quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

QUANDO A MASCULINIDADE E O MACHISMO SE CONFUNDEM - UMA HERANÇA MAL REPAGINADA

A SENTINELA E O SÍMBOLO: DO PRIMATA AO PATRIARCADO

Por Heitor Jorge Lau

            Nas bordas das florestas tropicais, onde a luz filtrada pelas copas encontra a escuridão densa da vegetação, alguns primatas não-humanos desenvolveram comportamentos que, à primeira vista, podem parecer bizarros aos olhos humanos. Certas espécies de macacos estabelecem uma forma peculiar de comunicação territorial: machos adultos posicionam-se nos limites externos de seu território, sentados em pontos estratégicos, com o pênis ereto e exposto. Esta postura não é aleatória nem desprovida de significado. Trata-se de um sinal inequívoco dirigido a intrusos potenciais, uma declaração visual que comunica simultaneamente ocupação territorial, força do grupo e a presença de defesa ativa. A mensagem é clara: este espaço está protegido, as fêmeas e os filhotes não estão vulneráveis, e qualquer tentativa de invasão será confrontada. Este comportamento, documentado por primatólogos em diferentes contextos e espécies, revela camadas fascinantes sobre como a evolução molda estratégias de proteção grupal e comunicação entre animais sociais. A exibição genital não possui, neste contexto, conotação sexual direta, mas funciona como emblema de poder e prontidão para o conflito. É uma linguagem corporal que transcende a necessidade de confronto físico imediato, operando no campo da dissuasão psicológica. O órgão sexual masculino, neste cenário, transforma-se em símbolo de autoridade territorial, em bandeira de advertência que demarca fronteiras invisíveis, mas firmemente estabelecidas.

            Quando observamos este fenômeno através das lentes da biologia comportamental, compreendemos que estamos diante de uma estratégia evolutiva eficiente. A exibição poupa energia que seria gasta em combates constantes, reduz o risco de ferimentos que poderiam comprometer a capacidade de defesa futura do grupo, e estabelece hierarquias sem necessariamente recorrer à violência. Contudo, quando permitimos que nossa reflexão se estenda para além da descrição etológica pura e adentre o território da analogia com comportamentos humanos, deparamo-nos com paralelismos inquietantes e reveladores sobre as raízes profundas de certos padrões culturais que atravessam milênios da história humana. A humanidade, ao longo de sua trajetória evolutiva e cultural, desenvolveu sistemas complexos de organização social nos quais a masculinidade frequentemente se entrelaça com noções de proteção, território e poder. Tal como aqueles primatas nas bordas da floresta, sociedades humanas construíram ao longo dos séculos estruturas nas quais homens assumem papéis de guardiões, protetores e definidores de fronteiras - sejam elas físicas, sociais ou simbólicas. A diferença fundamental, porém, reside na elaboração cultural que a espécie humana imprimiu sobre esses impulsos básicos, transformando-os em sistemas ideológicos complexos que chamamos de patriarcado e machismo.

            O machismo, enquanto fenômeno cultural milenar, pode ser compreendido como uma extensão profundamente distorcida e institucionalizada daquele impulso primário de proteção e controle territorial. Onde o primata exibe seu órgão sexual como sinal temporário e contextual, sociedades humanas construíram edifícios inteiros de significado, poder e opressão sobre a anatomia e os papéis sociais associados ao sexo biológico. A masculinidade deixou de ser simplesmente uma característica biológica ou um conjunto de comportamentos adaptativos e tornou-se um complexo ideológico que define quem possui direitos, quem exerce autoridade, quem protege e, crucialmente, quem controla. Considere como, em inúmeras culturas ao longo da história humana, a noção de honra masculina esteve intimamente conectada ao controle sobre mulheres e crianças. O homem que não conseguia "proteger" sua família - leia-se, frequentemente, controlar o comportamento e as escolhas de suas mulheres - era visto como fraco, inadequado, merecedor de desprezo social. Esta construção ecoa, de maneira distorcida, aquela sentinela primata: a ideia de que o valor do macho reside em sua capacidade de demarcar território e garantir que outros machos não tenham acesso às fêmeas do grupo. Porém, enquanto no reino animal tal comportamento se insere em dinâmicas de sobrevivência reprodutiva sem elaboração moral, na sociedade humana esta mesma lógica foi revestida de camadas de justificação religiosa, filosófica e legal que a transformaram em sistema de opressão sistemática.

            A história registra como diferentes civilizações, da Mesopotâmia à Roma antiga, das sociedades islâmicas medievais às cristãs europeias, estabeleceram códigos legais e morais que institucionalizavam a subordinação feminina sob o pretexto de proteção. Mulheres eram propriedade a ser guardada, primeiro pelo pai, depois pelo marido. A virgindade feminina tornou-se obsessão coletiva não por razões de saúde ou escolha individual, mas porque representava a "honra" da linhagem masculina, a garantia de que o território reprodutivo não havia sido "invadido" por machos rivais. Leis sobre adultério puniam mulheres com severidade desproporcional justamente porque a transgressão feminina representava violação da ordem territorial masculina. Esta analogia se aprofunda quando examinamos rituais e símbolos de masculinidade através das culturas. Armamentos, desde lanças e espadas até armas de fogo modernas, frequentemente carregam simbolismo fálico óbvio e são associados à capacidade masculina de defender território e exercer domínio. Cerimônias de passagem para a vida adulta masculina, em diversas sociedades, enfatizam força física, coragem diante do perigo e capacidade de infligir violência quando necessário. O jovem macho humano, tal como aquele primata assumindo seu posto na periferia do território grupal, deve provar-se capaz de "defender" seu espaço e suas "posses".

            Contudo, a elaboração cultural humana introduz camadas de crueldade e absurdo ausentes no comportamento animal. O primata sentado na borda da floresta não desenvolve ideologias complexas sobre superioridade masculina, não cria sistemas legais que impedem fêmeas de possuir propriedade ou tomar decisões sobre seus próprios corpos, não constrói religiões inteiras baseadas na subordinação de metade da população. A sentinela macaca cumpre uma função ecológica específica e temporária. O patriarcado humano tornou-se estrutura permanente que permeia cada aspecto da existência social. O machismo, portanto, representa uma patologia cultural - a transformação de impulsos evolutivos básicos em sistemas de opressão que transcendem qualquer justificativa adaptativa original. Enquanto aquela exibição primata serve a propósitos ecológicos mensuráveis dentro de contextos específicos, o machismo humano persiste mesmo quando comprovadamente prejudicial ao bem-estar coletivo, inclusive dos próprios homens. Homens morrem mais cedo, sofrem taxas mais altas de suicídio, vivem com repressão emocional crônica, tudo isso em parte devido às expectativas rígidas e tóxicas sobre o que significa "ser homem" dentro de estruturas machistas.

            A masculinidade tóxica exige que homens sejam sempre fortes, nunca vulneráveis, sempre competitivos, nunca cooperativos demais, sempre prontos para defender território (literal ou metafórico) e nunca demonstrem fraqueza. Este script comportamental ecoa aquela sentinela ereta e vigilante, mas em contextos totalmente inadequados. O executivo corporativo que não pode admitir dúvida, o pai que não consegue expressar afeto, o jovem que se sente compelido a responder violentamente a qualquer percepção de desrespeito - todos estes são herdeiros distorcidos daquele impulso primário de demonstração territorial de força. Ademais, a analogia nos permite compreender por que a desconstrução do machismo encontra resistências tão viscerais. Para muitos homens, questionar estruturas patriarcais é sentido como ameaça existencial, como remoção daquele posto na periferia do território, como castração simbólica. A igualdade entre homem e mulher é percebida não como expansão de direitos e dignidade para todos, mas como invasão territorial, como fracasso na função de guardião. Esta reação, embora compreensível quando rastreamos suas raízes evolutivas e históricas, não é justificável nem inevitável.

            Humanos possuem capacidade única de reflexão sobre nossos próprios impulsos, de escolher quais tendências amplificar e quais transcender. Diferentemente daqueles primatas, não estamos presos a scripts comportamentais fixos ditados puramente pela biologia. Nossa plasticidade cultural permite reimaginar masculinidade de formas que preservem aspectos positivos - como genuína proteção baseada em respeito mútuo, força usada para defender os vulneráveis sem oprimi-los, coragem para desafiar injustiças - enquanto abandonamos elementos tóxicos. Sociedades contemporâneas que avançam rumo à equidade entre sexos masculino e feminino demonstram que outras configurações são possíveis. Homens podem ser participantes ativos na criação dos filhos sem perda de masculinidade, mulheres podem ocupar posições de liderança e poder sem que isso represente ameaça ao valor masculino, relacionamentos podem se basear em parceria genuína ao invés de hierarquia e controle. Nestes contextos, a proteção deixa de ser controle unilateral e torna-se cuidado recíproco; a força deixa de ser dominação e torna-se capacidade de criar espaços seguros para todos.

            A sentinela primata na borda da floresta cumpre sua função e, quando o momento passa, retorna ao grupo, interage, descansa, brinca. Sua identidade não está permanentemente fincada naquele papel de guardião vigilante. É esta flexibilidade que o machismo humano perdeu - a capacidade de reconhecer que proteção é apenas uma entre muitas formas valiosas de contribuir para o bem coletivo, que força física é apenas um entre muitos tipos de poder, que masculinidade é apenas uma entre infinitas formas de ser humano plenamente. Ao olharmos para aquele comportamento animal e reconhecermos nele ecos distantes de nossas próprias estruturas sociais, não devemos concluir que o machismo é inevitável ou natural. Pelo contrário, devemos reconhecer que pegamos um impulso evolutivo limitado e específico e o transformamos em monstro cultural que aprisiona a todos. A grandeza da humanidade reside precisamente em nossa capacidade de observar esses padrões, compreendê-los e escolher deliberadamente outros caminhos. Podemos manter a sentinela, se assim escolhermos, mas não precisamos fazer dela prisioneira eterna de um posto que já não serve a propósitos adaptativos genuínos, apenas à perpetuação de poder e privilégio injustificados.


 

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