Uma análise científica do vínculo interpessoal
sob a perspectiva da psicologia evolutiva, neurociência e filosofia do sujeito
Por Heitor Jorge Lau
Prefácio Epistemológico
Antes de qualquer coisa, é necessário estabelecer o solo sobre o qual este texto pretende caminhar. A palavra "amizade" funciona como aquilo que na Semiótica Peirceana chamamos de símbolo: um signo arbitrário, cuja relação com o referente não é causal nem icônica, mas puramente convencional. Isso significa que, antes mesmo de investigarmos se a amizade existe no plano da realidade, já nos deparamos com uma dificuldade estrutural: estamos perseguindo algo que, no plano da linguagem, já nasce vago. Wittgenstein, nas Investigações Filosóficas, advertia que os limites da nossa linguagem são os limites do nosso mundo. Se o conceito de amizade é impreciso, poroso e culturalmente variável, há uma boa chance de que o que chamamos por esse nome não seja uma coisa, mas muitas coisas — ou talvez nenhuma coisa com substância própria.
A proposta deste estudo não é nihilista no sentido sentimental do termo. Não se trata de uma proclamação de cinismo barato ou de uma tentativa de destruir experiências que, fenomenologicamente, as pessoas descrevem como reais e significativas. A proposta é cirúrgica: examinar o que de fato ocorre quando dois ou mais seres humanos constroem aquilo que convencionalmente chamam de amizade, e verificar se, retiradas as camadas de romantização cultural, resta algum substrato que justifique o uso de uma categoria tão nobre quanto essa. A conclusão antecipada — e que será sustentada ao longo deste texto por evidências oriundas de múltiplas disciplinas — é que a amizade, como categoria ontológica autônoma, não existe. O que existe são configurações temporárias de interesse mútuo, mediadas por neurobiologia, moldadas por contexto e dissolvidas quando as condições que as sustentavam se alteram.
O QUE A EVOLUÇÃO REALMENTE FEZ COM O SER HUMANO
Para compreender por que os vínculos humanos são estruturalmente interesseiros, é preciso começar onde tudo começa: na biologia evolutiva. O ser humano é um animal social não porque o amor fraterno foi inscrito em seu DNA por alguma força benevolente, mas porque a sociabilidade, ao longo de milhões de anos, mostrou-se uma estratégia adaptativa superior ao isolamento. Em outras palavras, nossos ancestrais que cooperavam sobreviviam mais, reproduziam-se mais e, consequentemente, transmitiram mais eficientemente seus genes às gerações seguintes. A cooperação, portanto, não é uma virtude moral — é uma ferramenta de sobrevivência que a seleção natural poliu durante eras.
Richard Dawkins, em O Gene Egoísta, oferece uma das formulações mais provocadoras e rigorosas sobre esse ponto. Para Dawkins, o organismo individual não passa de uma "máquina de sobrevivência" construída pelos genes para perpetuar a si mesmos. Nesse quadro, qualquer comportamento aparentemente altruísta pode ser reinterpretado como altruísmo recíproco — um conceito elaborado por Robert Trivers em 1971 — no qual o indivíduo aparentemente "dá" algo ao outro porque, em algum momento presente ou futuro, espera receber algo equivalente ou superior em troca. Não se trata de um cálculo consciente e maquiavélico. É um mecanismo profundamente inconsciente, gravado na arquitetura neural de qualquer primata social. A formiga que carrega alimento para o formigueiro não age por amizade à colônia — age porque sua biologia a compele a agir assim, e qualquer narrativa que ela construísse sobre "amizade" com suas companheiras seria uma ficção sobreposta a um processo puramente funcional.
A analogia com o ser humano é mais desconfortável, mas não menos precisa. Quando alguém descreve uma "amizade verdadeira", o que frequentemente está descrevendo é uma relação em que o custo de manutenção do vínculo é compensado pelos benefícios que dele derivam: suporte emocional, acesso a recursos, ampliação de rede social, validação identitária, segurança psicológica. Quando esses benefícios cessam — ou quando os custos superam os retornos — o vínculo se dissolve com uma naturalidade que, em retrospecto, revela sua verdadeira natureza. A amizade, nesse sentido, funciona como um contrato não escrito, sujeito a rescisão tácita quando as cláusulas implícitas deixam de ser cumpridas.
A NEUROCIÊNCIA DO VÍNCULO
O QUE ACONTECE NO CÉREBRO QUANDO ACREDITAMOS SENTIR AMIZADE POR ALGUÉM
A neurociência contemporânea, longe de romantizar os vínculos humanos, oferece uma descrição surpreendentemente mecânica do que ocorre quando duas pessoas estabelecem uma relação próxima. O sistema de recompensa cerebral — estruturado em torno do Núcleo Accumbens, da área tegmental ventral e de circuitos dopaminérgicos bem mapeados — responde à presença de indivíduos com os quais temos vínculos da mesma forma que responde a outros estímulos prazerosos: liberando dopamina, oxitocina e serotonina, criando um estado de bem-estar que o organismo passa a buscar repetidamente.
Aqui reside um ponto crucial: o que chamamos de "gostar de alguém" é, em grande medida, gostar de como aquela pessoa nos faz sentir. A distinção pode parecer sutil, mas é filosoficamente devastadora. Não amamos a pessoa — amamos o estado neuroquímico que a presença daquela pessoa induz em nós. A pessoa, nesse esquema, é um vetor, um instrumento bioquímico que aciona em nós uma resposta que nosso cérebro classifica como positiva. Quando esse vetor deixa de produzir esse efeito — seja porque mudamos, porque ela mudou, porque as circunstâncias se alteraram — o vínculo perde sua razão de ser do ponto de vista neurobiológico.
Helen Fisher, neurocientista que dedicou décadas ao estudo do apego humano, demonstrou em pesquisas com neuroimagem funcional que os padrões de ativação cerebral associados à amizade intensa são notavelmente similares aos padrões de dependência química. O cérebro de alguém que perdeu um amigo próximo ativa regiões associadas à síndrome de abstinência. Isso não eleva o vínculo a uma categoria transcendente — ao contrário, confirma que estamos lidando com um fenômeno biológico de dependência mútua temporária, cuja dissolução produz sintomas de privação. Uma pessoa que rompe uma amizade não está perdendo uma verdade metafísica — está passando por um processo de desintoxicação neurobiológica.
Ainda nesse plano, vale observar o papel da oxitocina, frequentemente chamada de "hormônio do amor" pela mídia popular, mas que a literatura científica descreve com muito mais ambiguidade. Pesquisas conduzidas por Carsten de Dreu e colaboradores demonstraram que a oxitocina não promove amizade universal — ela promove amizade paroquial. Ela aumenta a coesão dentro do grupo ao mesmo tempo em que intensifica a desconfiança e até a agressividade em relação a quem está fora do grupo. Em outras palavras, o mesmo mecanismo que nos faz sentir próximos de alguns é o que nos distancia de outros. A amizade, nesse sentido biológico, é inseparável da exclusão — e ambas servem ao mesmo propósito evolutivo de demarcar aliados e adversários.
A PSICOLOGIA SOCIAL E A CIRCUNSTANCIALIDADE DOS VÍNCULOS
A psicologia social acumulou, ao longo do século XX e início do XXI, um conjunto robusto de evidências que corroboram a tese da circunstancialidade dos vínculos. Um dos fenômenos mais estudados nesse campo é o chamado Efeito de Mera Exposição, descrito por Robert Zajonc nos anos 1960: tendemos a gostar mais de estímulos — incluindo pessoas — simplesmente porque os encontramos com mais frequência. Não há nada de sublime nesse processo. É um viés cognitivo. A amizade nasce, com muita frequência, da proximidade física — colegas de trabalho, vizinhos, companheiros de escola — e não de alguma afinidade essencial e profunda entre duas almas. Quando a proximidade cessa, o vínculo tende a enfraquecer com uma regularidade que as ciências sociais documentaram exaustivamente.
Leon Festinger, Stanley Schachter e Kurt Back, em seu clássico estudo sobre os conjuntos habitacionais do MIT na década de 1950, demonstraram que a formação de amizades entre estudantes era prevista, com notável precisão, pela distância física entre os apartamentos. Não pela compatibilidade de personalidade, não por valores compartilhados, não por experiências comuns — pela distância em metros entre as portas. Isso é particularmente revelador porque sugere que a maioria das amizades que as pessoas consideram significativas poderia simplesmente não ter existido se as coordenadas geográficas tivessem sido outras. A amizade, portanto, é em grande parte um acidente topográfico.
Soma-se a isso o fenômeno descrito por Mark Granovetter em sua influente pesquisa sobre a força dos laços fracos: em termos de utilidade social concreta — como encontrar empregos, acessar informações, construir trajetórias — os laços fracos (conhecidos superficiais) frequentemente superam os laços fortes (amizades profundas) em termos de impacto real na vida das pessoas. Isso subverte a narrativa popular de que a amizade profunda é o tipo mais valioso de conexão humana. Do ponto de vista funcional, o que as pessoas chamam de amizade íntima pode ser, paradoxalmente, menos útil do que uma rede ampla de relações instrumentais moderadas.
A teoria da troca social, formulada por George Homans e posteriormente desenvolvida por Peter Blau, oferece um modelo ainda mais diretamente relacionado à essa tese. Segundo essa teoria, as relações interpessoais são fundamentalmente transacionais: as pessoas avaliam, consciente ou inconscientemente, os custos e benefícios de manter cada relação, e tendem a preservar aquelas cujo saldo é positivo e a abandonar aquelas cujo saldo se torna negativo. A amizade, nesse modelo, não é diferente de qualquer outra forma de troca econômica — apenas utiliza uma moeda mais difusa e socialmente aceitável: atenção, afeto, tempo, apoio.
A FILOSOFIA DO SUJEITO E A IMPOSSIBILIDADE DO OUTRO
Mas há ainda um nível mais profundo de análise, que transcende as ciências empíricas e adentra o território da filosofia. Jean-Paul Sartre, em O Ser e o Nada, argumentou que a relação entre dois sujeitos é estruturalmente conflituosa: ao olhar o outro, objetifico-o; ao ser olhado pelo outro, sou objetificado. Cada sujeito ameaça a liberdade do outro simplesmente por existir como consciência. Nesse quadro, qualquer tentativa de fusão genuína entre duas subjetividades — que é o que a amizade profunda pretende ser — está condenada ao fracasso ontológico. Não é possível verdadeiramente conhecer o outro; o que conhecemos é sempre uma representação, uma projeção, uma construção que realizamos a partir de dados incompletos e filtrados pela nossa própria subjetividade.
Emmanuel Levinas tentou escapar dessa aporia sartreana ao postular a radical alteridade do Outro — o rosto do outro como apelo ético irredutível. Mas mesmo a filosofia levinasiana, ao insistir na absoluta diferença do outro, inadvertidamente confirma essa tese: se o outro é radicalmente outro, então a comunhão que a amizade supõe — um encontro genuíno entre dois eus — é uma ilusão. O que existe é um eu confrontado pela presença opaca de uma alteridade que nunca pode ser plenamente compreendida.
Jacques Lacan, por sua vez, ao deslocar o sujeito do centro da consciência e situá-lo no campo da linguagem e do desejo, fornece ferramentas para entender por que as relações humanas são estruturalmente insatisfatórias. Para Lacan, o desejo é sempre desejo do desejo do Outro — ou seja, o que buscamos nas relações não é o outro em si, mas o reconhecimento que o outro nos confere. A amizade, nesse esquema, é uma busca de espelhamento, validação, confirmação da própria existência e valor. Não amamos o amigo — precisamos que ele nos ame para sustentar nossa própria ficção identitária. Quando ele deixa de desempenhar essa função especular, a "amizade" perde sua razão de ser.
A DISSOLUÇÃO DOS VÍNCULOS COMO EVIDÊNCIA DA SUA NATUREZA
Se existe uma prova empírica da tese da inexistência da amizade como categoria autônoma e transcendente, ela está na frequência e na naturalidade com que os vínculos se dissolvem quando as circunstâncias que os sustentavam se alteram. Estudos longitudinais sobre redes sociais — como os conduzidos por Gerald Mollenhorst e colaboradores na Universidade de Utrecht, acompanhando redes de amizade ao longo de sete anos — demonstraram que aproximadamente metade das pessoas que os indivíduos consideram "amigos próximos" em determinado momento deixam de fazer parte ativa de suas vidas sete anos depois. Não por conflito, não por traição, não por qualquer ruptura dramática — simplesmente porque as circunstâncias mudaram, os contextos se alteraram, e o custo de manutenção do vínculo superou os benefícios percebidos.
Isso é perfeitamente consistente com a tese que estou desenvolvendo. Se a amizade fosse uma realidade ontológica robusta — algo com substância própria, independente das circunstâncias — ela resistiria às mudanças contextuais com muito mais firmeza do que os dados demonstram. O que os dados mostram é que a amizade é extraordinariamente sensível ao contexto, à proximidade, à utilidade mútua e ao custo de manutenção. Ela se comporta, em suma, exatamente como um interesse circunstancial se comportaria — e não como uma verdade perene se comportaria.
A analogia com o clima é pertinente: podemos chamar de "bom tempo" a combinação de fatores atmosféricos que produz céu claro, temperatura agradável e ausência de vento. Mas "bom tempo" não é uma coisa — é uma configuração temporária de variáveis físicas que, assim que se alteram, dissolvem aquilo que chamávamos por esse nome. Da mesma forma, "amizade" não é uma coisa — é uma configuração temporária de variáveis psicossociais, neurobiológicas e circunstanciais que, ao se dissolverem, revelam que nunca houve ali nada além de uma convergência momentânea de interesses e condições.
A FUNÇÃO CULTURAL DO MITO DA AMIZADE
Se a amizade não existe como substância autônoma, por que o mito de sua existência é tão universal e tão persistente? Aqui a antropologia e a sociologia oferecem respostas complementares. Émile Durkheim argumentou que as sociedades necessitam de narrativas de coesão — representações coletivas que criem senso de pertencimento e solidariedade entre indivíduos que, de outro modo, seriam movidos apenas por interesses particulares fragmentadores. A amizade, como narrativa cultural, cumpre essa função: ela romantiza e nobilita o que é, em sua estrutura profunda, uma rede de reciprocidades interesseiras, tornando-a socialmente sustentável e moralmente palatável.
Uma sociedade que reconhecesse abertamente que todas as relações são transacionais e circunstanciais provavelmente sofreria de uma erosão na coesão social que lhe seria prejudicial. O mito da amizade — como o mito do altruísmo puro — é uma narrativa funcional que lubrifica as engrenagens da cooperação social ao revestir de significado transcendente o que é, em sua raiz, um mecanismo adaptativo de reciprocidade. Acreditamos na amizade porque a crença na amizade nos torna cooperativos, e a cooperação nos torna mais bem-sucedidos como espécie. É uma ilusão funcional — o que os filósofos, seguindo Nietzsche e Vaihinger, chamam de ficção útil.
O QUE RESTA QUANDO RETIRAMOS A FICÇÃO
Ao final deste percurso dentre a biologia evolutiva, neurociência, psicologia social e filosofia do sujeito, o que resta quando retiramos a ficção culturalmente construída chamada "amizade"? Restam seres humanos fundamentalmente solitários, movidos por necessidades biológicas e psicológicas que os impelem a buscar nos outros o que não conseguem encontrar em si mesmos. Restam vínculos que nascem da proximidade, são sustentados pela utilidade mútua, e se dissolvem quando as condições que os geraram se alteram. Resta a evidência de que o que chamamos de amizade é, em sua estrutura mais honesta, um sistema de trocas recíprocas temporárias — sofisticado, matizado, frequentemente inconsciente, mas transacional em sua essência.
Isso não é necessariamente uma tragédia. Reconhecer a natureza real dos vínculos humanos pode ser o primeiro passo para habitá-los com mais lucidez e menos decepção. A ilusão da amizade eterna e incondicional gera expectativas que, inevitavelmente, colidem com a realidade da sua contingência. Compreender que o outro está conosco enquanto as condições assim o permitirem — e que nós estamos com o outro pela mesma razão — não destrói o valor da experiência compartilhada. Apenas a reposiciona: do plano do eterno para o plano do presente. Do mito para o fato. Da ficção útil para a realidade navegável. A amizade, como tantas outras palavras que a sociedade usa para descrever o inefável da experiência humana, é um símbolo que aponta para algo que nunca conseguimos plenamente capturar. E talvez seja precisamente porque não existe — não como substância, não como verdade permanente, não como essência — que continuamos, obstinadamente, a buscá-la.

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