quinta-feira, 20 de agosto de 2026

PRODUTIVIDADE E O MITO DO TRABALHADOR QUE PRECISA TRABALHAR MAIS

PRODUTIVIDADE

E O MITO DO TRABALHADOR QUE PRECISA TRABALHAR MAIS

por Heitor Jorge Lau

Psicanalista e Analista de Recursos Humanos

            Poucas palavras são tão mal compreendidas no Brasil quanto produtividade. No senso comum brasileiro, "produtividade" costuma ser entendida como trabalhar mais, correr mais, fazer hora extra, não parar, responder mensagens à noite, acumular tarefas e manter-se constantemente ocupado. O próprio texto demonstra que essa concepção é equivocada. Produtividade não significa aumentar a quantidade de esforço... significa aumentar o resultado obtido por cada hora de esforço. Um pedreiro com uma pá e um carrinho de mão pode trabalhar dez horas e produzir menos do que outro que trabalhe seis horas utilizando betoneira, elevador de carga, ferramentas modernas e materiais adequados. O segundo é mais produtivo, embora trabalhe menos. O aumento da produtividade está relacionado muito mais à qualidade do ambiente produtivo do que à intensidade do esforço individual.

            Para entender a produtividade é preciso voltar a uma época em que o trabalho não era medido em horas, mas em tarefas. Numa aldeia europeia de 1780, ninguém cumpria “turno”: as pessoas ordenhavam, plantavam, consertavam cercas, buscavam água e realizavam outras atividades até que as tarefas terminassem. O dia começava com a luz e terminava com o sol. No inverno, quando a terra congelava e a produção diminuía drasticamente, o trabalho praticamente parava. O historiador Edward Thompson chamou essa lógica de “orientação pela tarefa”: o ritmo era ditado pela natureza e pela necessidade, não pelo relógio. À primeira vista, esse modo de vida pode parecer mais humano e menos apressado. A pausa forçada do inverno, entretanto, não representava necessariamente descanso. Representava fome. Quando a despensa esvaziava, restava esperar que os estoques fossem suficientes para atravessar a estação até a chegada da primavera.

            A diferença entre aquela realidade e o cotidiano contemporâneo é extraordinária. Hoje, uma pessoa comum pode consumir, em poucos minutos, produtos que atravessaram continentes: lençóis fabricados na China, televisores produzidos na Coreia do Sul, telas fabricadas em Singapura e informações transmitidas instantaneamente por servidores espalhados pelo mundo. Por trás desse padrão de vida existe uma enorme quantidade de trabalho humano, máquinas, energia, conhecimento, infraestrutura e organização. Há até uma forma de dimensionar essa transformação em termos de energia: estima-se que uma pessoa consuma, em média, cerca de 2.500 watts, enquanto um ciclista em boa forma consegue gerar aproximadamente 50 watts de potência física. A comparação ajuda a compreender a dimensão da infraestrutura produtiva que sustenta o padrão de vida contemporâneo. Transportado de volta para 1780, o indivíduo moderno perderia instantaneamente boa parte das condições que hoje considera elementares e ficaria novamente exposto à fome, às doenças e à insegurança material que marcaram grande parte da história humana.

            Nos últimos dois séculos, dois movimentos aconteceram simultaneamente: a humanidade ficou muito mais rica e passou a trabalhar, em média, menos horas. No Brasil, os dados confiáveis disponíveis mostram que o trabalhador médio passou de 2.483 horas anuais em 1970 para cerca de 1.994 horas atualmente. São quase 490 horas a menos por ano, uma redução equivalente a aproximadamente dez horas de trabalho por semana. A mudança é importante porque mostra que a redução da jornada não surgiu simplesmente de uma decisão política isolada. Ela está relacionada a uma transformação muito mais profunda na capacidade de produzir bens e serviços.

            Dinheiro pode ser uma régua enganosa para medir riqueza, porque seu valor varia ao longo do tempo e entre diferentes países. O tempo, nesse sentido, oferece uma medida mais concreta. Há duzentos anos, um trabalhador inglês precisava de mais de seis horas de trabalho para pagar uma hora de iluminação destinada à leitura durante a noite. Hoje, essa mesma hora de iluminação pode custar menos de um segundo de trabalho. O mesmo fenômeno aparece quando se observa uma cesta de matérias-primas básicas, como petróleo, trigo, café e cobre. Entre 1980 e 2018, o chamado “preço em tempo” dessa cesta caiu 72%. Quando o custo de alguma coisa diminui em relação ao tempo necessário para obtê-la, uma parcela da vida humana deixa de ser consumida para produzir aquilo.

            O debate sobre produtividade é, no fundo, uma discussão sobre o uso do tempo, mas a história do trabalho sofreu uma transformação decisiva com a Revolução Industrial. Antes da máquina a vapor, trabalhar menos frequentemente significava produzir menos e, consequentemente, correr o risco de passar fome. Depois da máquina a vapor, durante muito tempo, trabalhar menos continuou sendo difícil, mas por uma razão diferente: a lógica da própria máquina. Uma máquina a vapor era cara, e mantê-la parada representava prejuízo. Pela primeira vez, o tempo do trabalhador precisou se submeter de maneira sistemática ao tempo da máquina. Se a fábrica funcionava durante doze horas, o trabalhador deveria permanecer disponível durante as mesmas doze horas.

            As fábricas passaram a criar mecanismos rigorosos de controle do tempo. Atrasos de poucos minutos podiam resultar em descontos salariais, comportamentos como cantar ou assobiar eram punidos e existem registros históricos de patrões que chegaram a adulterar os relógios das fábricas para controlar ainda mais rigorosamente o tempo dos empregados. Foi nesse período que as jornadas atingiram níveis extremos. Em Londres, chegaram a aproximadamente 70 horas semanais. Parte dessa jornada era imposta pelos empregadores, mas havia também uma dimensão relacionada às próprias transformações sociais da época. As famílias passaram a ter acesso a bens de consumo que antes eram raros, como açúcar, chá e tecidos, e isso contribuiu para aquilo que o historiador Jan de Vries chamou de “revolução do esforço”. Por volta de 1800, o mundo alcançou seu recorde histórico de horas trabalhadas. A partir daí, entretanto, as jornadas começaram a cair e permaneceram em queda durante aproximadamente 150 anos.

            A palavra fundamental para compreender essa mudança é produtividade. O conceito costuma ser associado a discursos sobre desempenho e eficiência, mas seu significado econômico é bastante diferente de simplesmente “trabalhar mais”. Produtividade significa produzir mais valor por hora trabalhada. Quando a produtividade aumenta, torna-se possível produzir a mesma quantidade em menos tempo ou produzir uma quantidade muito maior utilizando a mesma quantidade de tempo.

            Um pedreiro brasileiro de hoje não trabalha necessariamente mais do que um pedreiro de 1926. Em muitos casos, trabalha menos e ainda assim consegue construir muito mais em muito menos tempo. Isso acontece porque dispõe de betoneira em vez de depender apenas da pá, utiliza furadeira elétrica, caminhões para transportar materiais, cimento padronizado, ferramentas mais eficientes e energia elétrica disponível. O resultado não depende simplesmente do esforço físico do trabalhador. Depende do conjunto de recursos que está ao redor dele.

            Economistas costumam apontar três grandes motores da produtividade. O primeiro é o capital físico, representado por máquinas, estradas, energia e ferramentas que multiplicam o rendimento de cada hora de trabalho. O segundo é o capital humano, formado por educação, saúde, conhecimento e experiência acumulada. O terceiro é a chamada produtividade total dos fatores, uma dimensão mais difícil de enxergar porque envolve organização, tecnologia, instituições, regras e confiança. É a diferença entre uma cidade na qual semáforos são sincronizados, ruas são bem cuidadas e as regras funcionam e outra na qual os mesmos carros e os mesmos motoristas enfrentam congestionamentos, buracos e regras inconsistentes. Os recursos humanos podem ser semelhantes, mas o resultado produzido por eles será completamente diferente.

            Quando esses três fatores avançam simultaneamente, cada hora de trabalho passa a valer mais. Surge então uma possibilidade que seria praticamente inimaginável em sociedades de baixa produtividade: trabalhar menos sem necessariamente empobrecer. O excedente produzido pelo aumento da produtividade pode assumir diferentes destinos. Pode transformar-se em salários maiores, jornadas menores, preços mais baixos ou lucros maiores. O destino desse excedente depende da negociação entre trabalhadores e empresas, das leis, da força sindical e da cultura de cada sociedade.

            Existe uma tentação recorrente de explicar diferenças de produtividade por características individuais, como se determinadas populações fossem naturalmente mais trabalhadoras e outras mais preguiçosas. Um estudo realizado em 2008 pelos economistas Michael Clemens, Cláudio Montenegro e Lant Pritchett ajuda a desmontar essa interpretação. Os pesquisadores compararam trabalhadores estatisticamente semelhantes em idade, escolaridade, experiência e sexo que migraram de seus países de origem para os Estados Unidos. Um trabalhador boliviano passava a ganhar quase três vezes mais simplesmente por mudar de país. Um trabalhador nigeriano passava a ganhar mais de oito vezes. A pessoa continuava essencialmente a mesma. Todavia, o ambiente produtivo havia mudado.

            Esse fenômeno foi chamado de “Prêmio do Lugar”. A conclusão é particularmente importante para o debate brasileiro: se uma mesma pessoa, com capacidade e esforço semelhantes, consegue produzir muito mais em determinado lugar do que em outro, a produtividade não pode ser entendida apenas como uma característica individual. Ela é também uma propriedade do sistema ao redor do trabalhador. Máquinas, estradas, energia, educação, instituições, organização, crédito e regras econômicas influenciam diretamente o valor que cada hora de trabalho consegue produzir.

            É nesse ponto que o Brasil entra no debate. O trabalhador brasileiro não pode ser simplesmente classificado como pouco produtivo ou preguiçoso. Pelo contrário, trabalha bastante. São aproximadamente 1.708 horas por ano, contra 1.386 horas de um trabalhador alemão, uma diferença superior a 300 horas anuais. O problema central não está, portanto, apenas na quantidade de horas trabalhadas, mas no valor gerado por cada uma delas.

            Segundo as estimativas apresentadas no material, cada hora trabalhada no Brasil gera aproximadamente US$ 21 de valor, contra mais de US$ 80 nos Estados Unidos e cerca de US$ 70 na média dos países ricos. O Brasil aparece, nesse indicador, na 94ª posição entre 184 países. A comparação histórica com a Coreia do Sul é ainda mais reveladora. Em 1970, o Brasil produzia aproximadamente o dobro do que a Coreia do Sul. Atualmente, um trabalhador brasileiro produz menos da metade do que produz um trabalhador coreano. A diferença não pode ser explicada por uma súbita mudança na capacidade individual dos brasileiros ou dos coreanos. Ela resulta, sobretudo, das condições produtivas construídas ao longo de décadas.

            Diversos fatores estruturais ajudam a explicar essa distância. Um dos principais é a educação. O Brasil praticamente universalizou o acesso à escola, mas ainda apresenta dificuldades importantes no aprendizado. Menos da metade das crianças que concluem o ensino primário consegue interpretar adequadamente um texto curto. Os quase 13 anos de escolaridade média equivalem, quando se considera o aprendizado efetivamente adquirido, a apenas 7,9 anos de escolaridade efetiva, segundo o Banco Mundial. No último grande exame internacional, o estudante brasileiro de 15 anos ficou na 64ª posição entre 81 países em matemática. A educação, portanto, não é apenas uma questão social: é também um dos fundamentos da produtividade econômica.

            Outro problema é a infraestrutura. Transportar produtos dentro do Brasil custa entre 12% e 15% de tudo aquilo que o país produz, enquanto nos países ricos esse custo fica entre 8% e 10%. De mais de 1,7 milhão de quilômetros de estradas, apenas cerca de 12% são pavimentados. A malha ferroviária ativa possui aproximadamente 10 mil quilômetros, cerca de um terço do que já existiu no país. Cada estrada inadequada, cada transporte demorado e cada deficiência logística representa tempo e recursos que deixam de ser utilizados na atividade produtiva.

            Também existe o problema de um Estado que frequentemente protege setores econômicos em vez de estimular a concorrência. Uma empresa pode prosperar porque inova, aumenta sua eficiência e conquista consumidores ou pode obter vantagens por meio de regimes fiscais especiais, crédito favorecido e proteção contra concorrentes estrangeiros. A primeira alternativa tende a estimular a produtividade geral. A segunda pode preservar empresas pouco eficientes e reduzir a pressão para inovar. O Brasil também apresenta baixa abertura ao comércio internacional: importações e exportações somam aproximadamente um terço do PIB, abaixo da média mundial, que supera 50%.

            O crédito constitui outro gargalo. Mais de 40% do crédito do sistema financeiro brasileiro é direcionado, mas os estudos citados no material do Banco Mundial não encontraram evidências de que o crédito subsidiado tenha melhorado de maneira significativa a alocação dos recursos. A tendência apontada é a de beneficiar empresas grandes e já estabelecidas, em vez de necessariamente favorecer aquelas com maior capacidade de inovação.

            A burocracia completa esse quadro. Uma empresa brasileira gasta, em média, mais de 1.500 horas por ano apenas para calcular, declarar e pagar tributos. Nos países ricos, esse tempo gira em torno de 150 horas. São centenas de horas que poderiam estar sendo utilizadas para produzir, investir, inovar ou ampliar negócios. O resultado é um ambiente em que empresas pouco produtivas conseguem sobreviver protegidas da concorrência, enquanto empresas mais eficientes encontram dificuldades para crescer.

            Países ricos costumam ser justamente aqueles nos quais as pessoas trabalham menos horas. Isso não significa que jornadas menores tenham sido a causa original da riqueza. Em grande medida, são consequência dela. Uma economia altamente produtiva consegue produzir muito valor em poucas horas e, por isso, pode distribuir parte dos ganhos em forma de descanso. A Europa discute novas reduções da jornada depois de acumular níveis muito elevados de produtividade. O Brasil discute sair de uma organização de seis dias de trabalho partindo de uma produtividade consideravelmente menor. As discussões podem parecer semelhantes na forma, mas acontecem em pontos diferentes da mesma trajetória histórica.

            Existe, entretanto, um grupo ainda maior e mais vulnerável que nenhuma reforma da CLT atualmente em discussão alcança diretamente: os trabalhadores informais. Segundo os dados apresentados, existem aproximadamente 38 milhões de trabalhadores sem carteira assinada e sem CNPJ, cerca de quatro em cada dez trabalhadores brasileiros. Em estados como o Maranhão, essa proporção ultrapassa a metade da força de trabalho. São pessoas que trabalham por conta própria, vendem produtos nas ruas, dirigem veículos de aplicativo, realizam serviços domésticos ou sobrevivem de atividades sem a proteção oferecida pelo emprego formal.

            O problema torna-se ainda mais evidente quando se observa a jornada. Quem trabalha por conta própria chega a uma média de 45,3 horas semanais, superior à de empregados e empregadores. Ao mesmo tempo, um trabalhador informal produz, em média, aproximadamente um quarto do que produz um trabalhador formal. São essas pessoas que muitas vezes aparecem apenas como números nas estatísticas, embora estejam presentes diariamente nas cidades. É o entregador que sobe uma rua às dez da noite, a diarista que enfrenta várias conduções para chegar ao trabalho, o motorista de aplicativo que permanece mais de 45 horas por semana trabalhando e o autônomo que precisa dedicar uma parcela enorme do próprio tempo para obter uma renda muito inferior àquela gerada por um trabalhador formal. A discussão sobre produtividade é legítima e envolve milhões de brasileiros, mas não pode fazer desaparecer esse outro universo de trabalhadores que permanece fora das proteções da legislação trabalhista.

            Nos últimos dois séculos, a humanidade conseguiu realizar algo extraordinário: aprender a trabalhar menos e, simultaneamente, viver melhor. A história do trabalho mostra que essa transformação não ocorreu simplesmente porque as pessoas passaram a desejar mais tempo livre. Ela foi possível porque máquinas, conhecimento, educação, energia, infraestrutura, organização e instituições aumentaram enormemente a produtividade de cada hora trabalhada. A riqueza produzida pela sociedade tornou possível devolver ao ser humano uma parcela do tempo que antes precisava ser consumida pela luta cotidiana pela sobrevivência.

            O Brasil percorreu parte desse caminho, mas ainda está distante de concluí-lo. Uma jornada mais curta, inclusive modelos como o 4x3, por exemplo, não precisa ser encarada como uma fantasia. Ela pode representar uma etapa natural do desenvolvimento de uma sociedade que consiga produzir valor suficiente para financiar maior quantidade de tempo livre. O ponto decisivo, entretanto, está na forma como essa transição será construída. Reduzir jornadas por determinação legal pode ser uma parte da solução, mas não elimina os problemas de produtividade que permanecem por trás da questão.

            O verdadeiro desafio brasileiro é aumentar o valor produzido por cada hora de trabalho. Isso exige educação de qualidade, infraestrutura eficiente, maior abertura econômica, crédito direcionado de maneira mais produtiva, instituições capazes de estimular a concorrência, inovação e uma redução significativa da burocracia. Sem esse avanço, a discussão sobre a produtividade corre o risco de permanecer concentrada na superfície. Com produtividade maior, a redução do tempo de trabalho deixa de ser apenas uma reivindicação social e passa a ser também uma consequência econômica possível.

            No fim das contas, a questão central da produtividade não é simplesmente decidir se o trabalhador deve trabalhar cinco ou seis dias por semana (ou sete). A questão mais profunda é saber o que uma sociedade faz com o tempo que consegue economizar por meio do progresso. Durante séculos, o aumento da produtividade serviu para produzir mais. Em sociedades mais ricas, uma parte crescente desse ganho passou a ser convertida em salários, consumo e, principalmente, tempo. O grande desafio brasileiro é conseguir fazer essa mesma transformação sem ignorar as condições concretas da economia. Trabalhar menos e viver melhor é uma conquista possível, mas ela depende de uma sociedade capaz de produzir mais valor com cada hora de trabalho.

 

 

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