terça-feira, 21 de abril de 2026

A ANESTESIA COGNITIVA QUE SERVE DE ATALHO PARA O "BEM ESTAR"


 

A CREDENCIAL DO NADA

Por Heitor Jorge Lau

            A formação acadêmica não é um fetiche. Não é um ritual de passagem aristocrático destinado a separar os iluminados dos ignorantes. É, em sua essência mais prática e mais honesta, um processo de exposição sistemática ao erro corrigido — anos de contato com o que já foi pensado, testado, refutado e reconstruído por gerações anteriores, de modo que quem chega depois não precise reinventar a roda, mas possa, com sorte e com trabalho, empurrar o conhecimento um milímetro além de onde ele estava. É um processo lento, frequentemente frustrante, quase sempre mal remunerado, e absolutamente insubstituível quando o assunto é a construção de competência real em qualquer campo que tenha consequências sobre a vida de outras pessoas.

            O coach que nunca estudou psicologia não apenas desconhece as técnicas — desconhece os limites. E é exatamente aí que mora o perigo mais silencioso. Um psicólogo clínico com formação completa (um bom psicólogo) sabe identificar quando um paciente apresenta sintomas que estão além da sua capacidade de atuação. Sabe quando encaminhar. Sabe a diferença entre uma crise existencial e um episódio maníaco, entre luto normal e depressão clínica, entre ansiedade situacional e transtorno de ansiedade generalizada. Esse saber não vem da intuição, não vem da experiência de vida pessoal, não vem de um curso intensivo de fim de semana com certificado impresso em papel couchê. Vem de anos de estudo supervisionado, de contato com literatura científica, de prática clínica acompanhada por profissionais mais experientes, de um processo de formação que inclui, não por acidente, o enfrentamento das próprias limitações. O coach sem formação não sabe o que não sabe — e essa ignorância da própria ignorância é precisamente o que o torna perigoso. Não por maldade. Por incompetência estrutural, que é uma forma de dano que não precisa de intenção para se manifestar.

            O nutricionista de Instagram que prescreve protocolos alimentares para milhares de seguidores sem jamais ter pisado numa faculdade de nutrição, sem ter estudado bioquímica, fisiologia, patologia ou farmacologia, está exercendo sobre corpos reais uma influência que tem consequências reais. O seguidor que desenvolve uma relação disfuncional com a comida a partir de uma dieta restritiva recomendada por quem nunca estudou transtornos alimentares não aparece nas estatísticas vinculadas àquele perfil. O dano é difuso, invisível, distribuído — e por isso escapa à responsabilização. A medicina, o direito, a engenharia, a psicologia existem como profissões regulamentadas justamente porque a sociedade, ao longo de séculos de experiência dolorosa, aprendeu que certas práticas sem formação específica matam, adoecem, arruínam e destroem. Os conselhos profissionais, as ordens de classe, os conselhos regionais — todas essas estruturas burocráticas que tanto irritam o espírito libertário contemporâneo — existem porque o mercado, deixado absolutamente livre, já demonstrou repetidamente que não consegue, por si só, distinguir o competente do incompetente quando ambos falam com igual confiança.

            O palestrante motivacional (e como tem...) é talvez o caso mais revelador dessa lógica, porque opera numa zona que parece inofensiva, mas raramente é. Alguém que se apresenta a uma plateia corporativa como especialista em liderança, em gestão de pessoas, em cultura organizacional, em saúde mental no trabalho — sem jamais ter estudado administração, psicologia organizacional, sociologia do trabalho ou qualquer campo relacionado — está vendendo uma mercadoria que não possui. O que possui é uma história pessoal, que pode ser genuinamente inspiradora, e uma habilidade de comunicação, que pode ser genuinamente impressionante. Mas história pessoal não é dado. Experiência individual não é evidência. A capacidade de emocionar uma plateia não é equivalente à capacidade de transformar estruturas organizacionais complexas. Quando uma empresa paga fortunas por uma palestra de noventa minutos baseada em anedotas pessoais e aforismos reembalados, e depois trata essa palestra como equivalente a uma consultoria especializada, está fazendo uma escolha que tem consequências sobre as pessoas que trabalham ali — pessoas reais, com problemas reais, que merecem respostas construídas sobre fundamentos reais.

            O astrólogo que atende clientes em crise, que orienta decisões de carreira, de relacionamento, de saúde, com base num sistema que não possui um único estudo com validade científica confirmada por revisão de pares — esse astrólogo não tem formação em psicologia, não tem formação em aconselhamento, não tem formação em nada que o habilite a lidar com o sofrimento humano de forma tecnicamente responsável. O que tem é um sistema simbólico que pode ser poético, que pode ser culturalmente rico, que pode funcionar como ferramenta de autoconhecimento metafórico para algumas pessoas em alguns contextos. Mas a distância entre isso e a prática de orientação de vida é enorme, e cruzá-la sem formação específica é uma aposta que quem paga o preço não é quem cruza.

            O especialista em marketing digital que nunca estudou comunicação, sociologia do consumo, psicologia comportamental ou ética publicitária, mas que acumulou seguidores e faturamento suficientes para ser convidado a dar cursos, palestras e mentorias sobre o assunto, está ensinando o que funcionou para ele em condições que não se replicam automaticamente. O problema não é compartilhar experiência — o problema é a ausência de qualquer estrutura teórica que permita distinguir o que foi resultado de habilidade do que foi resultado de circunstância, de timing, de sorte, de viés de sobrevivência. Quem estudou comunicação sabe o que é viés de sobrevivência. Quem não estudou comunicação muitas vezes não sabe que não sabe, e ensina como regra geral o que foi, na melhor das hipóteses, uma exceção bem-sucedida.

            O terapeuta holístico, o curador energético, o especialista em constelação familiar aplicada ao ambiente corporativo, o profissional de saúde quântica (esse termo usado por muitos sem ter o mínimo conhecimento sobre...) — categorias que proliferaram com velocidade inversamente proporcional à sua base empírica — todos compartilham uma característica estrutural: a ausência de um corpo de conhecimento verificável, de uma metodologia submetida a teste, de uma prática regulada por critérios externos de competência. O que há, em muitos desses casos, é uma linguagem que soa técnica o suficiente para gerar credibilidade e vaga o suficiente para escapar de qualquer falsificação. Quando alguém diz que trabalha com energia, com frequência vibracional, com campo mórfico, com alinhamento quântico — está usando palavras que pertencem à física, à biologia, à filosofia — mas usando-as de um modo que os campos originais de onde foram retiradas não reconheceriam e não endossariam. É um empréstimo sem devolução, um vocabulário sem gramática, uma autoridade sem fundamento.

            E então há o gestor de tráfego, o social media, o Groth Hacker (profissional focado exclusivamente em crescimento rápido e escalável de um negócio ou produto), o UX Writer (profissional responsável por escrever todos os textos que aparecem dentro de um produto digital — apps, sites, sistemas — com o objetivo de tornar a experiência do usuário mais clara, fácil e agradável), o Copywriter (profissional que escreve textos com objetivo de persuadir, engajar e converter) — profissões genuinamente novas, que emergiram de transformações tecnológicas reais e que, em muitos casos, são exercidas com seriedade, estudo e competência por pessoas que se dedicaram a aprender de forma rigorosa, ainda que fora dos circuitos acadêmicos tradicionais. O problema não é a novidade, nem a ausência de diploma universitário específico — o problema é quando essas áreas são tomadas por pessoas que confundem ter feito um curso de trinta horas com dominar um campo, que confundem ter conseguido um resultado numa campanha com entender os princípios que o produziram, que confundem a ferramenta com o conhecimento. A diferença entre o profissional sério dessas áreas e o aventureiro que se apropria dos mesmos títulos é a mesma de sempre: um sabe o que não sabe.

            A formação específica não serve apenas para ensinar o que fazer. Serve, talvez com mais importância, para ensinar o que não fazer, quando parar, quando encaminhar, quando reconhecer que o caso está além da própria competência. Serve para criar a consciência do limite — e é exatamente essa consciência que falta de forma mais gritante em quem exerce sem ter estudado. A humildade epistêmica — o reconhecimento de que o conhecimento é vasto, de que a própria parcela dele é pequena, de que a ignorância não é uma falha de caráter, mas uma condição permanente que exige postura constante de aprendizado — essa humildade não se adquire com experiência de vida. Se adquire com exposição sistemática ao quanto já foi pensado antes e ao quanto ainda não se sabe.

            Uma sociedade que normalize a ausência de formação como irrelevante, que trate o título como burocracia dispensável, que aplauda a disrupção sem perguntar o que está sendo destruído junto com o que merecia ser destruído, está fazendo uma aposta silenciosa sobre o valor do conhecimento. E as consequências dessa aposta não aparecem imediatamente — aparecem nos diagnósticos que chegam tarde demais, nas decisões financeiras tomadas com base em conselho de quem não entendia o que estava dizendo, nos conflitos psicológicos aprofundados por intervenções bem-intencionadas, mas tecnicamente desinformadas, nas estruturas organizacionais que permanecem disfuncionais porque a palestra inspiradora passou longe de qualquer diagnóstico real.

            A pergunta continua de pé. Simples, direta, perturbadora na sua objetividade. Qual é a sua formação? E enquanto a resposta puder ser nenhuma sem que isso produza qualquer consequência sobre a credibilidade de quem a dá, algo muito fundamental sobre o que essa sociedade entende por saber, por responsabilidade e por respeito à vida alheia continuará profundamente fora do lugar. Enfim, pseudo profissões nascem da ausência de formação formal e da anestesia cognitiva que o ser humano impôs a ele próprio, por livre e espontânea vontade, por uma forte crença de que os atalhos funcionam melhor do que as vias do conhecimento. Simples assim!

 

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