terça-feira, 8 de abril de 2025

DISTORÇÕES COGNITIVAS - uma lista

 


Lista de verificação das distorções cognitivas

1. Leitura mental: imaginar que sabe o que as pessoas pensam sem ter evidências suficientes. Por exemplo: “Ele acha que sou um fracasso”.

2. Adivinhação do futuro: rever o futuro – que as coisas vão piorar ou que há perigos pela frente. Por exemplo: “Vou ser reprovado no exame” ou “Não conseguirei o emprego”.

3. Catastrofização: achar que o que aconteceu ou vai acontecer é tão terrível e insustentável que não será capaz de suportar. Por exemplo: “Seria horrível se eu fracassasse”.

4. Rotulação: atribuir traços negativos a si mesmo e aos outros. Por exemplo: “Sou indesejável” ou “Ele é uma pessoa imprestável”.

5. Desqualificação dos aspectos positivos: afirmar que as realizações positivas, próprias ou alheias, são triviais. Por exemplo: “É isso que se espera das pessoas – de modo que não conta quando ela é legal comigo” ou “Esses sucessos são fáceis, de modo que não importam”.

6. Filtro negativo: focar quase exclusivamente os aspectos negativos e raramente notar os positivos. Por exemplo: “Veja todas as pessoas que não gostam de mim”.

7. Supergeneralização: perceber um padrão global de aspectos negativos com base em um único incidente. Por exemplo: “Isso geralmente me acontece. Parece que eu fracasso em muitas coisas”.

8. Pensamento dicotômico: ver eventos ou pessoas em termos do tudo-ou-nada. Por

exemplo: “Sou rejeitado por todos” ou “tudo isso foi uma perda de tempo”.

9. Afirmações do tipo “deveria”: interpretar os eventos em termos de como as coisas devem ser, em vez de simplesmente concentrar-se no que elas são. Por exemplo: “Eu deveria me sair bem. Caso contrário, serei um fracasso”.

10. Personalização: atribuir a si mesmo culpa desproporcional por eventos negativos e não conseguir ver que certos eventos também são provocados pelos outros. “Meu casamento terminou porque falhei”.

11. Atribuição de culpa: concentrar na outra pessoa como fonte de sentimentos negativos e se recusar a assumir a responsabilidade da mudança. Por exemplo: “Estou me sentindo assim agora por culpa dele” ou “Meus pais são a causa de todos os meus problemas”.

12. Comparações injustas: interpretar os eventos em termos de padrões irrealistas, comparando-se com pessoas que se saem melhor e concluindo, então, que é inferior a elas. Por exemplo: “Ela é mais bem sucedida que eu” ou “Os outros se saíram melhor do que eu no teste”.

13. Orientação para remorso: ficar preso à ideia de que poderia ter se saído melhor no

passado, em vez de pensar que pode fazer melhor agora. Por exemplo: Eu poderia ter conseguido um emprego melhor se tivesse tentado” ou “Eu não deveria ter dito isso”.

14. E Se...?: Fazer uma série de perguntas do tipo “e se alguma coisa acontecer” e nunca fica satisfeito com as respostas. Por exemplo: “Sim, mas e se eu ficar ansioso?” ou “e se eu não conseguir respirar?”.

15. Raciocínio emocional: deixar os sentimentos guiarem a interpretação da realidade. Por exemplo: “Sinto-me deprimido; consequentemente, meu casamento não está dando certo”.

16. Incapacidade de refutar: rejeitar qualquer evidência ou argumento que possa contradizer os pensamentos negativos. Por exemplo, quando pensa “Não sou digno de amor”, rejeita como irrelevante qualquer evidência que as pessoas gostem de você. Consequentemente, o pensamento não é refutado. Outro exemplo: “Esse não é o problema real. Há problemas mais profundos. Existem outros fatores”.

17. Foco no julgamento: avaliar a si próprio e os outros em termos de preto-e-branco (bom-mau ou superior-inferior), em vez de simplesmente descrever, aceitar ou compreender. Está continuamente se avaliando e avaliando os outros segundo padrões arbitrários e concluindo que você e os outros deixam a desejar. Você se concentra nos julgamentos dos outros e de si mesmo. Por exemplo: “Não tive um bom desempenho na faculdade” ou “Se eu for aprender tênis, vou me sair mal” ou “Veja como ela faz sucesso. Eu não consigo”.

DISSONÂNCIA COGNITIVA - um breve histórico

 



Dissonância cognitiva: um dos conceitos mais intrigantes da psicanálise, descrevendo o desconforto mental que surge quando alguém enfrenta contradições entre suas crenças, atitudes e comportamentos. Para compreender esse fenômeno, faz-se necessário explorar um pouco o seu significado, as suas causas, poucos exemplos cotidianos, as repercussões individuais e sociais, e as estratégias para lidar com o “problema”.

O termo foi introduzido em 1957 pelo psicólogo Leon Festinger, que o definiu como a tensão ou desconforto que ocorre quando uma pessoa possui duas ou mais ideias ou atitudes conflitantes, ou quando seu comportamento contradiz as suas crenças. Esse conflito interno cria a necessidade de reduzir a tensão através de mudanças cognitivas, justificativas ou até mesmo alterações no comportamento. Por exemplo, uma pessoa acredita fortemente na importância de uma alimentação saudável, mas consome regularmente fast food. Essa contradição cria dissonância cognitiva, e ela pode tentar justificá-la dizendo: "Foi só hoje, eu estava muito cansado" ou "Vou compensar amanhã com uma alimentação saudável."

 

A dissonância cognitiva pode surgir por várias razões, incluindo:

1. Conflito de valores: quando os valores ou crenças de uma pessoa não estão alinhados com suas ações ou decisões. Por exemplo, alguém que valoriza a honestidade pode sentir dissonância ao omitir informações importantes para benefício próprio.

2. Pressões externas: a sociedade, cultura e as normas podem levar uma pessoa a adotar comportamentos que contrariam suas convicções pessoais. Um exemplo comum é alguém que participa de atividades que desaprova moralmente para se adequar ao grupo.

3. Mudanças inesperadas: quando uma pessoa é confrontada com novas informações que contradizem aquilo em que acredita profundamente. A descoberta de fatos ou verdades “inconvenientes” pode gerar dissonância.

4. Compromissos pré-existentes: quando uma decisão tomada anteriormente não pode ser facilmente revertida, mesmo que ela contradiga crenças ou novas evidências.

 

A dissonância cognitiva pode ser observada em várias esferas da vida, como:

1. Consumo e escolhas financeiras: alguém que compra um produto caro pode sentir desconforto ao perceber que poderia ter economizado ao escolher outra opção. Para justificar a decisão, pode pensar: "Foi um bom investimento" ou "Essa marca é de melhor qualidade."

2. Relacionamentos: uma pessoa pode justificar permanecer em um relacionamento tóxico dizendo: "Todo mundo tem seus problemas" ou "Ele(a) vai mudar com o tempo."

3. Meio ambiente: alguém que defende a sustentabilidade, mas continua usando sacolas plásticas, pode justificar dizendo: "É mais prático no momento" ou "A mudança de hábitos é muito difícil."

4. Trabalho insatisfatório: uma pessoa pode continuar em um emprego que não gosta, justificando com pensamentos como: "É temporário" ou "Pelo menos o salário é bom."

 

A dissonância cognitiva, se não tratada, pode ter várias consequências negativas para o indivíduo:

1. Stress psicológico: o desconforto interno constante pode levar a sentimentos de ansiedade e insatisfação. Esse estresse pode, em casos extremos, influenciar o bem-estar físico e emocional.

2. Autoengano: para evitar o desconforto, muitas pessoas se enganam ao modificar a percepção de suas próprias ações ou crenças. Isso pode dificultar o crescimento pessoal e a compreensão honesta de si mesmo.

3. Tomada de decisão prejudicada: a dissonância pode levar a decisões baseadas em justificativas irracionais, em vez de análises objetivas.

4. Resistência à mudança: o medo de confrontar a dissonância pode fazer com que uma pessoa resista a mudanças benéficas, mantendo padrões ou comportamentos prejudiciais.

 

No nível social, a dissonância cognitiva pode ter efeitos profundos:

1. Polarização social: em debates políticos, por exemplo, indivíduos podem justificar ou ignorar falhas em argumentos ou ideologias apenas para evitar o desconforto de mudar de lado. Isso pode contribuir para a polarização.

2. Resistência a novas ideias: movimentos ou ideias inovadoras podem encontrar resistência porque desafiam normas estabelecidas, criando dissonância em grupos que se beneficiam do status quo.

3. Difusão de informações falsas: quando confrontadas com evidências que contradizem suas crenças, as pessoas podem rejeitar fatos e aderir a teorias simplistas ou falsas para aliviar a tensão cognitiva.

4. Mudanças culturais lentas: aspectos culturais enraizados podem permanecer por gerações devido ao desconforto das mudanças que podem criar dissonância cognitiva coletiva.

 

Para aliviar ou enfrentar a dissonância cognitiva, é essencial adotar estratégias conscientes:

1. Reconhecer a dissonância: o primeiro passo é identificar os momentos em que há conflito entre ações e crenças. A consciência sobre o problema é fundamental para resolvê-lo.

2. Revisar crenças e valores: avaliar se as crenças existentes ainda são relevantes ou úteis. Atualizar valores pode reduzir o conflito interno.

3. Fazer mudanças gradativas: em vez de tentar corrigir todos os conflitos de uma vez, é mais eficaz adotar pequenas mudanças no comportamento, ajustando-se aos poucos às novas crenças.

4. Aceitar imperfeições: compreender que ninguém é perfeito e que contradições são naturais pode reduzir o impacto emocional da dissonância.

5. Buscar apoio emocional: conversar com pessoas de confiança ou até mesmo com profissionais de saúde mental pode oferecer novos insights e ajudar no processo de resolução.

6. Evitar justificativas excessivas: é importante evitar cair na armadilha de sempre justificar comportamentos ou crenças contraditórios, pois isso pode levar a mais confusão interna.

A dissonância cognitiva é um mecanismo psicológico comum e, ao mesmo tempo, fundamental na vida humana. Embora possa causar desconforto, ela também oferece uma oportunidade de autoconhecimento e crescimento. Confrontar e resolver essas contradições internas exige coragem, mas pode levar a uma vida mais alinhada e satisfatória. No âmbito coletivo, compreender a dissonância cognitiva é essencial para promover empatia, diálogo e mudanças sociais positivas. Ao abraçar essas ideias, é possível transformar o desconforto em aprendizado e as contradições em trampolins para o progresso.

 

segunda-feira, 31 de março de 2025

VIDA, EXISTÊNCIA E INTERPRETAÇÃO

 


VIDA, EXISTÊNCIA E CLAREZA DE INTERPRETAÇÃO:

UMA TRÍADE INTERLIGADA

Vida e existência são conceitos que, à primeira vista, podem parecer sinônimos ou, pelo menos, intimamente relacionados. Porém, ao olharmos mais de perto, percebemos nuances que os diferenciam e, ao mesmo tempo, os conectam. A clareza de interpretação, por sua vez, surge como a lente pela qual compreendemos e navegamos por esses dois pilares fundamentais da nossa jornada. Juntas, essas três ideias formam um triângulo dinâmico que molda nossa visão de mundo e nossa experiência como seres humanos.

 

Vida: Uma Experiência Pulsante

A vida é movimento, ação, emoção. É o ritmo acelerado do coração em momentos de alegria e o silêncio introspectivo que acompanha a contemplação. Ao observarmos a natureza, desde o voo elegante de um pássaro até o brotar de uma flor em terreno árido, percebemos que a vida é marcada pela transformação contínua. Contudo, enquanto vivemos, muitas vezes negligenciamos sua essência. Corremos atrás de metas, enfrentamos desafios e raramente paramos para refletir sobre o que significa estar vivo. Há uma beleza intrínseca na simplicidade da vida. É nos pequenos momentos – o sorriso inesperado de um estranho, o cheiro de terra molhada após a chuva, a conexão com outra pessoa – que encontramos o verdadeiro significado de viver. No entanto, essas experiências só ganham profundidade quando inseridas no contexto da existência.

 

Existência: O Pano de Fundo da Vida

Existência é a estrutura ampla e filosófica que abriga a vida. Se a vida é a experiência, a existência é o enigma. É a pergunta que ecoa desde tempos imemoriais: “Por que estamos aqui?” Enquanto a vida nos oferece momentos tangíveis, a existência nos mergulha em um universo de questionamentos. Alguns buscam respostas na ciência, outros na espiritualidade, e há aqueles que encontram conforto no mistério. A existência nos desafia a ir além do imediatismo da vida. Ela nos convida a ponderar sobre o impacto de nossas ações, sobre nosso propósito e sobre como nossas jornadas individuais se entrelaçam com a vasta tapeçaria da humanidade. Esse processo de reflexão nos aproxima da terceira dimensão do triângulo: a clareza de interpretação.

 

Clareza de Interpretação: A Chave para Compreender

A clareza de interpretação é essencial para dar sentido à vida e à existência. Sem ela, nossas experiências podem se tornar confusas e nossos questionamentos existenciais, fragmentados. A clareza não implica respostas definitivas, ao contrário, ela sugere uma compreensão mais profunda e consciente das perguntas que fazemos. Interpretar a vida com clareza significa enxergar além das distrações cotidianas e das narrativas simplistas. Significa valorizar as complexidades e contradições que fazem parte da nossa experiência humana. Por exemplo, momentos de sofrimento, frequentemente vistos como negativos, podem ser reinterpretados como oportunidades de crescimento e aprendizado. Da mesma forma, a existência, com seu caráter muitas vezes abstrato e filosófico, pode ganhar forma e relevância quando abordada sob a luz da clareza. Essa clareza não se limita à introspecção, ela também se estende à maneira como nos relacionamos com o mundo e com os outros. Quando interpretamos a vida e a existência com empatia e abertura, somos capazes de construir conexões mais significativas e genuínas. Somos capazes de reconhecer que, embora cada pessoa tenha sua própria perspectiva e jornada, há um fio comum que nos une.

 

Interconexões: Um Triângulo Dinâmico

Embora vida, existência e clareza de interpretação sejam conceitos distintos, eles estão profundamente interligados. A vida nos fornece as experiências e os momentos que estimulam reflexões sobre a existência. Por sua vez, a existência nos desafia a buscar clareza, a interpretar nossa jornada com propósito e profundidade. Considere, por exemplo, o impacto de um encontro inesperado. Uma conversa casual pode transformar-se em algo que redefine nossas prioridades ou nos faz questionar quem somos. Esse momento de vida, inicialmente mundano, adquire profundidade quando inserido no contexto da existência. E, ao buscar clareza de interpretação, somos capazes de extrair significado e crescer a partir da experiência. Esse ciclo se repete em inúmeras formas ao longo de nossas vidas. Em momentos de alegria e sofrimento, em períodos de dúvida e certeza, continuamos a navegar entre esses três pilares. Juntos, eles moldam nosso entendimento de quem somos e de como nos conectamos com o mundo ao nosso redor.

 

Vivendo com Propósito e Clareza

A vida é um presente, mas sua verdadeira riqueza só é revelada quando exploramos a existência e buscamos clareza de interpretação. Para viver plenamente, precisamos abraçar a interconexão desses três conceitos. Precisamos reconhecer que, enquanto a vida nos oferece momentos preciosos, a existência nos desafia a buscar significado, e a clareza nos guia nesse processo. Ao refletirmos sobre esses pilares, somos incentivados a viver de forma mais consciente e intencional. Somos convidados a enxergar a beleza nas complexidades da vida, a encontrar propósito na vastidão da existência e a interpretar nossas jornadas com clareza e compaixão. Esse triângulo dinâmico não é apenas uma estrutura filosófica, é um guia para viver plenamente e com propósito.

quarta-feira, 26 de março de 2025

A RAIZ DA SOMBRA COLETIVA

 


A SOMBRA COLETIVA

Atualmente, a sociedade se defronta com o lado escuro da natureza humana toda vez que abre um jornal ou ouve o noticiário. Os efeitos mais repulsivos da sombra tornam-se visíveis na esmagadora mensagem diária dos meios de comunicação, transmitida em massa para toda a moderna aldeia global eletrônica. O mundo tornou-se um palco para a sombra coletiva. A sombra coletiva - a maldade humana – encara a todos de praticamente todas as partes. Ela salta das manchetes dos jornais, vagueia pelas ruas e, sem lar, dorme no vão das portas. Entoca-se nas chamativas sex-shops das cidades. Desvia o dinheiro do sistema de financiamento habitacional, corrompe os políticos famintos de poder e perverte o sistema judiciário. Conduz exércitos invasores através de densas florestas e áridos desertos, tanto faz, e vende armamentos a líderes ensandecidos e repassa os lucros a insurgentes reacionários. Através de canos ocultos, despeja a poluição nos rios, em todos os rios e oceanos. Com invisíveis pesticidas, envenena o alimento de cada dia.

Essas observações não constituem algum novo fundamentalismo a martelar uma versão bíblica da realidade. Nossa época fez, de todos nós, testemunhas forçadas. O mundo todo observa. Não há como evitar o assustador espectro de sombras satânicas mostrado por políticos coniventes, os colarinhos-brancos criminosos e terroristas fanáticos. O anseio interior por integração — agora tornado manifesto na máquina de comunicação global — força todos a enfrentar a conflitante hipocrisia que hoje está em toda parte. Enquanto a maioria das pessoas e grupos vive o lado socialmente aceitável da vida, outras parecem viver as porções socialmente rejeitadas pela vida. Quando essas últimas se tomam objeto de projeções grupais negativas, a sombra coletiva toma a forma de racismo, de busca de bode expiatório ou de criação do inimigo.

Para os americanos anticomunistas, a U.R.S.S. era o Império do Mal. Para os muçulmanos, os Estados Unidos são o Grande Satã. Para os nazistas, os judeus são vermes bolcheviques. Para o monge asceta cristão, as bruxas têm parte com o diabo. Para os sul-africanos defensores do apartheid e os americanos da Ku Klux Klan, os negros são subumanos e não merecem ter os direitos e privilégios dos brancos. O poder hipnótico e a natureza contagiosa dessas fortes emoções ficam evidentes na extensão e universalidade das perseguições raciais, das guerras religiosas e das táticas de busca de bodes expiatórios.

E, portanto, é assim que seres humanos tentam desumanizar outros, num esforço para assegurar que eles são superiores — e que matar o inimigo não significa matar seres humanos iguais a eles. Ao longo da história, a sombra tem surgido através da imaginação humana como um monstro, um dragão, um Frankenstein, uma baleia branca, um extraterrestre ou um homem tão vil impossível de se espelhar — ele está tão distante quanto um ET. Revelar o lado escuro da natureza humana tem sido, então, um dos propósitos básicos da arte e da literatura. Como disse Nietzsche: "Temos arte para que a realidade não nos mate." Usando as artes e a mídia (aí incluída a propaganda política) para criar imagens tão más ou demoníacas quanto a sombra, a tentativa é de ganhar poder sobre ela, quebrar o seu feitiço.

Isso pode ajudar a explicar por que o ser humano fica tão excitado com as violentas arengas de arautos da guerra e de fanáticos religiosos. Simultaneamente repelidos e atraídos pela violência e pelo caos do mundo, transformamos dentro da nossa mente esses outros em receptáculos do mal, em inimigos da civilização. A projeção também pode ajudar a explicar a imensa popularidade dos filmes de terror. Através de uma representação simbólica do lado da sombra, os impulsos para o mal podem ser encorajados, ou talvez aliviados, na segurança de um livro ou de uma tela.

As crianças, tipicamente, começam a aprender os assuntos da sombra ao ouvir contos de fada que mostram a guerra entre as forças do bem e do mal, fadas-madrinhas e temíveis demônios. As crianças, tanto quanto os adultos, também sofrem simbolicamente as provações de seus heróis e heroínas e, assim, aprendem os padrões universais do destino humano. Na batalha da censura que hoje se desenrola no campo da mídia e da música, aqueles que pretendem estrangular a voz da sombra talvez não compreendam sua urgente necessidade de ser ouvida. Num esforço para proteger os jovens, os censores reescrevem Chapeuzinho Vermelho e fazem com que ela não seja mais devorada pelo lobo, mas, desse modo, acabam deixando os jovens despreparados para enfrentar o mal com que irão se defrontar.

Assim como a sociedade, cada família também constrói os seus próprios tabus, as suas áreas proibidas. A sombra familiar contém tudo o que é rejeitado pela percepção consciente de uma família, aqueles sentimentos e ações que são considerados demasiado ameaçadores à sua autoimagem. Numa honrada e conservadora família cristã, a ameaça talvez seja embriagar-se ou desposar alguém de outra religião. Numa família liberal e ateia, talvez seja a opção pelos relacionamentos interraciais. Na sociedade, espancamento da esposa e abuso dos filhos costumavam ficar ocultos na sombra familiar, mas hoje emergem, em proporções epidêmicas, à luz do dia. O lado escuro não é nenhuma conquista evolucionária recente, resultado de civilização e educação.

Ele tem suas raízes numa sombra biológica, que se baseia nas próprias células. Os ancestrais animalescos do ser humano, afinal de contas, sobreviveram graças as presas e garras. A besta interior do ser humano está viva, muito viva, só que a maior parte do tempo permanece encarcerada. Muitos antropólogos e sociobiologos acreditam que a maldade humana seja resultado do controle da agressividade animal, da opção pela cultura em detrimento da natureza e da perda de contato com a selvageria primitiva. O médico e antropólogo Melvin Konner conta, em The Tangled Wing – A Asa Emaranhada, que foi a um zoológico, viu uma placa que dizia "O Animal Mais Perigoso da Terra" e se descobriu olhando para um espelho.


quinta-feira, 6 de março de 2025

MENTE MULTITAREFA. BOM OU RUIM?

 

MENTE MULTITAREFA. BOM OU RUIM?

O excesso de positividade se manifesta também como excesso de estímulos, informações e impulsos. Modifica radicalmente a estrutura e economia da atenção. Com isso se fragmenta e destrói a atenção. Também a crescente sobrecarga de trabalho torna necessária uma técnica específica relacionada ao tempo e à atenção, que tem efeitos novamente na estrutura da atenção. A técnica temporal e de atenção multitasking (multitarefa) não representa nenhum progresso civilizatório. A multitarefa não é uma capacidade para a qual só seria capaz o homem na sociedade trabalhista e de informação pós-moderna. Trata-se antes de um retrocesso. A multitarefa está amplamente disseminada entre os animais em estado selvagem. Trata-se de uma técnica de atenção, indispensável para sobreviver na vida selvagem.

Um animal ocupado no exercício da mastigação de sua comida tem de ocupar-se ao mesmo tempo, também, com outras atividades. Deve cuidar para que, ao comer, ele próprio não acabe comido. Ao mesmo tempo tem de vigiar sua prole e manter o olho em seu(sua) parceiro(a). Na vida selvagem, o animal está obrigado a dividir sua atenção em diversas atividades. Por isso, não é capaz de aprofundamento contemplativo – nem no comer nem no copular. O animal não pode mergulhar contemplativamente no que tem diante de si, pois tem de elaborar ao mesmo tempo o que tem atrás de si. Não apenas a multitarefa, mas também atividades como jogos de computador geram uma atenção ampla, mas rasa, que se assemelha à atenção de um animal selvagem. As mais recentes evoluções sociais e a mudança de estrutura da atenção aproximam cada vez mais a sociedade humana da vida selvagem.

Entrementes, o assédio moral, por exemplo, alcança uma desproporção pandêmica. A preocupação pelo bem viver, à qual faz parte também uma convivência bem-sucedida, cede lugar cada vez mais à preocupação por sobreviver. Os desempenhos culturais da humanidade, dos quais faz parte também a filosofia, devem-se a uma atenção profunda, contemplativa. A cultura pressupõe um ambiente onde seja possível uma atenção profunda. Essa atenção profunda é cada vez mais deslocada por uma forma de atenção bem distinta, a hiperatenção. Essa atenção dispersa se caracteriza por uma rápida mudança de foco entre diversas atividades, fontes informativas e processos. E visto que ele tem uma tolerância bem pequena para o tédio, também não admite aquele tédio profundo que não deixa de ser importante para um processo criativo.

Walter Benjamin (Walter Benedix Schönflies Benjamin foi um ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo judeu alemão, associado à Escola de Frankfurt e à Teoria Crítica) chama a esse tédio profundo de um “pássaro onírico, que choca o ovo da experiência”. Se o sono perfaz o ponto alto do descanso físico, o tédio profundo constitui o ponto alto do descanso espiritual. Pura inquietação não gera nada de novo. Reproduz e acelera o já existente. Benjamin lamenta que esse ninho de descanso e de repouso do pássaro onírico está desaparecendo cada vez mais na modernidade. Não se “tece mais e não se fia”. O tédio seria um “pano cinza quente, forrado por dentro com o mais incandescente e o mais colorido revestimento de seda que já existiu” e no qual “nos enrolamos quando sonhamos”. Nos “arabescos de seu revestimento estaríamos em casa”. Com o desaparecimento do descanso, teriam se perdido os “dons do escutar espreitando” e desapareceria a “comunidade dos espreitadores”. Nossa comunidade ativa é diametralmente oposta àquela. O “dom de escutar espreitando” radica-se precisamente na capacidade para a atenção profunda, contemplativa, à qual o ego hiperativo não tem acesso.

Segundo Hannah Arendt, a sociedade moderna, enquanto sociedade do trabalho, aniquila toda possibilidade de agir, degradando o homem a um animal laborans − um animal trabalhador. As descrições do animal laborans moderno de Arendt não correspondem às observações que podemos fazer na sociedade de desempenho de hoje. O animal laborans pós-moderno não abandona sua individualidade ou seu ego para entregar-se pelo trabalho a um processo de vida anônimo da espécie. A sociedade laboral individualizou-se numa sociedade de desempenho e numa sociedade ativa. O animal laborans pós-moderno é provido do ego ao ponto de quase dilacerar-se. Ele pode ser tudo, menos ser passivo.

Enfim, se renunciássemos à individualidade fundindo-se completamente no processo da espécie, teríamos pelo menos a serenidade de um animal. Visto com precisão, o animal laborans pós-moderno é tudo menos animalesco. É hiperativo e hiperneurótico. Deve-se procurar um outro tipo de resposta à questão que pergunta por que todas as atividades humanas na Pós-modernidade decaem para o nível do trabalho. A perda da capacidade contemplativa é responsável pela histeria e nervosismo da sociedade ativa moderna. Simples assim!

 


PENSAMENTO


 

quarta-feira, 5 de março de 2025

CONSCIÊNCIA. O SER HUMANO É CONSCIENTE OU APRENDE A SER CONSCIENTE?

 


TODO SER HUMANO É CONSCIENTE?

O ALVORECER DA CONSCIÊNCIA

COM A DESTRUIÇÃO DA MENTALIDADE BICAMERAL

O autor e psicólogo Julian Jaynes descreveu em seu livro "A Origem da Consciência e o Colapso da Mente Bicameral", que a mente humana era dividida em duas câmaras: uma com os instintos, onde o homem sabe que precisa realizar funções básicas para a sua sobrevivência, além de sua função na sociedade. Noutra, com uma "voz da consciência", que era interpretada como uma voz divina e não como um próprio "eu". Essa Mentalidade Bicameral sofreu um colapso quando o ser humano passou a se tornar consciente de si mesmo. A Mentalidade Bicameral é uma hipótese introduzida por Jaynes, que argumentou que os ancestrais humanos, até os antigos gregos, não consideravam as emoções e os desejos como decorrentes de suas próprias mentes, mas como consequências de ações de deuses externos a eles. Mas será que nós realmente somos conscientes? Será que a mente bicameral não existe mais?

Em O Oráculo da Noite, o neurocientista Sidarta Ribeiro faz uma alegação curiosa: ele diz que a importância cultural dos sonhos diminuiu com a popularização da escrita. Afinal, qual o significado disso? As religiões, por exemplo, sempre estiveram conectadas aos sonhos. A tradição budista e cristã diz que os nascimentos de Buda e de Jesus, respectivamente, foram anunciados em sonho. Anjos apareciam a Maomé em seus sonhos. No xamanismo, a conexão com o transcendental, a comunicação com ancestrais e divindades depende de estados alterados de consciência dos quais os sonhos são um exemplo.

A perspectiva de Sidarta nesse livro é que a escrita diminuiu a necessidade das experiências oníricas na espiritualidade. Isso porque a escrita permite o registro das experiências subjetivas. Quer dizer, se alguém sonho com uma divindade dizendo alguma coisa, é possível escrever o conteúdo da mensagem para que outras pessoas leiam, sem que elas mesmas tenham que ter de novo as mesmas experiências. O acesso à religião passa a ser pela leitura, então as mensagens dos sonhos ficam menos subjetivas e se tornam mais coletivas. Isso pavimentou o caminho para que a mensagem das religiões passasse a ser cada vez mais universalista e preocupada com a salvação pessoal. Ou seja, um elemento de pessoalidade continua a existir, mas ao mesmo tempo serve como projeto para a humanidade, algo como a lei de ouro “não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a você mesmo”.

Isso começa a ocorrer quando a escrita deixa de ser usada como mero registro contábil nas primeiras civilizações agrícolas e passa a ser uma reprodução mais fiel do cotidiano (a Era Axial, de 800 a.C. até 200 a.C). Não à toa, nesse período nascem várias das tradições filosóficas e religiosas mais conhecidas hoje. Por exemplo, “religiões do livro”, como Judaísmo, Hinduísmo e Budismo, tomam forma nesse período. O conhece a ti mesmo da filosofia socrática, que traz o ser humano para o centro das indagações filosóficas, também surge aí. Isso significa que, de algum modo, a utilização da escrita como um reflexo da oralidade modificou fundamentalmente a psicologia humana. Riscar materiais como argila, papiro ou papel para registrar e observar seus próprios pensamentos trouxe uma nova forma de consciência para a humanidade. É como se a escrita fosse um aplicativo instalado no cérebro humano, criando novas funções e aprimorando as existentes.

Essa influência da escrita sobre a consciência foi proposta no livro  “A Origem da Consciência com o Colapso da Mente Bicameral”, escrito pelo psicólogo Julian Jaynes. Ele argumenta que, antes desse uso oral da escrita, as pessoas tinham a mente dividida em duas câmaras. Uma câmara dá ordens e a outra câmara obedece. Isso é basicamente o que acontece quando as pessoas estão distraídas olhando pela janela do ônibus e um pensamento surge, algo como “Puxa, esqueci que hoje tenho um compromisso tal hora. que horas são agora?”, aí você pergunta a hora para a pessoa mais próxima sem pensar muito no que está fazendo. Isso acontece também na direção, quando o motorista experiente entra num estado de fluxo e só age, sem refletir muito, sem questionar pensamentos que por ventura brotem. Você não sabe o porquê nem como surgiu esse pensamento, só sabe que do nada ele apareceu como se tivesse sido soprado por alguém. Pois é exatamente isso que as pessoas há milênios achavam. Essas vozes alucinatórias eram os deuses falando com os humanos. Esses humanos eram inconscientes no mesmo sentido do motorista em fluxo. Você não é um robô, mas é como se a capacidade de questionar esse fluxo fosse menor e menos voluntária.

Vislumbres de consciência apareciam em momentos de estresse. Hoje ainda passamos por isso. Já reparou que no dia da prova da autoescola erramos procedimentos que nunca erramos nos treinos? Isso acontece porque sob estresse tendemos a não entrar em estado de flow nas tarefas. Ficamos hipervigilantes em relação a qualquer comportamento e isso dificulta a realização de certas tarefas. Uma voz alucinatória começa a narrar o que estamos fazendo, a dizer o que foi feito, o que será feito. Você está nervoso e pensa em cada movimento do volante, da marcha.

A diferença entre nós e pessoas pré-Era Axial é o gap entre as vozes alucinatórias e a tomada de decisão. Não havia muita reflexão antes de realizar um comportamento. Não havia introspecção. As pessoas só questionavam essas vozes e suas próprias ações nos momentos de estresse, quando esse fluxo automático das coisas se rompia. A capacidade de ouvir essas vozes internas e debater com elas racionalmente não nasce pronta nos humanos. Não é nata. Pesar prós e contras cuidadosamente e tomar decisões racionalmente é algo que se aprende. Pode-se dizer que o ser humano não nasce racional, mas torna-se.

Julian Jaynes argumenta que em obras como Ilíada as pessoas pareciam ter Mentalidade Bicameral. Por exemplo, Aquiles nunca pensava sobre si mesmo, nunca se engajava num processo de introspecção. Eram sempre os deuses instruindo sobre suas ações. Do mesmo jeito, no Antigo Testamento bíblico a voz de Javé ordenando coisas se parecia muito com um processo de tomada de decisão rudimentar. Por exemplo, Javé fala para Abraão sacrificar seu filho para provar sua fé. No meio do procedimento Javé diz que o fato de Abraão ter concordado com o sacrifício já era suficiente prova. Isso poderia muito bem ter sido o patriarca deliberando e tirando conclusões diferentes sobre o que significariam suas próprias atitudes. Mas essas vozes alucinatórias em sua cabeça não eram entendidas como pensamentos como as entendemos hoje. Era a voz divina.

A escrita possibilita essa habilidade de introspecção porque permite colocar as ideias num meio físico manipulável. O argumento é que assim como não é possível escrever um artigo de cabeça, sem escrever e estar o tempo todo alterando o que foi escrito, não é possível organizar seus próprios estados internos e questioná-los muito eficientemente. Não é que toda pessoa precise de um diário para ser capaz de pensar sobre o que ela mesma pensa. A ideia é que a criação da escrita como forma narrativa criou um trending cultural. A escrita fabricou a possibilidade cultural de um novo modo de ser humano. Você não precisa de um diário, mas só de viver numa cultura letrada você já aprende oralmente que você tem uma biografia, que pode controlar seus devaneios internos e transformá-los em reflexão racional. Simples assim!

 


segunda-feira, 3 de março de 2025

PERSONALIDADE E CARÁTER. LOUCURA OU JEITO DE SER? NEM FREUD RESPONDE!

 


“Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós.

Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”.

By Antoine de Saint-Exupéry

         A relação de doenças mentais ou distúrbios metais (seja qual for a melhor denominação) é grande e, ao que tudo indica, parece que não vai parar de crescer. Será que o acréscimo de denominações é decorrente de um aumento exponencial de desarranjos mentais da humanidade (de uns tempos para cá) ou se deve ao fato dos profissionais que lidam com a mente não saberem mais o que fazer para “encaixar” um paciente na extensa lista de transtornos mentais do manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais?

A taxonomia dos profissionais da saúde mental oferece um espectro amplo de dificuldades tanto doutrinárias quanto técnicas. Quando procuramos identificar, particularizar ou classificar os transtornos mentais, encontramos questões e problemas advindos da história da medicina e da psiquiatria, ideologia, maneira de pensar, do ambiente social, da cultura vigente e até das opções políticas. Tal se dá, entre outras razões, pela dificuldade de aplicação do modelo biomédico nos transtornos mentais. Na individuação das enfermidades ou doenças temos duas maneiras básicas de classificação: o modelo biomédico e o modelo psicossocial. O modelo biomédico exige para a taxonomia das enfermidades que possamos determinar com clareza e segurança qual a etiologia da doença, ou seja, qual sua causa morfopatológica ou fisiopatológica, causa esta que deve ser única para aquela doença.

Deve ser estabelecida também a patogenia – o mecanismo pelo qual a causa produz a doença: como as alterações anatomopatológicas ou fisiopatológicas levam ao estabelecimento dos sinais, sintomas ou indícios clínicos da enfermidade. A história natural também deve ser instituída: como a doença vai evoluir e o que ela vai causar em seu padecente, as manifestações físicas, psíquicas e sociais. Esse modelo é plenamente aplicado nas doenças físicas ou somáticas. Tomemos como exemplo o diabetes. Sabemos claramente sua causa – alterações no metabolismo dos glicídios –, como tais alterações produzem os sintomas e como a doença evolui. Já com as doenças mentais, não temos tal facilidade. Com exceção das demências e das oligofrenias moderadas, graves e profundas, o modelo biomédico é de difícil aplicação. Tanto que tais entidades podem ser consideradas mais neurológicas que psiquiátricas.

Nas psicoses, particularmente nas antigamente chamadas endógenas – esquizofrenia e psicose maníaco-depressiva (transtorno bipolar do humor), ele pode ser aplicado, mas com adaptações e pressupostos, o que torna tal objetivo sujeito a contestação e dificuldades de verificação empírica. Mas um grande contingente de transtornos mentais – se assim podemos nomear tais entidades – fica inteiramente fora da aplicação do modelo biomédico. Estamos falando das neuroses e das psicopatias (transtornos de personalidade). Não é possível estabelecer uma etiologia definida e incontestável, a patogenia é inteiramente desconhecida, e a evolução, imprevisível. E então, por que razão são consideradas transtornos, doenças ou enfermidades? A solução, considerada por muitas correntes do pensamento contemporâneo como arbitrária, ideológica, desumana e totalitária, é a aplicação do modelo psicossocial. São transtornos porque assim o exigem a história das mentalidades, a sociedade, a cultura, os valores vigentes e – por que não? – os que detêm o poder.

As psicopatias (transtornos de personalidade) pertencem a esse grupo. São “perturbados”, “transtornados”, “doentes” porque estão fora da norma sociocultural vigente, não funcionam como deles se espera (a família, o grupo, a comunidade, a sociedade), incomodam, criam problemas, são esquisitos e diferentes, infringem a lei e os costumes, não se adaptam, não produzem, não rendem e assim por diante. Tal contingente de pessoas “anormais” começou a ser identificado quando o capitalismo comercial e industrial passou a dominar a economia mundial. Na Idade Média eram considerados no máximo como marginais (à margem da sociedade): vagabundos, prostitutas, bandoleiros, mendigos e outros, mas não “doentes”. Agora, no entanto, era preciso que entrassem na ordem de produção. O capitalismo, em especial o industrial, não tolera aqueles que não produzem.

O calvinismo, seita protestante fundada no início da reforma protestante, veio dar um colorido religioso a essa ideologia: a acumulação do capital e a riqueza eram provas da benevolência de Deus e da salvação eterna. No século XVIII, em suas etapas finais, o Iluminismo, a ilustração vieram em socorro desses anormais e selecionou dentre eles os que poderiam ser considerados “doentes”. Assim, criou-se a categoria dos degenerados morais e mais tarde dos psicopatas. Hoje tanto a classificação internacional de doenças quanto a classificação norte-americana de doenças mentais o incluem em seus itens e individualiza a categoria e subtipos.

Bastam cinco minutos para identificar o paciente instável, inflexível, teatral, inseguro, arrogante, submisso, lunático, desconfiado, misantropo, transgressor... Estas podem ser apenas características individuais, que não preenchem critérios para um diagnóstico psiquiátrico. Mas também podem estar presentes em pessoas que, por seu comportamento repetitivo, peculiar e capaz de gerar prejuízo, causam danos físicos e psicológicos a si mesmas ou aos que estão ao seu redor. Elas seduzem, manipulam, surpreendem, espantam, assustam, sufocam. Tudo em seu comportamento é exagerado: amor demais, carência demais, desconfiança demais, controle demais, raiva demais. Invariavelmente, passam a impressão de que alguma coisa está fora da ordem.

E está mesmo! A partir do fim da adolescência, os indivíduos com essa natureza apresentam um jeito de ser caracterizado por um padrão de comportamento inflexível e repetitivo, que causa prejuízo significativo na maneira como se relacionam afetivamente, em sociedade, no trabalho ou na família. Seria possível denomina-los de psicopatas do cotidiano. É preciso deixar claro que a psicopatia se refere à atual classificação médico psiquiátrica denominada “transtornos específicos da personalidade” Pessoas com esses transtornos, com frequência e sem perceber, causam intenso sofrimento a quem convive com elas. Elas não perdem o juízo da realidade ou sofrem com surtos, delírios e alucinações. A maneira como interagem com o mundo é que as torna de difícil convivência - o transtorno de personalidade não é uma condição necessariamente associada a crimes bárbaros e cruéis.

A humanidade está sendo freneticamente bombardeada, diariamente, com notícias sobre crimes sexuais, casos de assédio moral, assassinatos por motivo torpe ou fútil, violência doméstica, maus tratos a animais. O psicopata do cotidiano tanto pode ser um líder místico que convence seus seguidores ao suicídio coletivo quanto um garoto que depreda patrimônio público e posta foto de seu ato na internet. Mas seus traços de personalidade também aparecem nos motoristas que perdem a cabeça no trânsito, nos vizinhos que vão parar na delegacia após uma discussão no condomínio ou nos pais e nas mães que fazem chantagem emocional com os filhos até levá-los a tomar atitudes contrárias às suas vontades. Em maior ou menor grau, esses indivíduos deixam marcas na vida dos seres humanos. Compreendê-los e aceitá-los parte de um simples princípio: eles são assim, não entendem o problema e se recusam a tratá-lo. No máximo, após um longo processo de autoconhecimento, conseguem entender o mecanismo de repetição de suas atitudes e minimizar seus efeitos.

Mas por que eles são assim? E por que esse jeito de ser é considerado prejudicial? Entender o que se passa com um indivíduo “cabeça dura”, de “gênio difícil”, “esquisitão”, “pipa avoada”, “pavio curto” e tantas outras definições populares requer, como primeiro passo, saber que a nossa forma de sentir, pensar, nos comportar, o nosso jeito de ser, aquilo que nos diferencia uns dos outros, é o que denominamos de personalidade. Mas o que seria a personalidade? Ao longo da história, cientistas e pesquisadores se debruçaram sobre a questão e, hoje, uma teoria amplamente aceita indica que se trata do resultado da combinação e da interação entre dois componentes: o temperamento e o caráter. O temperamento é herdado geneticamente e regulado biologicamente. Já o caráter está ligado à relação do temperamento com tudo o que vivenciamos e aprendemos na relação com o mundo exterior. Portanto, a personalidade é considerada uma organização dinâmica, resultante de fatores de ordem biopsicossocial.

Em síntese, o temperamento seria a predisposição biológica para as sensações, motivações e reações automáticas no plano emocional. Ele é a base do humor, o ingrediente que fornece o tempero e colorido emocional, permanecendo relativamente estável ao longo da vida. A ciência comprovou que a herança genética não se limita apenas à cor dos olhos, dos cabelos ou da pele, à estatura, aos distúrbios metabólicos e, às vezes, às malformações físicas. Ela também influencia as tendências e respostas comportamentais.

Sobre o caráter, é possível afirmar que ele está associado à consciência que a pessoa tem de si, dos outros e do mundo que a rodeia. À luz da ciência moderna, a ideia de que cada ser humano nasce com uma índole, boa ou má, foi substituída pelo conceito de que ele tenha o livre-arbítrio para agir de acordo com os seus princípios pessoais, mas sem ignorar o fato de que é parte integrante de um grupo social. Assim, na formação do caráter, há um componente biológico e outro ambiental. O caráter seria a porção aprendida, influenciada pelo temperamento e, ao mesmo tempo, capaz de influenciá-lo. Portanto, por mais força que o componente biológico tenha na formação da personalidade, as experiências vividas e o aprendizado contribuem para a equação final, sempre dinâmica.

Com tantos fatores em discussão, o fato é que a complexidade do comportamento humano vem gerando controvérsias há séculos (e continuará). A personalidade resulta da combinação de fatores biológicos e ambientais, mas a ciência ainda não consegue precisar qual o peso de cada um desses elementos em sua formação (relativo meu caro amigo, amiga). Ao longo da história, a balança já pendeu para um e para outro lado, nunca sendo conclusiva. Em determinadas épocas, havia a certeza de que o homem nasce com determinada índole que é imutável. Em outras, predominou a tese de que o meio pode, sim, influenciar o jeito de ser de um indivíduo (concordo!). Mesmo sem saber a proporção exata da influência do meio na formação do caráter, é evidente que viver num ambiente positivo, com afeto, condições sociais adequadas e noção de valores como compaixão e empatia pode aumentar a chance de uma pessoa não desenvolver um traço patológico de personalidade (e vice-versa).

Enfim...independentemente dessa ou daquela faceta, a personalidade, ou o jeito de ser, é resultado de uma combinação única e original, que funciona num espectro de traços positivos e negativos, mais ou menos adaptados. Porém, quando esse jeito de ser apresenta, desde cedo, características inflexíveis, rígidas e disfuncionais muito acentuadas, é possível que se trate de uma personalidade perturbada. Perturbada para si e, mais frequentemente, perturbadora para os outros. Simples assim!


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

CONSCIÊNCIA DO CRUEL SIGNIFICADO DA VIDA

 


         O HOMEM, O MUNDO E O NADA

No princípio, nosso planeta era o centro do Universo. Ora, o ser humano era a obra prima de um Deus todo poderoso que o amava — nada poderia ser mais justo! Depois de muito tempo, vieram os astrônomos da Idade Média, que abalaram os alicerces do pensamento geocêntrico da época, demonstrando que a Terra não era o centro de coisa alguma — é ela que gira em torno de um Sol, e não o contrário. Além disso, não há apenas o planeta Terra — há vários outros também. Isso diminui um pouco o seu valor, mas não há problema, pois o sistema planetário é tudo o que existe. Ponto! Teria sido bom para o ego da raça humana se todas as descobertas se resumissem a isso, mas não foi o que aconteceu. Agora se sabe que as estrelas que, à noite, são percebidas no céu, são outros sóis. Assim, o sistema planetário deixou de ser o único, pois há muitas outras estrelas com muitos outros planetas girando em seu redor.

Mas, na verdade, não são apenas muitos sóis: são muitíssimos. De fato, são bilhões de sóis! Esse é um número tão absurdo que sequer é possível imaginar o seu significado. Contudo, tal número faz de tudo e de todos algo muito, realmente muito pequeno, infinitamente pequeno. E isso tudo fica ainda pior quando o ser humano chega à conclusão que é muito menor do que poderia imaginar. Toda essa grandiosidade colossal está contida em apenas uma galáxia, e choca-nos pensar que, além desta, há mais 100 bilhões de galáxias, com aproximadamente outros 100 bilhões de sóis em cada, e estes, talvez, sendo orbitados por muitos e muitos planetas. No mínimo, é um tapa na cara de nossa arrogância terráquea. Quem, diante disso, disser que representamos um grão de areia, estará fazendo um elogio desmedido.

Contudo, os cientistas não olharam apenas para fora da Terra. Também se voltaram para si mesmos, colocando o homem na condição de objeto de estudo. Assim, paralelamente às descobertas da Astronomia, as da Biologia vieram para terminar de dinamitar o pequeno resto do orgulho do ser humano. Os estudiosos da fisiologia e anatomia humanas já nos destrincharam por inteiro. Não há magia alguma — somos somente animais... máquinas biológicas. Não encontraram alma nem espírito, só vísceras. O coração não tem sentimentos — não passa de um músculo. Os sentimentos, tão sublimes, são meras reações físico-químicas do cérebro. A personalidade, tão cultivada e valorizada, julgada indestrutível, é tão frágil quanto a disposição de todos os neurônios — um pequeno dano, e a pessoa que um foi deixa de existir.

A espécie humana, como qualquer outra, não passa de uma variedade de robô biológico comandado por moléculas de DNA. Vive num mundo que é uma ficção subjetiva, uma representação mental perdida entre inúmeras, infinitas perspectivas possíveis. Os sentidos só enxergam a superfície de um ângulo da realidade e, para eles, todo o resto é negro e impenetrável. Não é possível abrir as cortinas da realidade para olhar o que está por detrás das aparências. Tudo o que se pode conhecer é tão somente tudo aquilo que se pode tatear, às escuras, com as frágeis e trêmulas mãos do intelecto. Todo o conhecimento, desse modo, não passa de uma sofisticada suposição. Nunca haverá quaisquer certezas plenas a respeito de quaisquer assuntos. Buscar verdades absolutas racionalmente é uma ingenuidade, é como correr de modo desesperado a fim de alcançar o horizonte — o anseio por tais verdades, ao contrário do que gostaríamos de acreditar, não nasce da busca pelo conhecimento, mas da busca pela paz de alma.

E quem ainda pensa que, ao buscar o conhecimento, está lutando por uma causa supostamente nobre, está a enganado, pois isso não passa de auto bajulação. A nobreza não existe! Lutamos porque queremos, lutamos para nada e, no fim, nos tornaremos nada. É essa a estranhíssima realidade em que nos vemos imersos. Por bilhões de anos, fomos poeiras. Mas, de algum modo, há mais ou menos 3,5 bilhões de anos, essa poeira acordou. Foi transformando-se ao longo das eras, até que, num certo momento, essa poeira criou consciência de si mesma — o pó viu que era homem. E esse homem, por sua vez, viu-se num mundo insólito, sem razão de ser. Então percebeu o absurdo que representava o próprio fato de ele existir. Como passageiro de um trem que, inexoravelmente, conduz ao abismo do nada, o homem, atônito, pergunta-se: mas por que aqui, por que agora? E, frente a tais perguntas, o universo permanece mudo. Pergunta-se, depois: que é a vida?

Aparentemente, nada mais que uma longa sucessão de eventos casuais que, por fim, deram luz a máquinas programadas cegamente com precisão assassina, e com isso a eficiência impassível veio a tornar-se o objetivo de um mundo sem objetivo. Podemos então pensar: o que sou eu? E é simples: somos a máquina de sobrevivência modelo Homo Sapiens. Quando se para para pensar nisso tudo detidamente, a perplexidade se apodera da consciência. Ficamos estáticos, sem saber muito bem o que pensar. Então vem a aflição e, se conseguirmos ainda preservar nossa lucidez diante disso tudo, quanto mais nos aprofundamos nessa análise, mais essa angústia cresce dentro de nós. Como se estivéssemos sonhando, às vezes parece que vamos despertar dessa realidade fria e absurda — algo em nós reluta em admitir que isso é tudo o que há para ser vivido.

Nossa esperança sempre tenta nos persuadir a reinterpretar o que nossos olhos nos dizem, mas todas as manhãs acordamos e vemos que tudo isso é real, inescapavelmente real. Entre tais pensamentos, a realidade ao redor simplesmente paralisa. A vida fica em suspenso, e surge a esmagadora consciência de que nada disso que estamos vivendo tem sentido — a existência humana como a mais vazia contingência. É insólita demais a ideia de que estamos vivendo apenas porque “acontecemos”. A humanidade, nessa corrida frenética, buscando felicidade, dinheiro, sucesso, avanço, glória, poder, conhecimento; a imensa competitividade, que cresce a passos largos, movendo cada vez mais rapidamente as engrenagens do mundo; e, ainda, nós próprios, lutando, debatendo-nos nesse formigueiro de gente chamado Terra — tudo isso para chegar a lugar nenhum. Parece uma grande loucura. Por que, quando pensamos nisso tudo, nos vem essa sensação de paralisia, de vazio, de ausência de referencial? Há uma dolorosa razão para isso: são exatamente as ilusões que alimentam nossas motivações. Todo e qualquer objetivo que imaginemos é racionalmente injustificável em si mesmo. É da paixão por nossas ilusões que extraímos nossas forças. Quando compreendemos tais coisas pelas primeiras vezes — pois realmente não é fácil nos acostumarmos com elas —, é natural sentirmos certo abatimento, certo descompasso, pois a compreensão dissipa, por algum tempo, a força de nossas ilusões.

A razão, de certo modo, tem a capacidade de “dissolvê-las”, ainda que só temporariamente — mas não é algo pelo qual deveríamos lamentar. Ainda assim, tal dissolução de ilusões é prerrogativa de apenas alguns poucos indivíduos em certas condições bastante privilegiadas: somente quando nos tornamos suficientemente plenos, livres e corajosos para sermos capazes de prescindir de nossas ilusões. Isso porque, quando necessárias à nossa subsistência, as ilusões tornam-se inabaláveis, imunes a quaisquer argumentos. Mentiras metamorfoseiam-se em verdades quando delas precisamos. Ninguém questiona o valor da vida numa casa em chamas; um faminto nunca questiona o valor do alimento — seja este da alma ou do corpo. Como vimos, não é a razão que, no mais das vezes, nos diz o que fazer — ela apenas nos diz como fazer. A razão não pode decidir nada puramente, sem uma vontade dionisíaca por detrás lhe dizendo o que fazer. Assim, podemos dizer que, à parte o conhecimento objetivo, o resto de nossas opiniões e de nossas crenças não é racional em sua gênese.

Nossa “filosofia de vida”, na prática, consiste apenas de uma racionalização de nossas necessidades humanas — e tentamos, através disso, justificar nossas ações, dando-lhes uma máscara de racionalidade. Porém, por detrás de todos os nossos raciocínios, esconde-se a sombra irracional de nossos preconceitos e paixões inconscientes. Desse modo, é inevitável que sejamos seres necessariamente superficiais, pois nossa subsistência fundamenta-se no autoengano. O fato é que, se nossa significância fosse proporcionalmente dosada às crenças que precisamos nutrir para nos sentirmos motivados, seríamos todos deuses — e que melhor exemplo poderíamos encontrar desse fenômeno que as religiões? Nossas ilusões de significância precisam ser constantemente alimentadas por razões que ignoram a própria razão, apontando diretamente para nossas necessidades de autopreservação.

Nessa perspectiva, podemos dizer que o esquecimento, às vezes, representa uma dádiva, pois seria simplesmente impossível convivermos com a constante companhia dos paralisantes fantasmas do vazio. Não pretendemos, portanto, promover o aniquilamento generalizado de todas as nossas ilusões. Não pretendemos extirpá-las porque isso não é possível — e tampouco desejável. Sem essas pequenas mentiras, a vida não passaria de uma enfadonha tragicomédia. Estamos apenas tentando delinear certas fronteiras. Estamos tentando, na medida do possível, manter a distinção entre a subjetividade e a objetividade, visando, com isso, duas coisas: compreender o que somos realmente e, assim, aprendermos a lidar com nossa natureza de modo objetivo e eficiente, chegando o mais próximo possível de nosso ideal de vida — seja este qual for.

E, por outro lado, também desejamos evitar o dogmatismo, o misticismo e toda cegueira de origem afetiva que paralisa o progresso do conhecimento humano. A busca pelo saber científico deve ser feita com os pés muito firmemente presos ao chão, sempre com o máximo de objetividade, para não se perder de vista — inflados por ilusões antropocêntricas — a realidade da condição humana. Essa separação é importante porque sempre que místicos investem em seu amor não correspondido com a lógica, o resultado é um deplorável atravancamento do progresso do conhecimento. É um erro tendencioso partir de desejos interiores, de crenças, e então passar a procurar por uma correspondência na realidade. Se quisermos ser imparciais, devemos sempre ter a honestidade de partir apenas dos fatos objetivos — e não de nossos sonhos metafísicos — para inferir o que é real. Ao longo da História até os dias de hoje, sempre se tentou comprovar a veracidade das crenças religiosas — e sempre se falhou. Mesmo assim, elas subsistem, conservando toda a sua vivacidade — e isso não é nenhuma surpresa.

Todo tipo de crença mística pode prescindir da verificação exatamente porque possui uma existência que é autônoma, independente da razão, independente dos fatos. Desse modo, cumpre entendermos que a função de todas as crenças místicas, religiosas e transcendentais é simplesmente satisfazer as necessidades afetivas do ser humano. Deus, bem-aventurança, transcendência, elevação, nirvana, paz espiritual, reino dos céus, contato com Deus — isso tudo são coisas tão verdadeiras quanto um poema de amor. Ser um “filho de Deus” é um estado de espírito, um sentimento, é algo que se vive, não algo que se prova cientificamente. Crenças desse gênero servem para proporcionar bem-estar e segurança, para reduzir a ansiedade através de respostas definitivas sobre o mundo, sobre a moral, sobre a vida... Contudo, parece que a maior parte dos indivíduos ainda não tomou consciência de que a felicidade que uma crença proporciona não pode assegurar sua veracidade. Como podemos perceber, quando analisamos e entendemos uma ilusão racionalmente, quando a tiramos de seu pedestal mágico, ela perde muito de sua força, a qual residia exatamente na incompreensão ou em seu caráter inquestionável.

Esse tipo de honestidade, quando voltada à existência como um todo, faz com que, passo a passo, tomemos consciência de nossa completa insignificância — e, depois de tê-lo feito, dificilmente conseguimos voltar ao que éramos. O esclarecimento é um caminho que, além de penoso, é sem volta — daí ser trilhado por tão poucos. Por nossa própria integridade, fomos reduzidos da coroa da criação a um ponto infinitesimal que não é útil nem inútil — que simplesmente não importa. Sem dúvida, ainda podemos dar algum sentido às vidas, mas nosso senso de importância foi irreparavelmente abalado pelos rudes golpes da ciência. E, na verdade, o que ela atingiu foi apenas a parte dele que havia sido inflada por devaneios antropocêntricos, pois o fato é que nunca fomos importantes. Ela só nos pegou de surpresa, pois era impossível imaginarmos que todos nós somos tão pouco. Lançamos nossas esperanças ao desconhecido e fomos vítimas de nossas próprias expectativas. Agora colhemos a frustração e o desapontamento de nada daquilo que sonhávamos ser real.

Muito bem, aqui estamos nós, solitários, no deserto inóspito que se oculta por detrás de nossas ilusões. A diferença está no fato de que nós, ateus e livres-pensadores, somos capazes de sobreviver sob tais condições. Suportamos tamanha aridez sem invocar consolos em realidades paralelas, onde seremos recompensados post mortem por todas as nossas infelicidades e frustrações. Da vida, não esperamos nada além da vivência, e poucos são os que compreendem quanta coragem está contida na lúcida afirmação de que nossa vida não é senão um efêmero lampejo — quem disso ri, pouco compreende de si mesmo e do mundo em que vive. Sim, somos humildes, mas apenas porque somos honestos, não porque somos obedientes. Nossa pequenez não é virtude — são os fatos. Nós somente admitimos o que vemos — nossa incomensurável insignificância frente ao existente. É uma situação que tem um gosto acre, e o sabemos muito bem. Mas o que poderíamos fazer?

Não podemos permanecer crianças para sempre. O infantilismo místico tem de ser superado se não quisermos passar o resto de nossas vidas imersos num oceano de sonhos falsos. É certo que esse entendimento da realidade, além de penoso, não é muito intuitivo. É por isso que só intelectualmente, através de uma reflexão séria, o homem se vê diante de tais conclusões. Apenas assim apreende o enorme vazio que é a existência — e é precisamente isso que faz surgir nele a consciência de que sua liberdade é absoluta. O fato é que, nessa situação, o homem se vê isento de qualquer responsabilidade em toda perspectiva que puder imaginar. Simplesmente não há autoridades — nenhuma. Não há deveres — nenhum. Não há bem e não há mal. Não há melhor nem pior. Não há certo nem errado. Afinal, que é um ser humano senão um aglomerado de átomos que sabe que existe? Uma máquina sozinha no mundo, ciente de que existe e de que, um dia, deixará de existir?

Ora, se há algo certo, é que estamos todos condenados a inexistir. E, quanto a isso, não importa o que fazemos de nossas vidas. É de todo irrelevante se durante ela fomos ateus ou crentes, bondosos ou maldosos, esforçados ou indolentes, honestos ou hipócritas, egoístas ou altruístas. Todos nós, um dia, seremos despojados de nossas faculdades. Nosso “eu” será suprimido da existência e nosso corpo se converterá em ausência — e, não muito tempo depois, sequer restarão memórias do que fomos. Se quisermos imaginar como é inexistir, só precisamos tentar nos “lembrar” de quando ainda não havíamos nascido — é como um sono eterno, sem sonhos. Não haverá recompensas no fim desse jogo, somente a face eternamente negra do nada. Pode parecer pessimismo, mas não é. A existência humana resume-se a isso.

Se a ideia soa deprimente, é porque a realidade de fato é deprimente. O homem simplesmente está aí, suspenso no vácuo, lançado na existência, no eterno devir do mundo, sem significado, sem razão, sem sentido ou objetivo. Portanto, livre de qualquer obrigação, livre de qualquer destino. Todavia, não sejamos ingênuos: isso certamente não equivale a dizer que o homem é dono de seu destino. Por detrás de seu suposto livre-arbítrio se escondem seus muitos preconceitos genéticos, suas inúmeras limitações e todo o condicionamento externo — coisas que, sem dúvida, fogem de seu controle. E, ainda supondo-se que sua vontade fosse totalmente livre, isso não faria muita diferença, pois ela não é a única força que atua na determinação do destino dos indivíduos. Portanto, dizer que o homem é totalmente livre não equivale a dizer que o homem é onipotente — “tudo é permitido” não significa “tudo é possível”.

Devemos enxergar nossas limitações: somos apenas um amontoado de aminoácidos presenciando este efêmero e curioso passatempo chamado vida. O importante é termos em mente que parte considerável da estrutura de valores e significados que carregamos é criada por nós mesmos. Isto é, tudo o que possui valor, o possui apenas porque reconhecemos esse valor e o aceitamos como verdadeiro — e fazê-lo não equivale justamente a criar esse valor? Se não atribuíssemos valor aos diamantes, que seriam eles senão diminutas pedrinhas brilhantes difíceis de se encontrar? Assim, se quisermos ser ao menos intelectualmente livres, nunca devemos perder de vista o fato de que todos os significados, valores e sentidos são apenas um reflexo da natureza humana. Devemos ignorar a fictícia autoridade dos gélidos valores fossilizados, idealizados e impessoais. Não demos ouvidos aos moralistas dogmáticos que nos falam de “virtudes boas por si mesmas” — não passam de déspotas, quer o saibam ou não. Nunca devemos dobrar nossos joelhos a qualquer tipo quimera da abstração — pelo contrário, coloquemo-las de joelhos perante nós!

Sejamos nós os senhores de nossas virtudes, não as virtudes os nossos senhores. Os únicos valores verdadeiros são os humanos. Eles devem possuir vida, devem respirar, devem ser nossa criação, devem surgir como fruto de nossa individualidade, de nossa autenticidade, de nosso reconhecimento, de nossa necessidade interior e pessoal e em nossa defesa — representando, assim, nossa natureza íntima, nosso posicionamento frente à realidade. Os valores de todos os tipos se estabelecem através de um mecanismo baseado na autoridade — numa espécie de imposição. A diferença é que, no homem escravo e resignado, os valores se estabelecem através de sua submissão à autoridade de ideias externas, sacrificando sua individualidade em nome de supostas verdades superiores. Por outro lado, no homem esclarecido, os valores se estabelecem por meio do entendimento — a imposição nasce de dentro para fora, e nisso ele é sua própria autoridade. Assim, seus valores surgem como um reflexo de sua inteligência, de seus desejos e de suas necessidades — os valores, aqui, muito antes de suprimirem sua individualidade, são sua mais elevada expressão.

Por isso, tendo em vista todos os fatos que apresentamos, negamos a existência de qualquer espécie de verdade, valor ou dever impessoal. À medida que a verdade é transformada em abstração como uma lei suspensa acima do homem, à medida que ela julga — aprovando ou condenando — apenas em função de si mesma, como valor em si, sem levar em consideração as circunstâncias específicas de cada situação, de cada indivíduo, ela se torna despótica, restringente, opressiva e tirânica. Quando se permite que a verdade tome vida própria — e sem dúvida isso nos remete à ideia de Deus —, ela se transforma num monstro dogmático, autoritário e intolerante, que representa uma enorme ameaça à liberdade humana. Quando são impostos alicerces comuns à construção de todas as individualidades, quando se aquilata todos os homens com a mesma balança, quando se nivela o valor fundamental de todos através da mentira da “ordem moral do mundo”, da “igualdade das almas perante Deus” ou através do respeito à autoridade de qualquer quimera da abstração, a injúria com isso cometida é substancialmente a mesma: o acorrentamento da individualidade, a imposição da igualdade entre os diferentes — um ataque fulminante contra a liberdade humana, uma punhalada no coração de nossa autenticidade. Certamente em vão se procuraria por um crime mais revoltante que esse.


O CÉREBRO DA RAZÃO E DA EMOÇÃO: DUAS ENTIDADES INTERDEPENDENTES

 


“Louco não é o homem que perdeu a razão.

Louco é o homem que perdeu tudo menos a razão.”

Aforismo dito por G. Chesterton, escritor britânico falecido em 1936.

 

O louco age como uma máquina cuja racionalidade é privada de emoções e de afetos... beira a psicopatia. No século passado os cientistas cognitivos tentaram separar a razão da emoção. Não se tratava, entretanto, de pura e simplesmente negar a existência das emoções. Separar a razão das emoções era um preceito metodológico, a ideia de estudar a cognição humana por partes. Primeiro modelar o raciocínio, depois, acrescentar as emoções. Essa era a ideia do modelo computacional da mente. Na filosofia, uma teoria computacional da mente denomina uma visão de que a mente humana ou o cérebro humano (ou ambos) é um sistema de processamento de informações e que o pensamento é uma forma de computação. Tal teoria foi proposta (em sua forma moderna) por Hilary Putnam (1961) e pelo cientista cognitivo Jerry Fodor. Todavia, seria esse o caminho adequado? Essa trajetória foi interrompida em 1994, com a publicação do livro O Erro de Descartes, redigido por Antonio Damásio (neurobiólogo), que, rapidamente, ultrapassou os muros da academia para se tornar um best-seller internacional.

No livro, a argumentação era que a razão não poderia ser separada das emoções. A sua objeção era contundente. Não se tratava apenas de objetar a receita metodológica dos cientistas cognitivos. Damásio mostrou que a razão e a emoção estão indissoluvelmente associadas e que na verdade não há raciocínio numa forma pura, independente, a não ser que se cometa o erro de Descartes, ou seja, separar mente e corpo como se fossem substâncias distintas. Em outras palavras, a razão só é racional se ela for permeada pelas emoções. Nas últimas décadas, a ciência cognitiva, impulsionada pelo florescimento da neurociência, praticamente abandonou o modelo computacional da mente. Ele é um bom modelo para construir inteligências artificiais, mas não para explicar o modo como os seres humanos pensam e agem.

Ninguém pode existir desmunido de emoções. Essa constatação fundamental abre para a neurociência e para a ciência cognitiva uma via nova, na medida que leva em conta o papel fundamental das emoções na vida cerebral. A razão e a cognição não podem se desenvolver e exercer suas funções normalmente se não forem sustentadas pelos afetos. Para pensar, conhecer, é preciso que as coisas tenham um peso e um valor. A indiferença emocional anula o relevo, apaga a diferença das perspectivas... nivela tudo. Privado de seu poder crítico, sua capacidade de discriminar, diferenciar, que se origina da emoção, o raciocínio se torna raciocínio a sangue frio, não raciocina mais. Consciência e emoção não são separáveis. As funções cognitivas de alto nível como a linguagem, memória, razão e atenção estão ligadas aos processos emocionais, especialmente quando se trata de questões pessoais e sociais que envolvem risco. Estudos recentes com crianças abandonadas mostram que a privação de afeto causa graves atrasos psicomotores.

A busca pela compreensão de si mesmo é um dos propósitos mais antigos da humanidade. Seja no âmbito do senso comum, filosófico ou científico, o ser humano procura explicitar as suas características, semelhanças e diferenças com os demais entes e as suas relações com o meio em que vive. Em grande parte destas investigações entende-se que os seres são constituídos de cognição, emoções e ações em constante interação. Embora possuam semelhanças, as perspectivas apresentam inconsistências, divergindo, por exemplo, na natureza das interconexões ou nos portadores destes elementos. Neste último caso, muitas abordagens consideram unicamente os humanos como detentores da cognição e emoção, assegurando-lhes a exclusividade da ação moralmente avaliável. Em outras abordagens, animais não humanos ou sistemas como robôs poderiam, de um modo ou de outro, possuir cognição, emoções e, assim, de alguma forma, ser considerados agentes morais. Enfim, não é preciso ser PhD em Neurociência para se chegar a conclusão que a razão e emoção se completam.