domingo, 28 de junho de 2026

CRÍTICO E CRITICADO: QUEM SÃO ESSES PERSONAGENS?

ANTES DE JULGAR O CRITICADO, É PRECISO CONHECER O CRÍTICO

muitas vezes, uma crítica negativa pode ser um elogio, dependendo de quem a faz.

por Heitor Jorge Lau

            Poucas coisas influenciam tanto a opinião que fazemos sobre alguém quanto as críticas que ouvimos a seu respeito. No entanto, raramente nos perguntamos quem as está fazendo. Julgar uma pessoa apenas pelos julgamentos alheios é um dos erros mais frequentes das relações humanas. Antes de aceitarmos qualquer crítica como verdadeira, convém conhecer a credibilidade de quem a formulou, as circunstâncias em que ela surgiu e os interesses que, consciente ou inconscientemente, podem tê-la motivado.

            Esse hábito de aceitar críticas sem examinar sua origem costuma produzir julgamentos precipitados. Muitas vezes, tratamos uma reprovação como se ela fosse, por si só, uma prova de culpa, enquanto um elogio é recebido como confirmação de mérito. A realidade, entretanto, é muito mais complexa. Algumas críticas possuem fundamento, revelam limitações que não conseguimos perceber em nós mesmos e constituem oportunidades de crescimento. Outras, porém, nascem de rivalidades, ressentimentos, disputas de espaço, preconceitos ou da simples resistência diante de quem se recusa a agir segundo determinadas conveniências. Saber distinguir umas das outras é uma demonstração de maturidade intelectual.

            Isso, entretanto, não significa que toda crítica deva ser recebida com desconfiança. Ao longo da vida encontramos pessoas cuja competência, equilíbrio e integridade foram demonstrados repetidas vezes. São indivíduos que não costumam emitir julgamentos precipitados nem críticas motivadas por interesses pessoais. Quando alguém com esse histórico manifesta uma preocupação ou faz uma observação crítica, ainda que seja a única voz a fazê-lo, sua opinião merece ser cuidadosamente considerada. Em determinadas situações, a credibilidade construída ao longo dos anos possui mais peso do que a concordância superficial de uma maioria. A experiência ensina que uma única observação sensata pode evitar erros que dezenas de opiniões apressadas seriam incapazes de perceber.

            Existem situações em que a crítica não decorre de uma falha objetiva, mas da resistência provocada por alguém que ousou contrariar interesses estabelecidos. A pessoa íntegra frequentemente incomoda justamente porque sua postura expõe, por contraste, as incoerências daqueles que a cercam. Quem se recusa a participar de privilégios indevidos, favoritismos, manipulações ou comportamentos antiéticos dificilmente passará despercebido. Sua simples presença pode representar uma ameaça para quem construiu sua posição sobre fundamentos frágeis. Nesses casos, a crítica deixa de ser um instrumento de correção para transformar-se em uma tentativa de neutralizar aquilo que passou a representar uma ameaça aos interesses estabelecidos. Paradoxalmente, ser criticado pode significar que a própria consciência permanece alinhada com princípios que outros prefeririam ver abandonados.

            Essa percepção me acompanhou durante os anos em que atuei como Analista de Recursos Humanos. Não eram raras as ocasiões em que algum gestor chegava ao departamento afirmando, com aparente convicção, que determinado funcionário vinha sendo alvo de críticas e, por isso, deveria ser desligado da empresa. A conclusão parecia pronta antes mesmo da investigação. Minha primeira pergunta, porém, nunca dizia respeito ao funcionário. Eu perguntava simplesmente: "Quantas pessoas estão criticando?". Essa indagação, aparentemente simples, mudava completamente o rumo da conversa. Se a crítica partia de um único indivíduo, havia uma grande possibilidade de estarmos diante de um conflito pessoal, uma disputa de espaço ou de uma incompatibilidade entre temperamentos. Uma única voz dificilmente autorizava uma decisão que afetaria profundamente a vida profissional de alguém.

            Quando as críticas provinham de diversas pessoas, a investigação prosseguia em outra direção. Ainda assim, a quantidade, por si só, não encerrava a questão. Era necessário compreender se todas apontavam para o mesmo comportamento ou se cada uma expressava uma insatisfação distinta. A repetição de um mesmo relato, formulado por pessoas diferentes e independentes entre si, constituía um indício relevante. Já críticas dispersas, contraditórias ou fundamentadas em preferências subjetivas exigiam extrema cautela. Aprendi que a função de um analista não consiste em confirmar impressões precipitadas, mas em separar fatos de interpretações, evidências de opiniões e padrões consistentes de conflitos ocasionais. A quantidade de vozes jamais substitui a consistência das evidências. A verdade não é decidida por votação, mas pela qualidade dos fatos que a sustentam. A justiça organizacional depende justamente dessa capacidade de suspender conclusões até que os elementos disponíveis permitam um julgamento equilibrado.

            Essa experiência profissional acabou reforçando uma convicção que hoje considero válida para praticamente todos os campos da vida. A credibilidade de uma crítica não reside apenas em sua existência, mas na qualidade de sua origem. Pessoas movidas por ressentimento, inveja, competição ou desejo de preservar privilégios também criticam, e muitas vezes o fazem com enorme convicção. O tom seguro de uma acusação não constitui prova de sua veracidade. Por isso, a maturidade intelectual exige que se examine o crítico com o mesmo rigor dedicado ao criticado. Perguntar quem fala, por que fala e em quais circunstâncias fala é parte inseparável de qualquer análise séria. Ignorar essas perguntas é abrir espaço para que preconceitos, interesses particulares e paixões momentâneas assumam o lugar da verdade.

            Talvez uma das maiores demonstrações de equilíbrio seja justamente não permitir que toda crítica determine o valor que atribuímos a nós mesmos ou aos outros. Algumas merecem ser acolhidas porque revelam pontos cegos e contribuem para o crescimento pessoal. Outras, porém, acabam funcionando como um reconhecimento involuntário de que permanecemos fiéis às nossas convicções. Quando alguém comprometido com a desonestidade condena a honestidade, ou quando quem vive de privilégios critica quem age com equidade, a crítica perde sua força como censura e passa a adquirir o sentido oposto. Nesses momentos, ela se transforma em uma espécie de elogio involuntário.

            Afinal, muitas vezes, uma crítica negativa pode ser um elogio, dependendo de quem a faz. E, antes de aceitarmos qualquer julgamento como verdade, talvez devêssemos nos habituar a fazer uma pergunta simples, mas decisiva: quem está criticando?

 

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