A FARSA DA DESCENTRALIZAÇÃO
E O CUSTO OCULTO DOS MICROMUNICÍPIOS BRASILEIROS
Por Heitor Jorge Lau
Imagine
uma cidade com menos habitantes do que muitos condomínios residenciais
brasileiros. Agora imagine que essa mesma cidade possua prefeito,
vice-prefeito, câmara de vereadores, secretarias municipais, procuradoria
jurídica, cargos comissionados, contratos administrativos e toda a complexa
engrenagem burocrática normalmente associada a centros urbanos muito maiores. A
pergunta não é se isso existe. A pergunta é quantas vezes isso se repete no
Brasil.
Durante
décadas, a descentralização administrativa foi apresentada como um dos pilares
da democracia brasileira. A ideia parecia simples e sedutora: aproximar o poder
público do cidadão, ampliar a participação política e adaptar as decisões às
necessidades locais. Afinal, quem poderia ser contra uma administração mais
próxima das pessoas?
O problema
surge quando a teoria encontra a realidade. Ao longo dos anos, a
descentralização transformou-se, em muitos casos, em fragmentação
administrativa. O que deveria aproximar o Estado do cidadão passou a servir,
com frequência, à multiplicação de estruturas políticas dependentes de recursos
produzidos em outras regiões do país. Em vez de promover autonomia, criou-se um
sistema que, em milhares de localidades, sobrevive quase exclusivamente graças
às transferências permanentes de dinheiro público. O debate, portanto, não é
sobre pequenas cidades versus grandes cidades, nem se trata de condenar o
interior brasileiro. A verdadeira questão é outra: quanto custa manter
estruturas que existem principalmente para sustentar a si mesmas? E, sobretudo,
quem paga essa conta?
A
narrativa tradicional sustenta que municípios pequenos representam a democracia
em sua forma mais próxima do povo — o cidadão conhece o prefeito, encontra os
vereadores na rua e participa mais diretamente das decisões locais. A imagem é
sedutora. Contudo, quando se observam os números, surge uma realidade menos
romântica e muito mais inquietante. O Brasil possui mais de cinco mil municípios. Destes, milhares
sobrevivem quase exclusivamente de transferências federais. Em muitos deles, a
prefeitura é a maior empregadora local, a principal fonte de renda da população
e, em alguns casos, praticamente a única atividade econômica relevante. O resultado
é uma inversão completa da lógica administrativa: em vez de a economia
sustentar a estrutura pública, é a estrutura pública que sustenta a economia
local.
Um exemplo
emblemático é Serra da Saudade (MG), a menor cidade do Brasil, com apenas 833
moradores. O município não possui hotéis nem transporte público, mas mantém uma
estrutura completa com prefeito, vice, nove vereadores e sete secretarias —
incluindo uma de Turismo, completamente inútil e ociosa. A prefeitura arrecadou R$ 31 milhões
em determinado exercício, enquanto o PIB total da cidade foi de R$ 25 milhões.
Ou seja, a máquina pública movimenta mais dinheiro do que toda a produção
local. E não é o único caso: cidades como Borá (SP), com 932 habitantes, e
Engenho Velho (RS), com 1.296 habitantes, apresentam perfil semelhante, com a
administração pública concentrando a esmagadora maioria dos empregos formais da
região.
Essa
dependência cria um fenômeno perverso. A sobrevivência do município deixa de
estar ligada à sua capacidade produtiva, à geração de riqueza ou ao
desenvolvimento econômico. Passa a depender da manutenção constante de fluxos
de dinheiro vindos de Brasília. Forma-se, então, uma espécie de economia
artificial, sustentada não pela produção de bens e serviços, mas pela
circulação de recursos transferidos pelo restante do país. O problema não está
na solidariedade federativa — nenhuma nação minimamente civilizada abandona
regiões pobres à própria sorte. O problema surge quando o dinheiro enviado para
reduzir desigualdades termina capturado por estruturas políticas e
administrativas que passam a existir principalmente para garantir sua própria
continuidade.
A raiz
financeira que sustenta esse sistema vem de Brasília, regulada por regras
herdadas do final do regime militar. O cálculo do repasse do Fundo de
Participação dos Municípios (FPM) baseia-se em um decreto de 1981 que divide as
cidades em faixas populacionais. Cidades com até 10.188 habitantes recebem o
coeficiente mínimo de 0,6 — o que faz com que uma cidade de 5.000 habitantes
receba exatamente o mesmo valor total que uma de 10.000, gerando um custo por
habitante duas vezes maior nas cidades menores. Estudos econômicos revelam
picos demográficos artificiais exatamente nos limites anteriores às mudanças de
faixa, indicando que municípios evitam registrar crescimento populacional que
possa gerar perda proporcional de arrecadação. Eis a razão pela qual cidades
pequenas não querem, em hipótese alguma, se incorporar. Puro interesse
particularista financeiro – um cabide institucionalizado por gente que não tem
a mínima vergonha na cara. No censo de 2022, mais de 2.000 cidades brasileiras
encolheram. Para evitar que 863 delas perdessem receita do FPM, o Congresso
aprovou por unanimidade — 67 a 0 no Senado — uma lei de transição de dez anos, congelando a perda imediata de
recursos. Os incentivos atuais, portanto, favorecem a estagnação, a dependência
e a fragmentação territorial, em vez de premiar eficiência, produtividade e
expansão econômica.
Para
entender como chegamos a essa situação, é preciso recuar no tempo. Após a
Constituição de 1946, houve uma explosão de criações de cidades motivadas por
interesses de deputados estaduais, movimento que foi freado pelo regime militar
em 1967. A Constituição de 1988 trouxe uma novidade jurídica raríssima no
mundo: elevou o município ao status de ente federativo, com autonomia política
e financeira idêntica à dos estados e da União. Entre 1988 e 1996, o país criou
1.385 novos municípios sem critérios rígidos de viabilidade econômica. O Rio
Grande do Sul liderou esse movimento, gerando cidades que já nasceram
demograficamente envelhecidas e financeiramente deficitárias. Em 1996, a Emenda
Constitucional nº 15 tentou frear os abusos ao exigir uma lei complementar
federal para regular novas criações ou fusões, mas essa legislação jamais foi
votada — lacuna que permanece aberta até hoje.
O
resultado dessa trajetória é visível nos números. O Brasil possui 7,6 milhões
de servidores públicos municipais — mais do que a soma de todos os servidores
federais e estaduais combinados. A folha municipal consome aproximadamente 4%
do PIB nacional. Mais de 80% dos municípios brasileiros dependem de
transferências constitucionais em mais de 75% de suas receitas totais,
funcionando apenas como unidades de gasto e folha de pagamento, sem capacidade
de reverter o dinheiro recebido em saúde, saneamento ou educação.
A situação
agravou-se com as chamadas "emendas Pix", criadas em 2019, que enviam
recursos diretamente às prefeituras sem a necessidade de convênios ou planos de
trabalho com a Caixa Econômica Federal. Auditorias do TCU e da CGU encontraram
irregularidades graves em mais de 90% dessas transferências, apontando o uso do
dinheiro para custear shows superfaturados e despesas correntes proibidas. O
mais preocupante é que, em municípios com reduzida capacidade institucional de
fiscalização, grandes transferências podem gerar impactos eleitorais enormes,
reforçando relações de dependência entre lideranças locais e agentes políticos
de alcance nacional.
A dimensão
do problema torna-se ainda mais evidente quando se observa a extraordinária
fragmentação administrativa brasileira. O país mantém milhares de estruturas
municipais independentes, muitas delas com populações inferiores às de bairros
de grandes capitais. Cada município exige uma engrenagem política completa:
prefeito, vice-prefeito, vereadores, procuradoria jurídica, secretarias, cargos
comissionados, contratos administrativos, licitações, veículos oficiais,
prédios públicos e toda a burocracia necessária para seu funcionamento. O
Brasil possui mais de 58 mil vereadores distribuídos pelos municípios. Somados
a prefeitos e vice-prefeitos, formam um contingente superior a 68 mil agentes
políticos eleitos — uma das maiores redes de representação local do planeta. A
democracia possui custos, e esses custos são legítimos quando produzem
eficiência administrativa e melhor qualidade de vida. O problema surge quando a
expansão da estrutura política ocorre em ritmo superior à capacidade econômica
que deveria sustentá-la.
O
contraste com outras realidades é inevitável. O distrito de Cidade Tiradentes,
em São Paulo, abriga cerca de 230 mil habitantes — população superior à de
centenas de municípios brasileiros somados — sem possuir prefeito próprio,
câmara de vereadores ou estrutura administrativa independente. O bairro de
Campo Grande, no Rio de Janeiro, ultrapassa 300 mil moradores e permanece
integrado a uma única administração municipal. Enquanto isso, o país continua
financiando milhares de administrações locais cuja principal justificativa é a
própria existência institucional. Segundo o IBGE, das 5.570 cidades
brasileiras, apenas 862 exercem alguma centralidade regional. Os outros mais de
4.000 municípios são classificados apenas como "centros locais" —
territórios cujos moradores precisam se deslocar a cidades polo próximas para
acessar hospitais, faculdades ou serviços básicos. Ou seja, o cidadão que deseja
cursar curso superior, o cidadão que precisa de um exame hospitalar, um cidadão
que precisa de um financiamento bancário... terá, obrigatoriamente, que
procurar no município mais próximo o recurso necessário.
Outro
aspecto inquietante é a formação de dinastias políticas locais. Em Serra da
Saudade, por exemplo, o comando da prefeitura se reveza entre a prefeita e seu
ex-marido há 25 anos, e o cargo de controlador-geral — responsável por
fiscalizar a própria gestão — é ocupado pelo filho do casal há duas décadas. Em
diversas localidades pequenas, grupos familiares se alternam no poder por
gerações. A dependência econômica transforma-se, gradualmente, em dependência
política: o cidadão não vota apenas em um gestor, mas muitas vezes em quem
controla empregos, contratos, favores e oportunidades de sobrevivência. Quanto
mais dependente a cidade se torna da máquina pública, maior é o poder político
de quem a controla — e menores são as chances de mudanças estruturais que
reduziriam essa dependência.
No plano
nacional, reformas estruturais colidem com a Confederação Nacional de
Municípios (CNM), financiada pelas próprias prefeituras, que atua em conjunto
com a Frente Parlamentar Mista Municipalista, composta por mais de 300
deputados federais. A engrenagem é circular: o prefeito de cidade pequena
distribui cargos e empregos locais que asseguram votos na comunidade; esses
votos elegem deputados estaduais e federais que, em Brasília, trabalham para
aprovar mais verbas e impedir qualquer reforma que extinga ou fusione
municípios inviáveis. Países como Dinamarca, Japão e Suécia realizaram fusões
em massa de seus distritos locais para cortar o custo das máquinas políticas,
mantendo intactos os serviços de escolas e postos de saúde – em tempo mínimo. O
Brasil, por ora, segue na direção oposta.
Não se
trata de afirmar que todo município pequeno é ineficiente ou corrupto — existem
inúmeras administrações exemplares espalhadas pelo país. O problema está na
lógica estrutural do sistema, que deve ser analisado não pelas exceções
virtuosas que produz, mas pelos incentivos que oferece. E os incentivos atuais
favorecem a multiplicação de estruturas administrativas, a dependência fiscal e
a captura política dos recursos públicos.
Esse
padrão revela uma característica mais ampla do Estado brasileiro: a
extraordinária dificuldade de encerrar estruturas quando perdem sua utilidade.
Entre 2023 e 2025, o governo federal anunciou a extinção de mais de 66 mil
cargos considerados obsoletos, entre eles funções como datilógrafo, operador de
telex e ascensorista. O telex desapareceu do cotidiano brasileiro há décadas. A
máquina de escrever tornou-se peça de museu. Ainda assim, cargos ligados a
essas atividades continuaram existindo formalmente dentro da estrutura estatal.
O mesmo padrão aparece em diferentes escalas da administração pública: criam-se
municípios, secretarias, departamentos, conselhos, cargos e regulamentações,
mas, quando a realidade muda, raramente ocorre um movimento proporcional de
redução. A máquina cresce por acumulação contínua, incorporando novas funções e
novos custos sem revisar, na mesma proporção, as estruturas que já existem.
O dinheiro
que desaparece na manutenção de estruturas improdutivas é o mesmo que falta
para escolas, hospitais, saneamento, mobilidade urbana e segurança. Enquanto
bairros inteiros das grandes cidades concentram populações superiores às de
centenas de municípios brasileiros e convivem com infraestrutura insuficiente,
saneamento precário e sistemas de saúde sobrecarregados, parte significativa
dos recursos nacionais continua sendo pulverizada em centros administrativos
cuja principal função parece ser a própria sobrevivência. As fórmulas de
distribuição permanecem ancoradas em uma realidade demográfica que já não
existe: o país que criou as atuais regras era majoritariamente rural; o país
que existe hoje é predominantemente urbano.
Um dos aspectos mais controversos da
discussão sobre os micromunicípios brasileiros está na própria definição do que
chamamos de cidade. No Brasil, a classificação oficial não depende
necessariamente da densidade populacional, complexidade econômica, oferta de
serviços ou da existência de uma dinâmica urbana consolidada. Basta que uma
localidade seja sede de um município para que receba automaticamente o status
de cidade. Essa peculiaridade foi amplamente criticada pelo economista e
pesquisador José Eli da Veiga, que dedicou parte de sua produção acadêmica à
análise das relações entre o urbano e o rural no Brasil. Para Veiga, a
realidade brasileira produziu uma distorção estatística e conceitual: milhares
de localidades passaram a ser classificadas como cidades mesmo preservando
características predominantemente rurais.
A crítica do pesquisador não se limita a
uma questão semântica. Ela revela um problema estrutural. Quando o Estado
transforma administrativamente pequenas comunidades em cidades, cria-se a
impressão de um processo de urbanização mais avançado do que aquele
efetivamente existente. Ao mesmo tempo, fortalece-se a ideia de que cada uma
dessas localidades necessita de toda uma estrutura político-administrativa
própria, com prefeitura, secretarias, cargos de confiança, câmara de vereadores
e aparato burocrático permanente. Sob essa perspectiva, muitos dos chamados
micromunicípios brasileiros não seriam cidades no sentido sociológico,
econômico ou urbanístico da palavra. Seriam, na prática, comunidades rurais ou
semirrurais revestidas por uma formalidade institucional que lhes concede
status urbano sem que possuam necessariamente as características que
historicamente definem uma cidade.
A provocação de José Eli da Veiga
permanece atual porque obriga a enfrentar uma pergunta desconfortável: quantas
cidades o Brasil realmente possui e quantas existem apenas como construção
administrativa? A resposta talvez ajude a compreender por que tantos municípios
sobrevivem quase exclusivamente de transferências estaduais e federais,
incapazes de sustentar com recursos próprios a estrutura que foram induzidos a
criar. Nesse contexto, a proliferação dos micromunicípios deixa de ser apenas
um debate sobre autonomia local e passa a ser uma discussão sobre racionalidade
administrativa, eficiência do gasto público e honestidade estatística. Afinal,
quando uma localidade é declarada cidade apenas por força da lei, a burocracia
surge instantaneamente. A urbanidade, porém, não.
O Brasil
precisa enfrentar, urgentemente, uma discussão que há décadas evita. Quantos
municípios são realmente sustentáveis? Quantos possuem capacidade econômica
para justificar sua autonomia administrativa? Quantos existem porque prestam
serviços indispensáveis à população, e quantos sobrevivem apenas porque o
sistema de transferências permite sua existência? Responder a essas perguntas
exige coragem política: significa enfrentar interesses consolidados, estruturas
históricas e redes de influência que se estendem por todo o território nacional.
A verdadeira questão não é extinguir municípios nem abandonar populações do
interior — é garantir que os recursos arrecadados dos brasileiros sejam
utilizados prioritariamente para melhorar a vida das pessoas, e não para
sustentar estruturas administrativas cuja principal função parece ser a própria
continuidade.
Talvez o maior desafio brasileiro não seja econômico, político ou administrativo. Talvez seja cultural. Exige reconhecer que a existência de uma estrutura não justifica automaticamente sua permanência, e que instituições devem servir às pessoas — e não o contrário. Enquanto o país continuar confundindo descentralização com fragmentação e autonomia com dependência, continuará financiando um modelo que consome recursos crescentes sem produzir resultados equivalentes. Cada real absorvido para manter engrenagens improdutivas é um real que deixa de financiar escolas melhores, hospitais mais eficientes e oportunidades concretas para a população. A pergunta que permanece é desconfortavelmente simples: estamos financiando o desenvolvimento do país ou apenas a continuidade de suas burocracias? Afinal, nós pagamos essa conta infinitamente absurda.

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