segunda-feira, 29 de junho de 2026

A VIDA COMO ELA É - COLEÇÃO CONTEMPLAÇÕES DA NATUREZA

O SOFRIMENTO QUE NÃO EXISTE NA NATUREZA

por Heitor Jorge Lau

             Nenhuma árvore sofre por não ser pássaro. Nenhum rio lamenta não ser montanha. A natureza jamais desperdiça energia tentando ser outra coisa. Apenas o ser humano transforma a própria identidade em motivo de insatisfação, consumindo boa parte da existência desejando viver a vida de alguém que não é.

            A sabedoria da natureza não está na ausência de limites, mas na ausência de revolta contra eles. A árvore cresce até onde suas raízes alcançam. O rio percorre o leito que encontra. O pássaro voa com as asas que possui. Cada ser realiza, com plenitude, as possibilidades inscritas em sua própria natureza. Apenas o homem, podendo tornar extraordinária a sua existência, desperdiça parte da vida desejando florescer nas raízes de outra árvore.

            Grande parte do sofrimento humano não nasce apenas daquilo que nos falta, mas da fantasia de que a felicidade habita uma existência diferente da nossa. Imaginamos que seríamos plenos se tivéssemos outro corpo, outra profissão, outra inteligência, outro casamento, outra história... Enquanto isso, a natureza parece ensinar uma lição silenciosa: cada organismo investe toda a sua energia em realizar aquilo que pode ser, e não em lamentar aquilo que nunca será.

            Nenhum organismo prospera negando a própria natureza. Um lobo não deseja voar. Uma águia não sonha em respirar debaixo d'água. A evolução aperfeiçoa aquilo que cada espécie já é, e não aquilo que ela gostaria de ser. O ser humano, entretanto, possui imaginação simbólica. Essa capacidade extraordinária, responsável pela arte, pela ciência e pela cultura, também produz um efeito colateral inevitável: a comparação incessante. Já não basta existir. É preciso desejar existir como outro.

            Essa é uma das mais silenciosas tragédias da condição humana. Enquanto a natureza realiza serenamente aquilo que é, o homem frequentemente desperdiça sua existência tentando escapar da própria. E, ao perseguir uma vida imaginária, negligencia a única que realmente possui.

            Talvez seja por isso que a natureza desconheça esse sofrimento. A árvore floresce sem invejar o voo dos pássaros. O rio encontra o mar sem desejar ser montanha. O lobo corre sem sonhar com asas. Apenas o homem imagina que encontrará paz tornando-se alguém diferente. E é justamente nessa longa fuga de si mesmo que, muitas vezes, esquece de florescer.

 

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