segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

FAMÍLIAS DISFUNCIONAIS E OS CÍRCULOS DE PERTENCIMENTO

O FOGO DA FORJA E OS CÍRCULOS DO PERTENCIMENTO

REFLEXÕES SOBRE HEFESTO E A FAMÍLIA

Por Heitor Jorge Lau

            Existe uma dor particular em ser rejeitado por aqueles que deveriam amar incondicionalmente ou pouco amar. Hefesto, o deus grego do fogo e da metalurgia, conhece essa dor de maneira visceral. A história começa com uma queda – literal e metafórica – quando Hera, a própria mãe, ao ver o filho nascer com imperfeições físicas, lança a criança do Monte Olimpo. Essa imagem primordial do filho sendo atirado do céu pela mãe que o gerou contém uma verdade filosófica profunda sobre a natureza dos círculos familiares e o paradoxo doloroso do pertencimento. A queda de Hefesto não é apenas uma narrativa mitológica, é uma metáfora existencial sobre como os círculos mais íntimos podem ser simultaneamente os mais cruéis. A expectativa sobre a família é de um círculo de proteção, um espaço onde a vulnerabilidade encontra acolhimento, onde as imperfeições são abraçadas com ternura. No entanto, é precisamente nesse círculo que muitas vezes se experimentam as rejeições mais devastadoras. Hefesto cai durante dias, atravessando camadas de céu, até encontrar o oceano – um batismo involuntário em solidão, uma iniciação forçada na realidade de que mesmo os deuses podem ser indesejados em seus próprios lares.

            O que torna a história de Hefesto filosoficamente rica é que o deus não permanece na amargura da queda. Em vez disso, encontra refúgio com Tétis, a ninfa marinha, que o acolhe nas profundezas do oceano. Aqui reside uma verdade fundamental sobre os círculos familiares: não são determinados exclusivamente pelo sangue. Tétis cria um novo círculo ao redor de Hefesto, um círculo escolhido, onde a presença é desejada não apesar das diferenças, mas simplesmente por ser. Nessa gruta submarina, longe da perfeição imaculada do Olimpo, Hefesto aprende a arte, forjando objetos de beleza incomparável. A família que rejeitou empurrou o deus para encontrar aqueles que verdadeiramente o veriam. Aqui emerge uma reflexão sobre a natureza concêntrica dos círculos familiares. Ao imaginar a existência humana como uma série de círculos expandindo-se a partir do núcleo do self, o círculo mais interno deveria ser a família de origem – pais, irmãos, aqueles ligados pelo acaso da genética. Mas a história de Hefesto ensina que esse círculo inicial pode estar quebrado, malformado, insuficiente para conter toda a complexidade do que se é (do que é a vida). Quando isso acontece, quando há o lançamento para fora desse primeiro círculo, surge uma escolha existencial: definhar na queda eterna ou construir novos círculos, forjar novas conexões.

            A forja de Hefesto torna-se então um símbolo poderoso. No calor extremo, o deus transforma materiais brutos em arte. Não é coincidência que o deus rejeitado por sua aparência se torne o artífice supremo da beleza. Há uma alquimia filosófica nisso: a dor da rejeição familiar, quando não destrói, pode transformar em criadores. Hefesto pega o metal frio e insensível e, através do fogo – o próprio fogo interior, a raiva transformada, a dor refinada – cria maravilhas que até os deuses perfeitos cobiçam. O deus constrói palácios, armas, joias que transcendem qualquer coisa que a família original poderia ter oferecido. Essa capacidade de criar beleza a partir da rejeição leva a uma compreensão mais profunda sobre autonomia dentro dos círculos familiares. Hefesto não espera ser aceito... torna-se indispensável. Quando finalmente retorna ao Olimpo, não volta como o filho suplicante buscando aprovação materna, mas como o mestre artesão cujas habilidades todos necessitam. O deus redefine os termos de seu pertencimento. Não é mais uma questão de ser tolerado apesar das imperfeições, mas de ser respeitado pelas capacidades únicas, nascidas precisamente dessas diferenças que uma vez o tornaram indesejável.

            Contudo, a narrativa de Hefesto não é uma simples história de superação e triunfo. Existe uma complexidade dolorosa no relacionamento contínuo com Hera. Mesmo depois de se tornar o ferreiro dos deuses, mesmo depois de provar valor incontestável, a ferida primordial permanece. Em uma versão do mito, Hefesto cria um trono mágico para Hera, que a aprisiona quando a deusa se senta. Somente o filho pode libertá-la. Esse trono é mais do que vingança, é uma pergunta materializada: "Há visão agora? Há reconhecimento da necessidade?" É a eterna busca por validação daqueles que primeiro rejeitaram, mesmo quando a razão diz que essa validação não deveria mais importar. Aqui se toca em uma verdade dolorosa sobre os círculos familiares disfuncionais: raramente há abandono completo. Carregam-se as marcas como Hefesto carrega o corpo imperfeito. Podem ser construídos novos círculos, famílias escolhidas que nutrem e celebram, mas o fantasma daquele primeiro círculo – o círculo que formou através de presença ou ausência – assombra as forjas interiores. Hefesto cria maravilhas, mas será que algum objeto forjado pode preencher o vazio deixado pelo abraço materno que nunca foi recebido?

            A filosofia existencialista diria que Hefesto deve encontrar significado não apesar da queda, mas através dela. A essência não foi determinada ao nascer quando Hera julgou a criança imperfeita, a essência foi forjada – literalmente – em cada martelada, em cada criação que emergiu das mãos habilidosas. Sartre afirmaria que Hefesto é livre para definir-se além das circunstâncias de nascimento e rejeição. A queda não destruiu, foi o catalisador para tornar-se quem realmente é. Mas há também uma leitura mais sombria e igualmente válida. Hefesto permanece preso em um círculo de necessidade e rejeição. Os deuses requisitam constantemente – precisam das armas, dos palácios, dos ornamentos – mas genuinamente incluem o ferreiro em seu círculo? Quando festejam no Olimpo, Hefesto é o trabalhador, o útil, o necessário, mas será verdadeiramente amado? Há uma tragédia em ser indispensável sem ser insubstituível no coração de alguém. A utilidade garante a presença, mas não necessariamente o pertencimento afetivo.

            Essa dinâmica espelha muitas realidades familiares contemporâneas, onde indivíduos desempenham papéis funcionais – o provedor, o cuidador, o mediador – sem jamais experimentar a aceitação incondicional que se imagina ser a essência da família. Hefesto fabrica as correntes que prendem Prometeu, as armas que determinam vitórias e derrotas, o próprio trono de Zeus. O deus é o arquiteto da infraestrutura divina, mas permanece emocionalmente à margem, o trabalhador solitário em sua forja, separado do banquete. Aqui vale considerar o casamento de Hefesto com Afrodite, a deusa da beleza, orquestrado por Zeus como compensação – uma tentativa paternal tardia de integrar Hefesto ao círculo olímpico através de laços matrimoniais. Mas esse casamento está fadado desde o início. Afrodite, representando tudo que é belo e desejável, trai Hefesto com Ares, o deus da guerra, que personifica a perfeição física e marcial que Hefesto nunca possuirá. Quando o ferreiro descobre a traição e cria uma rede invisível para capturar os amantes em flagrante, expondo-os aos outros deuses, está novamente fazendo a pergunta: "Há visão agora? Há compreensão da dor?"

            A humilhação de Afrodite e Ares perante os deuses reunidos deveria ser o momento de vindicação de Hefesto, mas em vez disso, os deuses riem. Riem dos amantes capturados, sim, mas também da ingenuidade de Hefesto ao pensar que poderia prender a beleza através da inteligência e habilidade. É um momento devastador que revela a cruel verdade: dentro de certos círculos familiares e sociais, alguns sempre serão outsiders, não importa quão habilidosos se tornem, não importa quantas maravilhas criem. O valor instrumental nunca se traduz automaticamente em valor intrínseco aos olhos daqueles que julgam pela superfície. Todavia, seria reducionista interpretar Hefesto apenas como vítima. Há poder na forja, poder na capacidade de criar. Quando se considera que o deus fabrica tanto os prazeres quanto as punições dos deuses – as armas que matam, os ornamentos que adornam, as correntes que aprisionam – reconhece-se que Hefesto detém um tipo diferente de poder. Não o poder da beleza ou da força bruta, mas o poder da criação, da transformação, da materialização de possibilidades. Nas mãos defeituosas, o impossível torna-se tangível.

            Essa capacidade criativa nascida da exclusão fala sobre resiliência, mas também sobre o preço da resiliência. Hefesto transforma a dor em arte, a raiva em criação, mas permanece fundamentalmente sozinho na forja. A autossuficiência forçada pela rejeição familiar é admirável, mas não deveria ser necessária. Idealmente, os círculos familiares deveriam permitir o tornar-se com apoio, não apesar da ausência dele. Filosoficamente, isso leva a questionar a própria natureza do pertencimento. Há pertencimento a um círculo porque se torna útil a ele? Porque há conformação aos padrões de aceitabilidade? Ou pertencimento verdadeiro significa ser visto, conhecido e amado na totalidade, incluindo – especialmente – as imperfeições? Hefesto força o confronto com a possibilidade de que muitos círculos familiares operam no primeiro modelo, quando deveriam aspirar ao segundo. A resolução, se é que existe alguma na história de Hefesto, não é simples reconciliação ou aceitação final. É algo mais complexo e verdadeiro: é a convivência perpétua com a ambiguidade. Hefesto permanece no Olimpo, continua criando para os deuses, mantém relações com aqueles que rejeitaram e traíram, mas também mantém a forja, o espaço separado onde há soberania. O deus habita simultaneamente dentro e fora do círculo familiar, pertencendo sem pertencer completamente, presente, mas preservando uma distância protetora.

            Talvez essa seja a sabedoria mais profunda que Hefesto oferece: a aceitação de que pode haver permanência em relação com círculos familiares imperfeitos sem deixar-se definir completamente por esses círculos. Podem ser honradas as origens enquanto se reconhecem as limitações. Pode haver continuidade na criação de beleza e significado não porque houve amor perfeito, mas porque há escolha de transformar a imperfeição da queda em combustível para a forja interior. O fogo que consome pode ser o mesmo fogo que permite criar. A queda que deveria destruir pode ser o impulso que ensina a voar de maneiras que os rejeitadores jamais imaginaram possíveis.

 

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