segunda-feira, 20 de abril de 2026

O AUTO ENGANO QUE TRAZ DESCONHECIMENTO

A GRANDE ILUSÃO DO FAZER SEM SABER

Por Heitor Jorge Lau

            Há uma pergunta que a contemporaneidade se recusa a responder com honestidade, porque a resposta é desconfortável demais para uma época que transformou o conforto em valor supremo: o que acontece com uma civilização quando ela começa a confundir visibilidade com competência, barulho com conteúdo, e presença com relevância? A resposta está nas ruas, nas telas, nos estádios e nos feeds — e ela é, ao mesmo tempo, banal e assustadora.

            Começar pelo futebol não é arbitrário. É estratégico. Porque o futebol é o espelho mais honesto e mais cruel do que a sociedade brasileira — e boa parte do mundo ocidental — escolheu como centro gravitacional de sua atenção coletiva. Um ser humano que não sabe localizar a Síria num mapa, que jamais leu uma página sequer de Machado de Assis, que desconhece os princípios básicos da economia que determina seu salário e seu aluguel, esse mesmo ser humano é capaz de discorrer por horas sobre esquemas táticos, estatísticas de passes e o valor de mercado de um jovem atacante de dezoito anos. Não se trata de demonizar o esporte — o futebol tem sua beleza, sua poesia de movimento, sua capacidade genuína de criar comunidade. O problema não é o futebol existir. O problema é o futebol substituir. Quando o jogo de quarta-feira mobiliza mais neurônios, mais emoção e mais debate do que a crise hídrica, do que a falência do sistema educacional, do que a violência que devasta periferias inteiras, algo na arquitetura de valores de uma sociedade está profundamente fraturado. E essa fratura não é acidente — é projeto. Uma população que gasta sua energia emocional nos resultados do campeonato tem menos energia sobrando para questionar por que seus direitos estão sendo sistematicamente erodidos. O pão e circo de Roma nunca foi tão eficiente quanto o VAR e o Brasileirão.

            Mas se o futebol ao menos exige dos seus praticantes profissionais anos de treinamento físico brutal, disciplina real e talento genuíno, o mesmo não pode ser dito com a mesma generosidade sobre o universo do influenciador digital — essa figura que emergiu das entranhas das redes sociais como se fosse uma profissão, quando na maior parte dos casos é apenas uma performance de existência monetizada. O influenciador, em sua versão mais problemática, não produz conhecimento — reproduz. Não cria — reembala. Não forma — formata. A lógica é simples e devastadora: basta ter uma câmera, uma conexão de internet, uma persona construída com cuidado estético e a disposição de transformar cada momento da vida privada em conteúdo consumível. O resultado é uma geração inteira que aprendeu a performar a vida antes de vivê-la, que mede o valor de uma experiência pela quantidade de engajamento que ela pode gerar, que escolhe restaurantes pela iluminação e não pela comida. A influência, quando exercida com responsabilidade e conhecimento real, pode ser uma ferramenta poderosa de democratização do saber. O problema é que a exceção virou régua, e a régua virou regra. Quando milhões de pessoas tomam decisões de saúde, de investimento, de comportamento político e de criação de filhos baseadas na opinião de alguém cuja única credencial é ter acumulado seguidores, o problema deixa de ser individual e se torna civilizatório.

            O coach, por sua vez, merece um capítulo à parte — não porque seja necessariamente mais danoso, mas porque opera com uma sofisticação retórica que o torna particularmente sedutor e particularmente perigoso. O coaching legítimo existe, tem metodologia, tem ética, tem aplicação específica e delimitada. Mas o que proliferou nas últimas duas décadas não tem quase nada a ver com isso. O que proliferou é uma indústria de autoajuda revestida de terminologia pseudocientífica, vendida por pessoas que fizeram um curso de fim de semana e saíram convictas de que detêm as chaves da transformação humana. O coach da era das redes sociais fala em "mindset", em "propósito", em "alta performance", em "protagonismo", em “empoderamento” com a segurança de quem nunca foi confrontado por alguém que realmente estudou psicologia, neurociência ou filosofia. Enquanto psicólogos com anos de formação clínica, supervisão e prática ética cobram uma sessão e são vistos como caros, o coach cobra três vezes mais por um "processo" que não tem base empírica comprovada e não está sujeito a nenhum conselho regulatório. A ironia é que o mercado remunera melhor quem fala com mais confiança do que quem sabe mais. E a sociedade, sedenta de respostas rápidas para questões que demandam elaboração lenta, paga por isso sem piscar.

            O MC — e aqui é necessário um cuidado cirúrgico — é um caso que exige distinção. O Mestre de Cerimônias tem uma história rica, ancorada na tradição oral, na cultura hip-hop, na capacidade de improvisar com linguagem e ritmo, de conduzir multidões com a força da palavra. É uma arte. É uma habilidade. É cultura viva. O problema começa quando o termo é apropriado por qualquer pessoa que grava uma faixa num estúdio de fundo de quintal sem nunca ter se debruçado sobre a história do movimento que lhe empresta o título, sem entender que por trás do microfone há uma tradição intelectual e poética que remonta às griôts da África Ocidental, aos poetas beats americanos, aos rappers que transformaram a dor da marginalização em manifesto político. Usar o título sem habitar a tradição é o mesmo que se intitular arquiteto porque já viu uma planta baixa. A forma vazia do nome, destacada do conteúdo que lhe dá sentido, é uma das operações mais características da contemporaneidade — e o MC sem história é apenas o exemplo mais sonoro disso.

            É possível continuar o inventário quase indefinidamente. O astrólogo que diagnostica personalidades e prescreve decisões de vida com base em mapas celestes sem jamais ter estudado astronomia, psicologia ou filosofia — e que cobra por isso. O terapeuta holístico que trata ansiedade com cristais enquanto alguém em sofrimento real aguarda meses por uma consulta no sistema público de saúde. O palestrante motivacional que percorre o país repetindo as mesmas três histórias de superação pessoal para plateias corporativas que saem do evento emocionadas e não mudam absolutamente nada em suas estruturas organizacionais. O nutricionista funcional de Instagram que contradiz consensos científicos estabelecidos com a desenvoltura de quem nunca precisou responder por um erro clínico. O personal branding specialist — título que merece ser lido em voz alta para que o absurdo se faça audível — que ensina pessoas a venderem versões polidas de si mesmas antes que essas pessoas tenham algo substancial a oferecer além da versão polida. O creator de conteúdo, categoria guarda-chuva que abriga desde jornalistas legítimos até pessoas que filmam o próprio café da manhã com música ambiente e chamam isso de lifestyle. O mentor, palavra tão inflacionada que perdeu todo o peso que tinha quando significava alguém que havia efetivamente trilhado um caminho e podia iluminar o de outro com experiência real e humildade genuína.

            O que todas essas figuras têm em comum — e aqui é fundamental não perder a nuance, porque muitas delas são exercidas por pessoas de boa-fé que encontraram nessas atividades uma forma honesta de sustento e de contribuição real — é que se tornaram a norma quando deveriam ser a exceção. O problema nunca foi a existência do influenciador, do coach, do MC, do palestrante. O problema é a proporção. O problema é quando uma sociedade produz mais coaches do que engenheiros, mais influenciadores do que professores, mais palestrantes motivacionais do que pesquisadores. O problema é quando o caminho mais curto para a visibilidade, para a renda e para o reconhecimento social não passa mais pelo domínio de um saber, pela maestria de um ofício, pela dedicação longa e muitas vezes invisível ao aprofundamento real. O problema é quando a exceção se torna o modelo e o modelo desfigura o que uma sociedade entende por valor.

            E por que isso acontece? Porque o aprofundamento é lento e a superfície é imediata. Porque a especialização exige anos de esforço sem garantia de reconhecimento, e a performance de especialidade exige apenas a aparência de confiança. Porque as plataformas digitais foram arquitetadas para recompensar o engajamento emocional e não a precisão intelectual — e emoção é mais fácil de fabricar do que conhecimento. Porque uma geração foi ensinada, por omissão ou por comissão, que a atenção dos outros é uma forma de valor, e que ser visto equivale a ser importante. Porque o mercado, esse árbitro impiedoso e moralmente neutro, remunera o que vende e não necessariamente o que serve. E porque a escola, em muitos lugares e por razões que dariam outro texto igualmente longo, falhou em ensinar a diferença entre informação e conhecimento, entre opinião e argumento, entre visibilidade e relevância.

            A vida é finita. Essa é a frase mais simples e mais ignorada da existência humana. Cada hora dedicada ao consumo passivo de conteúdo vazio é uma hora que não volta. Cada decisão tomada com base na autoridade de quem não tem autoridade real é uma decisão que carrega consequências reais. Cada vez que uma sociedade elege como herói quem entretém em vez de quem constrói, quem aparece em vez de quem pensa, quem vende certezas fáceis em vez de quem oferece perguntas honestas, essa sociedade está fazendo uma escolha sobre o tipo de futuro que vai habitar.

            A questão não é moralista. Não se trata de dizer que divertimento é pecado, que entretenimento é frivolidade ou que toda forma de cultura popular é menor. A questão é de proporção e de consciência. Uma sociedade que lê Dostoiévski e também assiste ao jogo é diferente de uma sociedade que só assiste ao jogo. Uma sociedade que segue influenciadores e também lê especialistas é diferente de uma sociedade que substituiu um pelo outro. A régua não deveria ser o espetáculo — deveria ser a substância. E enquanto essa inversão não for nomeada, questionada e resistida com a seriedade que merece, o barulho vai continuar sendo confundido com música, a sombra com o corpo, e o show com a vida.


 

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