OPINIÃO NÃO
SUBSTITUI CONHECIMENTO
por Heitor Jorge Lau
Há
alguns dias, ouvi novamente uma daquelas afirmações que, de tão absurdas, fazem
qualquer pessoa minimamente comprometida com o conhecimento parar para
refletir. Não era a primeira vez. Ao longo dos anos, já escutei quem dissesse
que o efeito estufa é uma invenção, que o aquecimento global não existe, que o
aumento do nível dos oceanos é uma fantasia e que o degelo das calotas polares
não passa de propaganda. Desta vez, porém, alguém foi além: afirmou, com
absoluta convicção, que a La Niña simplesmente não existe. Confesso que a
preocupação não está apenas na ignorância da afirmação, mas na facilidade com
que esse tipo de discurso encontra ouvintes dispostos a aceitá-lo sem qualquer
questionamento. É justamente sobre esse fenômeno — o da opinião travestida de
conhecimento — que proponho a reflexão a seguir.
Vivemos
em uma época curiosa. Nunca houve tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo,
nunca foi tão fácil transformar opinião em aparente verdade. Basta abrir um
canal na internet, falar com convicção e, em poucos minutos, conquistar
seguidores dispostos a aceitar qualquer afirmação como se fosse resultado de
décadas de pesquisa. É justamente nesse ponto que nasce um dos maiores
problemas do nosso tempo: a especulação sem estudo. Opinar faz parte da
liberdade de expressão; negar fatos amplamente investigados pela ciência sem
apresentar evidências consistentes é apenas um exercício de crença pessoal.
Crenças podem orientar escolhas individuais, mas não alteram o funcionamento da
natureza.
Afirmar
que o efeito estufa não existe, que o nível dos oceanos não está mudando, que a
temperatura média do planeta não apresenta tendência de aumento ou que
fenômenos climáticos como a El Niño e a La Niña são invenções é ignorar
milhares de estudos produzidos por pesquisadores de diferentes países,
utilizando satélites, boias oceânicas, estações meteorológicas, medições de
campo e análises estatísticas acumuladas ao longo de muitas décadas. A ciência
não se sustenta pela autoridade de uma pessoa, mas pela repetição dos
resultados, pela crítica permanente e pela possibilidade de outros
pesquisadores confirmarem ou contestarem as conclusões.
A
La Niña, por exemplo, está longe de ser uma teoria conspiratória. Trata-se de
um fenômeno climático caracterizado pelo resfriamento anormal das águas
superficiais da região central e leste do Oceano Pacífico Equatorial. Esse
resfriamento modifica a circulação dos ventos e da atmosfera, alterando o
regime de chuvas e as temperaturas em diversas partes do planeta. No Brasil,
seus efeitos variam conforme a região, podendo favorecer períodos de estiagem
em alguns locais e chuvas acima da média em outros.
Isso
não significa que toda seca ou toda enchente seja causada exclusivamente pela
La Niña. O clima é um sistema extremamente complexo, influenciado por diversos
fatores que interagem simultaneamente. A ciência, justamente por reconhecer
essa complexidade, evita explicações simplistas e conclusões apressadas. Confiar
mais em um influenciador do que em milhares de pesquisadores independentes não
é sinal de espírito crítico; muitas vezes, é apenas trocar um método rigoroso
por uma narrativa conveniente. O verdadeiro pensamento crítico não consiste em
rejeitar a ciência, mas em compreender como ela produz conhecimento, como
corrige seus próprios erros e por que suas conclusões possuem graus diferentes
de confiança conforme as evidências disponíveis.
Quem
realmente deseja compreender o mundo precisa distinguir opinião de
conhecimento. Especulação sem estudo produz debates intermináveis. Conhecimento
construído com método produz explicações cada vez mais precisas. Dar o mesmo
peso a ambos não representa equilíbrio; representa apenas confundir convicção
com evidência. Afinal, quem pretende ensinar como o mundo funciona deve, antes
de tudo, demonstrar que estudou seriamente o mundo que pretende explicar. Estudar
muito!

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