quinta-feira, 21 de maio de 2026

TODA OBRA DE ARTE É UM AUTORRETRATO INVISÍVEL

TODA OBRA DE ARTE É UM AUTORRETRATO INVISÍVEL

- um tributo às alunas do Ateliê da Artista Plástica Márcia Marostega -

por Heitor Jorge Lau

            Há quadros que parecem silenciosos à primeira vista. A tinta repousa sobre a tela como quem apenas cumpriu um destino estético. Mas basta permanecer alguns instantes diante de uma obra verdadeira para perceber que ali existe algo pulsando. Algo que não pertence somente à técnica, à escola artística, ao período histórico ou à cultura de um tempo.

Existe alguém ali!

            Toda obra de arte carrega mais do que formas, cores e composições. Ela carrega noites pensantes, dúvidas escondidas, memórias que nunca foram confessadas em voz alta. Carrega a ansiedade delicada da criação, aquele instante em que a artista encara a tela vazia como quem encara a si mesma. Cada pincelada é uma tentativa de organizar emoções que nem sempre encontram palavras suficientes para existir.

            Há felicidade no ato de revelar. Uma felicidade íntima, quase secreta, que nasce quando algo finalmente deixa de habitar apenas o coração e ganha forma no mundo... no universo das artes. Mas junto dessa revelação também existe o medo. O receio silencioso da rejeição, da incompreensão, do olhar apressado que vê apenas tinta onde havia sentimento. Porque toda artista, ao criar, inevitavelmente se expõe. Mesmo quando pinta paisagens, flores, sombras ou figuras abstratas, há sempre fragmentos dela espalhados pela obra.

            E ainda assim, ela recomeça...

            Recomeça após cada insegurança. Após cada tela abandonada. Após cada sensação de não ter conseguido traduzir exatamente aquilo que ardia dentro dela. Talvez porque a arte não nasça da perfeição, mas da necessidade humana de continuar tentando dizer o indizível.

            Por isso, quando contemplamos uma obra de arte com verdadeira sensibilidade, não estamos apenas admirando uma criação estética. Estamos tocando, ainda que discretamente, a alma de quem a criou. Estamos diante da coragem de alguém que transformou sentimentos em imagem, silêncio em cor, fragilidade em permanência.

            No fim, toda grande obra de arte é um autorretrato invisível.

            Mesmo quando a artista jamais pintou o próprio rosto.

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