O FOGO DA FORJA E
OS CÍRCULOS DO PERTENCIMENTO
REFLEXÕES SOBRE
HEFESTO E A FAMÍLIA
Por Heitor Jorge Lau
Existe uma
dor particular em ser rejeitado por aqueles que deveriam amar
incondicionalmente ou pouco amar. Hefesto, o deus grego do fogo e da
metalurgia, conhece essa dor de maneira visceral. A história começa com uma
queda – literal e metafórica – quando Hera, a própria mãe, ao ver o filho
nascer com imperfeições físicas, lança a criança do Monte Olimpo. Essa imagem
primordial do filho sendo atirado do céu pela mãe que o gerou contém uma
verdade filosófica profunda sobre a natureza dos círculos familiares e o
paradoxo doloroso do pertencimento. A queda de Hefesto não é apenas uma
narrativa mitológica, é uma metáfora existencial sobre como os círculos mais
íntimos podem ser simultaneamente os mais cruéis. A expectativa sobre a família
é de um círculo de proteção, um espaço onde a vulnerabilidade encontra
acolhimento, onde as imperfeições são abraçadas com ternura. No entanto, é
precisamente nesse círculo que muitas vezes se experimentam as rejeições mais
devastadoras. Hefesto cai durante dias, atravessando camadas de céu, até
encontrar o oceano – um batismo involuntário em solidão, uma iniciação forçada na
realidade de que mesmo os deuses podem ser indesejados em seus próprios lares.
O que torna
a história de Hefesto filosoficamente rica é que o deus não permanece na
amargura da queda. Em vez disso, encontra refúgio com Tétis, a ninfa marinha,
que o acolhe nas profundezas do oceano. Aqui reside uma verdade fundamental
sobre os círculos familiares: não são determinados exclusivamente pelo sangue.
Tétis cria um novo círculo ao redor de Hefesto, um círculo escolhido, onde a
presença é desejada não apesar das diferenças, mas simplesmente por ser. Nessa
gruta submarina, longe da perfeição imaculada do Olimpo, Hefesto aprende a
arte, forjando objetos de beleza incomparável. A família que rejeitou empurrou
o deus para encontrar aqueles que verdadeiramente o veriam. Aqui emerge uma
reflexão sobre a natureza concêntrica dos círculos familiares. Ao imaginar a
existência humana como uma série de círculos expandindo-se a partir do núcleo
do self, o círculo mais interno deveria ser a família de origem – pais, irmãos,
aqueles ligados pelo acaso da genética. Mas a história de Hefesto ensina que
esse círculo inicial pode estar quebrado, malformado, insuficiente para conter
toda a complexidade do que se é (do que é a vida). Quando isso acontece, quando
há o lançamento para fora desse primeiro círculo, surge uma escolha
existencial: definhar na queda eterna ou construir novos círculos, forjar novas
conexões.
A forja de
Hefesto torna-se então um símbolo poderoso. No calor extremo, o deus transforma
materiais brutos em arte. Não é coincidência que o deus rejeitado por sua
aparência se torne o artífice supremo da beleza. Há uma alquimia filosófica
nisso: a dor da rejeição familiar, quando não destrói, pode transformar em
criadores. Hefesto pega o metal frio e insensível e, através do fogo – o
próprio fogo interior, a raiva transformada, a dor refinada – cria maravilhas
que até os deuses perfeitos cobiçam. O deus constrói palácios, armas, joias que
transcendem qualquer coisa que a família original poderia ter oferecido. Essa
capacidade de criar beleza a partir da rejeição leva a uma compreensão mais
profunda sobre autonomia dentro dos círculos familiares. Hefesto não espera ser
aceito... torna-se indispensável. Quando finalmente retorna ao Olimpo, não
volta como o filho suplicante buscando aprovação materna, mas como o mestre
artesão cujas habilidades todos necessitam. O deus redefine os termos de seu
pertencimento. Não é mais uma questão de ser tolerado apesar das imperfeições,
mas de ser respeitado pelas capacidades únicas, nascidas precisamente dessas
diferenças que uma vez o tornaram indesejável.
Contudo, a
narrativa de Hefesto não é uma simples história de superação e triunfo. Existe
uma complexidade dolorosa no relacionamento contínuo com Hera. Mesmo depois de
se tornar o ferreiro dos deuses, mesmo depois de provar valor incontestável, a
ferida primordial permanece. Em uma versão do mito, Hefesto cria um trono
mágico para Hera, que a aprisiona quando a deusa se senta. Somente o filho pode
libertá-la. Esse trono é mais do que vingança, é uma pergunta materializada:
"Há visão agora? Há reconhecimento da necessidade?" É a eterna busca
por validação daqueles que primeiro rejeitaram, mesmo quando a razão diz que
essa validação não deveria mais importar. Aqui se toca em uma verdade dolorosa
sobre os círculos familiares disfuncionais: raramente há abandono completo.
Carregam-se as marcas como Hefesto carrega o corpo imperfeito. Podem ser
construídos novos círculos, famílias escolhidas que nutrem e celebram, mas o
fantasma daquele primeiro círculo – o círculo que formou através de presença ou
ausência – assombra as forjas interiores. Hefesto cria maravilhas, mas será que
algum objeto forjado pode preencher o vazio deixado pelo abraço materno que
nunca foi recebido?
A filosofia
existencialista diria que Hefesto deve encontrar significado não apesar da
queda, mas através dela. A essência não foi determinada ao nascer quando Hera
julgou a criança imperfeita, a essência foi forjada – literalmente – em cada
martelada, em cada criação que emergiu das mãos habilidosas. Sartre afirmaria
que Hefesto é livre para definir-se além das circunstâncias de nascimento e
rejeição. A queda não destruiu, foi o catalisador para tornar-se quem realmente
é. Mas há também uma leitura mais sombria e igualmente válida. Hefesto
permanece preso em um círculo de necessidade e rejeição. Os deuses requisitam
constantemente – precisam das armas, dos palácios, dos ornamentos – mas
genuinamente incluem o ferreiro em seu círculo? Quando festejam no Olimpo,
Hefesto é o trabalhador, o útil, o necessário, mas será verdadeiramente amado?
Há uma tragédia em ser indispensável sem ser insubstituível no coração de
alguém. A utilidade garante a presença, mas não necessariamente o pertencimento
afetivo.
Essa
dinâmica espelha muitas realidades familiares contemporâneas, onde indivíduos
desempenham papéis funcionais – o provedor, o cuidador, o mediador – sem jamais
experimentar a aceitação incondicional que se imagina ser a essência da
família. Hefesto fabrica as correntes que prendem Prometeu, as armas que
determinam vitórias e derrotas, o próprio trono de Zeus. O deus é o arquiteto
da infraestrutura divina, mas permanece emocionalmente à margem, o trabalhador
solitário em sua forja, separado do banquete. Aqui vale considerar o casamento
de Hefesto com Afrodite, a deusa da beleza, orquestrado por Zeus como
compensação – uma tentativa paternal tardia de integrar Hefesto ao círculo
olímpico através de laços matrimoniais. Mas esse casamento está fadado desde o
início. Afrodite, representando tudo que é belo e desejável, trai Hefesto com
Ares, o deus da guerra, que personifica a perfeição física e marcial que
Hefesto nunca possuirá. Quando o ferreiro descobre a traição e cria uma rede
invisível para capturar os amantes em flagrante, expondo-os aos outros deuses,
está novamente fazendo a pergunta: "Há visão agora? Há compreensão da
dor?"
A
humilhação de Afrodite e Ares perante os deuses reunidos deveria ser o momento
de vindicação de Hefesto, mas em vez disso, os deuses riem. Riem dos amantes
capturados, sim, mas também da ingenuidade de Hefesto ao pensar que poderia
prender a beleza através da inteligência e habilidade. É um momento devastador
que revela a cruel verdade: dentro de certos círculos familiares e sociais,
alguns sempre serão outsiders, não importa quão habilidosos se tornem, não
importa quantas maravilhas criem. O valor instrumental nunca se traduz
automaticamente em valor intrínseco aos olhos daqueles que julgam pela
superfície. Todavia, seria reducionista interpretar Hefesto apenas como vítima.
Há poder na forja, poder na capacidade de criar. Quando se considera que o deus
fabrica tanto os prazeres quanto as punições dos deuses – as armas que matam,
os ornamentos que adornam, as correntes que aprisionam – reconhece-se que
Hefesto detém um tipo diferente de poder. Não o poder da beleza ou da força
bruta, mas o poder da criação, da transformação, da materialização de
possibilidades. Nas mãos defeituosas, o impossível torna-se tangível.
Essa
capacidade criativa nascida da exclusão fala sobre resiliência, mas também
sobre o preço da resiliência. Hefesto transforma a dor em arte, a raiva em
criação, mas permanece fundamentalmente sozinho na forja. A autossuficiência
forçada pela rejeição familiar é admirável, mas não deveria ser necessária.
Idealmente, os círculos familiares deveriam permitir o tornar-se com apoio, não
apesar da ausência dele. Filosoficamente, isso leva a questionar a própria
natureza do pertencimento. Há pertencimento a um círculo porque se torna útil a
ele? Porque há conformação aos padrões de aceitabilidade? Ou pertencimento
verdadeiro significa ser visto, conhecido e amado na totalidade, incluindo –
especialmente – as imperfeições? Hefesto força o confronto com a possibilidade
de que muitos círculos familiares operam no primeiro modelo, quando deveriam
aspirar ao segundo. A resolução, se é que existe alguma na história de Hefesto,
não é simples reconciliação ou aceitação final. É algo mais complexo e
verdadeiro: é a convivência perpétua com a ambiguidade. Hefesto permanece no
Olimpo, continua criando para os deuses, mantém relações com aqueles que
rejeitaram e traíram, mas também mantém a forja, o espaço separado onde há
soberania. O deus habita simultaneamente dentro e fora do círculo familiar,
pertencendo sem pertencer completamente, presente, mas preservando uma
distância protetora.
Talvez essa
seja a sabedoria mais profunda que Hefesto oferece: a aceitação de que pode
haver permanência em relação com círculos familiares imperfeitos sem deixar-se
definir completamente por esses círculos. Podem ser honradas as origens
enquanto se reconhecem as limitações. Pode haver continuidade na criação de
beleza e significado não porque houve amor perfeito, mas porque há escolha de
transformar a imperfeição da queda em combustível para a forja interior. O fogo
que consome pode ser o mesmo fogo que permite criar. A queda que deveria
destruir pode ser o impulso que ensina a voar de maneiras que os rejeitadores
jamais imaginaram possíveis.

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