quinta-feira, 24 de setembro de 2020

MISTICISMO

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Por: Ms. Heitor Jorge Lau
Psicanalista
Mestre em Educação
Pós-graduado em Gestão de Pessoas
Bacharel em Comunicação Social

     O misticismo pode ser reconhecido como uma prática de cunho religioso - como a meditação, a contemplação e até mesmo a prece-, visando sempre uma comunhão do espírito com o princípio fundamental de todo ser. Mas é importante não confundir misticismo com religião. A saber, a religião evoca algum conjunto de crenças, dogmas, costumes e ritos característicos de alguma comunidade que reverencia um mesmo deus. As religiões, na maioria das vezes, comportam um fundador, escrituras sagradas e edificações para o culto coletivo. Elas são organizadas e hierarquizadas de forma a difundir a fé e arregimentar simpatizantes. Muitos místicos são oriundos da religião, todavia, isto é não é uma regra invariável. Afinal, existem místicos que não são religiosos, e religiosos que não são místicos.


   Na prática, qualquer experiência mística jamais dependerá de algum tipo de organização, hierarquia, templo ou escrito sagrado porque se trata de um “posicionamento interior”, com o intuito da percepção imediata do divino. Por isso, ser um místico significa vivenciar, acima de tudo, a realidade divina dentro de si. Essa experimentação é reconhecida como algo transformador, uma vez que a união com o divino transforma o homem material em homem espiritual. Esta “transformação” não requer, em momento algum, a abdicação do mundo, pelo contrário, elucida ao místico, a possibilidade de libertação do apego ao material, dispensando assim, o regozijo pelas tentações do prazer ilusório e momentâneo.


    O estado de bem-aventurança que o misticismo propicia pode ser reconhecido como as virtudes da compaixão e generosidade, típicos de todo ser humano altruísta. Este estado de perfeita e completa felicidade aproximam o místico dos seus semelhantes ao invés de isolá-lo. Mas, a aproximação ou não repúdio pelo diferente, por assim dizer, é uma escolha particular porque muitos optam pelo isolamento a fim de buscar um estado de consciência superior.

     Gurdjieff - filósofo e mestre espiritual-, denominou o misticismo de o “4º caminho”. Ele dizia que era o caminho daqueles que queriam permanecer neste mundo, mas não desejavam pertencer ao mundo. Nesta escolha o místico buscará encontrar a auto-realização e a compreensão do universo e da natureza, contudo, sem renunciar aos seus afazeres do dia-a-dia

     A opção pelo misticismo não requer, necessariamente, a união com um Deus pessoal conforme a concepção judaico-cristã, ao contrário das tradições orientais, onde se fala da união com o divino através da união com o todo ou o absoluto. Daí provém a preferência de inúmeras escolas místicas em substituir o termo Deus por Cósmico, que significa uma ordem universal viva, regente de tudo que existe.

      Trata-se de uma questão, essencialmente de preferência, que não interfere no culto da espiritualidade. Resumidamente, um místico será sempre um ser que se harmoniza com uma ordem superior (com o Uno, Absoluto, Tao...) sem qualquer necessidade, para tal, da intermediação de um sacerdote ou uma instituição religiosa. O conhecimento que todo místico procura está longe de ser intelectual ou doutrinário, mas sim, intuitivo e experimental. Trata-se da busca por sua essência (divina) interior com a qual extinguirá toda e qualquer impureza do seu “eu inferior”.


 

CIÊNCIA e RELIGIÃO

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Por: Ms. Heitor Jorge Lau

Psicanalista
Mestre em Educação
Pós-graduado em Gestão de Pessoas
Bacharel em Comunicação Social

 

     Não é porque Immanuel Kant redigiu a “Crítica da Razão Pura” que a existência de Deus ou da religião deve ser riscada do rol de possibilidades reais - ou pode?


    É interessante como estas questões permanecem em pauta há tanto tempo e por sinal continuarão nos anais da história da humanidade. A ciência que trata do assunto sob um olhar objetivo e singularmente racional, “defronta-se” praticamente com todas as religiões existentes no planeta porque estas tratam o mesmo assunto e a busca por repostas sob a ótica da subjetividade pura.

    A “peleja” entre pontos de vista divergentes acontece há séculos e no final das contas, tudo que se argumenta, culmina muito mais na natureza das provas existentes do que sobre a existência de Deus e a importância das religiões para as sociedades. Esta dúvida inquietante, porém instigante, provoca uma curiosidade latente por respostas.

    1º O que é religião? Religião, termo oriundo do latim religare, significa religação com o divino. Mas afinal, qual o significado da palavra divino? Divino significa excelente, maravilhoso, divinal... Então, religar ou tornar a manter contato com o maravilhoso é transcender a visão de mundo sob um prisma extremamente particular e único. Seria pertinente considerar esta conexão, de caráter estritamente pessoal, como o reencontro com a espiritualidade, ao contrário da compreensão habitual sobre a religião como puramente sinônimo de fé. Seria razoável, portanto, ao invés do questionamento sobre o que vem a ser religião, indagar o que caracteriza as aspirações de um ser humano que dá a impressão de ser religiosa.

    2º O que é ciência? Não é preciso empreender muito esforço intelectual para concluir sobre o que vem a ser ciência. Ciência é o esforço secular de reunir por intermédio do pensar sistêmico, fenômenos perceptíveis “deste mundo”, formando uma concepção mais completa quanto possível. Em outras palavras, é a tentativa de reconstrução posterior da existência, através do processo da conceituação.

    Bem, ao conceber a religião e a ciência conforme estas colocações, um conflito iminente entre elas pareceria praticamente impossível, pois a ciência pode apenas determinar o que é, e não o que deve ser. Por conseguinte, a ciência sem a religião é aleijada, e por outro lado, a religião sem a ciência é cega.

    Desta forma, adentramos superficialmente nas regularidades que prevalecem no âmbito das coisas vivas, porém, o suficiente para perceber a existência de uma regra necessária. Por esta razão o diálogo entre ciência e religião só poderá acontecer no contexto do entendimento, mas jamais no cenário dos fundamentos. Portanto, “nem tão terra”, “nem tão céu”, porque o certo mesmo, é que o diálogo entre a ciência e religião serve para que surja uma "fé racional", deixando radicalmente de lado o literalismo bíblico e a “Crítica da Razão Pura”.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

ÉTICA NA PSICANÁLISE

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Por: Ms. Heitor Jorge Lau
Formando em Psicanálise
Mestre em Educação
Pós-graduado em Gestão de Pessoas
Bacharel em Comunicação Social

             Escrever sobre Ética na Psicanálise exige, antes de qualquer coisa, uma transitada pelos significados dos termos ‘ética’ e ‘moral’. Este texto não irá analisar e “pôr em xeque” o Código de Ética Profissional do Psicanalista ou redizer o dito em outras palavras. O termo ‘ética’, tão ouvido e pronunciado dentre diversos grupos sociais, na maioria das vezes é percebido de maneira errônea, talvez por ser difícil de explicar, talvez por ser difícil de compreender. Na tradução essencialmente literal (sem considerar qualquer vertente de estudo) a ética alberga em si o constante estudo e a consequente ruminação dos costumes e comportamentos do ser humano em sociedade. Todavia, a saber, o olhar sobre a ética pode ser concebido por intermédio de um prisma estritamente científico, ou seja, percebido como ciência normativa ou ciência descritiva. Enfim, difícil de explicar, difícil de compreender.

            Moral: comportamentos em ação

            Qual o significado do termo moral? Conceitualmente, moral é a conjunção de normas, princípios e valores que regulam o comportamento dos indivíduos no convívio social. A moral é percebida em dois planos: o normativo sugere o comportamento ideal; o fatual refere-se à ação propriamente dita. Isto não significa que tudo que for moralmente apontado será efetivamente praticado ou realizado da forma proposta. Apesar dos planos poderem ser distintamente percebidos, não podem ser desassociados. Enquanto o plano normativo aponta para o ideal (moral), o fatual revela as relações humanas concretas. A partir delas surge o termo moralidade que é a moral em ação, a moral prática e praticada. Somente atos individuais com consequências sociais (para outros sujeitos) podem ser qualificados moralmente – aqui entra a questão da relação paciente x Analista.

            A moral se manifesta sempre em sociedade, nunca isoladamente. É por isso que a moral possui função social, ou seja, sustenta e assegura a ordem na sociedade. A moral não deve ser confundida com as leis instituídas pelas vias do direito. O direito possui o caráter coercitivo cujo cumprimento das regras independe da aceitação voluntária ou não do indivíduo. Ao contrário do cunho impositivo do direito, a moral sugere uma relação consciente entre indivíduos através da adoção de práticas por livre e espontânea vontade. Isto ocorre primordialmente através da ampliação da consciência particular de cada sujeito. Paralelamente a este fenômeno, a moral alcança avanços proporcionais.

            É justamente na consciência individual que as decisões de caráter moral são assimiladas, ponderadas e então, praticadas. As atitudes ou atos morais estão sempre sujeitos a julgamentos. Portanto, poderão ou não ser aprovadas. Por sua vez, o ato moral é basicamente sustentado pelo motivo que o estimula. O motivo precisa ser consciente caso contrário não é parte integrante do ato moral. O motivo caracteriza-se pela reação não instintiva. Por isso todo ato moral demanda motivo, propósito, meios de alcançá-lo, resultados e consequências. Consequências sociais traduzidas em mudanças que consequentemente provocam mudanças de conduta moral.

            Ética: a interminável disputa entre o bem e o mal

            Concomitantemente ao estudo dos costumes e comportamentos do homem na sociedade, surgirão, invariavelmente e certamente, questões relacionadas a liberdade e ao tolhimento de expressão. Todo cidadão sonha e busca (ou é incentivado a buscar) a liberdade de expressão verbal e não-verbal no microcosmo que considera o seu habitat. Porém, em contrapartida ele é tolhido de tal liberdade, coagido a observar e seguir normas impingidas e aceitas pela maioria das pessoas. Surge então, a moral, a permissividade social de assuntos pertinentes aos bons costumes e subsequentes comportamentos, elasticamente estudados pela Ética. Em síntese, aquilo que for reconhecido como moralmente aceito pertence ao grupo de ações do bem - proporcionam benefícios ao convívio social; moralmente rejeitado, do mal - provocam malefícios, danos morais. Os estudos da Ética abarcarão, indubitavelmente, eventos vinculados a liberdade de expressão, consciência coletiva, juízos de valor coletivo, Leis, ..., transformando a conceituação em aplicação efetiva.

            A Ética no ramo da Psicanálise

            Afinal, qual o significado do termo Ética? O que fundamenta e possibilita a existência da Ética é a moral. Enquanto a moral é constituída pela prática dos costumes do homem, a Ética tem a finalidade de investigar, esclarecer e elaborar conceitos correlatos. Desta forma, ela tenta encontrar um denominador comum sobre as inúmeras práticas morais e formalizar uma característica genérica, uma vez que é impossível atender a cada situação em particular. A Ética, enquanto teoria, procura abarcar o que existe de melhor ou mais apropriado para o convívio social. A moral possui preceitos variáveis em decorrência de oscilações históricas, ou seja, não é permanente e imutável. A ciência da ética estuda justamente as manifestações efetivadas no passado ou no presente e em nenhum momento ela tenta manifestar qualquer juízo de valor a respeito da prática moral.

            Por isso que a moral não é considerada científica mesmo que possam existir determinadas concepções dela que sejam científicas. A fim de explicar determinados comportamentos morais a ética busca relacionar-se com outras ciências como filosofia, psicologia e antropologia. Estas são algumas das ciências que revelam ou justificam algumas atitudes humanas na sociedade e, apesar da Ética ser a teoria do comportamento moral, ela pode influir na prática-moral. A prática-moral está essencialmente correlacionada com a responsabilidade do sujeito da ação. Isto significa que a decisão de efetivar ou não determinada ação é um problema prático-moral, porém o estudo dessa atitude é da competência da Ética. Portanto, o objeto de estudo da Ética é a moral manifesta no comportamento do homem.

            É possível interpretar que a Ética da Profissão deriva da Deontologia[1]. A Deontologia possui a sua etimologia na Grécia – deon ou deontos/logos -, cujo significado seria “o estudo dos deveres”. Ela detém duas perspectivas: a perspectiva teórica; e, perspectiva prática. A comunhão destas dimensões tem por objetivo regulamentar a conduta do ser humano na sociedade. No caso do Psicanalista, o intuito é específico, bem objetivo e muito claro: considerar todos aspectos axiológicos da sociedade para assegurar e preservar o paciente de qualquer forma de exposição. É relevante lembrar que descumprir parte ou todo o regramento instituído resulta em sanções para o transgressor. A Ética Profissional é regida pela razão, ou seja, é uma racionalização que conduz para uma conduta saudável e sustentável, tanto para o paciente quanto para o Analista – ambos evitam a exposição e o desgaste. O Código de Conduta Ética do Psicanalista nada mais é do que um conjunto de regras a serem observadas e que jamais, em hipótese e justificativa alguma, podem ser descumpridas. 

            Considerações finais 

            Qualquer grupo profissional, necessariamente, se autorregula. Logo, são desenvolvidos conjuntos de regras a partir de estudos éticos e consequentes atos morais instituídos, levando-se sempre em conta os costumes da sociedade. Este regramento garante a plena confiança por parte das pessoas e salvaguarda a reputação da atividade psicanalítica. A conduta ética não preconiza tudo o que o Psicanalista pode fazer, mas sim, aquilo que ele deve fazer, obrigatoriamente fazer. Todavia, este “dever fazer” não pode ser uma obrigação profissional. Este sentimento precisa ser espontâneo, sincero, consciente e verdadeiro. Afinal, como afirmava Kant, os princípios da Ética são Imperativos Categóricos, ou seja, eles mandam, não aconselham. Portanto, o dever está acima do desejo.


[1] CARAPETO, C; FONSECA, F. Ética e Deontologia: manual de formação. Lisboa: Dossier, Comunicação e Imagem, 2012.