. As extranets permitem que as pessoas localizadas fora da empresa trabalhem em conjunto com os funcionários internos. Embora as extranets continuem seu processo evolutivo, geralmente são percebidas como redes que ligam parceiros de negócios entre si, através da Internet fornecendo acesso a determinadas áreas das intranets corporativas de cada um. [...] O termo extranet procede de “extended intranet” (intranet estendida).


Acessibilidade
Público
Tipos de informação
Extranet
Controlada
Parceiros comerciais
Compartilhamento seletivo
Intranet
Privada
Membros da organização
Proprietárias/Privadas

Tabela 2 : diferenças básicas entre Extranet e Intranet



Figura 3: Ilustração de uma configuração de acesso remoto - rede Extranet

A segurança da rede interna privada de informações é proeminente. O equipamento que contém a estrutura da Intranet corre o risco de ser acessado por pessoa não autorizada a qualquer momento e as informações existentes no banco de dados podem ser violadas ou danificadas. Por isso um sistema que impeça invasão, denominado de Firewall, deve ser implantado conjuntamente com o restante da estrutura tecnológica.

Figura 4: Ilustração de um Firewall

O fator preponderante de a Intranet estar ganhando a simpatia de grande parte das organizações está relacionada com a redução de custos. A substituição de grandes volumes de documentos e a rapidez do fluxo de informações são apenas alguns dos fatores incentivadores.

Segundo Rezende (2005, p.38-39),
os recursos da internet (a rede mundial de comunicações) juntamente com a intranet (quando se refere ao meio interno de uma organização) e extranet (quando se conectam redes distintas em longa distância ou externas à organização) podem contribuir para as organizações na busca da vantagem competitiva. Ela pode ser utilizada juntamente com a valorização do ser humano e da adaptação de seus sistemas de informação para captação, tratamento, distribuição, disseminação e troca de informação...

Funcionalidades da Intranet
Integração
1. A Intranet permite acesso fácil aos sistemas corporativos, tais como base de dados operacionais, ERP, CRM e os outros sistemas desenvolvidos no passado.
2. A Intranet provê acesso fácil aos sistemas gerenciais de consulta, tais como armazéns de dados (data warehouse), ferramentas de garimpo de dados (data minig) e geradores de relatórios.
3. A Intranet provê acesso fácil aos documentos corporativos, tais como manuais de normas, catálogos de produtos, manuais técnicos, bancos de casos e relatórios de projetos.
4. A Intranet provê acesso fácil para fontes externas de informação como websites selecionados e agências de notícias.
5. O conteúdo da Intranet é indexado de acordo com algum sistema de classificação como uma lista de termos, taxonomia ou ontologia.
6. A Intranet permite que o próprio usuário classifique, através de palavras-chave e categorias, os documentos que deseja publicar.
Mecanismo de busca
7. A Intranet possui um mecanismo de busca integrado com recursos como operadores lógicos, filtros por categoria, busca baseada em metadados e filtros de arquivo e intervalo de datas.
Gestão de conteúdo
8. A Intranet permite que o próprio usuário controle o ciclo de vida dos documentos (publicação, aprovação, armazenamento, controle de versões e exclusão).
Workflow
9. A Intranet oferece recursos de workflow que permitem a monitoração dos processos organizacionais e a execução de transações de negócio.
Colaboração
10. A Intranet provê acesso fácil a aplicativos de colaboração (groupware), tais como e-mail, Chat (mensagens instantâneas) e agendas de reuniões.
11. A Intranet suporta a criação de listas de discussão e/ou comunidades de prática.
Apresentação / Personalização
12. A Intranet é o ponto de entrada unificado para todos os sistemas de informação da organização.
13. A Intranet possui áreas onde o conteúdo é customizado de acordo com o perfil do usuário, sua área de atuação e suas preferências pessoais.
Notificação / Disseminação
14. A Intranet envia alerta em situações especiais, notificando os usuários sobre fluxos anormais dos processos e publicação de novo conteúdo associado às preferências pessoais.
Segurança
15. A Intranet provê uma função de login unificado para todos os sistemas de informação, evitando a necessidade de múltiplas senhas.
16. A Intranet permite que usuários e administradores web especifiquem facilmente o nível de acesso (ex.: público, restrito, privado) de qualquer informação.
Educação a distância
17. A Intranet oferece recursos de educação a distância (e-learning), tais como cursos virtuais e apostilas de treinamento.
Mapa de conhecimento
18. A Intranet possui acesso fácil ao mapa de conhecimento, permitindo a localização de especialistas internos à organização.
Administração da Intranet
19. A Intranet possui ferramentas que permitem que o administrador web gerencie o desempenho da Intranet.
20. A Intranet provê ferramentas que permitem que os desenvolvedores de software construam ou adaptem aplicativos para a plataforma da Intranet.

Fonte: www.prodemge.mg.gov.br/revistafonte/volume5/pdf/evoluindo05 - acessado em 12/02/2007.



 Gestão da Intranet: um instrumento da Comunicação Interna


            As novas tecnologias da informação trouxeram consigo a Intranet como instrumento de difusão de informações no ambiente interno das organizações. É um poderoso canal de comunicação entre a organização e seus colaboradores. Tecnicamente é reconhecida pela sigla B2E (business to employee), ou seja, traduzindo isto significa negócios para o funcionário.

A maioria das arquiteturas desenvolvidas é unidirecional, da organização para o colaborador, e passiva, porque as informações estão disponíveis na rede para que o usuário a procure e a capture. Especialistas como Carvalho, Choo e Ferreira (2007), denominam configurações mais complexas como Portais Corporativos. “A missão dos portais corporativos é acabar com as ilhas dos sistemas de informação, integrando-as em uma única aplicação que seria a porta de entrada para todos os usuários do ecossistema empresarial.” 

            A busca pelo melhor modelo para trabalhar a comunicação interna de forma rápida, segura, dinâmica e de grande abrangência sempre foi objetivo das organizações. Esta procura constante encontrou a solução ideal para atender os anseios da comunicação social: a Intranet. Ela preenche todas as características de uma ferramenta inovadora e alguns fatores são relevantes.

            O fator segurança por exemplo. Merece ser destacado quando se faz menção a tramitação de documentos sigilosos cujo acesso pertence a um seleto grupo de usuários previamente reconhecidos. A circulação de qualquer versão impressa corre alto risco de ser enviado ao destinatário errado e parar em mãos desabilitadas. A Intranet reduz esta desventura.

            A rapidez com que determinadas informações tornam-se obsoletas transforma a Intranet na contrapartida para o problema. Principalmente quando manuais operacionais, programas de treinamento, catálogos e outros documentos extensos necessitem manutenção. A atualização, dependendo da estrutura física e humana da rede interna, é praticamente instantânea.
           
            A redução de custos pode parecer mínima ou inexistente quando levados em conta os valores de investimento de uma rede de microcomputadores. Porém, a minoração ou extinção de gastos com o desenvolvimento, impressão e distribuição de manuais, memorandos, listas telefônicas e demais informativos internos faz diferença a médio-longo prazo.

            A Intranet também funciona como ferramenta de gestão. Quando bem gerida, incentiva o processo participativo e acaba propiciando canais de discussão entre os colaboradores da organização. Isto é muito salutar porque contribui fortemente no fortalecimento da cultura organizacional. Sem falar no fator emocional cujo resultado pode ser percebido na elevação da auto-estima.

            Através da Intranet, Pinho (2003, p.25) reconhece
melhoria nas comunicações internas. Uma intranet proporciona uma comunicação melhor e mais rápida entre os empregados, tornando-se um importante meio para que eles possam colaborar em projetos. A comunicação interna beneficia-se bastante da informação facilmente compartilhada pelos funcionários e pelas facilidades que a intranet apresenta para uma comunicação dialógica.

            Outros fatores preponderantes como disponibilidade de informação em tempo integral ou a supressão de barreiras geográficas maximizam as potencialidades da Intranet como ferramenta eficiente e eficaz da comunicação interna. As demandas provenientes das rotinas administrativas são atendidas 24 horas e os entraves provenientes de departamentos que mantém suas portas trancadas após o término do expediente são resolvidos.

            Para Kunsch (1997, p.155),
a administração das organizações  é, na sua essência, uma ampla gama de relações entre as pessoas, o que significa comunicação. Na organização a comunicação é a essência da administração. É a busca da compreensão. A necessidade de compreender o que os outros querem e de fazer saber aos outros o que queremos para que sejam atingidos objetivos coletivos e individuais.

            A Intranet enquanto uma rede interna e privada, detentora de informações proprietárias e particularistas, orientada ao público interno, vem ao encontro do conceito da missão básica da comunicação interna de Torquato (2002): “contribuir para o desenvolvimento e a manutenção de um clima positivo, propício ao cumprimento das metas estratégicas da organização e ao crescimento continuado de suas atividades e serviços e à expansão de suas linhas de produtos.”

            “As empresas vêm enfrentando há anos problemas de distribuição de documentos e dados. Em muitos casos, as soluções patenteadas não conseguem atingir o objetivo de proporcionar um acesso flexível e integrado à informações”. BENETT (1997). Tais dificuldades podem ser evitadas através da utilização da Intranet.

REFERÊNCIAS:

AMOR, D. A (R)evolução do E-business: vivendo e trabalhando em um mundo interconectado. São Paulo: Makron Books, 2000. p.606
BENETT G. Intranets:  como implantar com sucesso na sua empresa. Rio de Janeiro: Campus, 1997. p.346
BOCHENSKI, B. Implementando Sistemas Cliente/Servidor de Qualidade. São Paulo: Makron Books, 1995. p.591
CARVALHO R. B., FERREIRA M. A. T.; CHOO C. W.  www.prodemge.mg.gov.br/ revistafonte/ volume5/ pdf/ evoluindo05 - acessado em 12/02/2007.
JAMIL G. L. Repensando a TI na Empresa Moderna: – atualizando a gestão com a tecnologia da informação. Rio de Janeiro: Axcel Books, 2001. p.547
KUNSCH M. M. K. Relações Públicas e Modernidade: novos paradigmas na comunicação organizacional.
PINHO J. B.. Relações Públicas na Internet: técnicas e estratégias para informar e influenciar públicos de interesse. São Paulo: Summus, 2003. p.215.
REZENDE D. A. Sistemas de Informações Organizacionais: guia prático para projetos em cursos de administração, contabilidade e informática. São Paulo: Editora Atlas, 2005. p.110
REZENDE D. A.; ABREU A. F. Tecnologia da Informação:  – aplicada a sistemas de informação empresariais. São Paulo: Editora Atlas, 2003. p.316
TORQUATO G. Tratado de Comunicação Organizacional e Política. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002. p.303.
TURBAN E.;  RAINER R. K.;  POTTER, R. E. Jr. Administração de Tecnologia da Informação: – teoria e prática. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003. p.598

quarta-feira, 25 de abril de 2012

BREVE CONSIDERAÇÃO SOBRE A IMPORTÂNCIA DO LIVRO DIDÁTICO

Por Heitor Jorge Lau
Tutor da Disciplina Processos Gerenciais da Uninter Pólo Santa Cruz do Sul
Empresário e Mestrando em Educação
Pós-Graduado em Gestão de Recursos Humanos
Bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas

   Um antigo dito popular cita: “tudo possui um lado positivo e um negativo na vida”.

   Ao optarmos por visualizar o livro didático como uma bússola do processo educacional teremos o lado positivo. Em contrapartida, ao optarmos por considerá-lo como peça única em sala de aula, eis o lado negativo. Afinal, um livro didático por mais gabaritado que possa ser não distingue o fator preponderante que é a heterogeneidade, e muito menos revoga o papel maior do educador que é ser mediador (insubstituível) do processo ensino-aprendizagem.

    O livro didático é, acima de tudo, um valioso instrumento configurado com propostas e conteúdos sistematicamente organizado. Talvez, seja mais interessante empreender esforços em compreender como ele é percebido e utilizado ao invés de tentar percebê-lo como algo completo e acabado. O livro didático está longe de ser personificado como um professor e o educando, por si só, está longe de absorver conteúdos e desenvolver conhecimentos.

    É notória a sobrecarga de horas-aula que cada educador carrega consigo, portanto, o livro didático também economiza tempo na configuração das aulas. Acredito que o pior livro poderá transformar-se em satisfatório nas mãos de um excelente educador, bem como, um livro excelente perderá a sua validade e riqueza de informações diante de um professor medíocre.

    Livros didáticos norteiam, não engessam! Portanto, a eficiência do livro didático está particularmente relacionada a maneira de como ele será interpretado e utilizado pelo professor no ano letivo.

ENSAIO SOBRE A IMPORTÂNCIA DA ATENÇÃO DURANTE O APRENDIZADO

* Os textos inseridos nesta postagem foram replicados de um fórum sobre Neurociência versus Educação, do curso Master en Educación da Universidad de Jaén, no qual o autor deste blog é integrante na categoria de mestrando.

Por Heitor Jorge Lau
Tutor da Disciplina Processos Gerenciais da Uninter Pólo Santa Cruz do Sul
Empresário e Mestrando em Educação
Pós-Graduado em Gestão de Recursos Humanos
Bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas

    Recorte de uma postagem: “[...] a motivação é a porta do aprendizado e a grande porta do aprendizado é atenção [...]”. * Grifo meu!

    Ouvi em vários momentos distintos uma afirmação (totalmente errônea) sobre a capacidade das gerações atuais de conseguirem a façanha de processar muitas informações simultaneamente, como por exemplo: conversar no celular, escrever um texto, ouvir música e algo mais se for necessário. Tudo isto com muita naturalidade e controle absoluto.

    Também fiz um recorte de um site, onde existe tal consideração: "Eles [...] fazem outras dez coisas ao mesmo tempo”. * Eles = os jovens.

    Ao ler esta última postagem fico me perguntando como o cérebro humano (que se mantêm o mesmo desde que o “homem virou homem”) pode processar mais de uma informação ao mesmo tempo, diferentemente de fazer duas coisas ao mesmo tempo (cantar e correr). Nem o computador mais moderno consegue tal façanha (não que a máquina supere a mente humana, longe disto).

    Por isso achei muito pertinente e importante o recorte que enfatiza a atenção como porta de entrada para o aprendizado. A ciência já comprovou incontáveis vezes que os indivíduos concentrados, em ambientes propícios, com a atenção focada, executam com esmero uma tarefa.

    A pesquisadora Etienne Koechlin - Instituto Nacional de Saúde e Investigação Médica de Paris -, afirma que o ser humano, não enfrenta problemas ao compartilhar duas tarefas no cotidiano. Por exemplo, falar ao telefone e cozinhar simultaneamente. Todavia, os problemas surgem na medida em que o indivíduo busca atingir mais do que dois objetivos ao mesmo tempo. Os lóbulos frontais, que funcionam conjuntamente frente a uma tarefa, se dividem na execução de uma tarefa dupla. Mas, no caso de três tarefas eles irão ignorar um dos objetivos.

    Este tipo de conhecimento, muito bem fundamentado, deve servir como subsídio de argumentação na hora de conversar com discentes e principalmente com os pais dos alunos, sobre a importância da concentração no momento da execução das tarefas relacionados a escola ou na hora do estudo nas dependências do lar (principalmente). Percebemos que no “refúgio dos filhos – o quarto –“ a presença da internet, televisão ou música é uma constante. Portanto, nosso papel também é esclarecer o prejuízo da falta de atenção e da falsa atenção “multi-partilhada”.

ENSAIOS SOBRE NEUROCIÊNCIA

* Os textos inseridos nesta postagem foram replicados de um fórum sobre Neurociência versus Educação, do curso Master en Educación da Universidad de Jaén, no qual o autor deste blog é integrante na categoria de mestrando.

Por Heitor Jorge Lau
Tutor da Disciplina Processos Gerenciais da Uninter Pólo Santa Cruz do Sul
Empresário e Mestrando em Educação
Pós-Graduado em Gestão de Recursos Humanos
Bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas

    A neurociência relacionada à educação ainda é relativamente recente no Brasil. Porém, a partir da grande quantidade de material vinculado ao assunto, sem dúvida, ela é de imensa importância, uma vez que o objeto principal da tríade neurociência-educação-aprendizagem é o mesmo: o cérebro. E indubitavelmente, o aprender está diretamente relacionado ao desenvolvimento do cérebro, em amplo sentido (serve tanto para o corpo docente quanto para o discente). Deter competências suficientes para colocar em prática as habilidades e gerar conhecimento de forma ininterrupta não é tarefa fácil. Isto somente torna-se possível, não pelo aumento das sinapses, mas pela intensidade de sinapses pertinentes aos objetivos previamente determinados. O conhecimento mais aprofundado da neurociência é que possibilita a construção de artifícios para o aprendizado, retenção de informações e lembrança de “memórias arquivadas”. É sempre relevante ter em mente que apesar do cérebro ser dotado de imensa plasticidade neuronal, o aumento da intensidade sináptica não antevê acréscimo da capacidade de aprender generalizadamente. Portanto, a neurociência é importante, mas precisa ser apreendida com muita cautela.

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    Ao que tudo indica, um ambiente estimulante leva a formação de novas sinapses. Por isso, tão relevante quanto compreender sobre o complexo funcionamento do cérebro (neurociência) é saber como criar a melhor forma de provocar o pleno aprendizado. O aumento gradual das taxas sinápticas e a conseqüente aprendizagem são reflexos oriundos das capacidades (habilidades, competências e conhecimentos) do docente/discente versus metodologia de ensino versus ambientes educacionais. Por este prisma é perceptível que o estudo e concepções sobre a neurociência não comportam, por si só, novos estratagemas educacionais por não serem suficientes para propiciar melhores resultados em sala de aula. Talvez, o maior desafio do professor seja: criar as “ferramentas” apropriadas e o ambiente propício, a fim de contemplar os diversos modelos mentais existentes no contexto escolar. A neurociência trata do assunto de forma não especulativa, e faz emergir significados sobre a eficiência mais acentuada de algumas abordagens sobre outras em sala de aula. Portanto, não se pode negligenciar e desassociar este conhecimento, das outras ciências que abarcam a cognição e educação. Por outro lado, precisam ser percebidas como aliados.

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     A observação (breve e superficial) de uma escola que adotou o modelo cognitivista-construtivista há vários anos, aliás, considerada uma aberração por aquela comunidade local, que na época somente conhecia e admitia o modelo de ensino da Aprendizagem por Transmissão, demonstrou o seguinte: Anos transcorreram e o modelo permanece. Todavia, durante os contatos com alguns profissionais da educação, comentários sobre os problemas decorrentes do modelo praticado por aquela escola não foram promissores. A falta ou carência de noções suficientes para a resolução de questões matemáticas e de português foram as que encabeçam a lista de falhas. Um docente que incrementa a renda através de aulas particulares cita: - Eu adoro a Escola Xxxxxx porque meus alunos são todos de lá (risos). * Nome da escola não será revelada. Não seria razoável declinar ou criticar ferrenhamente o modelo por resultados não alentadores, outrossim, seria sensato considerar (neste caso, sem estudos mais aprofundados) alguma carência no currículo do docente, nas metodologias aplicadas ou ambientes configurados, fatores que poderiam perfeitamente ser ajustados. 

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      É possível afirmar que quando os desafios propostos são altos e as habilidades do corpo discente são baixas o resultado resume-se em ansiedade, preocupação e frustração. Em contrapartida, se as habilidades são altas e os desafios são baixos, o resultado resume-se em tédio e relaxamento. Desta forma, a dosagem correta entre desafios e habilidades converte o aprendizado em experiências do saber. Tal fluxo tende a acontecer no momento que as habilidades de um docente/discente estão completamente dedicadas em superar o desafio que está no limiar da capacidade de controle.
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    Seres humanos comportam uma espécie de organização interna cognitiva fundamentada em informações e conhecimentos singularmente de caráter conceitual, e o grau de complexão se perfaz por intermédio dos links que esses conceitos constroem. Este interessante processo se constitui ininterruptamente através da abstração e da generalização de informações na rede neurônica.

     Ausubel afirmou em seus estudos que a aprendizagem significativa ocorre a partir de duas condições básicas: da disposição para o aprendizado; e da existência de conteúdos significativos. A primeira depende, em parte, da disposição do aluno em desejar aprender, em querer absorver conteúdos, o que é diferente de memorizar arbitrária e literalmente conteúdos ministrados em sala de aula. Neste caso, a aprendizagem significativa cede espaço para a aprendizagem mecânica, que não deixa de ser o processo cartesiano amplamente difundido e utilizado em grande quantidade de escolas.

     Desenhar conteúdos potencialmente significativos exige do educador uma visão sistêmico-analítica aguçada, preparada para tal, a fim de determinar o que possui significado lógico e o que possui significado psicológico. A diferença entre os significados é que o primeiro depende estritamente da natureza do conteúdo enquanto o segundo está intimamente relacionado às experiências que cada educando acumulou durante a vida.

    Portanto, é interessante prever que o aluno efetua, dinamicamente, aquilo que se pode conceber como uma “filtragem" de todo e qualquer conteúdo que chega ao seu conhecimento, separando tudo o que têm ou não, relativo significado para si. Ser educador não é fácil mas ser educando também não. Lembremo-nos disso!

quinta-feira, 22 de março de 2012

FALANDO SOBRE EDUCAÇÃO


Por Heitor Jorge Lau
Empresário e Mestrando em Educação
Pós-Graduado em Gestão de Recursos Humanos
Bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas
_____  Introdução
            No ano de 1988 foi promulgada a Constituição da República Federativa do Brasil, fato histórico marcado pela manifestação explícita dos fundamentos básicos dos direitos civis, políticos e sociais dos cidadãos do Estado brasileiro. Os princípios sabiamente redigidos não são realidades integralmente vigentes porque foram pautados sob o prisma de metas e objetivos a serem constituídos e alcançados. A construção do cenário ideal da educação, de um projeto político pedagógico pleno e da formação docente não poderia ser diferente. Todo e qualquer projeto de construção nasce do imaginário para o concreto e isto não significa que durante a trajetória caminhos alternativos e desvios não possam perfeita e harmonicamente acontecer. Aliás, são vieses naturais e necessários e qualquer atalho milagroso que evitasse este percurso resultaria, de certa forma, em trabalho duvidoso. A humanidade sempre evoluiu em decorrência das rupturas, adaptações e transformações das normativas momentaneamente em vigor, e configurar uma expectativa contrária seria perda de tempo. O mundo contemporâneo trouxe novas tendências e anseios, transformou a visão das organizações e a escola não poderia deixar de ser inclusa na reconfiguração e reconstrução de suas práticas educacionais. O espaço escola e o cidadão professor ficaram igualmente expostos e sujeitos aos olhares críticos e ávidos da sociedade, por adaptações e respostas aos novos tempos. Talvez, nem todas as dúvidas fossem claras, ou nem todas as cobranças fossem coerentes, mas o certo que elas estavam presentes e figuram até hoje. Atualmente, tratar de assuntos relacionados a educação deveria ser tão corriqueiro quanto discorrer sobre matérias de outras áreas de atuação profissional. Mas parece não ser. Talvez, pelas complexidades que envolvem e caracterizam o processo ensino-aprendizagem, permeados de dimensões conceituais, normativas e estruturais. Independentemente de ser uma discussão de categoria habitual ou não, o fato é que a escola representa o ponto de partida - depois da educação familiar - para a construção do conhecimento formativo do aluno-cidadão.

____    Escola x Educador x Educando
            É relevante ressaltar que as instituições de ensino lidam diariamente com a diversidade humana (em formação) e em contrapartida com conteúdos rigorosamente normatizados. Lecionar significa encarar um desafio diário, intenso e ininterrupto. Assim, a conseqüência específica e direta desta dinâmica é que o educador precisa manter-se atualizado, reciclando teorias e técnicas de docência. No que dizem respeito às técnicas empreendidas, os horizontes são infinitamente fecundos e abrangentes. O docente deve navegar pelos campos do saber de forma multidisciplinar, absorvendo conteúdos da sociologia, filosofia, antropologia, psicologia, enfim, de várias disciplinas. Tudo porque o educando dos dias de hoje, principalmente do ensino médio, além do pouco interesse pelos conteúdos ministrados (tipicamente natural em decorrência da faixa etária), participa ativamente de um mundo recheado de informação cuja velocidade e acessibilidade é algo nunca presenciado antes. Esta mecânica prática-virtual categoriza o aluno como exigente máximo, e paradoxalmente desinteressado no ambiente escolar. Exigente porque ele ignora conteúdos “estáticos” transmitidos de forma linear, ou seja, sem o movimento da dinâmica virtual. Por outro lado, desinteressado porque o aprendizado deve acontecer quase instantaneamente, sem muito esforço e se possível sem avaliação. Estes panoramas são reflexos da virtualidade impingida pelo advento da internet e principalmente das redes sociais, onde as fronteiras e regras rígidas de convivência praticamente inexistem. Em decorrência disto, o professor, outrora reconhecido como exigente e disciplinador, está perdendo o fôlego, a paciência e o ânimo pela profissão. Ora, qual o fator que fomenta o ímpeto de qualquer ocupação? A resposta é simples: o desafio. Se, atualmente os desafios são tantos, sejam eles de ordem financeira, humana ou de recursos materiais, desanimar e “jogar a toalha” simplesmente não resolve a questão ou “recalibra” as intenções. A lista de motivos apresentados para justificar a queda de rendimento dos educadores é encabeçada pela baixa remuneração e pela falta de condições oferecidas pelos órgãos competentes das esferas municipais, estaduais e federais. Lógico, ignorar esta realidade seria insensato, todavia, não pode ser incentivo para o desgosto pela profissão. Um professor, acima de tudo, precisa estar diariamente munido de infindável resiliência e de eterna sede pelo saber. A convicção pelo exercício da docência, a vontade pela busca do conhecimento e a persistência são temperos que alimentam sua “alma profissional”. Outro detalhe reside no fato de que o processo de ensino-aprendizagem não deve ser concebido como um evento unilateral ou de via única. Ele acontece bilateralmente, em via de mão dupla, ou seja, o educando aprende, o educador também (“feliz aquele que ensina o que sabe e aprende o que ensina”). O educando não pode ser reconhecido como um observador passivo que aprende tudo que lhe é dito e ensinado, pelo contrário, ele deve ser percebido como personagem ativo do imenso cipoal de métodos e práticas educacionais.

____    Tecnologia
            Também é proeminente reconhecer que as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) em sala de aula acabam se tornando aliadas dos educadores neste festival de interações. Mas, não esqueçamos que as TIC não comportam soluções e conteúdos completos para o aprendizado, mesmo que aproximem o aluno da escola e do professor por harmonizar a relação ensinar versus aprender. Trata-se de um meio de comunicação mais próximo da realidade do educando. Mas, dominar as tecnologias da informação é mister, pois o direcionamento correto e a imposição de limites, tanto da utilização como do acesso a conteúdos pertinentes, é absolutamente necessário no processo ensino-aprendizagem.

____    Papel do Educador
            O papel do professor não apenas diante do uso das TIC em sala de aula, mas num contexto mais amplo, é postar-se como mestre e mentor sempre disposto e disponível. Afinal, como dito anteriormente, o cerne das questões de relacionamento são, quase na totalidade, de caráter subjetivo e individual. O educando, ao procurar o educador espera reação imediata, e deixar qualquer questão, por menos relevante que possa parecer, sem a devida atenção e resposta, é semear o descrédito em ambas as partes – o educando desacredita o professor por ter sido negligenciado. O educador é protagonista do cenário da educação e o educando é coadjuvante (mas, personagem ativo e indispensável na construção do processo). Talvez, aqui esteja a grande questão e carência técnica do educador diante do desafio de tentar manter-se sempre no ápice das atenções dentro da sala de aula: ser protagonista. Não é tarefa fácil, pois exige uma performance espetacular e três noções fundamentais: consciência de si, dos outros e da existência das diferenças; controle absoluto dos desejos e impulsos pessoais; e responsabilidade por suas ações e conseqüências.

____    Relações Sociais
            A visão de Vygotsky sustentava que o homem somente alcança funções psicológicas superiores às básicas por intermédio das relações sociais. Mas tais relações possuem sua gênese no âmbito familiar, centro de toda iniciação e fundamentação sólida do sujeito-humano. Ainda que as famílias personifiquem o professor como sendo o centro transmissor do conhecimento, o aluno como sendo o receptor passivo do conhecimento, e finalmente, a escola como sendo o local que ocorre a transmissão deste conhecimento. Diante de tantas personificações e expectativas equivocadas, o processo ensino-aprendizagem tornar-se palco diário de desentendimentos. O resultado disto tudo pode ser percebido pela visão distorcida de um do “professor despreparado e ineficaz”. Indubitavelmente, os estímulos recebidos no lar são responsáveis diretos por todo desenvolvimento das competências necessárias para a aprendizagem.

____    Ambiente Formativo do Docente
            Diante de tantas concepções e questões relacionadas ao processo ensino-aprendizagem, existe um lado positivo disto tudo. O ambiente escolar continua sendo o cenário ideal para a formação plena do docente. Todas as instituições de ensino comportavam problemas antes das reformas educacionais e continuam contendo, mesmo depois terem sido implementadas. Lógico, determinadas carências que independem de reformas, precisam ser corrigidas como ausência de bibliotecas quantitativamente e qualitativamente satisfatórias, ambientes tecnológicos mais modernos, acesso a cursos de gabarito voltados à reciclagem de conhecimentos prático-teóricos, entre outras. Os processos de ensino sofreram, no decorrer da sua história, várias reformulações justificadas por uma democratização sócio-cultural mais eficaz e mais recentemente pela necessidade de ajuste aos desafios que a globalização fez insurgir. Concernente ao ensino médio, a “antiga escola” que era objetivamente pautada pela propedêutica tornou-se obsoleta e inaceitável nos dias atuais porque o educando não é efetivamente preparado para o mercado de trabalho. Em contrapartida, paralelamente os cursos profissionalizantes atendem este quesito em detrimento de uma formação mais abrangente. Portanto, nenhuma das duas atende plenamente o modelo de mundo existente. Parece que há uma tentativa de congregar os dois perfis educacionais de forma a preparar o aluno para “a vida” ao invés de somente para uma provável graduação. Estar preparado para a vida transcende a simples idéia de construir um saber voltado à mera reprodução de dados, pelo contrário, significa saber se informar e argumentar, ser crítico e “inventor” de novas propostas, e acima de tudo, ser um eterno aprendiz.

____    A Escola do Mundo Contemporâneo
            As exigências formativas do mundo moderno evocam da educação um enfoque contextual mais amplo. Todas as reformas educacionais promovidas intentaram uma adaptação as novas demandas, e às instituições de ensino e aos professores, resta a incumbência de formular projetos pedagógicos que contemplem as diretrizes propostas concomitantemente às propostas transversais da própria escola. Os parâmetros curriculares sugeridos na última década parecem coerentes e viáveis, e a prova disto está no fato de que as orientações educacionais sugerem uma articulação inter-áreas, desbancando a concepção errônea de que cada disciplina possui caráter estritamente individual e “sacrário”, ou seja, a interdisciplinaridade é possível e necessária. O processo ensino-aprendizagem é complexo pela natureza da sua matéria prima básica: pessoas; e, é intricado pela quantidade de modelos mentais, cada um forjado por culturas e contextos pessoais dos mais diversos. Esta característica deveria incentivar a possibilidade do ensino via interdisciplinaridade, todavia, com o cuidado extremo de várias disciplinas do currículo não tratarem do mesmo tema no decorrer do mesmo período letivo. A interdisciplinaridade não pode ser compreendida como uma simples integração de diversas disciplinas no contexto de algum projeto curricular, deveria, sim, garantir uma unidade das práticas pedagógicas.

____    Consideração final
            Um profissional da educação deve, obrigatoriamente, saber o que faz em sala de aula e porque esta realizando de uma forma ao invés de outra. O professor detentor da capacidade de buscar conhecimento ininterruptamente e de se auto-reinventar (condições sine qua non) é o agente de mudanças que toda escola precisa.

segunda-feira, 5 de março de 2012

A DIFÍCIL ARTE DE COACHING


   
Por Heitor Jorge Lau
Empresário e Mestrando em Educação
Pós-Graduado em Gestão de Recursos Humanos
Bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas

    O mundo contemporâneo atingiu um dinamismo antes nunca percebido, provocando mudanças de hábitos e convertendo identidades, até então ditas como ideais, em “identidades ultrapassadas”. O homem moderno tornou-se um indivíduo fragmentado, multifacetado. Esta nova ótica retirou de todo cidadão a estabilidade do ser e agir conforme paradigmas instituídos e aceitos como únicos, acertados e perpétuos. Portanto, o homem-família, o homem-social, o homem-trabalho, acaba sentindo despreparo e desconforto por ter que administrar simultaneamente um cabedal de perfis e personalidades de grupos heterogêneos. Naquilo que concerne às relações de trabalho, que é o foco principal deste texto, o novo paradigma das interrelações pessoais é infinitamente mais delicado e compassivo. A questão é: como lidar com tanta diversidade cultural, intelectual e social ao mesmo tempo, e sob intensa e constante pressão? Neste cenário extremamente diversificado o profissional de coaching desenvolve um verdadeiro e difícil “trabalho de arte”. Justamente porque o seu papel está na façanha de influenciar o coachee sem apresentar soluções prontas sejam elas práticas ou teóricas, sem subjugar. A influência deve ser sutil, porém, alicerçada por conhecimento prático-teórico suficientes para motivar a busca por novos saberes e soluções. É importante ressaltar que, quando a necessidade presencial do profissional de coaching é reconhecida pelo próprio coachee a mecânica de todo processo flui de forma mais espontânea. No entanto, quando percebida por alguém de grau mais elevado na escala hierárquica do coachee, a relutância é natural e provável, afinal, “outro” estará apontando uma carência talvez não admitida. Diante do exposto é notório o fato de que o maior entrave nas relações coach versus coachee não ancora nos problemas propriamente ditos, mas sim, no administrar o subjetivo. E, é relevante evidenciar que o subjetivo é tempero indissociável da pluralidade de interpretações. Cada coachee traz consigo uma personalidade construída por diferentes pessoas e ambientes pelos quais manteve contato por sua vida, e isto, não está registrado em algum diário ou manual operacional. Todo seu conhecimento prático-teórico também. Este capital intangível possui um valor inquestionável para aquele que o detém e resume-se, na maioria das vezes, em sinônimo de algo intransferível e imutável. Esta imutabilidade, muitas vezes inconsciente, é que determina radicalmente a resistência contra as modificações das bases de valores pessoais. O ser humano ressente-se em abrir mão de tudo que lhe custou tempo e dinheiro. Por isso, e acima de tudo, o coach precisa deter a prática das relações interpessoais e conhecer tudo que for possível sobre as variáveis que moldam e conduzem o comportamento humano. O homem é um ser cognitivo inato e permanecerá num sistema organizacional recheado de complexidades por grande parte de sua vida, ora sendo influenciado, ora influenciando, ou seja, ele será produto e produtor do meio que vive. O ser humano visto como peça fundamental de todo e qualquer sistema de produção, precisa adequar suas características pessoais, especificamente suas potencialidades e limitações. O profissional de coaching terá a incumbência árdua de buscar compreender o incompreendido pelo coachee, e de fazê-lo expressar o compreendido, porém não expresso. Assim, cabe à relação coach x coachee identificar e ajustar modelos que influenciam diretamente aspectos psicológicos e sociais decorrentes das relações de trabalho. Portanto, o processo de coaching, além de reformular e corrigir práticas e relações de trabalho, sejam elas pessoais ou operacionais, resulta em acréscimo de conhecimentos multidisciplinares a todos os envolvidos.


Referências:
ARAÚJO, A. Coach. Um Parceiro para o seu Sucesso. São Paulo: Gente, 1999.

CHIAVENATO, I. Administração de Recursos Humanos. São Paulo: Atlas, 1980.

KRAUSZ, R.R. Coaching Executivo: A conquista da Liderança. São Paulo: Nobel, 2007.

SIMÕES, J.J. Psicologia e Dinâmica da Vida em Grupo. São Paulo: Loyola, 1980.

SOUZA, P. R. M de. A Nova Visão do Coaching na Gestão por Competências: A Integração da Estratégia. São Paulo: Qualitymark, 2007.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

HERANÇAS DE NOSSA NATUREZA PRIMITIVA

Por Heitor Jorge Lau
Relações Públicas, Pós-Graduado em Gestão de Pessoas
Mestrando em Educação

Ensaio do filme: O Senhor das Moscas

Os comentários redigidos a seguir são oriundos da observação e interpretação de um filme bastante antigo: O Senhor das Moscas. O olhar crítico sobre as particularidades exibidas foi associado fundamentalmente aos aspectos filosóficos do enredo. Porém, a análise dessas particularidades também encontrou ancoradouro nos universos da psicologia, sociologia e antropologia. Por que este passeio por diversas linhas de estudo? Justamente pela riqueza de situações verificadas através de atitudes individuais e grupais, pró-ativas e reativas, racionais e irracionais. Enfim, a diversidade de detalhes comportamentais é tão abrangente que se tornou praticamente impossível uma visão limitada aos aspectos filosóficos fortemente percebidos.

    O filme expõe os instintos mais primitivos da natureza humana. A desordem social, a disputa pelo poder, o controle do fogo, o instinto de caçar, o instinto de sobrevivência... Não seria exagero compará-lo a uma versão do filme Guerra do Fogo vivenciado em tempos modernos. Aspectos do elenco, caracterizados pela figura masculina pré-adolescente e militarizados, foram desconsiderados, levando-se em conta somente atitudes e aprendizado.

    Uma sociedade doutrinada
Virtualmente, todas as sociedades desenvolvem estruturas hierárquicas nas quais certas pessoas são investidas de poder e autoridade sobre as outras. Em nossa sociedade, por exemplo, pais, diretores de escola, gerentes, etc., são investidos de vários graus de autoridade. O relacionamento entre figuras de autoridade e seus subordinados quase sempre provoca conflitos morais. Isto pode ser ilustrado de maneira vigorosa pela história de Abraão, a quem Deus ordenou que matasse seu filho Isaac. O dilema de Abraão é que ele sentia amor por Deus e pelo seu filho, mas havia sido colocado numa posição em que era aparentemente solicitado a trair um ou outro. Até que ponto deveria ir sua obediência a Deus?

    Um conflito semelhante ocorre quando, numa guerra, soldados recebem ordens de matar civis indefesos, como aconteceu durante a Guerra do Vietnã, quando o tenente Calley ordenou o massacre de civis em My Lai. A defesa de Calley fundamentou-se na afirmação de que estava obedecendo a ordens dos seus superiores – em outras palavras simplesmente “cumprindo o seu dever”. Aqui ocorre o conflito entre os requisitos da disciplina do exército e o respeito à vida humana.

    No exemplo citado, é nítida a disposição das pessoas de irem a extremos a fim de serem obedientes às ordens de uma autoridade. Vale a pena lembrar como colaboradores agem no trabalho em relação aos seus superiores. Pessoas em posição de autoridade dizem e fazem coisas obviamente erradas ou inadequadas, mas mesmo assim existe uma relutância generalizada entre os subordinados em desafiar suas decisões.

    Culturalmente coloca-se uma ênfase muito grande na necessidade de se obedecer à autoridade, sob o argumento de que uma sociedade eficiente e bem organizada só pode existir quando há uma hierarquia razoavelmente estável na qual algumas pessoas são investidas de poder sobre as outras. E, a maioria das sociedades tenta garantir a obediência fazendo com que o indivíduo obediente ocupe um lugar na hierarquia.

    Na vida diária, colocamos a responsabilidade pela nossa saúde nas mãos do nosso médico, procuramos um contador quando precisamos de orientação financeira, etc. Temos a necessidade de confiar nas opiniões de várias figuras de autoridade e isto é exatamente o que os participantes da experiência fictícia do filme retratam. Um impulso incontrolável, uma necessidade inconsciente de prestar obediência a uma autoridade.

    Também não podemos ignorar o fato de que toda trama acontece num ambiente hostil, totalmente desprovido de leis sociais que regem a conduta moral, ética e dos bons costumes. Pode não parecer óbvio, mas o contexto geográfico pode validar ou rejeitar determinadas ações. Por exemplo, qualquer homem é capaz de expor o pescoço a alguém munido de uma navalha numa barbearia, mas não numa sapataria.

    O lado primitivo do humano
Bem, misturando o ambiente errado com a influência inadequada, teremos inevitavelmente, a receita da capacidade do homem de abandonar sua humanidade na medida em que ele funde sua personalidade única nas estruturas institucionais defeituosas. Talvez esse seja o defeito fatal com que a natureza nos dotou e que em longo prazo dá a nossa espécie apenas uma modesta chance de sobrevivência.

    Pessimismo ou não, basta resgatar a teoria da evolução de Charles Darwin que afirma que os seres humanos compartilham uma descendência comum com os mais primitivos dos animais. Esta herança aplica-se tanto ao cérebro humano, o berço da razão e da sensação, quanto a qualquer outra parte de nossa estrutura física e psicológica. Mas como estamos analisando comportamento ignoremos do “pescoço para baixo”.

    A ciência comprovou a existência de duas partes importantes do nosso cérebro: o paleocórtex e neocórtex. O paleocórtex ou sistema límbico é uma estrutura cerebral que se desenvolveu posteriormente e que governa a expressão das emoções. O neocórtex ou massa cinzenta é que distingue o homem dos outros animais. É justamente o neocórtex que permite o raciocínio lógico, o uso da linguagem complexa e a quebra das barreiras da evolução biológica.

    O homem herda algo mais do que genes, ele herda também as culturas complexas que ele mesmo cria. Naturalmente, existe certo grau de intercomunicação entre as duas partes, mesmo assim todas elas têm suas funções separadas e nenhuma tentativa de explicar a natureza humana pode ser bem-sucedida se não levarmos em conta essas diferenças.

    O desenvolvimento do neocórtex tornou possíveis as funções inter-relacionadas do raciocínio e da linguagem, mas como derivam de uma estrutura posterior, separada, o raciocínio e a linguagem têm pouco poder sobre o sistema límbico do paleocórtex e as emoções que ele governa. Esta pode ser a causa mais provável de nosso elenco desesperado ter migrado do imaginário moral e eticamente correto para um mundo onde a luta pela sobrevivência era mister.

   Considerações finais
   Conflitos extremamente poderosos podem ocorrer quando as pessoas são levadas a cometer atos imorais por uma figura de autoridade, e esses conflitos podem produzir níveis de tensão quase intoleráveis. A obediência é mais provável quando o indivíduo está mais envolvido com a figura de autoridade do que com a vítima e a desobediência quando o indivíduo testemunha o sofrimento da vítima.

   Questões como: Somente situações extremas fazem aflorar nossos instintos mais primitivos? - ou - Será que somos selvagens em nosso cotidiano de forma institucionalizada? Resta refletir sobre estas e outras tantas situações que assolam nosso desenvolvimento social. Quem sabe um dia as pessoas passem de candidatos à categoria efetiva de seres humanos, na verdadeira concepção da palavra.


“Não existe arte mais difícil que a de viver. Porque para as demais artes e ciências há mestres por toda parte. Até os jovens acreditam haver aprendido essas artes de tal maneira que podem ensiná-las a outros: durante a vida inteira a criatura tem que continuar aprendendo a viver e, coisa que surpreenderá ainda mais, tem , durante a vida inteira, que aprender a morrer.”
Sênega

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O SEGREDO DE UM AMOR PROIBIDO




Por Heitor Jorge Lau
Relações Públicas, Pós-Graduado em Gestão de Pessoas
Mestrando em Educação

              Resenha do livro O Pintor que escrevia

           WIERZCHOWSKI, Leticia. O pintor que escrevia: amor e pecado. 1. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003. 142p. 14 x 21 cm.

Leticia Wierzchowski é gaúcha e vive na cidade de Porto Alegre. Escritora desde 1997, a obra O pintor que escrevia é seu sexto livro. Ela compôs o romance A casa das sete mulheres cujo livro obteve tamanho sucesso que foi adaptado pela Rede Globo para uma minissérie de televisão. Graças ao excelente trabalho realizado, a autora conquistou prestigio e foi considerada uma grande revelação dos últimos anos no meio literário nacional.

O romance resenhado faz parte da coleção Amores Extremos que reúne composições de escritoras da literatura brasileira. Através do vidro, de Heloisa Seixas; Obsceno abandono, de Marilene Felinto; Para sempre, de Ana Maria Machado; Recados da lua, de Helena Jobim e Solo feminino, de Lívia Garcia-Roza também fazem parte da coletânea. São contextualizações de cenários recheados de amor, de paixão, de desejo e romantismo.

A narrativa, O pintor que escrevia, conta a história do pintor italiano, Marco Belluci, que encontrou guarida no Brasil no decorrer da Segunda Grande Guerra. Ele, inexplicavelmente, suicidou-se, deixando vários quadros encaixotados, sendo descobertos somente duas décadas após sua morte por um conhecido marchand, durante uma avaliação de suas pinturas. Surpreendentemente, atrás de cada tela foram encontrados textos redigidos pelo artista que revelavam um amor proibido.

     A história configura-se em uma pequena localidade da Serra Gaúcha, na década de cinqüenta, minuciosamente retratada pela escritora através da descrição de cenários, representados por sensações, por cores, por ruídos e até mesmo por aromas, expressões difíceis de causar a impressão de realidade. Tudo isso contado por orações curtas, sem expressões rebuscadas.

          O romance recheado de mistério do início ao fim, tem como protagonistas o pintor Marco Belucci e sua esposa Amapola, ambos naturais da Itália. Como coadjuvante aparece a genitora dela, Antônia Maestro, proprietária das terras onde os acontecimentos se sucedem. Todos fugidos da pátria mãe antes do começo do conflito que assolou a Europa e que repercutiu no restante do mundo.

        O artista era loucamente apaixonado pela esposa, Amapola, e manifestava tal sentimento em alguns quadros cujas pinceladas eram inspiradas por um amor inimaginável e que jamais alguém vira igual. Porém, por trás daquelas telas cheias de cor e vida existia algo mais do que apenas imagens coloridas por mãos talentosas, engendradas por uma mente brilhante e eternamente enamorada.

Apesar de todo talento e brilhantismo, Belucci era considerado um homem estranho e retraído, características que alguns atribuíam ao fato dele ter abandonado sua família às barbáries da guerra ao rumar para o Brasil. Ele transformou suas obras no repositório dos seus segredos e pecados. E foi neste começo de mistério e encantamento que este protagonista comete, misteriosamente, o suicídio.

          Aconteceu numa primavera. Enquanto sua amada ainda repousava no seu leito de amor, o apaixonado e devotado Marco Belucci, aos quarenta anos de idade, jogou-se pela janela de seu ateliê, esparramando-se sobre um canteiro de margaridas do jardim cuidadosamente ornamentado. A cena, tão surpreendente quanto assustadora, faz Amapola cair em desgraça pelo episódio macabro que acabara de vivenciar.

Por opção, a viúva decidiu partir deixando para trás todas as pinturas que o finado havia feito ao longo dos anos, pois elas a lembravam de momentos felizes que vivera ao lado dele. Resolvera embalá-las, com as técnicas que aprendera com o especialista, e deixá-las no seu recanto que por vários anos serviu de estúdio. E todos os quadros permaneceram lá, quietos, intocados, livres dos olhares da humanidade.

            Transcorridos vinte longos anos, Augusto Seara, marchand conhecidíssimo em São Paulo, é chamado para catalogar as obras de Belucci, mais de quarenta. Lisonjeado por ter sido designado para inventariar as obras que o mundo jamais vira o perito acompanhado de seu auxiliar, Zeca, rumou em direção à propriedade que durante duas décadas alojou, silenciosamente, os quadros do pintor. Mal sabiam eles sobre a surpresa que lhes aguardava.

E após longa viagem de São Paulo até ao sul do País, foram gentilmente recebidos por Ana, antiga empregada da família, e seu marido, remanescentes do local, incumbidos de resguardar e preservar a decrépita propriedade. Após uma noite de descanso, o dia seguinte foi dedicado à limpeza do sótão no qual Belucci trabalhara anos afins, afinal, depois de tanto tempo a poeira reinava soberana no ambiente, mesmo porque naquele local jamais alguém pisara depois do incidente fatídico.

          Seara escolhera um quadro, limpou-o, apontou as proporções da moldura e da tela, observou texturas e cores, e ao visualizar a parte posterior da pintura, uma exclamação pairou pelo ar: “Um pintor que escrevia – gemeu Augusto – emocionado. – A tela era a sua página.” (pg. 47). Foi neste momento que o marchand encontrou um texto sob o quadro, redigido na língua mãe do autor, o primeiro de uma série.

Seara sabia ler fluentemente italiano porque fora o idioma no qual havia sido alfabetizado. No primeiro quadro que ele examinou encontrou no verso a narrativa da época e o momento em que o pintor havia visto sua futura esposa, Amapola, pela primeira vez. Perplexo e entusiasmado pela descoberta, não via a hora de averiguar as demais obras, pois tinha a sensação de que encontraria mais inscrições.

Um estranho diário secreto, que até então somente Belucci tinha conhecimento, tinha finalmente sido descoberto. Os quadros seguintes revelavam certa aflição e sofrimento, deixando o marchand confuso por não compreender a angústia do pintor ao relembrar através das palavras redigidas, o seu amor por Amapola. Por que um amor tão intenso e verdadeiro causava simultaneamente prazer e sofrimento?

A cada nova descoberta Seara envolvia-se mais e mais com tudo aquilo, a ponto do seu imaginário sofrer influência das palavras e sentimentos expressos em cada linha escrita. havia uma pergunta que continuava sem resposta e fazia latejar sua a mente de tanta curiosidade: por que sofrer exacerbadamente possuindo uma esposa tão bela e apaixonada? A procura pela resposta tinha se tornado obsessão.

Foi neste mar de tormentos que o caseiro, esposo de Ana, sofreu um enfarte fulminante e veio a falecer. Desgraça para a empregada, oportunidade para Seara. Ela carregava consigo um molho de chaves e uma delas, muito antiga, chamava atenção do personagem obcecado por respostas. Havia uma sala na residência com a porta constantemente trancafiada e uma daquelas poderia ser da fechadura que daria acesso às informações que elucidariam o mistério.
Talvez ali estivessem as explicações para o segredo que rodeava aquela história de amor. E foi no momento de descuido e sofrimento da viúva, que Seara decidiu tomar-lhe “emprestada” a chave. Era uma oportunidade arriscada, porém, única e momentânea, que foi acertadamente aproveitada, porque naquela peça da casa estava o desfecho do mistério que tanto importunou o marchand, Augusto Seara.

Contudo, o enigma que perseguiu o especialista durante toda a sua estada na residência de Antônia Maestro continuará ao final desta resenha, pois a curiosidade que o instigou, e que estimulou esse resenhista, certamente irá excitar o leitor desta resenha a deleitar-se com a obra original. E nada mais justo do que reservar a maior surpresa, o grande finale, a quem dedicar-se a apreciar o livro O pintor que escrevia.

Leticia Wierzchowski conduz sua obra com muita concisão e simplicidade, alternando o emprego da linguagem narrativa e descritiva. Os diálogos são utilizados sutilmente e a estrutura alinear do texto a transforma em uma verdadeira viagem pelo tempo e espaço. Assim, ela consegue conduzir o leitor para dentro do cenário imaginário devido à minúcia dos detalhes, tornando a história mais realista.

Porém, o que faz a leitura mais instigante é a forma como o interesse pelo alheio é aguçado. O misterioso amor proibido, inserido no contexto, é o ingrediente essencial porque lida diretamente com o sentimento mais saliente do ser humano: a curiosidade. Detalhes de um diário secreto, estranhamente constituídos no verso de quarenta obras de arte, há vinte anos, já seriam suficientemente estimulantes.

É justamente esta sensibilidade que torna Augusto Seara um personagem muito importante porque demonstra nitidamente a determinação pela busca de respostas a partir de um interesse perseverante. Ele também manifesta uma mensagem de valor muito valiosa ao descobrir o segredo do pintor: integridade e ética. Sua descoberta é mantida em segredo, não revelada sequer ao seu auxiliar.

Trata-se de um excelente romance. Congrega sentimentos de amor verdadeiro, de amor sem limites; expõe manifestações de confiança e obstinação; expressa valores morais e imorais. É uma obra literária que revela a qualidade e a capacidade dos escritores brasileiros de produzir excelentes conteúdos. Qualifica o meio literário nacional e amplia os conhecimentos intelectuais e culturais daquele que a lê. Portanto, é um livro a ser recomendado por sua forma e teor.