quarta-feira, 30 de julho de 2025

MENTES HUMANAS LÍQUIDAS - UM RETRATO DA HUMANIDADE ATUAL

 

A FLUIDEZ DA GERAÇÃO

uma crítica social à luz dos "Nascidos em Tempos Líquidos"

by Heitor Jorge Lau

            A obra "Nascidos em Tempos Líquidos", escrita por Zygmunt Bauman em colaboração com Thomas Leoncini, oferece uma lente perspicaz para analisar o comportamento da sociedade contemporânea, especialmente as gerações que emergiram e foram moldadas pela Modernidade Líquida. É uma crítica incisiva sobre como a fluidez e a constante mudança não são mais exceções, mas a própria essência de suas vidas, moldando suas percepções, relacionamentos e aspirações de maneiras profundas e, por vezes, inquietantes. A principal analogia que se pode traçar entre o livro e o comportamento social é a ausência de raízes profundas. Assim como a água que escorre e se adapta a qualquer recipiente, as identidades se tornam maleáveis, transitórias. Jovens, e em grande parte, a sociedade como um todo, são incentivados a serem multifacetados, a não se prenderem a uma única carreira, um único lugar, ou até mesmo a uma única ideia. Essa versatilidade, embora celebrada como uma virtude na era da inovação, muitas vezes mascara uma dificuldade em construir um senso de pertencimento duradouro. As carreiras são vistas como projetos temporários, os lares como pontos de parada, e as relações como conexões que podem ser desfeitas com um clique. Outra analogia gritante é a busca incessante por validação e a efemeridade das gratificações. Em um mundo superconectado, a vida se desenrola em uma vitrine digital. Curtidas, compartilhamentos e comentários tornam-se métricas de valor pessoal. Essa busca por aprovação instantânea, tal qual a experiência de consumo rápida e descartável, reflete a lógica da Modernidade Líquida onde o valor de algo (ou de alguém) é frequentemente medido pela sua popularidade momentânea. A atenção se tornou a nova moeda, mas sua natureza é intrinsecamente volátil. Isso gera um ciclo vicioso de busca por novos estímulos e novas validações, impedindo a contemplação profunda e a construção de um senso de realização intrínseco. A superficialidade das relações, já abordada no "Amor Líquido" de Bauman, ganha novas nuances com os "Nascidos em Tempos Líquidos". A facilidade de conexão digital paradoxalmente pode levar a uma dificuldade de conexão real. Milhares de "amigos" nas redes sociais podem coexistir com um profundo sentimento de solidão. O compromisso, que exige esforço e vulnerabilidade, é frequentemente evitado em favor de interações mais convenientes e menos exigentes. É como se a própria internet, que prometia encurtar distâncias, tivesse se tornado um vasto oceano onde é fácil se encontrar, mas difícil ancorar. Ainda, a crítica de Bauman se estende à dificuldade em lidar com a frustração e a incerteza. Crescidos em um ambiente onde tudo parece estar a um toque de distância, e onde a informação é onipresente, muitos não desenvolveram as ferramentas emocionais para lidar com a lentidão dos processos, as falhas e as desilusões inerentes à vida. A instabilidade da Modernidade Líquida gera um Medo Líquido generalizado, não de ameaças concretas, mas da própria falta de solidez. Essa ansiedade latente se manifesta na busca por garantias e na aversão ao risco, paradoxalmente, em uma era que exige adaptabilidade constante. Em síntese, "Nascidos em Tempos Líquidos" não é apenas um retrato geracional, mas um espelho que reflete as consequências da fluidez para toda a sociedade. A obra nos convida a questionar se a busca incessante por velocidade, novidade e flexibilidade não estaria nos privando de algo fundamental: a capacidade de construir e sustentar estruturas sólidas – sejam elas identitárias, relacionais ou sociais – que são essenciais para uma existência plena e com propósito. Estamos, de fato, "nascidos" para essa fluidez, ou apenas fomos compelidos a nos adaptar a ela?

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