quinta-feira, 30 de abril de 2026

PODER, INTENÇÃO E ILUSÃO NO BRASIL CONTEMPORÂNEO

A GRAÇA DOS ILUMINADOS

PODER, INTENÇÃO E ILUSÃO NO BRASIL CONTEMPORÂNEO

Por Heitor Jorge Lau

            Existe um tipo de certeza que dispensa verificação. Ela não nasce do acúmulo paciente de evidências, não se submete ao escrutínio do tempo nem ao teste das consequências. Nasce, ao contrário, de uma convicção interior profunda — quase sagrada — de que se enxerga o que os outros não conseguem enxergar, de que se sente o que os outros não conseguem sentir, de que se pertence ao grupo seleto dos que compreenderam o que está errado com o mundo e sabem, com precisão quase cirúrgica, como corrigi-lo. No Brasil, essa certeza tem endereço, tem diploma, tem microfone e, frequentemente, tem cargo público. Não se trata de uma patologia individual. É um fenômeno coletivo, cultural, alimentado por décadas de tradição intelectual que confundiu erudição com sabedoria, retórica com competência e boa intenção com resultado. O país construiu, ao longo de sua história republicana, uma classe de iluminados — pensadores, acadêmicos, jornalistas, ativistas e políticos — que partilham uma visão de mundo caracterizada por duas convicções centrais: a de que os problemas sociais têm solução definitiva caso as políticas certas sejam aplicadas, e a de que quem se opõe a essas políticas o faz por ignorância, egoísmo ou má-fé. Dessas duas premissas derivam consequências enormes — não apenas para o debate público, mas para a vida concreta de milhões de brasileiros que habitam a ponta mais frágil das políticas imaginadas por quem jamais precisou suportar suas consequências.

            Para compreender o Brasil de hoje, é necessário compreender essa classe e o modo como opera. Não com o intuito de demonizá-la — a demonização é exatamente o vício que se pretende examinar —, mas com o intuito de entender por que um país de recursos imensos, população criativa e resiliente, biodiversidade única e de potencial agrícola incomparável, insiste em produzir os mesmos ciclos de promessa, intervenção, fracasso e nova promessa, sem que nenhum fracasso anterior pareça ensinar nada definitivo a quem propõe a próxima grande solução. A história econômica brasileira é, sob certa perspectiva, uma história de planos. O país que inventou o Plano Cruzado, o Plano Bresser, o Plano Verão, o Plano Collor, o Plano Real — e que antes desses havia ensaiado décadas de industrialização por substituição de importações, nacionalismo econômico, e estatização de setores estratégicos — é um país que nunca teve escassez de arquitetos do futuro. O que sempre escasseou foi a disposição de perguntar, depois de cada plano, o que realmente funcionou, para quem funcionou, a que custo e em comparação com qual alternativa. Essa pergunta — simples, técnica, desapaixonada — é exatamente a que a cultura dos iluminados mais resiste a fazer, porque ela desloca o foco das intenções para os resultados, e é nas intenções que a grandeza moral do projeto reside.

            O Plano Cruzado é um caso paradigmático. Em 1986, com inflação galopante e uma população exausta de ver o poder de compra corroído a cada mês, o governo Sarney lançou um pacote de estabilização que congelou preços e salários e trocou a moeda. A população abraçou o plano com entusiasmo genuíno. Fiscais voluntários — os chamados "fiscais do Sarney" — saíam às ruas para denunciar comerciantes que tentassem reajustar preços. A adesão popular era a prova viva de que a nação havia entendido a lógica da solução. Mas a lógica econômica não negociou com o entusiasmo popular: o congelamento reprimiu os preços artificialmente, gerou escassez, distorceu a produção e, quando o plano foi afrouxado depois das eleições de novembro, a inflação voltou com força redobrada. A hiperinflação dos anos seguintes foi, em parte, consequência dos desequilíbrios acumulados durante o congelamento. Mas os arquitetos do plano não foram responsabilizados pela inflação de 1987, 1988 e 1989. A narrativa disponível era outra: o plano havia sido sabotado por especuladores, por forças conservadoras, por quem não queria que o povo vivesse melhor. A boa intenção estava intacta. E com ela, a autoridade moral para propor o próximo plano.

            Esse padrão — boa intenção, intervenção, fracasso, culpabilização de terceiros, nova intervenção — não é exclusivo da política econômica. Atravessa a educação, a saúde, a segurança pública, a habitação, o desenvolvimento regional. Em cada área, há uma elite técnica ou intelectual que detém o diagnóstico correto, propõe a solução adequada e interpreta qualquer resistência como prova de que os resistentes não entendem a urgência do problema ou estão comprometidos com os interesses que o perpetuam.

            Na educação brasileira, a história das últimas décadas é a história de um sistema que, a despeito dos recursos crescentes alocados, planos nacionais elaborados, das reformas curriculares sucessivas, continuaram produzindo gerações de estudantes sem proficiência básica em leitura e matemática. O Brasil investiu e continua investindo proporções significativas do PIB em educação — valores comparáveis aos de países com desempenho muito superior. O que difere não é o volume de recursos, mas o modelo intelectual que orienta sua alocação. Durante décadas, o debate pedagógico brasileiro foi dominado por uma visão que entendia o problema educacional como fundamentalmente político e social — e que via com desconfiança, quando não com hostilidade declarada, as evidências que apontavam para a eficácia de métodos estruturados de ensino, avaliações padronizadas, e foco em resultados mensuráveis. Pedagogias que privilegiavam a "consciência crítica" em detrimento da alfabetização funcional foram implementadas com a convicção dos iluminados, e os resultados — visíveis nos rankings internacionais, nas avaliações nacionais, na trajetória truncada de milhões de jovens pobres que chegam ao ensino médio sem saber ler adequadamente — foram sistematicamente atribuídos a outros fatores: à desigualdade social, ao preconceito, ao subfinanciamento, à herança colonial. Nunca ao modelo pedagógico em si.

            O caso da segurança pública é ainda mais revelador da tensão entre intenção e resultado. O Brasil acumula, há décadas, taxas de homicídio que seriam consideradas emergência nacional em qualquer outro país de renda média. As vítimas preferenciais desse massacre são jovens negros e pobres das periferias urbanas — exatamente a população que o discurso dos iluminados pretende proteger. Mas a resposta intelectual e política dominante ao problema da violência nunca foi primariamente sobre punição efetiva, sobre investigação policial competente, sobre aprisionamento dos culpados. Foi, preferencialmente, sobre as "causas profundas" — a desigualdade, a exclusão, a falta de oportunidades. Não que essas causas sejam irrelevantes; são reais e importantes. Mas enquanto as políticas se concentravam nas causas profundas — que levam décadas para produzir efeitos —, os jovens continuavam morrendo nas periferias, hoje, esta semana, neste bairro. E os Estados que ensaiaram políticas mais diretamente focadas em punição e repressão qualificada — como Minas Gerais em certos períodos, como São Paulo a partir dos anos 2000 — produziram quedas expressivas nas taxas de homicídio, contradizendo a narrativa de que punição não funciona. A evidência foi recebida com desconforto pelo establishment intelectual, que encontrou sempre uma explicação alternativa para o sucesso: mudança demográfica, fatores econômicos, coincidência estatística. Nunca a política de segurança em si.

            Há nesse comportamento algo que vai além da má-fé ou da ignorância simples. Trata-se de um mecanismo de proteção da visão. Quando uma visão de mundo está suficientemente entrelaçada com a identidade de quem a carrega — com a percepção que tem de si mesmo como pessoa de bem, comprometida com a justiça, do lado certo da história —, qualquer evidência contrária não é processada como informação, mas como ameaça. O cérebro não pergunta "será que estou errado?". Pergunta "o que está errado com essa evidência?". E as respostas disponíveis são sempre abundantes: a pesquisa foi financiada por interesses escusos, o pesquisador é de direita, a metodologia tem vieses, o contexto brasileiro é diferente. O escudo intelectual é praticamente impenetrável, não por falta de inteligência dos que o erguem, mas por excesso de investimento identitário na visão que ele protege.

            O Brasil tem uma relação particularmente intensa com essa dinâmica por razões históricas específicas. A herança do coronelismo e da exclusão política das maiorias criou, de forma legítima, uma tradição de intelectuais engajados na transformação social. Figuras como Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Paulo Freire representaram, cada um à sua maneira, o compromisso da inteligência com a superação das desigualdades brutais que marcam a formação do país. Esse legado é real e não deve ser descartado. Mas legados também produzem rigidez. A tradição que nasceu do engajamento genuíno com a injustiça se institucionalizou — nas universidades, nos sindicatos de professores, nos movimentos sociais, em setores da imprensa, em partidos políticos — e, ao se institucionalizar, desenvolveu os vícios próprios de toda instituição: a resistência à autocrítica, a tendência a tratar o questionamento interno como traição, a confusão entre defender a causa e defender a organização que diz representá-la.

            O resultado é que o debate público brasileiro raramente consegue fazer a pergunta mais importante: isso funciona? Não "isso tem boa intenção?" — que é a pergunta que os iluminados preferem, porque a resposta é sempre favorável a eles. Não "isso está do lado certo da história?" — que é ainda mais imune à verificação, porque a história é longa e sempre haverá um futuro no qual reivindicar a validação. Mas "isso, concretamente, melhora a vida das pessoas que diz querer ajudar?". Essa pergunta exige dados, exige comparações, exige a disposição de ouvir evidências desconfortáveis, exige — acima de tudo — a coragem de considerar que uma política bem-intencionada pode ser mal-concebida.

            O assistencialismo brasileiro oferece um exemplo particularmente rico dessa tensão. O Bolsa Família — depois renomeado Auxílio Brasil e depois novamente Bolsa Família — é um programa de transferência de renda com condicionalidades que produziu resultados mensuráveis na redução da pobreza extrema e foi amplamente reconhecido internacionalmente como política pública eficaz. Mas ao redor desse núcleo efetivo construiu-se, ao longo dos anos, toda uma cultura política que confundiu o programa com o partido que o criou, que transformou a dependência do Estado em virtude cívica, que resistiu a qualquer discussão sobre mecanismos de saída da dependência como se a discussão em si fosse uma agressão aos pobres. A distinção entre "apoiar uma rede de proteção social" e "apoiar a perpetuação de uma classe dependente do Estado" — distinção que qualquer política social honesta precisa enfrentar — foi sistematicamente evitada, porque enfrentá-la implicaria questionar não apenas a política, mas a identidade dos que a defendem.

            O mesmo ocorre com o debate sobre as cotas raciais. Há um debate legítimo e necessário sobre como corrigir as desigualdades que a história de escravidão e exclusão produziu na sociedade brasileira. Esse debate pode e deve incluir políticas de ação afirmativa. Mas quando qualquer questionamento sobre os mecanismos específicos, sobre os critérios de classificação racial, sobre os efeitos de longo prazo, sobre alternativas baseadas em renda — quando qualquer um desses questionamentos é automaticamente interpretado como racismo disfarçado, o debate deixa de ser um exercício coletivo de busca pela melhor política e se torna um ritual de afirmação identitária. E rituais não produzem conhecimento. Produzem pertencimento.

            O pertencimento é, no fundo, o que a visão dos iluminados oferece com mais eficiência. Em um país marcado por profundas fraturas sociais, por incerteza econômica crônica, por instituições frágeis, pertencer a um grupo que tem as respostas certas, que está do lado certo, que luta pelo bem — isso tem um valor psicológico imenso. É uma oferta poderosa. E é exatamente por isso que a lógica dos resultados empiricamente verificados tem tanta dificuldade de competir com ela. Porque verificar resultados é trabalhoso, técnico, muitas vezes decepcionante e solitário. Pertencer ao grupo dos que sabem o que precisa ser feito é imediato, gratificante e coletivo.

            A vaidade intelectual é o combustível dessa máquina — mas vaidade no sentido mais profundo, não no sentido superficial de quem se olha no espelho. É a vaidade de quem precisa acreditar que sua vida tem um sentido mais alto, de que o sofrimento que observa ao redor não é apenas resultado de escolhas ruins, de limitações estruturais sem culpado definido, de trade-offs inevitáveis entre valores que todos compartilham, mas que não podem ser todos maximizados simultaneamente. A visão dos iluminados oferece a narrativa de que há culpados identificáveis, de que a remoção desses culpados ou a implementação das políticas certas produziria um mundo radicalmente melhor, e de que quem se opõe a isso é, de alguma forma, cúmplice do sofrimento alheio. Essa narrativa é moralmente confortável para quem a adota. E o conforto moral, uma vez experimentado, é difícil de abandonar voluntariamente.

            O Brasil paga um preço alto por esse conforto. O preço é a impossibilidade de aprender com os próprios erros — porque os erros nunca são dos que tiveram as boas intenções, mas sempre dos sabotadores externos. O preço é a impossibilidade de debater políticas públicas com a seriedade técnica que os problemas exigem — porque qualquer discordância é rapidamente transformada em questão moral e, portanto, em acusação. O preço é a impossibilidade de construir o tipo de consenso pragmático, baseado em evidências, que produziu as transformações mais duradouras nas democracias que funcionam — porque o consenso exige que ninguém detenha o monopólio da sabedoria, e isso é exatamente o que a visão dos iluminados não consegue conceder.

            O caminho alternativo não é simples, e seria ingênuo apresentá-lo como tal. Não se trata de substituir uma ideologia por outra, de trocar os iluminados de esquerda por iluminados de direita — que existem igualmente, com seus próprios dogmas, suas próprias certezas, sua própria resistência à evidência contrária. Trata-se, fundamentalmente, de cultivar uma disposição diferente diante do desconhecido — a disposição de admitir que problemas sociais complexos raramente têm soluções simples, que políticas bem-intencionadas podem produzir danos reais, que a verificação empírica honesta é mais valiosa do que a coerência ideológica, e que o respeito genuíno pelas pessoas que se pretende ajudar começa por tratá-las como agentes de suas próprias vidas, não como objetos passivos à espera da intervenção iluminada.

            O Brasil tem todos os recursos para ser um país muito diferente do que é. Tem terra, tem água, tem sol, tem uma população jovem e criativa, tem diversidade cultural que é fonte de inovação, tem uma democracia que, apesar de todos os seus defeitos, sobreviveu a tentações autoritárias repetidas. O que falta não é recurso. O que falta é a humildade coletiva de perguntar, diante de cada grande ideia salvadora: mas funciona? E de suportar a resposta, qualquer que seja ela, sem transformá-la em questão de fé.

            Enquanto essa humildade não for cultivada — nas universidades, nas redações, nos partidos, nas organizações da sociedade civil, e em cada cidadão que prefere o conforto da certeza ao desconforto da dúvida produtiva —, o Brasil continuará sendo um país de planos magníficos e resultados modestos, governado por gerações sucessivas de iluminados convencidos de que desta vez, com as intenções certas e as políticas certas, o mundo novo finalmente chegará. E a conta, como sempre, será paga pelos que nunca foram consultados sobre se queriam participar desse experimento.


 

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